segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 4 de 10)

Parte 1: O MITO E O AMBIENTE
Parte 2: A Astronomia (Sistema Heliocêntrico e Sistema Geocêntrico)
Parte 3: A Astronomia (Sistema Geocêntrico e Sistema Misto)

2.3. Os Eclesiásticos e a Astronomia

Embora a maioria dos eclesiásticos estivesse de acordo com a teoria geocêntrica, havia Cardeais e outros eclesiásticos adeptos do sistema de Copérnico ou defensores de Galileu. Citamos uns poucos4:

– O beneditino Benedetto Castelli diz, referindo-se ao sistema geocêntrico, defendido por Aristóteles: “Aristóteles errou nessa, como em muitas outras coisas”.

– O Cardeal Maffeo Barberini (mais tarde Urbano VIII) opôs-se a que Galileu fosse declarado herético, bem como o Cardeal Luigi Caetani.


– O mesmo Barberini, já eleito papa, declarou ao Cardeal Zoller que a Igreja não tinha condenado, nem estava por condenar, a teoria heliocêntrica como herética, mas apenas como temerária.

Niccolò Riccardi, Mestre do Sacro Palácio*, estava convencido de que o heliocentrismo não era matéria de fé e de que, de forma alguma, convinha comprometer nele as Escrituras.
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(*) Atualmente, diz-se Teólogo da Casa Pontifícia. É o teólogo pessoal do Papa: revisa os documentos pontifícios e é consultor de diversas comissões do Vaticano. São Domingos foi o primeiro a assumir o posto, em 1218; desde então, o cargo é sempre ocupado por um dominicano.
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– Em 1632, na iminência do segundo processo, Castelli professou sua fé copernicana a Vincenzo Maculano, Comissário do Santo Ofício. – Relembramos que o sistema heliocêntrico foi usado para a reforma do calendário litúrgico.

Retrato do Papa Urbano VIII (1632), por Gian Lorenzo
Bernini (Galleria Nazionale d'Arte Antica, Roma)



2.4. A Interpretação da Bíblia

Desde os Santos Padres dos primeiros séculos do Cristianismo, já eram conhecidos outros sentidos, além do estritamente literal, ao ser interpretada a Bíblia. Henri de Lubac5 destaca que na exegese medieval se procedia à leitura da Sagrada Escritura segundo os quatro sentidos: literal, histórico, alegórico e moral.

Entretanto, no tempo de Galileu a interpretação da Bíblia era feita de modo mais rígido e, em geral, atendo-se exageradamente ao sentido literal do texto. Como causa principal desse modo de proceder, estava o protestantismo, que, desde o manifesto de Lutero, em 1517, vinha promulgando a livre interpretação da Bíblia. Para evitar os males que estavam sendo causados à fé cristã por este modo de proceder, a Igreja passou a se fixar mais no sentido literal das palavras, enquanto não houvesse motivos fortes que desaconselhassem tal proceder.

Lembramos aqui o princípio da consciência possível, da sociologia: “Todo pensamento é socialmente condicionado e limitado. Devido aos condicionamentos que limitam a visão da realidade, há um limite máximo que o conhecimento ou a compreensão de um indivíduo, um grupo, uma classe social ou toda uma época pode atingir... Outros fatores condicionantes que integram o conceito de consciência possível são a religião, o pensamento científico, as ideologias, as solidariedades étnicas e nacionais, o gosto artístico, etc., que limitam o campo da consciência para toda uma comunidades humana e até mesmo para uma época. Cada época possui paradigmas que condicionam sua cosmovisão científica e sua práxis concreta”6.

Naquela época, com o exíguo desenvolvimento das ciências naturais, as Escrituras eram usadas também para explicações científicas. Sem o conhecimento dos gêneros literários dos antigos orientais, do sentido correto de certas palavras, os teólogos interpretavam a Bíblia literalmente, o que, aliás, é um princípio da hermenêutica: “Não é lícito abandonar o sentido literal de um texto, sem que haja evidentes indícios de que é metafórico”7. Por exemplo, no caso de existirem argumentos de peso a favor de uma hipótese científica.

Além do mais, a interpretação literal de certos trechos da Bíblia (que apontavam para o geocentrismo) estava de acordo com o bom senso geral da época, que via o movimento do Sol e da Lua, bem como com os filósofos aristotélicos e com a quase totalidade dos astrônomos. Antes de Galileu, Aristarco e Copérnico já haviam lançado a hipótese do heliocentrismo, mas sem qualquer argumento convincente. E sem que alguém tivesse refutado o forte argumento contrário à rotação da Terra: “e o vento, senhores, o vento de 1.440 km/h oriundo da rotação da terra?”

Citamos aqui D. Estêvão Bettencourt:

“Para estabelecer a atual teoria planetária, milhares de sábios e estudiosos contribuíram; assim as hipóteses de Copérnico, as medidas científicas de Tycho, as observações de Galileu, as leis formuladas por Kepler... Ainda durante cerca de cem anos depois de Galileu os argumentos antigos em favor do geocentrismo continuaram a ter peso mais forte na opinião pública do que as razões aduzidas por Copérnico e Galileu em favor do heliocentrismo”.

“A fim de ilustrar quão árduo devia ser a um cristão imbuído da mentalidade dos séculos XVI/XVII admitir o heliocentrismo, seja aqui observada a atitude dos autores protestantes diante do novo sistema:

Lutero (+1546) julgava que as idéias de Copérnico eram idéias de louco, que tornavam confusa a astronomia.

Melancton, companheiro de Lutero, declarava que tal sistema era fantasmagoria e significava a rebordosa das ciências.

Kepler (1571-1630), astrônomo protestante contemporâneo de Galileu, teve que deixar sua terra, o Wurttemberg, por causa de suas idéias copernicanas.

“Em 1659, o Superintendente Geral de Wittemberg, Calovius, proclamava altamente que a razão se deve calar quando a Escritura falou; verificava com prazer que os teólogos protestantes, até o último, rejeitavam a teoria de que a Terra se move.

“Em 1662, a Faculdade de Teologia protestante da Universidade de Estrasburgo afirmou estar o sistema de Copérnico em contradição com a Sagrada Escritura.

“Em 1679, a Faculdade de Teologia protestante de Upsala (Suécia) condenou Nils Celsius por ter defendido o sistema de Copérnico.

“Ainda no século XVIII, a oposição luterana contra o sistema de Copérnico era forte: em 1774 o pastor Kohlreiff, de Ratzeburg, pregava energicamente que «a teoria do heliocentrismo era abominável invenção do diabo»”8.

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(destaques meus)

comentário: não é difícil perceber que foram os teólogos protestantes (que interpretavam a Bíblia de forma literal) que condenaram a teoria heliocêntrica. Vide os comentários dos muitos clérigos, cardeais e um papa (Urbano) sobre a teoria científica...

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