terça-feira, 30 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 8 de 10)

Parte 1: O MITO E O AMBIENTE
Parte 2: A Astronomia (Sistema Heliocêntrico e Sistema Geocêntrico)
Parte 3: A Astronomia (Sistema Geocêntrico e Sistema Misto)
Parte 4: Os Eclesiásticos e a Astronomia, A Interpretação da Bíblia
Parte 5: A Inquisição e o Index Librorum Prohibitorum
Parte 6: Os Processos (O primeiro processo)
Parte 7: Os Processos (O primeiro processo) - continuação

3.2. O Segundo Processo (1633)

Em novembro de 1618 apareceram três cometas na Europa. Foi o estopim para recomeçarem as discussões, com Galileu violento no falar como antes.

Entre 1624 e 1630, Galileu escreve um novo livro, Diálogo sobre os dois Sistemas Máximos de Mundo, o Ptolomaico e o Copernicano. Galileu comunicara ao Papa Urbano VIII que pretendia escrever esse livro. O Papa o apoiara, aconselhando-o, porém, a não entrar em conflito com o Santo Ofício e a tratar o sistema de Copérnico como hipótese. Uma recomendação perfeitamente correta para os dias atuais, pois agora é ponto pacífico que em ciência nada é definitivo.

Em maio de 1630, Galileu vai a Roma para obter o necessário “Imprimatur”. O encarregado de examinar seu livro, Pe. Riccardi, era amigo pessoal de Galileu. Conclui que eram necessárias algumas correções:

1.º) Mudar o título, que era Diálogo sobre as marés, porque destacava muito o único argumento (e errado) de Galileu para provar o sistema copernicano.

2.º) Alterar algumas passagens.

3.º) Alterar o prefácio, de modo a não apresentar o sistema heliocêntrico como verdade segura, mas sim como hipótese.

Diante disso, Galileu resolveu imprimir o livro em Florença. Riccardi concordou, desde que Galileu lhe trouxesse o primeiro exemplar da obra, com as devidas correções, para receber o “Imprimatur”. Galileu argumenta que a epidemia de Peste dificultava a comunicação entre as duas cidades. Mais uma vez, cede Riccardi, concordando com o exame da obra em Florença, bastando enviar a Roma o título e o Prefácio.

Frontispício da primeira edição do Diálogo, datada de 1632 e dedicada ao Duque Fernando II de Médici.


Em Florença, Galileu consegue que o revisor seja outro amigo seu, Giacinto Stefani, que foi induzido a pensar que a obra já tinha sido aprovada em Roma. Stefani concedeu a autorização. O título e o prefácio foram enviados para aprovação e o livro foi publicado em 1632.

Quando Riccardi recebeu um exemplar da obra completa, viu com surpresa que, antes da aprovação florentina, figurava a sua. E sem nenhuma correção no corpo do livro: o sistema copernicano era apresentado em toda a obra, exceto no Prefácio, como verdade incontroversa.

Urbano VIII, pressionado pelos inimigos de Galileu, e considerando a desobediência formal à proibição de 1616, passou o assunto à Inquisição.

A comissão encarregada de examinar a obra agrupou a censura em oito pontos, esclarecendo nas conclusões que todos eles podiam ser corrigidos (as marés como falsa prova, apresentar o sistema copernicano apenas como hipótese, etc.). Mas, acrescentava, a desobediência era um agravante bastante sério (o grifo é nosso, pois as conclusões da comissão mostram que o problema era, basicamente, disciplinar).

Galileu, chamado a Roma para julgamento, depois de vários adiamentos (doença, velhice, Peste, inundações, foram os motivos alegados), lá chega em 12.02.1633. Hospedou-se inicialmente no palácio do Embaixador de Florença; depois passou a residir no edifício da Inquisição, em aposentos do Fiscal da Inquisição, “cômodos e abertos” (nada de aprisionamento em masmorras, “a pão e água”, como diz uma das lendas).

Galileu diante da Inquisição Romana (1857), de Cristiano Banti. O quadro é evidentemente romanceado: Galileu parece bem mais jovem do que na realidade era quando do processo e mantém-se em atitude desafiadora.


Foi submetido a quatro interrogatórios:

– No primeiro negou que houvesse defendido o sistema heliocêntrico em seu livro.

– No segundo, declarou que, relendo o livro, reparara que em alguns trechos o leitor podia realmente pensar que ele defendia tal sistema.

– No terceiro, desculpou-se por desobedecer à proibição de 1616, afirmando que a advertência tinha sido verbal e que não se recordava de uma ordem para ele em particular.

– No quarto e último interrogatório (em 21.06.1633), quando lhe perguntaram solenemente se defendia o sistema copernicano, respondeu negativamente.

No dia seguinte, em Decreto do Santo Ofício, é publicada a sentença, na qual consta: “... é absolvido da suspeição de heresia, desde que abjure, maldiga e deteste ditos erros e heresias...”. Galileu ouviu de pé e com a cabeça descoberta a leitura de sua condenação (três anos de prisão; recitação semanal dos sete salmos penitenciais, por três anos). Depois, de joelhos e com uma mão sobre os Evangelhos, assinou um ato de abjuração, no qual declarava que era “justamente suspeito de heresia”.

Nesta ocasião, Galileu teria exclamado, batendo com o pé no chão: “e pur si muove” (e todavia se move). Lenda inverossímil, dadas as circunstâncias (estava de joelhos). É uma fantasia que apareceu pela primeira vez em 1757 (mais de um século depois), em obra do jornalista italiano Giuseppe Baretti (1719-1789).


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