terça-feira, 23 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 5 de 10)

Parte 1: O MITO E O AMBIENTE
Parte 2: A Astronomia (Sistema Heliocêntrico e Sistema Geocêntrico)
Parte 3: A Astronomia (Sistema Geocêntrico e Sistema Misto)
Parte 4: Os Eclesiásticos e a Astronomia, A Interpretação da Bíblia

2.5. A Inquisição
Só a leitura desta palavra já costuma causar mal-estar, por ser geralmente associada a terror, tortura, fogueira, morte. Nem tanto assim, embora não se possa dizer que a Inquisição tratava de amenidades.

Houve excessos, e graves, principalmente nos países onde o poder civil passou a comandar. Nem tudo é justificável, mesmo sem a intromissão do poder civil, que transformava a Inquisição em um órgão de interesse político, principalmente na Espanha e Portugal, a partir do século XVI. Destacou-se, por sua excessiva severidade, o inquisidor dominicano Tomás de Torquemada.

Entretanto, procuremos entender os fatos e pensar com a mentalidade época, de acordo com o princípio da consciência possível, que comentamos anteriormente. Na época feudal, profano e sagrado eram muito unidos; por assim dizer, as duas faces de uma mesma moeda. Desvios doutrinários afetavam a vida social.

De certa forma a Inquisição foi a reação de defesa de uma sociedade para a qual a preservação da fé era tão importante como a saúde ou os direitos humanos para a sociedade atual... Embora tenha havido episódios deploráveis, a Inquisição representou um claro progresso com relação aos tribunais e julgamentos da época, como reconhecem muitos juristas atuais: era o tribunal mais justo e brando do seu tempo [o grifo é nosso]. Ela introduziu a justiça regular, evitando que a justiça leiga ou mesmo a revolta popular infligissem os piores castigos aos suspeitos de heresia. Muitas vezes foi a autoridade eclesiástica quem interveio para subtrair à fúria da multidão os que esta considerava heréticos, embora nem sempre conseguisse evitar que condenados à prisão fossem retirados e conduzidos à fogueira pela população furiosa e amotinada, que se queixava da «fraqueza e excessiva brandura» do bispo. Todos esses aspectos ajudamnos a não julgar com tanta severidade instituições de outras épocas e mentalidades, ao mesmo tempo que nos levam a considerar que o nosso tempo também não está isento de coisas piores: guerras, campos de concentração, gulags, racismos, colonialismos, explorações, etc”9.

Outras citações, que confirmam as palavras acima10:

– Revista Crítica Histórica: “Com o passar dos anos e com a multiplicação das pesquisas de arquivo, foram aparecendo cada vez mais elogios à racionalidade dos procedimentos e à brandura dos tribunais da Inquisição, que se revela não mais como uma entidade demoníaca, mas como uma instituição dotada de regras racionais e capaz de moderar o uso da tortura e desencorajar a denúncia e a delação”.

– Luigi Firpo, historiador laicista, com acesso aos tribunais do Santo Ofício: “Compareceram diante daquele tribunal mais delinqüentes comuns, pessoas culpadas de atos que o direito moderno considera crimes, do que acusados de crimes de opinião e paladinos da liberdade de pensamento. As prisões de hoje são verdadeiros infernos se comparadas com as tão difamadas celas da Inquisição. Naturalmente, a Inquisição não era um agradável clube para conversas amenas, mas fornecia garantias jurídicas inexistentes nos tribunais civis daquela época” (O grifo é nosso).

– Gustav Henningsen, historiador dinamarquês: “Ao contrário de todas as instituições da época, a Inquisição não recorria normalmente à tortura”. ... “A Inquisição introduziu um princípio de transparência, de moderação e de direito onde o poder político e o povo queriam proceder à justiça sumária e exemplar”... “A população católica não temia o Santo Ofício, como muitos historiadores quiseram demonstrar. Os inquisidores não era monstros nem torturadores, mas teólogos e juristas respeitados e estimados”.

“Nas igrejas protestantes predominava um zelo intransigente, reforçado pelo fundamentalismo bíblico que as caracterizava”... “Os protestantes criticavam a moderação do Santo Ofício.” Aliás, diga-se de passagem, a Igreja foi responsabilizada por grande parte dos crimes e fogueiras perpetuados pelos protestantes.

– Estêvão Bettencourt: “Mais de uma vez a Santa Sé interveio para moderar o zelo e punir os excessos dos inquisidores. Todo inquisidor que abusasse comprovadamente do seu ministério era deposto do cargo”11.

– Boulanger: “Foi sobretudo na Espanha que a Inquisição deixou as mais profundas e tristes recordações. Instituída no século XIII, segundo as formas canônicas, foi modificada no fim do século XV por Fernando V e Isabel. Sob seu influxo a Inquisição converteu-se, por assim dizer, numa instituição do Estado, onde entrava mais política que religião [...].

O código penal da Idade Média era em geral muito mais rigoroso que o da Inquisição. As atrocidades (torturas e morte pelo fogo) da legislação criminal da época tinham por finalidade impedir a repetição dos crimes, incutindo o terror com exemplos espantosos àqueles povos difíceis de governar e de costumes violentos”12.

Lembremos, outrossim, que modos de agir de épocas passadas parecem, no presente, atrocidades ou vinganças, mas foram, dentro do ambiente então vigente, melhoramentos para a sociedade, abrandamentos de costumes bárbaros. Por exemplo, a conhecida “lei do talião”, que transportou para o domínio da punição uma exigência de justiça, graduando a pena de acordo com o dano produzido (“olho por olho, dente por dente”). Antes dela, a vingança dependia da ira do vingador: a um dente arrancado poderia corresponder uma cabeça arrancada...

2.6. O Index

O Index Librorum Prohibitorum era uma lista de publicações que continham doutrinas errôneas, contrárias à fé e à moral cristãs. Por essa razão, as publicações contidas no Index não podiam ser lidas pelos católicos. Houve exageros e excessos de rigor, mas o princípio é perfeitamente válido, e aplicado ainda hoje em dia em muitos países civilizados, nos quais há censura de programas de TV, peças de teatro, publicações, filmes, etc., tendo em vista a salvaguarda de princípios éticos e de respeito a convicções religiosas. Não são, por exemplo, os filmes classificados por idade, para evitar deformações no desenvolvimento psíquico e moral das pessoas?

Folha de rosto de uma edição
portuguesa do Index publicada em 1607.



Porventura deixaria uma mãe veneno ao alcance de seus filhos? Poderia então a Igreja, como mãe que é dos católicos, deixar ao alcance de seus filhos publicações que fossem nocivas à sua saúde espiritual? Está a maioria da população brasileira, atualmente, satisfeita com a deseducação promovida pela televisão? Não está desprezando e agredindo as mais caras tradições da família brasileira, os bons costumes, a moralidade, os princípios éticos? Não está minando o caráter de nossa juventude? Não se pedem medidas que proíbam programas que levam à dissolução dos valores morais, éticos e religiosos?

Acrescente-se ainda que pessoas de sólida formação espiritual tinham permissão para ler publicações no Index.

Atualmente não temos o Index, mas temos publicações sérias, como Pergunte e Responderemos, que analisam e recomendam ou desaconselham a leitura de certas publicações, as quais nada de útil apresentam e podem causar confusão e desvios de fé e Moral em pessoas com deficiências em sua formação espiritual.

------------------
(destaques meus)

Nenhum comentário: