domingo, 28 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 7 de 10)

Parte 1: O MITO E O AMBIENTE
Parte 2: A Astronomia (Sistema Heliocêntrico e Sistema Geocêntrico)
Parte 3: A Astronomia (Sistema Geocêntrico e Sistema Misto)
Parte 4: Os Eclesiásticos e a Astronomia, A Interpretação da Bíblia
Parte 5: A Inquisição e o Index Librorum Prohibitorum
Parte 6: Os Processos (O primeiro processo)

E assim a disputa, que deveria ser de caráter científico, passou para a exegese e a teologia. Os debates se multiplicaram. O beneditino Castelli defendia a opinião de Galileu. Este escreveu diversas cartas, dirigidas, entre outros, ao próprio Castelli, a Clavius e ao Cardeal Roberto Belarmino (canonizado em 1930), defendendo-se. Da carta a Castelli transcrevemos um trecho, pela posição correta assumida por Galileu, no que diz respeito à interpretação da Bíblia:

A Escritura não se engana, mas sim os seus intérpretes e comentadores, de várias maneiras, entre as quais uma gravíssima e freqüentíssima, quando querem fixar-se sempre no puro sentido literal, pois assim aparecerão não só diversas contradições, mas também graves erros e heresias; seria necessário dar a Deus pés e mãos, e olhos, e também coisas corpóreas e humanas, como cólera, arrependimento, ódio, esquecimento do passado e ignorância do futuro. Donde, assim como na Escritura se encontram muitas proposições falsas quanto ao sentido nu das palavras, mas assim postas para se acomodarem ao numeroso vulgo, assim ... é necessário que os sábios comentadores apresentem o verdadeiro sentido”13.

Essa carta foi difundida por meio de cópias, e o dominicano Niccolò Lorini enviou uma delas à Sagrada Congregação do Index (Inquisição Romana). A carta foi examinada, qualificada favoravelmente e o caso encerrado.

Entretanto, Galileu insistia em debater no terreno exegético-escriturístico, abandonando as razões científicas do sistema astronômico que defendia. Queria forçar uma decisão urgente da Sagrada Congregação para que certas passagens da Escritura fossem interpretadas de modo diferente do usual havia séculos.

Foi advertido para que deixasse o lado teológico da questão e usasse apenas argumentos das ciências naturais para justificar o sistema heliocêntrico.

Paolo Antonio Foscarini, carmelita da Calábria, publica em 1615 a sua Lettera sopra l'opinione dei Pitagorici e del Copernico (“Carta sobre a opinião dos pitagóricos e de Copérnico”) em que defende a opinião de Copérnico.

O Cardeal Belarmino recomenda prudência a Galileu e a Foscarini: que não apresentassem o sistema heliocêntrico como verdade definitiva (o que não existe na ciência; nesta, nada é definitivo) e que não forçassem reinterpretações da Sagrada Escritura, enquanto não houvesse provas demonstrativas do novo sistema. Eis trechos de sua carta:

“Uma coisa é sustentar o movimento da Terra e a estabilidade do Sol como hipótese, e isso está muito bem dito e não tem perigo algum..., e é tudo quanto deveria bastar ao matemático”.

E mais adiante, na mesma carta:

“Quando fosse verdadeiramente demonstrado que o Sol está no centro do mundo e a Terra no terceiro céu, e que o Sol não circunda a Terra, mas sim a Terra circunda o Sol, então seria necessário com muitas considerações, pelo contrário, que são coisas que não podemos entender. Por mim, não acreditarei que seja possível tal demonstração, até que me seja apresentada”14.

O fato é que Galileu não dispunha de alguma prova concreta ou convincente. A prova em que insistia, do fluxo e refluxo das marés, estava errada. As marés são causadas pela força gravitacional da Lua e do Sol. Ademais, se fossem causadas pela rotação da Terra, deveria haver só uma maré por dia, e não duas.

