sexta-feira, 13 de março de 2009

Dom Dedé: "A excomunhão é automática"

Dom José Cardoso Sobrinho, o dom Dedé, arcebispo de Olinda e Recife envolvido na polêmica da menina de 9 anos que fez um aborto, diz que não pode excomungar o estuprador e que é "progressista, dependendo do tema"

Marco Bahe, do Recife

Dom Dedé: "Simplesmente citei uma lei da Igreja pela qual quem comete o aborto automaticamente já está excomungado"

Nesta quinta-feira (11), a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil divulgou uma nota em que afirma que o arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho não excomungou os médicos e a mãe da menina de 9 anos que fez um aborto depois de ser estuprada pelo padrasto. Nesta entrevista, Dom José explica que, de fato, "não aplicou a pena da excomunhão": apenas citou uma lei do código canônimo que diz que quem comete um aborto está automaticamente excomungado.

ÉPOCA – Como o senhor vê a reação das pessoas frente ao episódio da excomunhão da mãe e dos médicos que realizaram o aborto na menina de 9 anos grávida em função dos abusos praticados pelo padrasto?
Dom José Cardoso Sobrinho –
Eu quero dizer que tenho recebido mensagens positivas de apoio e solidariedade, até de Roma. É claro que existem mensagens negativas e até ofensivas. Todo mundo tem o direito a dar sua opinião. Mas primeiro eu queria retificar uma versão errônea que tem se passado. Estão dizendo que Dom José excomungou, o que é totalmente errôneo. Não é verdade que eu excomunguei, pois significaria que eu teria aplicado a pena da excomunhão. Eu simplesmente citei uma lei da Igreja pela qual quem comete o aborto automaticamente já está excomungado. Está escrito no Código de Direito Canônico. No Direito Civil isso é impossível, pois nesse caso é aberto um processo e no final o juiz aplica a penalidade. Na Igreja há a possibilidade de aplicação de penalidades automáticas, dentre esses crimes está o do aborto. Em outras palavras, não fui eu que excomunguei ninguém, eu só lembrei desta lei da Igreja, que está em vigor desde o primeiro século da nossa Santa Igreja. Mas eu tenho a impressão que essa difusão (do episódio) irá produzir bons efeitos, sobretudo naqueles que são católicos. Porque estamos vivendo um período de silêncio que pode ser até interpretado como cumplicidade. Todo ano há, em Israel, uma solenidade para relembrar aqueles judeus mortos na Segunda Guerra Mundial, que foram 6 milhões de judeus. Todo ano se relembra o holocausto e o papa sempre manda representantes da Igreja Católica. Mas há um silêncio total sobre outro holocausto que acontece todos os anos. São 50 milhões de abortos todos os anos, 1 milhão no Brasil. Por isso, temos que relembrar a todos que acima das leis humanas existem as leis de Deus. A lei dos homens no Brasil diz que se pode praticar o aborto em determinadas circunstâncias, como o estupro e ameaça à vida de mãe. A lei de Deus diz que jamais é lícito eliminar uma vida inocente mesmo que para salvar outra vida.

ÉPOCA – Muita gente criticou o fato de o violador da menina também não ter sido submetido à excomunhão...
Dom José –
A Igreja condena o estupro e a pedofilia. Mas a Igreja só colocou essa penalidade automática para os crimes previstos, são apenas sete delitos, dentre eles o aborto. Essa penalidade é medicinal. A Igreja está oferecendo um remédio espiritual para que essa pessoa se conscientize. A consciência é a voz de Deus dentro de nós. Mas a Igreja também permite a salvação dessa pessoa. E qual é o caminho? Arrepender-se. Não existe pecado sem perdão para aqueles que se arrependem.

ÉPOCA – Será que a interpretação da lei de Deus ao pé da letra é mesmo compatível com os tempos atuais? Como poderíamos estar, por exemplo, apedrejando mulheres adúlteras, como manda o Antigo Testamento?
Dom José –
Essa opinião está totalmente errada. Há assuntos teológicos que ainda são discutíveis, mas quando se chega a uma doutrina definida não há que discutir.

