domingo, 28 de novembro de 2010

Fobias e Pedofilia

por Pe. Luís Corrêa Lima, SJ

Em recente declaração, uma autoridade eclesiástica negou qualquer relação entre celibato sacerdotal e pedofilia. Mas afirmou que, segundo psicólogos e psiquiatras, existe uma relação entre homossexualidade e pedofilia. Isto causou indignação e protestos.

O grave problema do abuso sexual de menores pelo clero exige uma resposta lúcida e enérgica. Quando o papa Bento XVI foi aos Estados Unidos, ele disse: não se trata de homossexualidade, é outra coisa. De fato, a pedofilia é causada por uma fantasia perversa de se aproveitar da inocência da criança. A maioria dos casos ocorre dentro de casa, e o responsável é o pai ou padrasto dela. Este abuso pode ser cometido por adultos héteros ou homossexuais, ativos sexualmente ou celibatários. Não é questão de orientação sexual, nem de prática ou abstinência sexual. Distinguir as coisas, como fez o papa, afasta uma injusta suspeita de perversidade que às vezes paira sobre os gays.

E agora, o diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, Frederico Lombardi, emitiu uma nota de esclarecimento: as autoridades da Igreja não consideram de sua competência fazer afirmações gerais de caráter especificamente psicológico ou médico, para os quais se deve remeter aos estudos dos especialistas. O que é de competência da autoridade eclesiástica são os dados estatísticos dos casos de abuso sexual tratados pela Congregação para a Doutrina da Fé, onde as vítimas são meninos e meninas em diferentes proporções. As estatísticas se referem ao conjunto destes casos, e não à população em geral.

Não se deve tomar a entrevista de uma autoridade eclesiástica como se fosse a posição oficial da Igreja. Isto é colocar indevidamente a Igreja contra os gays, e vice-versa. E nem se deve defender os gays apedrejando o celibato sacerdotal. Ordenar pessoas casadas é prática da Igreja Católica nos ritos orientais, bem como dos cristãos ortodoxos. Há quem defenda esta prática também no Ocidente, para se ampliar o acesso ao sacerdócio e aumentar o número de candidatos. Mas não se deve de modo algum acabar com o celibato por causa dos escândalos de pedofilia, nem repudiar suas motivações espirituais autênticas e legítimas, como se se tratasse de uma negação alucinada da sexualidade.

Inegavelmente há homofobia na sociedade, com conseqüências nefastas. Mas há também "celibatofobia": uma espécie de tabu da virgindade, produzido por uma sociedade hipersexualizada. Ambas as fobias são preconceitos, ambas são injustas e intolerantes. A sã cidadania deve reconhecer e estimar os diferentes âmbitos da diversidade humana, e não transformar-se em um preconceito com sinais trocados. Movidos pela fé e pela razão, podemos desejar um mundo sem fobias e pedofilia, onde haja menos muros e mais pontes.

Fonte: Revista Vida Pastoral - Setembro-Outubro de 2010 - n.274 - P. 05

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