sábado, 10 de janeiro de 2009

Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650) - parte V

Em todos os estados da corte haverá mais que separar que em nenhuns outros. Mas deixando por agora os demais, em que cada um se pode pregar a si mesmo: chegarão finalmente os anjos ao lugar dos reis. Não se verão ali sitiais, nem outros aparatos de majestade, mas todos sós, e acompanhados sòmente de suas obras, estarão em pé, como réus. Conhecer-se-ão distintamente quais foram os reis de cada reino: quais os de Hungria, quais os de França, quais os de Inglaterra, quais os de Castela, quais os de Portugal. E desta maneira irão os anjos tirando de cada coroa aqueles que foram maus reis: Et separabun malos de medio justorum. Espero eu em Deus que neste dia há-de ser o nosso reino singular entre os do Mundo, e que só dele não hão-de achar os anjos que apartar. Se eu estudara só pelo meu desejo e pela minha esperança, assim o havia de crer; mas quando leio as Escrituras, acho muito que temer e muito que duvidar. Dos reis, como dos outros homens, nós não sabemos quais se salvam nem quais se perdem. Só uma nação houve antigamente, da qual nos consta do texto sagrado quantos foram os reis que se salvaram e quantos os que se perderam. Tremo de o dizer, mas é bem que se saiba distintamente: No povo hebreu, em tempo que era povo de Deus, houve tres reinos: o primeiro foi o reino das Doze Tribos; teve três reis e durou cento e vinte anos; o segundo foi o reino de Judá; teve vinte reis e durou trezentos e noventa e quatro anos o terceiro foi o reino de Israel; teve dezanove reis, e durou duzentos e quarenta e dois anos. Saibamos agora quantos reis foram os que se salvaram e quantos os que se perderam nestes reinos.

No reino das Doze Tribos, de três reis perdeu-se Saul, salvou-se David, de Salomão não se sabe. No reino de Judá, de vinte reis salvaram-se cinco, perderam-se treze, de dois é incerto. No reino de Israel, nem estas tão pequenas excepções teve a desgraça; foram os reis dezanove e todos os dezanove se condenaram. No Dia do Juízo não se poderá cumprir neste reino o Separabunt malos de medio justorum: chegarão os anjos ali não terão que separar, levarão a todos. Oh desgraçados ceptrós! Oh desgraçadas coroas! Oh desgraçados pais! Oh desgraçada descendência! Desde Jeroboão a Oseas dezanove reis coroados: dezanove reis condenados.

Pois por certo que não foi por falta de doutrina nem de auxílios: tinham estes reis conhecimento do verdadeiro Deus; tinham um povo, que era o povo escolhido de Deus, tinham templo, tinham sacerdotes, tinham sacrifícios, viam milagres, ouviam profecias, recebiam favores do Céu, e quando era necessário, não lhes faltavam também castigos; e nada disto bastou. Muito arriscada cousa deve ser o reinar, pois em tantos tempos e em tantos reis, se salvam, ou tão poucos, ou nenhum. Julguem lá agora os príncipes quais serão as causas disto, que Deus não é injusto. Examinem mais escrupulosamente suas consciências, e olhem a quem as comunicam; considerem muito de vagar as suas obrigações, que são muito mais estreitas do que ordinàriamente cuidam; inquiram muito de propósito sobre os danos públicos e particulares de seus vassalos, e vejam, pondo de parte todo o afecto, se suas orações ou suas omissões podem ser a causa; persuadam-se que hão-de aparecer como qualquer outro homem diante do tribunal da Justica Divina, onde se Ihes há-de pedir rigorosíssima conta, dia por dia e hora por hora, de quanto fizeram e de quanto o deixaram de fazer. Cuide finalmente e pese, convém, cada um dos príncipes, quão grande desaventura e confusão sua será naquele cadafalso universal do Dia do Juízo, se depois de tanta majestade e adoração nesta vida, vier um anjo e o tomar pela mão, e o tirar para sempre do número dos que se hão-de salvar: Separabunt malos de medio justorum.

Por este modo se irá continuando a separação dos maus em todos os estados do Mundo; e naqueles em que por razão do sangue e do amor é mais natural a união, será mais lastimoso o apartamento. Verdadeiramente, todas as outras circunstancias daquele acto terão muito de rigorosas, esta parecerá cruel. Apartar-se-ão ali os pais dos filhos: irá para uma parte Abraão e para outra Ismael; apartar-se-ão os irmãos dos irmãos: irá para uma parte Jacob e para outra Esaú; apartar-se-ão as mulheres dos maridos: irá para uma parte Ester e para outra Assuero; apartar-se-ão os amigos dos amigos: (seja o exemplo incerto, já que há tão poucos de verdadeira amizade) irá para uma parte Jónatas e para outra David. Assim se apartarão para nunca mais os que se amam nesta vida e os que tinham tantas razões para se amarem também na outra.

Para nunca mais! Oh! que lastimosa palavra! Se apartar-se de uma terra para outra terra, com esperança de se tornar a ver, causa tanta dor nos que se amam; se apartar-se desta vida para a outra vida, com probabilidade de se verem eternamente, é um transe tão rigoroso; que dor será apartarem-se para nunca mais, com certeza de se não verem em quanto Deus for Deus, aqueles a que a natureza e o amor tinham feito quase a mesma cousa! Certo que tem assaz duro coração quem só pelo não meter nestes apertos não ama a Deus com todo ele.


(continua)

Nenhum comentário: