segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650) - parte II(b)

Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650)
1 - Parte I
2 - Parte II (a)

(continuação da parte II)

Que maior vingança da fortuna que as mudanças tão notáveis, que se verão naquele dia! Virão naquele dia as almas do grande e do pequeno buscar seus corpos à sepultura, e talvez à mesma Igreja: e que sucederá pela maior parte? O pequeno achará seus ossos em um adro sem pedra nem letreiro, e ressuscitará tão ilustre como as estrelas. O grande, pelo contrário, achará seu corpo embalsamado em caixas de pórfiro, aos ombros de leões, ou elefantes de mármore, com soberbos e magníficos epitáfios, e ressuscitará mais vil que a mesma vileza. Oh que metamorfose tão triste, mas que verdadeira! Vede se há-de dar Deus boa satisfação aos homens da desigualdade com que hoje nascem. O ser bem nascido, que é uma vaidade que se acaba com a vida, é verdade que o não pôs Deus na nossa mão; mas o ser bem ressuscitado, que é aquela nobreza que há-de durar por toda a eternidade, essa deixou Deus no alvedrio de cada um. No nascimento somos filhos de nossos pais, na ressurreição seremos filhos de nossas obras. E que seja mal ressuscitado por culpa sua quem foi bem nascido sem merecimento seu! Lástima grande. Ressuscitar bem sobre haver nascido mal, é emendar a fortuna; ressuscitar mal sobre haver nascido bem, é pior que degenerar da natureza. Que ressuscite bem David sobre nascer de Jessé, grande glória do filho de um pastor; mas que ressuscite mal Absalão sobre nascer de David, grande afronta do filho de um rei! Se os homens se prezam tanto de ser bem nascidos, como fazem tão pouco caso de ser bem ressuscitados? Nenhuma cousa trazem na boca os grandes mais ordinàriamente, que as obrigações com que nasceram. E aposto eu que mui poucos sabem quais são estas obrígações. Nascer bem é obrigacão de ressuscitar melhor. Estas são as obrigações com que nascestes.

O mais bem nascido homem que houve, nem pode haver, foi Cristo; ninguém teve melhor pai, nem melhor mãe; e foi notar Santo Agostinho que, se Cristo nasceu bem, ressuscitou melhor: Gloriosior est ista ,nativitas, quam illa: illa cortus mortale genuit, ista redidit immortale. Cristo, diz Santo Agostinho, «nasceu mais nobremente no segundo nascimento que no primeiro: no primeiro nascimento nasceu mortal e passível; no segundo, que foi a sua ressurreição, nasceu impassível e imortal» Eis aqui as obrigações dos bem nascidos—nascerem a segunda vez melhor do que nasceram a primeira. Se Deus pusera na mão do homem o nascer, quem houvera, por bom que fosse, que não se fizesse muito melhor? Pois este é o caso em que estamos. Se havemos de tornar a nascer, porque não trabalharemos muito por nascer muito honradamente? Não nascer honrado no primeiro nascimento, tem a desculpa de que «Deus nos fez» Ipse fecit nos, Não nascer honrado no segundo, nenhuma desculpa tem: tem a glória de sermos nós os que nos fizemos: Ipsi nos. Que glória será naquele dia para um homem poder tomar para si em melhor sentido o elogio do grande Baptista: Inter natos mulierum non surrexit major:«Entre os nascidos das mulheres nenhum ressuscitou maior». Ser o maior dos nascidos, em quanto nascido, é pequeno louvor e de pouca dura; ser o maior dos nascidos, em quanto ressuscitado, isso éverdadeiramente o ser maior. Na nossa mão está, se o quisermos ser. Nesta vida o mais venturoso pode nascer filho do rei; na outra vida todos os que quiserem podem nascer filhos do mesmo Deus: Dedit eis potestatem filios Dei fieri. E que não sejam isto considerações, senão verdade e Fé católica! Bendito seja aquele Senhor, que é nossa ressurreição e nossa vida: Ego sum resurrectio et vita.


(continua)

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