sexta-feira, 5 de junho de 2009

LUTERO, O PRIMEIRO TRADUTOR ALEMÃO

A MENTIRA:
"A Igreja era considerada incompetente para salvar o homem; por isso sua interpretação das Sagradas Escrituras não era válida: Lutero queria que todos os homens tivessem acesso à Bíblia (por isso a traduziu do latim para o alemão, uma coisa tão revolucionária e pioneira que a bíblia se tornou um padrão para a língua alemã)."
A VERDADE DOCUMENTAL:
Antes que Lutero fizesse sua tradução alemã, já haviam dezessete traduções alemãs já impressas, doze destas no dialeto do baixo-alemão, para o povo (todas antes de 1518).
O próprio Lutero disse: “foi um efeito do poder de Deus que o papado preservou, em primeiro lugar, o santo batismo; em segundo, o texto dos Santos Evangelhos, que era costume ler no púlpito na língua vernácula de cada nação…” (De Missa privata, ed by Jensen, VI, Pg 92).
Só no ano de 1524, apareceu a bíblia protestante, vertida por Lutero, quando já eram 30 as traduções católicas na Alemanha. Isso acaba com a calúnia protestante, de que Lutero foi quem primeiro traduziu a bíblia do latim para o alemão. Fontes:(Imperial Encyclopedia and Dictionary © 1904 Vol. 4, Hanry G. Allen & Company), ( Holman Bible Dictionary © 1991).
A PRIMEIRA VERSÃO ALEMÃ: A história da pesquisa Bíblica mostra, que as numerosas versões parciais no vernáculo na Alemanha já aparecem nos séc. VII e VIII. Também há abundância dessas versões nos séc. XIII e XIV, e uma Bíblia completa no séc. XV, antes da invenção da imprensa. (The Catholic Encyclopedia, Volume XV Copyright © 1912).
1466 D.C. A PRIMEIRA BÍBLIA IMPRESSA EM ALEMÃ: Isto foi cinqüenta oito anos antes de Lutero fazer sua Bíblia alemã em 1524. Nestes cinqüenta e oito anos os católicos imprimiram 30 diferentes edições alemãs da Bíblia. (Holman Bible Dictionary © 1991)
QUE ESTÓRIA É ESSA QUE PARA A IGREJA AS ESCRITURAS “NÃO ERAM VÁLIDAS”???A Igreja sempre teve grande respeito pela Bíblia. Não sou eu apenas que o digo, MAS DIVERSOS AUTORES PROTESTANTES de língua inglesa, que eu citarei devidamente traduzido:
“O Catolicismo Romano tem um alto respeito pelas Escrituras vendo nelas uma fonte de conhecimento… De fato, o ensinamento oficial da Igreja Católica acerca da inerrância e inspiração das Escrituras satisfariam o mais rigoroso dos fundamentalistas protestantes.” { Robert McAfee Brown, The Spirit of Protestantism, Oxford: Oxford Univ. Press, 1961, pp. 172-173}.
“Nunca houve um tempo na História da Igreja ocidental durante a Idade “Média”, ou das “Trevas”, em que as Escrituras foram oficialmente degradadas. Ao contrário, elas eram consideradas infalíveis e inerrantes, e mantidas na mais alta honra.” {Peter Toon, Protestants and Catholics, Ann Arbor, MI: Servant Books, 1983, p. 39}.
“A visão expressa por Agostinho foi a visão crida e propagada pela Igreja Católica no decorrer dos séculos… Pode-se dizer que a Igreja Romana, por mais de mil anos, aceitou a doutrina da infalibilidade de toda a Escritura… A Igreja (através dos Padres, teólogos e papas) ensinou a inerrância bíblica… A Igreja Romana manteve uma visão das Escrituras que em nada difere daquela tida pelos Reformadores”. {Harold Lindsell},
Os protestantes precisam combinar melhor as mentiras que andam espalhando, pois os próprios protestantes mais sérios as desmascaram facilmente.
Veja, agora, um trecho católico anterior à Revolta protestante, que, no meu entender, seria suficiente para encerrar a questão:
“Todos os cristãos devem ler a Bíblia com piedade e reverência, rezando para que o Espírito Santo, que inspirou as Escrituras, capacite-os a entendê-las… Os que puderem devem fazer uso da versão latina de São Jerônimo; mas os que não puderem e as pessoas simples, leigos ou do clero…devem ler a versão alemã de que agora se dispõe, e, assim, armarem-se contra o inimigo de nossa salvação” (The publisher of the Cologne Bible [1480] ).
Veja no texto histórico acima, datado de 1480, mais uma prova de que já havia para o povo, as traduções católicas alemãs. Pois bem, faltavam 03 anos para Lutero nascer. Nasceria em 1483.
Como você vê, o argumento protestante, é não somente falso, mas não possui nenhum embasamento histórico.
E além do mais, a aparição de Hans Luther, pai de Lutero em Erfurt na ordenação do filho revela uma informação preciosa: a de que o povo conhecia a Bíblia!
Pois Hans (pai de Lutero) diz ao filho rebelde: “Por acaso não leste na Escritura que o quarto mandamento manda honrar os pais?” . E Köstlin é mais explícito, revelando o que disse o pai de Lutero no almoço que se seguiu à ordenação: "Learned brothers, have you not READ in Holy Writ, that a man must honour father and mother?" . (Köstlin, 54. Köstlin, Julius, Life of Luther, Longmans, Green, and Co, United Kingdom, 1883).
O pai de Lutero era camponês, e conhecia a Escritura! E soube inclusive aplicá-la muito bem!! Portanto, é mentira que a Igreja negava ensinar a doutrina ao povo mais simples. É mentira que a Igreja escondia a Bíblia.

