quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O caso Galileu (parte 9 de 10)

Parte 1: O MITO E O AMBIENTE
Parte 2: A Astronomia (Sistema Heliocêntrico e Sistema Geocêntrico)
Parte 3: A Astronomia (Sistema Geocêntrico e Sistema Misto)
Parte 4: Os Eclesiásticos e a Astronomia, A Interpretação da Bíblia
Parte 5: A Inquisição e o Index Librorum Prohibitorum
Parte 6: Os Processos (O primeiro processo)
Parte 7: Os Processos (O primeiro processo) - continuação
Parte 8: O Segundo Processo (1633) e Comentários

Além das penas pessoais, também proibiu-se o livro de Galileu.

No dia seguinte, a sentença é comutada pelo Papa. Galileu vai viver no palácio do Embaixador de Florença e depois passa para a casa do Arcebispo Piccolomini, seu discípulo e admirador, em uma espécie de prisão domiciliar. Foi-lhe permitido voltar a Florença em 10.12.1633, cinco meses e oito dias depois da condenação.

Como se vê, nada de condenação por heresia, torturas, fogueira, etc. É verdade que durante o processo, em virtude de suas evasivas, foi ameaçado de tortura, de acordo com os trâmites processuais. Por outra, a tortura nunca era infligida a pessoas idosas ou enfermas. Galileu estaria isento por ambas as condições.

“Embora reconheçamos que o segundo processo teve, como gravame, a vaidade e a insinceridade de Galileu, devemos todavia lamentar profundamente a primeira condenação de 1616 como inquietante erro judicial, e como abuso de poder diretamente catastrófico em suas conseqüências” [proibição das obras de Copérnico]15.

Em 1637, Galileu fica cego. Em 1638, publica o livro Diálogo das duas novas ciências, que são a Resistência dos Materiais e a Mecânica Racional, básicas para vários ramos da engenharia.

Morre em 08.01.1642, assistido por um sacerdote, como bom católico.


4. COMENTÁRIOS

a) Muitos dos comentários a seguir são retirados da obra de Jorge Cintra.

O episódio de Galileu é lamentável, mas compreensível, se levarmos em consideração o ambiente, costumes e mentalidades vigentes naquela época.

A imagem Galileu versus Igreja, ou ciência versus Igreja, foi criada por pensadores anticatólicos dos séculos XVIII e XIX, para apresentar a Igreja como inimiga da ciência, do progresso e da razão.


O túmulo de Galileu, concebido por
Giambattista Foggini, na Basílica di San
ta Croce, em Florença.

Muitos eclesiásticos estudavam sistematicamente astronomia e vários deles vinham defendendo o sistema heliocêntrico mesmo antes de Galileu, como o próprio Copérnico, que era cônego.

A Igreja não queria proibir que se discutisse o sistema de Copérnico, mas apenas solicitava que não fosse apresentado como incontestável, enquanto não houvesse provas decisivas. O argumento das marés, que Galileu apresentou como prova máxima, era falso.

– Aliás, como já tínhamos comentado, pela atual filosofia da ciência, nada é definitivo em ciência; mesmo as teorias mais “badaladas” podem cair. Um exemplo é a famosa teoria do evolucionismo, de Darwin. Pelos conhecimentos atuais, não há “elos perdidos”. O que aconteceu foram mutações fortes, mudanças bruscas que geraram novas espécies, cuja estabilidade está cada vez mais comprovada. Uma espécie aparece “subitamente” e se mantém praticamente inalterada, até desaparecer. Sobre evolucionismo recomendamos a obra de Evolucionismo: mito e realidade, de Jorge Cintra, uma excelente e resumida apresentação do tema16.

Outros exemplos temos na própria astronomia, com as diversas teorias sobre a formação dos planetas, sobre o universo em expansão, em contração, pulsante, etc.

Parte do acontecido deve-se ao caráter de Galileu, polêmico, ríspido, agressivo, e ao fato de ter difundido prematuramente suas conclusões científicas, sem provas suficientes.

