quarta-feira, 27 de maio de 2009

Hedonismo, mais uma praga para o século XXI


Dizem-nos que a vida deve ser aproveitada ao máximo e com o máximo prazer, argumentando que a vida é uma dádiva e por isso temos que a saber gozar, e ainda que o prazer sensitivo é a única coisa que levamos desta vida. Usando desta perspectiva e inserido no pacote da mentalidade revolucionária chega até nós, tremendamente amplificado pela hegemonia socialista, o hedonismo. Esta busca desenfreada da felicidade faz corresponder o bem supremo, o valor mais elevado, com o prazer. A felicidade é pois apresentada como prazer, a maximização do prazer surge assim como móbil e finalidade para a vida. Mas, muitas vezes, esse prazer não passa de aparência, a realidade verifica-se diferente, o vício é inimigo do perfeccionismo, mas amigo do descontentamento. Por outro lado as exigências mais elevadas assentes na racionalidade e que efectivamente evoluem a humanidade, dependentes do esforço e do sacrifício pessoal, como as verdades tradicionais (sabedoria, fortaleza, temperança e justiça) são amplamente negligenciadas. Devemos ter em conta, ainda, que o prazer dos desejos desnecessários não está incluído na esfera dos bens da vida que são naturais (vida, saúde). O prazer tal como concebido na modernidade é antinatural. Os desejos de poder, a necessidade de ostentação, os vícios, são estranhos à nossa natureza. O homem pode por isso aperfeiçoar-se libertando-se do domínio do irracional. Muitos, vítimas da insatisfação, acabam nas teias implacáveis do mundo da droga. Quantas famílias destruídas, quantos inválidos e mortes desnecessárias devidos à procura do máximo prazer corporal?

Prova-se que a vida sã, vítima da mente perversa, desmorona-se como um castelo de cartas assim que os primeiros vícios se apoderam do organismo indefeso. Com a intensificação dos vícios adquiridos e a vinda de outros novos, uma vez que o hábito minimiza o prazer, o sujeito torna-se um farrapo humano desperdiçando assim a sua vida, pois, tornando-se inútil, torna-se um fardo para a sociedade. Esta extrema liberdade individual escrava dos prazeres corporais promove inevitavelmente o anarquismo. Na ânsia de maior satisfação, porém atingimos o paradoxo, no meio da desordem os sujeitos forçosamente se digladiam ora por questões de sobrevivência ora para satisfação da ambição desmedida de que padecem os hedonistas. E dá-se também o irracional porque o homem sempre procurou defender-se da desordem que o ameaça. Por outro lado, o hedonista vê-se privado do maior dos prazeres que é a satisfação do dever cumprido. O homem realiza-se na rectidão. Repare-se como Sócrates, face à morte pela cicuta, prefere o cumprimento do dever à manutenção da vida e olhe-se para os mártires que preferiram as piores torturas a abdicar do seu dever. Os homens sensatos sabem que não há maior felicidade do que praticar o bem. O bem nunca é o prazer egoísta mas sim a entrega altruísta. À medida que nos afastamos da nossa própria natureza aumenta a singularidade despida de racionalidade, aumenta o comportamento aberrante. O adepto entusiasta do desregrado hedonismo passa directamente da fase da juventude para a fase de declínio, a fase intermédia, da maturidade que é a de fecunda criação, acaba por lhe ser estranha. A medíocre cultura do vício e dos excessos está forçosamente reprovada.

Em alternativa, a felicidade deve repousar no conhecimento contemplativo da razão, à boa maneira aristotélica. O prazer mais puro é a alegria de pensar bem, conservando a lógica de subordinação do corpo ao espírito. Caso contrário, a escravização dos prazeres agrava a despersonalização uma vez que o homem distingue-se pela moral. O sujeito subjugado aos exacerbados apetites do corpo jamais será virtuoso. Quanto mais negamos a racionalidade mais nos assemelhamos a animais irracionais. A irracionalidade do hedonista chega a promover a necessidade, a dependência, identificando-as com a virtude. E, estamos perante mais uma subversão revolucionária. Poder-se-á argumentar que o homem sério por vezes se sente frustrado, é verdade. Mas, a esses dizemos, usando uma máxima do liberal Mill, "mais vale Sócrates insatisfeito do que um porco satisfeito". A razão é o maior dos bens, não podemos por isso concordar com a subordinação da razão ao prazer. A promoção da degradação do ser humano deve pois ser repelida por todos aqueles que se consideram possuidores de verticalidade. É preciso uma alteração do modo de pensar que retire o indivíduo da mediocridade e o coloque na competição saudável pela superioridade. O ascetismo inimigo dos prazeres sensuais é o oposto do hedonismo. Não enveredando por extremos, moderadamente é recomendável a guerra ao consumismo, ao materialismo, ao individualismo, e ao relativismo. A solução passa por voltarmos à sagrada união familiar e de grupo por afinidades e pelo sangue, tudo o resto são alienações. O corpo move-se no espaço e no tempo, a alma, unicamente no tempo, e reparem como a alma sem matéria comanda não só o corpo como todas as coisas e é eterna. Acreditamos que após a embriaguez inicial trazida pelo hedonismo é ainda possível um saudável regresso à razão que conduzirá a uma nova atitude. Negamos igualmente quer o vício como norma da vida quer o valor do facilitismo. Exaltamos, à boa maneira da Grécia clássica, o divino como medida de todas as coisas promovendo desta forma a excelência, cuja consequente elevação da personalidade possibilitará uma verdadeira emancipação da humanidade. Não há felicidade sem educação. Precisamos, pois, mais de uma Doutrina dos Deveres do que uma cartilha dos direitos. É imperativo que a justiça reine.

Bibliografia:
F. Heinemann, A Filosofia no Século XX, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2008.

Fonte: Blog Nacional Cristianismo

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