Caia a farsa.
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quinta-feira, 4 de junho de 2009

Novo Superior dos jesuitas do Sul da Ásia que impulsionar novas missões

Artigo original (em ingles): Union of Catholic Asian News

Traduzido por Gabriel Leitão


Nova Delhi (UCAN) -- O novo superior dos jesuítas na Ásia do Sul afirma que incentivará a Companhia de Jesus para encontrar novas áreas de trabalho assim como revigorar os serviços tradicionais.

P. Edward Mudavassery assumiu como Provicial da Ásia do Sul em 31 de maio em uma cerimônia em Nova Delhi assistida por aproximadamente 60 pessoas, incluindo o Arcebispo Vincent Concessao, de Delhi e o Bispo-auxiliar Franco Mulakkal.

O prepósito geral dos jesuítas P. Adolfo Nicolas indicou P. Mudavassery como provicial no dia 20 de Janeiro para suceder P. Hector D'Souza, que ocupou esta função durante os últimos cinco anos. P. Mudavassery era reitor da Faculdade Jesuíta de Teologia em Delhi na época da indicação.

Com mais de 4.000 membros, a Ásia do Sul possui o maior número de jesuítas no mundo. Eles trabalham em 18 províncias e duas regiões que estão agrupadas na Conferência dos Jesuítas da Ásia do Sul. O provincial supervisiona as casas de formação dos Jesuítas e as instituições de serviço social no país.

P. Mudav afirmou que seguiria as recomendações que surgiram na 35ª Congregação Geral dos Jesuítas, encontro que ocorreu em Roma ano passado. Ele exortou os membros a esforçar-se nas novas fronteiras de missão enquanto revisa os serviços tradicionais.

O novo provincial salientou que a Ásia, de modo especial a Ásia do Sul, enfrenta vários tipos de conflitos e os jesuitas tem que procurar novas formas de promover o diálogo e a reconciliação. Ele afirmou ainda que os jesuítas precisam adaptar-se para ajudar as pessoas mais pobres e deu como exemplo as instituições de ensino jesuítas que deveriam fomentar a formação de bons cidadãos visto que são centro de excelência acadêmica.

P. Mudavassery também recordou o discurso do PP. Bento XVI aos delegados da Congregação Geral sobre a necessidade de abordar os problemas morais e éticos face às rápidas mudanças do mundo moderno e encontrar novos caminhos para pregar o Evangelho.

P. D'Souza saudou seu sucessor como um homem de coragem e visão que conduziu anteriormente os Jesuítas da Província de Hazaribag, no estado de Jharkhand (leste da Índia)

Ele recordou como o P. Mudassery inspirou companheiros jesuítas em 1997 depois que o corpo decapitado do padre jesuita A. T. Thomas foi encontrado em uma floresta. O serviço do padre junto aos pobres, dalits desabrigados derrubou alguns proprietários de terra que vinham oprimindo a antiga casta dos "intocáveis" por décadas.

P. D'Souza afirmou que P. Mudavassery tem encorajado a Companhia de Jesus a continuar a luta pelos direitos do pobre, tal como seus companheiros assassinados fizeram. P. D'Souza disse ainda que a experiência de seu sucessor em espiritualidade e aconselhamento o ajudará mapear novos territórios para os jesuítas na Ásia do Sul.
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Cardeal Cipriani: relativismo penetra dentro e fora da Igreja

Entrevista com o arcebispo de Lima

Por Carmen Elena Villa

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 1 de junho de 2009 (ZENIT.org).- Com grande preocupação, o cardeal Juan Luis Cipriani, arcebispo de Lima, expressou suas opiniões sobre o relativismo moral que se vive na América Latina e que atinge a Igreja tanto dentro como fora.

No diálogo com Zenit, ao concluir a visita ad limina apostolorum, que os bispos peruanos realizaram à cidade de Roma, o purpurado se referiu a temas como a verdadeira vocação do sacerdote e a identidade dos institutos católicos.

Também compartilhou como foram estes dez anos de serviço episcopal na arquidiocese de Lima.

– Compartilhe conosco a experiência do encontro que os bispos do Peru tiveram com o Papa Bento XVI no dia 18 de maio.

– Cardeal Juan Cipriani: No Papa encontramos, como sempre, uma grande alegria, uma paz muito grande. Para mim, uma das coisas mais impressionantes é como ele nos confirma na beleza da mensagem de Cristo. Ser claros ao anunciar Cristo tem uma beleza e um entusiasmo que o Papa, nessa juventude de seu espírito, transmitiu-nos. É um pai com um espírito e um entusiasmo muito fresco, apesar de que acabava de voltar da Terra Santa.

– Está por concluir o ano paulino e os bispos do Peru tiveram a oportunidade de celebrar uma Eucaristia na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma. Que ensinamentos o Apóstolo dos Povos pode dar ao mundo de hoje?

– Cardeal Juan Luis Cipriani: São Paulo é um homem cuja credibilidade está em função de seu martírio. Ele cresce entre os gentios e é uma das colunas da Igreja.

Creio que o que hoje está faltando na Igreja é o martírio da fé, esse ter a audácia e a coragem de viver uma fé que nos leva a morrer aos caprichos pessoais, à soberba pessoal, à sensualidade. Deve nos levar a morrer a esse complexo do relativismo que quer que todas as posições sejam iguais e é preciso vencê-lo. Leva-nos a ter a audácia de propor Cristo vivo e, portanto, viver esse respeito e reverência ao Corpo de Cristo na Eucaristia, recebendo-o de maneira respeitosa, e deixar de lado posições um pouco tíbias e temerosas, que estão fazendo em grandes grupos da Igreja um enorme problema de tibieza, ou seja, a religião como um menu segundo o gosto do consumidor ou como uma ONG preocupada de melhorar o ambiente.

Falta-nos o sabor que imprime uma Teresa de Calcutá, um Josemaría Escrivá ou, é claro, um São Paulo. É o caminho do martírio, o caminho da contemplação. Se deixamos de lado a contemplação, essa experiência de encontro com Cristo à qual Bento XVI nos convida em sua primeira encíclica, para realmente ver com os olhos de Cristo, falar com suas palavras, sofrer com seu sofrimento, se deixamos de lado o martírio e a contemplação, ficamos sem ressurreição, então a alegria desta fé passa a ser o peso das contradições, o caminho da negociação. Finalmente, a mensagem cristã se dissolve em um simples convite à boa vontade de alguns.