Acenou, como prova, para os ventos alísios, mas não pôde quantificar o fenômeno. E aí estava certo, pois o desvio para o Oeste dos ventos que sopram para o Equador em ambos os hemisférios é causado pela rotação da Terra.

Em conclusão: não tinha provas científicas. Como vimos, tentou provar suas idéias por meio da Bíblia. Somente muito mais tarde, em 1851, é que o físico e astrônomo francês Jean Foucault conseguiu provar o movimento de rotação da Terra, com um pêndulo dependurado do teto do Panthéon de Paris, que oscila em um plano fixo enquanto a Terra gira.

Entrementes, o padre dominicano Tommaso Caccini fazia vários ataques aos matemáticos e aos adeptos de Galileu. O primeiro destes ataques aconteceu por ocasião de um sermão sobre o milagre de Josué (em que o Sol teria parado; cf. Js 10, 7-15). Caccini foi chamado a Roma para explicar os ataques a Galileu e aproveitou a ocasião para, junto com outros, pressionar o Santo Ofício, para que Galileu fosse condenado.

Galileu continuou, com seu estilo polêmico, a discutir. Diz a Enciclopédia Mirador Internacional (verbete Galileu) que era “de um estilo de grande vivacidade, freqüentemente irônico e mordaz, pois era um temperamento polêmico”. Eis exemplos (de outras fontes, citadas neste trabalho) de seu estilo de argumentar, nada científico: recorria aos vocábulos “idiotas, bufos, hipócritas, impostores, ignorantes, estúpidos, animais”

Em 24.01.1616, em sessão do Santo Ofício, os consultores apresentam seu parecer sobre a controvérsia. Qualificam duas proposições:

1.º) Sol fixo. É considerada falsa e absurda do ponto de vista filosófico e formalmente herética, por estar em contradição com várias passagens da Sagrada Escritura, de acordo com o sentido literal e a interpretação corrente dos Padres da Igreja.

2.º) Rotação da Terra e translação em torno do Sol. Falsa e absurda, do ponto de vista filosófico, e errônea na fé.

No dia seguinte, há uma reunião dos Cardeais, sob a presidência do Papa Paulo V, para avaliar o parecer dos consultores e pronunciar uma decisão. Foram tomadas duas medidas:

1.º) Cardeal Belarmino é encarregado de, em audiência particular, convencer Galileu a abandonar a teoria copernicana. Galileu nega-se a tal. Recebe, então, de Belarmino, diante de um comissário da Inquisição e de outras pessoas, o preceito formal de não sustentar, ensinar ou defender. Galileu promete obediência. Não houve processo formal, nem sentença, abjuração ou penitência.

2.º) Por decreto da Sagrada Congregação do Index, foram proibidos os livros de Copérnico, de Foscarini e, de forma geral, dos que defendiam o sistema heliocêntrico. Nenhuma referência nem à obra nem ao nome de Galileu.

Observe-se que a obra de Copérnico, já com 80 anos, até então tinha sido deixada pela Igreja Católica à livre discussão, e havia eclesiásticos que a defendiam. E nela baseou-se a reforma do calendário, já referida.

O que provocou, depois de tanto tempo, sua proibição, foi a atitude de Galileu, querendo impor como certa, verdadeira, uma teoria para a qual não tinha provas objetivas. Pelo contrário, insistia em uma prova falsa, a das marés. E jamais ele ou outro contemporâneo conseguiu explicar o paradoxo do vento de 1.440 km/h, na linha do Equador, que “deveria” existir em virtude da rotação da Terra. Galileu, lançado mão de razões exegéticas e insistindo em uma reinterpretação da Bíblia, acabou forçando uma decisão imatura e lamentável da Sagrada Congregação do Index.

É de destacar que, em 11.03.1616, Paulo V recebeu Galileu em audiência particular. Considera-o um verdadeiro filho da Igreja e reconhece a retidão das intenções de Galileu, dizendo-lhe que nada temesse de seus caluniadores.

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