quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650) - parte III

Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650)
1 - Parte I
2 - Parte II (a)
3-ParteII(b)

III

Unidas as almas aos corpos e restituidos os homens à sua antiga inteireza, os bem ressuscitados alegres, os mal ressuscitados tristes, começarão a caminhar todos para o lugar do juízo. Será aquela a vez primeira em que o género humano se verá a si mesmo, porque se ajuntarão ali os que são, os que foram, os que hão-de ser, e todos pararão no vale de Josafat. Se o dia não fora de tanto cuidado, muito seria para ver os homens grandes de todas as idades juntos. Mas vejo que me estão perguntando, como é possível que uma multidão tão excessiva como a de todo género humano, os homens que se continuaram desde o princíplo até agora, e os que se irão multiplicando sucessivamente até o fim do Mundo; como é possível que aquele número inumerável, aquela multidão quase infinita de homens caiba em um vale? A dúvida é boa, queira Deus que o seja a resposta. Primeiramente digo que nisto de lugares há grande engano: cabe muito mais nos lugares do que nós cuidamos.

No primeiro dia da criação, criou Deus o Céu e a Terra e os elementos, e é certo em boa filosofia, que não ficou nenhum vácuo no Mundo, tudo estava cheio. Com isto ser assim, e parecer que não havia já lugar para caber mais nada, ao terceiro dia vieram as ervas, as plantas, e as árvores; e com serem tantas em número e tão grandes, couberam todas. Ao quarto dia veio o Sol, e sendo aquele imenso planeta cento e sessenta e seis vezes maior que a Terra, coube também o Sol; vieram no mesmo dia as estrelas tantas mil, e cada uma de tantas mil léguas, e couberam as estrelas. Ao quinto dia vieram as aves ao ar, e couberam as aves; vieram os peixes ao mar, e com haver neles tantos monstros de disforme grandeza, couberam os peixes. No sexto dia vieram os animais tantos e tão grandes à Terra, e couteram os animais: finalmente veio o homem, e foi o homem o primeiro que começou a não caber; mas se não coube no Paraiso, coube fora dele. De sorte que, como dizia. nisto de lugares vai grande engano: cabe neles muito mais do que nos parece. E senão, passemos a um exemplo moral, e vejamo-lo em qualquer lugar da república. O dia é do juízo, seja o lugar de um julgador.

Antigamente em um lugar destes que é o que cabia? Cabia o doutor com os seus textos e umas poucas de postilhas, muito usadas, e por isso muito honradas. Cabia mais uma mula mal pensada, se a casa estava muito longe do Limoeiro. Cabiam os filhos honestamente vestidos; mas a pé e com a arte debaixo do braço. Cabia a mulher com poucas jóias, e as criadas, se passavam da unidade, não chegavam ao plural dos gregos. Isto é o que cabia naquele lugar antigamente; e feitas boas contas, parece que não podia caber mais. Andaram os anos, o lugar não cresceu, e tem mostrado a experiência que é muito mais sem comparação o que cabe no mesmo lugar. Primeiramente cabem umas casas, ou pacos, que os não tinham tão grandes os condes do outro tempo; cabe uma livraria de Estado, tamanha
como a vaticana, e talvez com os livros tão fechados como ela os tem; cabe um coche com quatro mulas, cabem pajens, cabem lacaios, cabem escudeiros; cabe a mulher em quarto apartado, com donas, com aias e com todos os outros arremedos da fidalguia; cabem os filhos com cavalos e criados, e talvez com o jogo e com outras mocidades de preço; cabem as filhas maiores com dotes e casamentos de mais de marca, as segundas nos mosteiros com grossas tenças; cabem tapeçarias, cabem baixelas, cabem comendas, cabem benefícios, cabem moios de renda; e sobretudo cabem umas mãos muito lavadas e uma consciência muito pura, e infinitas outras cousas, que só na memória e no entendimento não cabem. Não é isto assim? Lá nessas terras por onde eu agora andei, assim é. Pois se tudo isto cabe em um lugar tão pequeno, que grande serviços fazemos nós à Fé em crer que caberemos todos no vale de Josafat? Havemos de caber todos, e se vierem outros tantos mais, para todos há de haver vale e milagre.