Creio que o Papa Bento XVI, como João Paulo II, ambos de diferentes modos, estão convidando todos – cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos e, é claro, leigos – a não terem medo a lançar-nos a esse martírio da cruz: a cruz do que não tem medo de afirmar a verdade no trabalho, na política, na economia; o martírio que supõe que o sacerdote celebre a missa respeitando as normas do magistério, que os religiosos, cheios de entusiasmo, leiam uma e mil vezes a vida de seus santos fundadores e não tenham temor dessa entrega sem limites: "Não sou eu quem vivo, é Cristo que vive em mim". (Gál 2, 20).

Por isso, São Paulo nos leva a uma proposta de conversão que para mim é um convite que tomara que tenhamos a coragem de assumir, porque já estamos bastante satisfeitos de palavras bonitas: precisamos de santos, que caminhando pelas ruas e dirigindo suas famílias, trabalhando nos ofícios mais humildes ou sendo grandes economistas ou políticos, irradiem uma luz tão forte, seu sal seja de tal sabor, que voltemos a ver essa primavera da qual nos falava João Paulo II, de lares, de escolas. Não é uma utopia, é uma possibilidade ao alcance da santidade. Se não tomarmos a decisão de ser santos, não entenderemos a mensagem de São Paulo.

– Sobre esse relativismo, essa tibieza da qual nos fala: como o senhor vê isso concretamente na América Latina?

– Cardeal Juan Luis Cipriani: Fala-se tanto dos direitos humanos, mas logo depois encontramos aquelas crianças mal nutridas, mal acolhidas por seus pais, que não têm o lar que devem ter, aquela escola que não dá o calor, o respeito e o testemunho dos professores. Isso está limitando enormemente os direitos humanos desses jovens e dessas crianças. A legislação deveria respeitar estas crianças, apoiando as famílias numerosas, dando possibilidades de acesso às mães de família quando têm mais filhos, e dessa maneira encontraríamos menos essa enorme quantidade de filhos naturais.

Outra maneira bem concreta são os seminários. Nos seminários penso que se estão dando passos interessantes, mas é preciso continuar tendo a coragem de que estes jovens, que estão se preparando para ser outros Cristos, possam ter o sabor do que é um bom momento de oração diante do Santíssimo, do que são horas de estudo bem programadas, do que é essa autodisciplina para saber distinguir o que é a pornografia na televisão, na Internet, no sistema de mensagens, e assim poder ser pessoas maduras, que saem a serviço dos demais, tendo tido essa liberdade e essa experiência de contemplação e dessas horas de estudo com seriedade. Deve-se promover neles personalidades humanas maduras, que não estejam escondidas, mas que amadureceram para dar-se aos demais e deste modo não sairão às ruas com essa superficialidade na qual falta maturidade de seus afetos, que depois lhes gerará problemas.

Em qualquer ambiente que toquemos, poderíamos falar da política. A política deve ser mais coerente com a verdade. Esta crise financeira internacional, como vimos, deve-se principalmente a uma desconfiança por falta de ética e de moral, por abuso. É necessário respeito pelas normas jurídicas, políticas, não abusar da posição que se tem. Evidentemente, todas estas estruturas que tentam unir-nos mais seriam úteis, mas o que fazemos com algumas Nações Unidas de pura estrutura econômica vazias de conteúdo ético e moral? E com todas essas organizações internacionais que, buscando unicamente negociações puramente externas, não pretendem criar um clima de uma maior formação moral, espiritual, ética? A tibieza invadiu o sistema mundial e essa tibieza gera espíritos indecisos. Deste modo, os negociadores da armadilha e da mentira, os poderosos da corrupção, têm êxito. É forte o que digo, mas não creio que o espaço onde estamos tenha um remédio fácil. Creio que temos de aplicar-lhe um remédio mais forte.

– Os problemas que o senhor menciona, como acha que tocam a realidade eclesial na América Latina?

– Cardeal Juan Luis Cipriani: Eu penso que há algo que está muito dentro do ser humano: o afã de ostentação, a vaidade. Quando o responsável, seja ele sacerdote ou bispo, ao invés de ser um servidor, um tapete para que seus irmãos pisem, o último dos servidores..., pensa que o cargo que possui lhe permite alguns benefícios, algumas comodidades; então, lamentavelmente, essa escola de vaidade, de superficialidade, converte-se em um caminho que não funciona. Muitas vezes se vê que quem está à frente de uma instituição ou responsabilidade, mais do que servir os demais, serve-se deles. Penso que muitas vezes estas ações têm uma etiqueta de ajuda ao próximo, mas por trás têm um conteúdo ideológico-político, como qualquer outra alternativa de outro grupo.

Nós, sacerdotes, não podemos servir-nos da Igreja para fazer um teatro e depois deixar a Igreja muito mal, com uma hipocrisia e um cinismo que realmente vai sendo cada dia mais pavoroso. Isso se conserta com um pouquinho mais de autoridade e de respeito às normas estabelecidas.

Sei que algum grupo poderia dizer: "isso parece um autoritarismo medieval". Não, deve-se perder o medo dessas críticas ladinas. Todo ser humano requer apoio e orientação de alguém, tem necessidade de exemplo e liderança. Em toda instituição há algumas normas e quem não as cumpre vai embora da instituição. Eu creio que está faltando em muitos níveis da Igreja uma maior autoridade e uma maior obediência. E creio que isso não é nem medieval, nem moderno, nem pós-moderno. Assim foi desde Adão e Eva e assim será até o final dos séculos.

– A América Latina viveu nos últimos meses os escândalos do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, que reconheceu a paternidade quando ainda era bispo, e do Pe. Alberto Cutié. Ambos deram muito o que falar sobre o celibato sacerdotal. Por que os sacerdotes vivem este conselho evangélico?

– Cardeal Juan Luis Cipriani: A encíclica Deus Caritas Est diz tudo. Eu creio que não devemos falar só destes dois casos, do celibato, mas do amor humano em geral. O Papa nos explica com muito detalhe como esse amor, que inicia nesse movimento do eros, converte-se em um ágape. Já não é o impulso do sexo que está posto por Deus na natureza humana, mas esse impulso se purifica e se converte em entrega ao outro, no ágape.

O amor já não é somente o impulso de um, mas a entrega e o encontro de dois, que faz que sejam uma nova criatura, que é o amor. O Santo Padre nos diz que, no Novo Testamento, quase sempre se utiliza a palavra ágape. O Papa começa a explicar-nos o que é o amor dizendo-nos: "o amor nasce na cruz", porque "tanto amou Deus o mundo, que nos enviou a seu filho unigênito para que, morrendo na cruz, nos redimisse". É Deus quem o define, de uma maneira muito clara, não só com palavras, mas com o envio de seu filho. Portanto, no mundo de hoje, ao não querer aceitar a dor, o sacrifício que leva à vida, mata-se o amor, e o que resta? Fica a possessão sexual. Amputou-se por temor, por covardia, por tibieza, a capacidade de sofrimento, porque só se busca o êxito e o prazer. Matamos a planta que surge da dor, que é o amor e, portanto, em muitas relações humanas, familiares, dá-se uma relação totalmente material, na qual praticamente a integridade da pessoa não está comprometida. Quando esse materialismo se apropria das relações humanas, então o homem e a mulher se convertem em objetos de uma experiência sexual mais ou menos ilustrada e, portanto, essa experiência perde sua estabilidade, vai e vem, não produz essa alegria da entrega, porque não sai da dor nem do sacrifício e, quando se apresenta uma enfermidade ou um problema econômico, uma discussão..., rompe-se os matrimônios do mesmo modo que ocorre com estes casos, como Lugo ou o Pe. Cutié, que no momento de sentir um sacrifício superior às suas forças, rompem a palavra dada.

Aos sacerdotes se pede essa castidade que se pede também ao matrimônio. Há uma castidade conjugal e há uma castidade no celibato. Quem sabe amar e quem tem a experiência de um amor matrimonial saudável e estável sabe de que estou falando. É o mesmo que a Igreja oferece a quem entrega tudo por amor a Deus. Não é menor nem é mais difícil, mas o produto desse amor hoje está escasso e, portanto, em um mundo materialista e um pouco hedonista, é difícil explicar o celibato, que é um tesouro da Igreja. Por este motivo, se quer converter esse tesouro em barro, porque quem tem os olhos sujos, não distingue nem a verdade, nem o amor, nem a beleza.

– Continuando com os temas de atualidade, vemos como, em 17 de maio passado, a Universidade de Notre Dame nos Estados Unidos condecorou o presidente Barack Obama, apesar de suas políticas contrárias à vida humana. As universidades católicas estão renegando sua fé?

– Cardeal Juan Luis Cipriani: Eu creio que é necessário voltar às fontes. A identidade católica não é propriedade de uma universidade, nem do reitor, nem do ministro de educação. A identidade católica está acreditada pela Igreja Católica. O que não se pode e não se faz em nenhuma instituição é dizer "este é um carro Toyota", se a fábrica Toyota não lhe põe a marca.

Creio eu que é necessário um pouco de clareza e de autoridade. De clareza por parte dos que são responsáveis para poder dizer: "se você não quer, deixe de ser católico". Mas o que não podemos é vender um produto desgastado. Pensar que os pais e os filhos vão a uma universidade que tem o letreiro de "católica" e que depois ensina o contrário à fé é uma confusão e um abuso. Creio que a Igreja tem o dever de chamar as coisas pelo nome.

O que não me parece bem é que haja um presidente dos Estados Unidos, com todo o respeito que merece o Senhor Obama, que vá a uma universidade católica para explicar aos católicos o que é ser católico e, em seu discurso, faça toda uma aula de teologia vazia, cheia de relativismo, muito perigosa, convocando os dissidentes da Igreja Católica. É uma vergonha.

Penso que os bispos norte-americanos reagiram com bastante honradez, ainda que nem todos. Eu não sou partidário da polêmica e da confrontação. Mas parece uma provocação prestar uma homenagem católica a um presidente que nos primeiros cem dias impulsionou o aborto, os casamentos gays, as pesquisas com células-tronco embrionárias e toda uma agenda antivida. Não me parece que seja a pessoa mais adequada para receber um reconhecimento da universidade de Notre Dame, que, aliás, há muitos anos está nesta grande confusão.

Em todos os tempos a tivemos, não pensemos que a Igreja começa conosco. Isto é muito antigo. Mas, qual é a diferença? Que antes, quem dissentia, ia embora da Igreja; hoje fica dentro e isto me parece que requer de nós, por amor à Igreja, um pouco mais de firmeza. Olhemos algumas destas situações diante de Jesus, na Eucaristia e na cruz, e digamos: "Senhor, isto é como em teus tempos, nem mais nem menos. Mas como respondiam teus discípulos? Primeiro com temor, logo com dor e depois com martírio. Pois se estes são os tempos; aqui estamos, Senhor, para que, por amor a ti e à Igreja, ao teu corpo místico, tenhamos a coragem de defendê-la até o final".

Por exemplo, vemos com que clareza e amor à verdade o Papa Bento XVI voltou da Terra Santa. Com que alegria, com que clareza abordou todos os temas que pareciam difíceis, do ponto de vista político, mas ele os tratou do ponto de vista do que quer um peregrino da paz, um Vigário de Cristo. Cada vez o amam mais, cada vez é um líder que ilumina mais este mundo que está na escuridão.