ÉPOCA – Os seus críticos dizem que o senhor é muito rígido e muito conservador. Alguns dizem que o senhor teria chegado ao Recife com a missão de desmontar o trabalho considerado progressista de Dom Helder Câmara em Pernambuco. O senhor acha justa essa crítica?
Dom José –
Em primeiro lugar, essa história de conservador e progressista depende do ponto de vista, depende do tema. Dependendo do assunto, eu tenho certeza que todos os bispos e cristãos do mundo são conservadores. Quando a gente fala da lei de Deus, da indissolubilidade do matrimônio, do dever de preservar a vida humana desde o primeiro momento... Isso é a lei de Deus. Não adianta dizer 'eu sou progressista e penso de um jeito diferente'. Agora, o progresso todos nós desejamos, e eu também. Nossa Igreja se adaptou a tempo, sobretudo a partir do Concilio do Vaticano II. Temos hoje a liturgia na língua vernácula (língua local, comumente falada). Quando eu virei padre, faz apenas uns 50 anos, a missa era em latim.

ÉPOCA – Então, o senhor não aceita o rótulo de conservador?
Dom José
– Como eu disse, depende. Eu sou dos que pretendem conservar as leis de Deus. Por exemplo, quem não aceita o culto à Nossa Senhora não aceita as leis de Deus. Não adianta andar com a bíblia embaixo do braço, ler a bíblia todo o dia... É um gesto até bonito esse, mas não adianta de nada se não aceitar o culto a Nossa Senhora, pois está lá em Lucas, capítulo 1, como Deus veio ao mundo. A fé não é imposta a ninguém, ela é oferecida. Aceita quem quiser.

ÉPOCA – O senhor disse que é a favor do progresso na Igreja...
Dom José –
Sou, dependendo do tema.

ÉPOCA – Então, que temas o senhor defende? O celibato opcional, por exemplo, qual sua opinião?
Dom José –
O celibato, por lei de Deus, já é opcional, não pode ser imposto por ninguém. Os padres não se casam porque não querem. Nenhuma autoridade do mundo, nem o Papa, pode proibir alguém de se casar. Ou seja, é uma opção livre. Mas, do outro lado, há também o direito da Igreja, a opção da autoridade da Igreja, de escolher seus ministros, seus sacerdotes. Ninguém coloca em dúvida o direito de um presidente escolher seus ministros. A Igreja, através dos séculos, fez essa opção: escolher como sacerdotes aqueles que escolhem o celibato.

ÉPOCA – Por que o senhor afastou tantos padres e párocos na sua gestão? Falam em mais de 30...
Dom José
– Não é verdade.

ÉPOCA – Houve um episódio de uma passeata de padres contra o fechamento do Instituto Teológico do Recife, no início da sua gestão. O instituto foi fundado por Dom Helder e era uma referência no mundo...
Dom José –
Havia ali uma experiência negativa porque eles fizeram uma experiência, um instituto misto, não somente para a formação de padres mas para qualquer outro que queria fazer curso de teologia. Havia candidatos ao sacerdócio, candidatos à vida religiosa, havia mulheres negras, negros, e inclusive não-católicos. Quando eu cheguei aqui, o Iter estava funcionando havia muitos anos. Dizia-se, abertamente, abre aspas, havia mais ou menos 50 homossexuais declarados. Isso não era um ambiente próprio para formar os futuros sacerdotes. Antes mesmo de eu chegar aqui, a Santa Sé mandou um visitador para examinar a situação. Depois da minha chegada, eu sabendo dessa situação, retirei os alunos da arquidiocese e reabri o seminário de Olinda apenas para a formação de sacerotes. Aí veio um decreto fechando o Iter. Quero deixar bem claro que foi uma decisão de Roma, da Santa Sé.

ÉPOCA – Depois de tanto tempo à frente da arquidiocese, há alguma coisa que o senhor faria diferente se pudesse?
Dom José –
Não. Fiz tudo com a consciência de estar cumprindo as leis de Deus e as determinações da Santa Igreja.

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI63883-15228,00-DOM+DEDE+A+EXCOMUNHAO+E+AUTOMATICA.html

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