De mais desta razão geral que há da parte do lugar, há outras duas da parte das pessoas; uma da parte dos bons, outra da parte dos maus. Os bons poderão caber ali em muito pouco lugar, porque terão o dote da subtileza. Entre os quatro dotes gloriosos há um que se chama subtileza, O qual comunica tal propriedade aos corpos dos bem-aventurados, que todos quantos se hão-de achar no dia do juízo podem caber neste lugar onde eu estou, sem me tirarem dele. Cá no Mundo também há este dote da subtileza, mas com mui diferentes propriedades. A subtileza do Céu introduz a um sem afastar a outro; as subtilezas do Mundo, todo seu cuidado é afastar os outros para se introduzir a si. Por isso não há lugar que dure nem lugar que baste. Muito é que Jacob e Esaú não coubessem em uma casa; mais é que Lot e Abraão não coubessem em uma cidade; muito mais é que Saul e David não coubessem em um reino; mas o que excede toda a admiração é que Caim e Abel não coubessem em todo o Mundo. E porque não cabiam dois homens em tão imenso logar? Pior é a causa que o caso. Caim não cabia com Abel, porque Abel cabia com Deus. Em um homem cabendo com seu Senhor, logo os outros não cabem com ele. Alguma vez será isto soberba dos Abéis, mas ordinàriamente é inveja dos Cains. Se é certo que com a morte se acaba a inveja, fàcilmente caberemos todos no Dia do Juízo. Quereis caber todos? Não acrescenteis lugares, diminuí invejas. Este é o dote da subtileza dos bons.

Da parte dos maus também não há-de haver dificuldade em caber no vale; porque ainda que os maus são tantos, e hoje tão grandes e tão inchados, naquele dia hão-de estar todos muito pequeninos. que no tempo do Dilúvio coubessem na arca de Noé todos os animais do Mundo em suas espécies, crê-o a Fé, porque o diz a Escritura; mas não o compreende o entendimento porque o não alcança a razão. Como pode ser que coubessem em tão pequeno lugar tantos animais, tão grandes e tão feros? O leão, para quem toda a Líbia era pouca campanha; a águia, para quem todo o ar era pouca esfera; O touro, que não cabia na praça; O tigre, que não cabIa no bosque; o elefante, que não cabia em si mesmo. Que todos estes animais e tantos outros de igual fereza e grandeza coubessem juntos em uma arca tão pequena?! Sim, cabiam todos, porque, ainda que a arca era pequena, a tempestade era grande. Alagava Deus naquele tempo a terra com dilúvio universal, que foi a maior calamidade que padeceu o Mundo; e nos tempos dos grandes trabalhos e calamidades até o instinto faz encolher os animais, quanto mais a razão aos homens! Caberão os homens no vale de Josafat, assim como couberam os animais na arca de Noé: Sicut fuit in diebus Noe, sic erit in consummatione saculi. Diz o texto que só com os sinais do fim do Mundo hão-de andar todos os homens secos e mirrados: Arescentibus hominibus pra timore: Se aos homens os há de apertar tanto o receio, quanto os estreitará o juízo! Oh como nos encolheremos todos naquele dia! Oh como estarão pequenos ali os maiores gigantes! A maior maravilha do Dia do Juízo, não é haver de caber todo o Mundo em todo o vale de Josafat; a maravilha maior será que caberão então em uma pequena parte do vale muitos que não cabiam em todo o Mundo. Um Nabucodonosor, um Alexandre Magno, um Júlio César, para quem era estreita a redondeza da Terra, caberão ali em um cantinho.

Uma das cousas notáveis que diz Cristo do Dia do Juízo é que «cairão as estrelas do céu» . StelIæ cadent de cæelo. Se dermos vista aos matemáticos, hão-de achar grande dificuldade neste texto (eu Ihes darei a razão natural dele, quando ma peçam). Todas as estrelas, menos duas, são maiores que a Terra, e algumas há que são quarenta, oitenta e cento e dez vezes maiores. Pois se as estrelas são maiores que a terra, como hão-de cair e caber cá em baixo? Hão-de caber, porque hão-de cair. Não sabeis que os levantados e os caídos não têm a mesma medida? Pois assim Ihes há-de suceder às estrelas. Agora que estão levantadas, ocupam grandes espaços do Céu; como estiverem caídas, hão-de caber em poucos palmos da Terra. Não há cousa que ocupe menor lugar que um caído. A Terra, em comparação do Céu, é um ponto; o centro, em comparação da Terra, é outro ponto; e Lúcifer, que levantado não cabia no Céu, caído cabe no centro da Terra. Ah Lucíferes do Mundo! Aqueles que levantados nas asas da prosperidade humana em nenhum lugar cabeis hoje, caídos e derribados naquele dia. cabereis em muito pouco lugar. Estaremos todos ali encolhidos e sumidos dentro em nós
mesmos cuidando na conta que havemos de dar a Deus; e quando não houvera outra razão, esta só bastava para não faltar lugar a ninguém. Deem os homens em cuidar na conta que hão-de dar a Deus, e eu vos prometo que sobejem lugares. O que importa é que o lugar seja bom, que quanto é lugar, vale de Josafat haverá para todos.

(continua)

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