quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

BENTO 16, WILLIAMSON ETC - sobre o comentário do Jabor

fonte: http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/

BENTO 16, WILLIAMSON ETC

Leitores me pedem que aborde a reportagem veiculada na noite de ontem pelo Jornal da Globo sobre o que pode ser entendido como uma correção de rumo da decisão tomada pelo papa Bento 16 de reabilitar membros da Sociedade São Pio X. Também cobram que analise o comentário de Arnaldo Jabor sobre o assunto. Infelizmente, não assisti ontem ao jornal, o que procuro fazer todos os dias. Recorri à Internet. Abaixo, reproduzo o texto da reportagem (em azul). Volto em seguida — também com considerações sobre a opinião de Jabor.

A secretaria de estado do Vaticano divulgou uma nota exigindo a retratação pública do bispo ultratradicionalista Richard Williamson que afirmou a uma TV sueca que o Holocausto não aconteceu.
O Vaticano agora quer que o bispo retire o que disse, sob pena de continuar excomungado. Ontem, a chanceler alemã, Angela Merkel, pediu ao Papa explicações mais claras.
Promotores investigam se a entrevista foi feita em um seminário católico da Alemanha, onde a negação do Holocausto nazista é crime punido com cinco anos de prisão. Williamson, que vive em Buenos Aires, chegou a pedir desculpas ao Papa na semana passada pelo que chamou de transtornos. Mas, até agora, não se retratou.
Na nota, o Vaticano também afirma que o Papa não sabia da entrevista do bispo quando revogou a sua excomunhão.
Williamson foi expulso da igreja em 1988 pelo Papa João Paulo 2º. Ele pertence ao movimento tradicionalista criado pelo cardeal francês Marcel Lefebvre, que não aceita a modernização trazida pelo Concílio Vaticano 2º.
Outra condição de Bento 16 para aceitar Williamson de volta à igreja é o seu pleno reconhecimento do Concílio Vaticano 2º e do magistério dos papas que reinaram a partir dele.

Comento
O processo de excomunhão de Marcel Lefebvre e seus seguidores é coisa bastante longa e complicada, cheia de nuances. Se vocês quiserem, podem ter acesso à versão da própria Fraternidade São Pio X, que, naturalmente, conta uma história que afirma verdadeira e que lhe é favorável. Então há problema. Mesmo depois da readmissão da Fraternidade e de seus seguidores ao seio da Igreja, pode-se ler lá o que segue em vermelho:
Em 1986 têm lugar os gravíssimos acontecimentos de Assis, quando o Papa João Paulo II convoca, em plano de igualdade, todas as "religiões" do mundo, para que, juntas, rezem "pela paz". Este ato, perfeita manifestação do indiferentismo religioso que anima o ecumenismo e o irenismo modernistas, convence Mons. Lefebvre que as autoridades romanas não só não retrocedem no caminho empreendido no Concílio, mas que até, cada vez mais, o aprofundam. Tem já mais de oitenta anos, e compreende que não existe outra forma de assegurar a continuidade de uma obra sacerdotal integralmente católica, como é a Fraternidade São Pio X, senão consagrando bispos. E em 19 de Abril de 1987 anuncia que o fará, inclusivamente sem autorização do Papa.
Estes bispos não receberão qualquer jurisdição, pois o próprio Mons. Lefebvre carece dela. Limitar-se-ão a administrar os sacramentos da Confirmação e da Ordem Sacerdotal, para o bem das almas fiéis à Tradição Católica, que de outra forma se veriam desamparadas e entregues, inermes, aos erros doutrinais que se difundem livremente pela Igreja.

As palavras acima não pedem interpretação e valem pelo que dizem com clareza insofismável: insubordinação — ainda que se encontre, na introdução de tal texto, o que segue: "(...)a Fraternidade São Pio X é uma instituição católica, apostólica e romana, que está a serviço da Igreja Católica, cuja cabeça é o Papa Bento XVI." Sim, a cabeça da Igreja é Bento 16, como era João Paulo 2º, como eram os que o antecederam. E aqui se sobressai o que considero uma decisão decepcionante do papa, que custa em polêmica o que não custa em entendimento e clareza: a readmissão dos afastados se fez sem que o processo de subordinação da Fraternidade à hierarquia tenha se evidenciado de modo inequívoco.

Não é sem pesar que escrevo isso. Reconheço que a Fraternidade é composta por homens de fé, de convicção, que certamente querem o melhor para a Igreja. Mas não são os únicos. Os grupos se contam às centenas. Contribui para destruir a Igreja quem atinge a sua hierarquia. Como qualquer entidade formada por seres humanos, também ela tem suas disputas e dissensões. Não há boa causa que passe pela indisciplina e pelo desrespeito à autoridade do Sumo Pontífice. Readmitida a Fraternidade, aquelas palavras deveriam ter sido banidas de seu site. E não foram. Tio Rei, como vêem, é papista...