– Como o senhor acha que este problema atinge as universidades católicas na América Latina?

– Cardeal Juan Luis Cipriani: As universidades e as escolas e até os times de futebol refletem o que ocorre na sociedade. Pode haver uma universidade que tenha uma proposta luterana, marxista ou pagã, mas deixemos que haja também uma universidade com a proposta católica. Esta está muito bem definida por João Paulo II em muitos de seus escritos e o condensou na constituição apostólica Ex code ecclesiae. Portanto, não é de nenhuma maneira uma limitação à autonomia universitária, não confundamos a autonomia que tantas vezes foi a resposta ao controle estatal.

Mas toda ciência tem a limitação de seu próprio método científico e, portanto, com os métodos da filosofia eu não posso fazer bioquímica. Com os métodos da teologia eu não posso fazer física. A proposta católica, que é uma contribuição à sociedade e ao progresso, simplesmente pede nesse espaço que se lhe permita em sua integridade ser oferecida a todos os alunos. Nessa integridade católica, logicamente, creio eu que não é nenhum problema nem a liberdade de cátedra, nem a autonomia. Não vai ser um projeto confessional, no sentido de fechado, porque então a universidade fracassaria e as universidades católicas não fracassaram. Foram pioneiras em muitas partes do mundo.

Compreendo que a situação reflete este relativismo de pensamento e que muita gente, em nome da tolerância, é muito intolerante. Exigem tolerância, como ordinário do lugar, e contudo não toleram a proposta católica que a Igreja propõe. Então, temos de ser um pouco mais sinceros. A verdade é algo que é doloroso, a verdade cansa, constrói, enche de esperança, de fé e de alegria e creio que devemos redescobri-la.

Estamos em um mundo no qual as comunicações trazem a possibilidade da transparência. Pois que essa transparência permita que se veja a verdade.

Creio eu que são momentos em que se deve ter uma enorme proximidade com o Senhor, deve-se ter paixão pelo tempo que nos coube viver, e não temor; deve-se buscar no fundo do coração das pessoas essa semente de bondade que todos temos, mas não fazê-lo pela via de uma negociação política ou de um intercâmbio de poderes, como um intercâmbio de equilíbrios ou como uma complicação ideológica. É muito mais sério. Levemos mais a sério a pessoa humana, a família, Deus criador, Deus feito homem, nossa mãe Santa Maria, no que representa para a maternidade de uma mulher.

© Innovative Media, Inc.


Fonte: Agência Zenit
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quarta-feira, 3 de junho de 2009

O Bispo que abriu a ostra do mundo

ReproduçãoReprodução /


Perguntem a qualquer estudante universitário sobre os nomes da grande revolução científica que começou no século 17 e foi a responsável por grande parte da compreensão atual que temos sobre o universo, nosso planeta e nós mesmos. As personalidades irão se repetindo: Galileu, Kepler, Newton, Mendel, Darwin... quase ninguém lembrará o nome de Nicolau Steno. A não ser que você seja geólogo ou tenha estudado Anatomia na faculdade de Medicina, Enfermagem ou algum outro curso da área de saúde, é muito possível que nunca tenha ouvido falar dele; Steno é o (como dizem os americanos) unsung hero dessa revolução.

A primeira vez que vi alguma menção a Steno foi quando li Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, de Thomas Woods Jr. Uma nota de rodapé citava uma biografia de Steno, chamada The seashell on the mountaintop (Penguin, 2004), escrita por Alan Cutler. É o livro que eu recomendo hoje aos leitores do blog, aproveitando que depois de amanhã se comemora o dia do geólogo.

Steno (ou Niels Stensen, como foi batizado em sua Dinamarca natal) fez fama em toda a Europa na segunda metade do século 17 como um dos maiores anatomistas do continente. Manejava um bisturi como poucos, e foi nessa condição que ele chegou a Florença e encontrou um lugar na corte do grão-duque da Toscana, Ferdinando II de Médici. Antes mesmo de se tornar famoso, fez descobertas que ainda hoje levam seu nome, e também viu o que a inveja científica pode fazer, quando seu ex-mestre tentou levar o crédito por esses achados. Como anatomista, Steno tinha seu futuro garantido, mas um acontecimento incomum mudou completamente a direção de sua vida.

Um tubarão gigantesco foi capturado no litoral da Toscana e o grão-duque pediu que a cabeça fosse enviada a Florença, para ser dissecada por Steno. O anatomista percebeu a enorme semelhança entre os dentes do tubarão e as glossopetrae ("línguas de pedra"), que eram encontradas às vezes no alto de montanhas e tinham, acreditava-se, propriedades medicinais. Aliás, não apenas glossopetrae eram encontradas na altitude, mas também conchas e outros objetos que remetiam a animais marinhos. Steno não foi o primeiro a se perguntar o que realmente eram essas coisas, e como elas iam parar lá em cima; antes dele, muitos já tinham pensado nisso e oferecido suas respostas. Para uns, eram apenas pedras com formatos idênticos aos de conchas e dentes de tubarão; para outros, eram efetivamente objetos marinhos, e aí as teorias variavam ainda mais: foram deixados lá pelo Dilúvio, caíram do espaço, surgiram por geração espontânea...

O tema intrigou Steno, que passou a pesquisar como objetos sólidos podiam ser encontrados dentro de outros sólidos. Isso valia tanto para fósseis, conchas, glossopetrae, até para inteiras camadas de pedra. Como resultado de suas pesquisas, Steno abriu a ostra do mundo. Não com a espada, como o personagem de As alegres comadres de Windsor (citado por Cutler), mas com a cabeça. Chamá-lo de fundador da Geologia não é exagero nenhum. Sua obra De solido intra solidum naturaliter contento dissertationis prodromus ("Discurso prévio a uma dissertação sobre um corpo sólido contido naturalmente num sólido", de 1669) lança as bases do estudo da terra. Diante de várias camadas de rocha, como saber quais vieram antes? Como essas camadas se formaram? Steno dará a explicação. Das diversas áreas em que a Geologia se dividiu com o tempo, as que mais se beneficiarão de seu trabalho serão a estratigrafia e a cristalografia.

