domingo, 15 de março de 2009

Entrevista com o Jornal O SÃO PAULO

1. Porque a Igreja resolveu falar de “Segurança Pública”? Não é um tema muito distante do interesse religioso?
R. A falta de segurança é preocupante e se manifesta nos fatos e situações de violência que atingem a população, ferindo a dignidade das pessoas e seus direitos fundamentais. A segurança pública é um dever do Estado e um direito dos cidadãos; por outro lado, ela não depende apenas do Estado, mas também dos cidadãos. A Igreja acredita que uma forte tomada de consciência sobre a situação de violência e sobre seus motivos possa contribuir para a tomada de atitudes corretas na superação desse problema. Os temas da Campanha da Fraternidade não são necessariamente “religiosos”, mas referem-se a situações que o povo vive e onde fica caracterizado um “pecado social” e a falta de fraternidade. A motivação da Campanha é religiosa; chama à conversão do coração e à vivência da caridade concreta e da fraternidade, como atitudes coerentes com a fé e o amor a Deus.

2. Quais resultados a Igreja espera obter com uma campanha dessas?
R. Antes de tudo, é desejável o envolvimento amplo da sociedade nesta Campanha para que ela não fique apenas “dentro” da Igreja; o problema atinge a todos. Esperamos que a Campanha também possa contribuir para despertar a sensibilidade das consciências diante de certa cultura da violência que se vai afirmando e na qual a violência acaba sendo aceita como “normal” e até inevitável. A solução, no fundo, está ligada em grande parte a uma correta educação para a paz, desde o berço até à morte. Evidentemente, a Igreja quer chamar à conversão dos corações, para que o respeito ao próximo, à sua dignidade, aos seus direitos e à sua vida; e que o agir violento seja superado. Claro é que a Igreja também espera que a Campanha ajude a superar as situações de violência estrutural na sociedade, de maneira que a justiça social verdadeira tenha como fruto a paz social.

3. A Igreja acredita que a corrupção também é sintoma da falta de segurança pública na sociedade brasileira. Por que?
R. A corrupção vinga no campo da impunidade; ela é uma forma de violência porque desrespeita o direito dos outros e o bem comum. Aquilo que é surrupiado ao patrimônio público pela corrupção fará falta sobretudo aos mais necessitados e lhes faz violência. Os fatos de violência nunca são isolados mas acabam desencadeando uma espiral de violência. Não é diferente com a corrupção que, por isso mesmo, precisa ser combatida mediante a afirmação do direito e ao respeito ao próximo.

4. O Texto-Base da CF 2009 mostra que as diversas formas de violência no Brasil são um fenômeno social. Quais as implicações dessa afirmação?
R. Não todas as formas de violência são um fenômeno social, nem se pode afirmar que a violência depende sempre de problemas sociais. Muitos fatos de violência dependem mesmo da falta de uma ética pessoal e da corrupção dos costumes. Por isso, a Igreja também apela nesta Campanha da Fraternidade para a conversão pessoal, para o abandono do vício da violência e para a reorientação de tendências à violência para hábitos de respeito e de paz. Mas não há dúvidas que há muitas situações e fatos de violência que estão implicados com problemas sociais e culturais; as injustiças sociais e certos mecanismos de organização social e econômica são promotores de violência contra as pessoas. Por isso também se faz necessária a “conversão” das estruturas de violência com as quais temos que conviver todos os dias.

5. Na cidade de SP as pessoas sofrem bastante com a violência crescente. Concretamente, de que maneira a Igreja local aqui em SP pretende contribuir na solução deste problema?
R. Infelizmente, a violência passou a fazer parte do dia a dia das cidades grandes, médias e pequenas. O risco é que nos habituemos com ela e fiquemos sem reação. A Igreja age em diversas frentes: socorro e assistência às vítimas da violência, educação para a justiça, a fraternidade e a paz, alerta às consciências para o respeito à pessoa do próximo, à sua dignidade, seus direitos e sua vida; podemos dizer que a ação da Igreja é sobretudo educativa, pois ela não dispõe de recursos para a vigilância ou a repressão da violência, nem seria isso de sua competência, mas do Estado.

6. Como uma campanha sobre segurança pública pode ajudar na preparação da Páscoa para os católicos?
R. A Campanha da Fraternidade insere-se no apelo quaresmal da conversão ao Evangelho e da busca da “vida nova”; também a superação da violência e a construção de relações de justiça e fraternidade está nessa mesma linha. A conversão deve ser pessoal, mediante o arrependimento dos pecados que tenham relação com a violência; mas a Campanha da Fraternidade também é um chamado à conversão comunitária, para somar esforços na superação mais eficaz de um “pecado social” e de suas causas.


S.Paulo, 7.3.09
+ Odilo P. Scherer

O SÃO PAULO, ed. 10.03.09

Fonte: http://www.cnbb.org.br/ns/modules/articles/article.php?id=547

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