Williamson
Richard Williamson é um capítulo à parte num processo de readmissão um tanto desastrado. Que bem este senhor pode fazer à Igreja e aos homens? Embora possa achar lamentável, creio plausível a afirmação do Vaticano de que o papa ignorava a entrevista. Não, não é para limpar a barra de Sua Santidade, não, que escrevo isso — até porque seria irrelevante. A declaração do tal bispo é, em si, tão absurda e tem tal potencial de desgaste para a Igreja, que, parece-me, o Vaticano teria evitado a bobagem de anunciar a suspensão de sua excomunhão. Uma Igreja assim tão mal-informada é certamente um problema.

Se o Williamson se desculpar de maneira convincente, Bento 16 não tem alternativa a não ser pôr fim à excomunhão, conforme o anunciado. Informa a Reuters: "Chartlotte Knobloch, presidente do Conselho dos Judeus, disse que a decisão do Vaticano foi um sinal positivo (...) 'É o primeiro passo que pode levar à retomada do diálogo com a Igreja Católica', disse Knobloch em nota com tom conciliador. Na semana passada, ela anunciara o rompimento das relações da instituição que dirige com a Igreja Católica."

Não é só Williamson que tem de ser mais claro. Entendo que também a Fraternidade São Pio X tem de ser mais contundente ao evidenciar a sua subordinação à hierarquia. Pessoalmente, preferiria um Bento 16 mais ocupado em conter os abusos ainda freqüentes da Escatologia da Libertação — com seus padres comuno-liberticidas — e mais dedicado em restaurar os valores simbólicos de uma Igreja no mais das vezes burocrática. Isso quando ela não é assaltada por padres-cantores, padres-ginastas, padres-galãs, cuja profundidade teólógica se mede em CDs e DVDs.

Agora Jabor
Jabor resolveu comentar o caso no Jornal da Globo (vídeo aqui). Bem, ele não entende nada de Igreja, de João Paulo 2º e de Bento 16, o que não quer dizer que não possa comentar. Pode, claro. Se fizer uma pesquisa, criativo como é, conseguirá dizer coisas inteligentes.

Segundo Jabor, "João Paulo 2º era para fora, levava a Igreja ao mundo", e "Bento 16 é para dentro, quer que o mundo caiba na Igreja". Afirma ainda que "o papa Bento é um desreformador, e, como todo conservador, quer que tudo esteja igualzinho, que não haja marolas nem discordâncias nem heresias..." E lista lá outros supostos erros papais. Comentar tudo seria por demais extenso, especialmente a parte em que ele acredita que o Islã pode dar pitaco na teologia católica (podemos opinar sobre os caminhos do Corão?). Fico no que é obviamente um erro, sem chance de haver controvérsia factual ou diferenças de julgamento.

O mentor de João Paulo 2º era o cardeal Josef Ratzinger — o futuro Bento 16. Ao estabelecer uma contradição entre ambos, Jabor transformou o papa anterior num reformador, e o atual, num "desreformador". Bobagem. A única grande diferença entre ambos, à parte o carisma pessoal, é que Bento é um teólogo, um intelectual de formação refinada, o que seu antecessor, reconhecidamente, não era.

Foi Ratzinger quem atuou, no comando da Congregação para a Doutrina da Fé, para silenciar os sectários midiáticos da Teologia da Libertação e, vejam só, para excomungar os membros da Fraternidade São Pio X. Coibiu, digamos assim, os sectarismos. Ri um tantinho quando Jabor afirmou, com evidente desaprovação, que o papa, na qualidade de um conservador, não gosta de "heresias". Espero que Deus nos poupe de um progressista que venha um dia a apoiar heresias, né? Seria certamente o fim da Igreja. A disciplina — e foi a falta dela que levou à punição de Lefebvre e seus seguidores — é necessária justamente para preservar a doutrina.

Falta a Igreja descobrir quem pode ser o Josef Ratzinger de Bento 16. Ele, com efeito, parece estar mais só do que João Paulo 2º.

PS: Não sei se torço para Williamson se retratar, e, assim, a estupidez tem ao menos um pequeno revés, ou se torço para ele ficar em silêncio, o que manteria a excomunhão... Na verdade, torço é para que ele fique longe da Igreja.


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"Desejar e escolher somente aquilo que mais nos conduz ao fim para o qual somos criados" (Santo Inácio de Loyola)

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Gabriel de Souza Leitão
Estudante de Engenharia da Computação
Universidade Federal do Amazonas (UFAM)
Brasil
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Gabriel de Souza Leitão
Computational Engineering Student
Federal University of Amazonas (UFAM)
Brazil
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