Houve também um erro grave por parte de representantes da Igreja, que se intrometeram em matéria exclusivamente científica e condenaram um sistema astronômico, no processo de 1616.

b) Do filósofo cético-agnóstico Paul Feyerabend citamos: “No tempo de Galileu, a Igreja se manteve mais fiel à razão do que o próprio Galileu e levou em consideração também as conseqüências éticas e sociais da doutrina de Galileu. O processo contra Galileu era justo e racional”17.

c) Palavras do físico Nicola Cabibbo, presidente do Instituto Nacional de Física Nuclear da Itália: “Se examinarmos o processo, vemos que Galileu não foi condenado pelas suas teses científicas, mas porque tentava fazer teologia. O próprio Galileu afirmava, errando: visto que a Terra gira em torno do Sol, devemos mudar a Sagrada Escritura. Nesse caso, quando Newton descobriu a gravitação universal e Einstein a relatividade, deveríamos ter mudado de novo os textos sagrados”18.

d) Filósofo laico Emanuele Severino, falando sobre a reabilitação de Galileu pela Igreja: “recitando o «mea culpa» sobre Galileu, a Igreja atribui à ciência um valor absoluto justamente hoje, quando a ciência reconhece que não tem verdades absolutas e indiscutíveis. É estranho que não levem em conta as considerações do Cardeal Belarmino, que aconselhou Galileu a expor as suas teorias em forma de hipótese e não de verdades absolutas. A postura de Belarmino era muito mais moderna, com uma consciência crítica do saber científico superior à de Galileu”19.

e) Em 03.07.1981, o Papa João Paulo II nomeou uma comissão de teólogos, cientistas e historiadores, a fim de aprofundarem o exame do caso Galileu. Os resultados foram apresentados após onze anos, em 31.10.1992. Neste mesmo dia, 350.º aniversário da morte de Galileu, realizou-se sessão solene da Pontifícia Academia de Ciências. Do discurso que então proferiu João Paulo II extraímos os seguintes trechos:

Galileu rejeitou a sugestão de apresentar o sistema de Copérnico como uma hipótese, até ser confirmado por provas irrefutáveis. Tratava-se de uma exigência do método experimental, do qual ele foi o iniciador genial”. (Isto é, Galileu errou em seu próprio terreno).

“O problema que os teólogos da época se puseram era o da compatibilidade do heliocentrismo e da Escritura.
A ciência nova, com os seus métodos e a liberdade de investigação que eles supõem, obrigava os teólogos a interrogarem-se sobre os seus próprios critérios de interpretação da Escritura. A maioria não o soube fazer. Paradoxalmente, Galileu, fiel sincero, mostrou-se sobre este ponto mais perspicaz do que os seus adversários teólogos. Se a Escritura não pode errar, escreve ele a Benedetto Castelli (em 1613), alguns dos seus intérpretes e comentaristas o podem e de muitas maneiras. Também é conhecida a sua carta a Cristina de Lorena (em 1615), que é como que um pequeno tratado de hermenêutica bíblica”.

A maioria dos teólogos não percebia a distinção formal entre a Escritura Sagrada e a sua interpretação, o que os levou a transpor indevidamente para o campo da doutrina da fé uma questão, de fato relevante, da investigação científica.”

“Recordemos a frase célebre atribuída a Baronio:
O Espírito Santo quer nos dizer como se vai para o céu; não como vai o céu”. “Belarmino, que tinha percebido o que estava realmente em jogo no debate, considerava que, diante de eventuais provas científicas do movimento orbital da Terra ao redor do Sol, devíamos interpretar, com uma grande circunspeção, toda a passagem da Bíblia que parece afirmar que a Terra é imóvel, e «dizer que não o compreendemos, antes de afirmar que é falso o que se demonstra» (Carta ao Pe. Foscarini, 12.04.1615)”.

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