Reprodução / Nicolau Steno passou de anatomista de renome internacional a fundador da Geologia.
Nicolau Steno passou de anatomista de
renome internacional a fundador da Geologia.

Antes de Steno, o heliocentrismo já tinha redesenhado o universo, colocando a Terra girando ao redor do Sol. Agora o anatomista e geólogo dinamarquês colocava a própria Terra sob uma nova perspectiva: sua história podia ser contada analisando-se as camadas de rocha superpostas. Cutler afirma que, antes de Steno, acreditava-se que os homens podiam contar sua história recorrendo a documentos antigos, mas ninguém imaginava que o planeta tivesse uma cronologia. O cálculo do arcebispo anglicano James Ussher, para quem o mundo tinha sido criado em 4004 a.C., era amplamente aceito. Steno nunca estabeleceu datas para as diferentes camadas de rocha; ele se limitou a apontar os meios de saber a cronologia relativa das camadas. Mas é indiscutível que seu trabalho lançou as bases para que, no futuro, os cientistas descobrissem que o planeta tinha muito mais de 6 mil anos.

A biografia escrita por Cutler, no entanto, não se limita aos feitos científicos de Steno. Ela também ressalta a religiosidade do cientista. Criado como luterano, e convertido à Igreja Católica durante seu tempo na Itália, Steno via a presença de Deus na racionalidade do mundo, e seu trabalho como cientista, ao desvendar essa racionalidade, revelava os mecanismos divinos. E, em 1675, Steno foi ordenado padre, tornando-se bispo apenas dois anos depois. Ao entrar no sacerdócio, Steno abandonou as pesquisas científicas. Embora muitos possam ver nisso um sinal de incompatibilidade entre ciência e fé, Cutler esclarece que essa foi uma decisão pessoal de Steno. Era parte de sua personalidade não conseguir se dedicar com profundidade a duas coisas ao mesmo tempo. Mas Steno nunca rejeitou sua ciência, e Cutler conta casos de homilias em que Steno usava comparações científicas para explicar realidades espirituais. O jesuíta Atanásio Kircher tentou convencê-lo, sem sucesso, a continuar seu trabalho geológico – Kircher, aliás, é um dos coadjuvantes mais interessantes do livro. Hoje sabemos que muitas das teorias desse jesuíta alemão estavam erradas, mas é impossível desconsiderar a união entre ciência e religião quando vemos um padre movido pela curiosidade científica descendo a cratera do Vesúvio logo após uma erupção, segurado apenas por uma corda, para ver o que havia dentro da cratera do vulcão.

Gabriel Bouys/AFP
Gabriel Bouys/AFP / O Grand Canyon é provavelmente o lugar do mundo onde melhor se pode entender, pela observação, as teorias de Steno.
O Grand Canyon é provavelmente o lugar do mundo onde
melhor se pode entender, pela observação, as teorias de Steno.


The seashell on the mountaintop, no entanto, não termina com a morte de Steno, ocorrida em 1686. Especialmente na Inglaterra, a discussão sobre a origem das conchas encontradas em montanhas corria solta. A obra de Steno entrou em cena graças a outro coadjuvante curioso do livro de Cutler: John Woodward, um médico de personalidade intratável – e chegado em um plágio. Demorou um pouco, mas Steno conseguiu o pleno reconhecimento de seu gênio científico. E, em 1988, veio "o maior reconhecimento que ele teria desejado", nas palavras de Cutler: o Papa João Paulo II o beatificou. Na homilia, o pontífice afirmou: toda a vida de Nicolau Steno foi uma incansável peregrinação à procura da verdade, a científica e a religiosa, na convicção de que cada descoberta, ainda que modesta, constitui um passo adiante na direção da verdade absoluta, na direção daquele Deus de quem todo o universo depende.


Fonte: Tubo de Ensaio

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segunda-feira, 1 de junho de 2009

Profetas e "profetas": e as profecias de são malaquias?

Revista "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
D. Estevão Bettencourt, osb

Em síntese: As "profecias" de S. Malaquias, que voltaram à baila por ocasião do último conclave pontifício, carecem do toda e qualquer autoridade, segundo os resultados da boa crítica histórica.

S. Malaquias (1095-1140) foi bispo do Armagh na Irlanda no século XII. Até o século XVI nenhum autor ou documento mencionou as suas "profecias"; estas foram ignoradas até 1595, quando o beneditino Arnoldo do Wyon as Inseriu no seu opúsculo "Lignum Vitae". Hoje em dia pode-se dizer que tal documento teve origem em 1590 durante o conclave que devia eleger o sucessor de Urbano VII; entro os Cardeais mais em vista estava Simoncelli, cidadão do Orvieto e antigo bispo desta cidade; ora os amigos do Simoncelli quiseram favorecer a eleição deste prelado, apresentando uma lista "profética" de 111 Papas em que o sufragado após Urbano VII era o Papa "De antiquitate urbis" (Da antiguidade da cidade). Isto é, o Papa de Orvieto (= Urbs vetus, cidade antiga); em vista disto, forjaram uma série de dísticos papais mais ou menos condizentes com a realidade desde Celestino II (1143-1144), mas assaz arbitrária após Urbano VII. Toda¬via essa fraude foi vã, pois quem saiu eleito do conclave em 1590 foi o Cardeal Sfrondate, arcebispo do Milão, que tomou o nome de Gregório XIV.

Estes dados bastam para dissipar qualquer dúvida acerca da pretensa autoridade das "profecias" de São Malaquias.

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Comentário:: Estiveram mais uma vez em grande voga as ditas "profecias de S. Malaquias" por ocasião do último conclave papal em outubro 1978. A imprensa as mencionava como referencial para se predizer a identidade do futuro Papa; as conjeturas foram as mais variadas possíveis, pre¬tensamente apoiadas também em outras fontes de prognósticos (Nostradamus e semelhantes). Verificou-se, porém, que os resultados foram totalmente diversos do que se previa - o que bem mostra que a S. Igreja transcende as cate¬gorias dos homens e, em última análise, é regida pelo próprio Deus; quem a queira considerar segundo critérios meramente humanos, arrisca-se a falhar, por completo, em suas perspectivas. Pode-se esperar que as lições do último con¬clave contribuam para avivar no público a consciência desta verdade.

Em vista da atualidade que continuam tendo as "profe¬cias" de S. Malaquias (as quais prevêem o fim do mundo para o ano 2000 aproximadamente), proporemos abaixo alguns dados que ajudem o leitor a julgar a autoridade de tal documento. Antes de mais nada, porém, será necessário esboçar

1. O conteúdo das "profecias"

São Malaquias de Armagh (distinga-se bem do profeta S. Malaquias, do Antigo Testamento) nasceu na Irlanda em 1095 aproximadamente. Fez-se monge em Bangor, tornan¬do-se depois arcebispo-primaz de Armagh. Veio a falecer em 1148.

É a esse santo que se atribui a famosa "Profecia dos Papas", a qual terá sido escrita em 1139, quando Malaquias passou um mês em Roma. Consta de 111 breves dísticos latinos, que tentam caracterizar a figura de cada Pontífice desde Celestino II (1143-1144) até Pedro II, que presenciará o fim do mundo. Esse texto, embora seja atribuído a um autor do séc. XII, só se tornou de conhecimento público em 1595, quando o beneditino Arnoldo de Wyon o inseriu no seu opúsculo "Lignum Vitae", publicado em Veneza naquele ano.

Os 111 dísticos no "Lignum Vitae" são acompanhados de breve comentário do historiador espanhol Alonso Ciacco¬nio 0. P. (+ depois de 1601). O comentário aplica os dísticos da Profecia aos 74 Papas que governaram desde Celestino II (+ 1144), um dos contemporâneos de S. Malaquias, até Ur¬bano VII (+ 1590); mostra como o conteúdo de cada oráculo se cumpriu adequadamente na figura de cada Pontífice a que é referido. O comentário de Ciacconio, indicando onde começa a série dos Papas considerados pelos dísticos, permite calcular aproximadamente a época em que se deverá dar o fim do Papado e a segunda vinda do Senhor; assim contam-se 38 Pontífices desde Urbano VII (+ 1590) até o fim do mundo, sendo que o Papa João Paulo II, que vem a ser "De labore solis" (Da fadiga do sol) ainda terá dois sucessores, o último dos quais, Pedro II, verá, com a geração dos seus contemporâneos, a consumação da história.

2. A autoridade da "Profecia"'

A Profecia de Malaquias, logo depois de divulgada em 1595, obteve sucesso considerável. É inegável que os dísticos interpretados por Ciacconio se aplicam bem aos Papas desde Celestino II até Urbano VII.

Eis alguns exemplos mais característicos:

Avis Ostiensis (Ave de Óstia) convém adequadamente a Gregório IX (1227-1241), que foi Cardeal-bispo de Óstia e tinha uma águia em seu brasão;

De parvo homine (Do pequeno homem) corresponde a Pio III (+ 1503), que se chamava Francisco Piccolomini (Pequeno homem);

Jerusalem Campaniae (Jerusalém da Campanha) designa bem Urbano IV (1261-1264), nascido em Troyes (Campanha) e Patriarca de Jerusalém.

De Urbano VII (+ 1590) em diante, Ciacconio não interpretou mais os oráculos. Muitos historiadores, porém, julgam que continuam a quadrar bem com as figuras dos Pontífices que se têm assentado sobre a Cátedra de Pedro.

Assim, para tomar exemplos recentes, indicar-se-iam

Crux de cruce (Cruz oriunda da cruz), dístico que designa Pio IX (1846-1878) com acerto, pois este Pontífice sofreu duros golpes da parte da Casa de Savoia, em cuja emblema figurava uma cruz;

Religio depopulata (Religião devastada) é o dístico bem adaptado a Bento XV (1914-1922), que durante o seu pontificado assistiu à primeira guerra mundial;

Fides intrepida (Fé intrépida) corresponde a Pio XI (1922-1939), Pontífice das missões e defensor da verdade contra modernas teorias sociais e políticas;

Pastor et Nauta caracterizaria o Papa João XXIII ex-Patriarca de Veneza, cidade das gôndolas, reconhecido por sua ardente têmpera de Pastor de almas...

Admitida a veracidade da Profecia na base das observações acima, julgam alguns autores que o fim do mundo não está longe (talvez venha por volta do ano 2000), pois só deverá haver três Papas até a segunda vinda de Cristo:

De labora solis (Da fadiga do sol) = João Paulo II.

De gloria olivae (Da glória da oliveira).

Para terminar, diz o texto (após o 111º dístico): "Du¬rante a derradeira perseguição, que a Santa Igreja Romana sofrerá, será Pontífice Pedro Romano, que apascentará as suas ovelhas em meio a muitas tribulações. Terminadas estas, a cidade das sete colinas será destruída, e o Juiz terrível julgará seu povo".

Procurando interpretar os dísticos acima, há quem queira prever a história dos tempos finais nos seguintes termos:

As divisas Pastor Angelicus (Pio XII), Pastor et Nauta (João XXIII) e Flos Florum (Paulo VI) indicam um período de grande paz e bonança para a religião (serão mesmo os nossos tempos? Parecem tão diferentes de tal previsão). Santidade angélica deveria florescer no Pastor e nas ovelhas da Igreja; o Pastor, sendo navegante, gozaria de grande prestígio no mundo inteiro e empreenderia viagens intercontinen¬tais a fim de confirmar a pregação do Evangelho em toda parte (note-se, porém, que o grande viajante não foi João XXIII, o Pastor et Nauta, mas, sim, Paulo VI). Os três últi¬mos dísticos insinuam os acontecimentos que deverão prece¬der imediatamente a manifestação do Anticristo; flagelos, como uma calamitosa expansão do islamismo (Lua cres¬cente),1 penas e fadigas sobre os filhos da luz (Sol); além disto, a almejada conversão dos judeus a Cristo (a oliveira simboliza o povo judaico em Rm 11,17-20). Depois disto, sob o Papa Pedro II, Cristo aparecerá como Juiz Universal...

Que dizer dessas conjeturas?

Carecem de autoridade. Usando de toda a objetividade, os bons críticos não hesitam em rejeitar a autenticidade da Profecia de Malaquias.

Quem primeiramente a impugnou apelando para argumen¬tos ainda hoje plenamente válidos, foi o Pe. Ménestrier S. J., no seu livro "'Réfutation des Prophéties faussement attribuées à S. Malachie sur les élections des Papes"' (Paris 1689). Eis as principais razões desde então aduzidas contra a genuini¬dade das Profecias:

1) Durante cerca de 450 anos, isto é, desde S. Mala¬quias (+ 1148) até o opúsculo "Lignum Vitae" (1595), jamais autor algum fez alusão aos oráculos de S. Malaquias; nem os historiadores medievais e renascentistas, ao escrever a Vida dos Papas, mencionam tal documento, que certamente deveria ser citado, caso fosse conhecido. E por que motivo, em que circunstâncias, teria este caído em mãos de Ciacconio, seu comentador, após 450 anos de ocultamento? E como de Ciacconio terá sido transmitido a Wyon, que o editou pela primeira vez?

2) Ao argumento do silêncio associa-se a verificação de faltas históricas e teológicas na Profecia de Malaquias. De fato, na lista dos Papas figuram antipapas (como Vitor IV, 1159-1164; Nicolau V, 1328-1330; Clemente VII, 1378-1394), efeito este que dificilmente se poderia atribuir à inspiração divina. A finalidade mesma da Profecia (insinuar a época do fim do mundo) parece contrariar à intenção de Cristo, que em mais de uma ocasião se negou a revelar aos homens a data do juízo final (cf. Mc 13,32; At 1,7). Além disto, a aplicação dos dísticos aos respectivos Papas baseia-se em notas por vezes acidentais na figura dos respectivos Pontí¬fices, o que lhe dá um cunho de arbitrário; assim Nicolau V (legítimo Papa de 1447 a 1455) traz a dístico De modicitate lunae (Da pequenez da Lua) por ter nascido de família modesta no lugar chamado Lunegiana; Pio II (1458-1464) é assinalado "De capra et albergo (Da cabra e do albergue) por haver sido secretário dos Cardeais Capranica e Albergati!"

Positivamente podem-se indicar as circunstâncias que deram ocasião à falsificação: observe-se, antes do mais, que os dísticos dos Papas até 1590 aludem todos a traços con¬cretos e particulares de cada Pontífice: lugar e família de origem, cargos exercidos antes da eleição, figuras dos bra¬sões, etc. - De 1590 em diante, porém, os oráculos apenas referem qualidades morais, cuja aplicação é assaz vaga, podendo convir a mais de um Pontífice; assim "Vir Religiosus" (Varão religioso), Ignis ardens (Fogo ardente), Fides intrepida (Fé intrépida); qual Papa não mereceria esses qualificativos, caso não fosse de todo indigno?

Observada esta diferença, julgam alguns críticos que a "Profecia de São Malaquias" foi forjada justamente nesse ano de 1590, quando o falsificador já conhecia parte da his¬tória dos Papas que ele havia de caracterizar, ficando-lhe desconhecida a outra parte (a do futuro). O ensejo para se inventar a "Profecia" terá sido o conclave de 1590, após a morte de Urbano VII; o certame foi árduo, durando um mês e dezenove dias. Entre os prelados mais em vista, achava-se o Cardeal Simoncelli, cidadão de Orvieto e antigo bispo desta cidade; ora julga-se que as amigos de Simoncelli pretenderam favorecer a eleição deste candidato, apresentando aos interes¬sados uma lista "Profética" de Papas em que o sufragado pelo Espírito Santo após o Pontífice Urbano VII era o Papa De antiquitate urbis (Da antigüidade da cidade), isto é, o Papa de Orvieto (= Urbs vetus = cidade antiga); em vista disto, terão forjado uma série de dísticos papais condizentes com a realidade desde Celestino II (no século XII), mas assaz arbitrária após Urbano VII. Essa lista, com a qual os mistificadores quiseram associar até mesmo o nome abalizado de São Malaquias, não logrou o desejado efeito, pois na verdade quem saiu eleito do conclave foi o Cardeal Sfrondate, arcebispo de Milão, que tomou o nome de Gregório XIV ... É esta uma das explicações mais correntes dos motivos que terão inspirado a pseudo-profecia de S. Malaquias!

Ménestrier, na abra referida, cita outro caso semelhante ao de recurso à "autoridade divina" para decidir a eleição de um Papa. Após a morte de Clemente IX (1669), alguns adeptos do candidato Cardeal Bona, lembrando-se do texto de Eclo 15,1: "Quem teme a Deus, fará obras boas (bona)" (Qui timet Deum, faciet bona), espalharam o seguinte trocadilho:

"Grammaticae leges plerumque Ecclesia spernit:

Esset Papa bonus si Bona Papa foret".

"As leis da gramática, geralmente a Igreja as despreza.

Haveria um bom Papa, se Bona Papa fosse".

Diante destas observações da crítica abalizada, vê-se que vão seria evocar a "Profecia" de S. Malaquias, seja para ilustrar a história do Papado, seja para prever o decurso dos futuros tempos ou mesmo a época da segunda vinda de Cristo.

Data Publicação: 10/03/2008

Fonte: http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=ESTEVAO&id=deb0135
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