terça-feira, 16 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 1 de 10)


Por Joaquim Blessmann

Afinal, Galileu foi condenado pela Inquisição por defender que a Terra gira em torno do Sol? Copérnico foi discípulo de Galileu? Galileu morreu queimado na Idade Média? Muitas pessoas acham que conhecem a história do processo de Galileu pela Inquisição, mas conhecem apenas mitos. É preciso inserir-se no contexto em que o caso se desenvolveu para formar uma idéia clara do assunto.






Retrato de Galileu Galilei,
de Justus Sustermans(1597-1681), PalazzoPitti, Florença.



1. O MITO

Três séculos e meio de uma publicidade distorcida e laicista fizeram nascer o mito de que Galileu foi um “mártir da ciência e da liberdade de pensamento e a Igreja a costumeira inimiga da liberdade e do progresso humano”, comenta Cintra1. Também transcrevemos o seguinte trecho, retirado de obra de Massara: “Não se tratou de um conflito entre ciência e religião, entre razão e fé, como uma certa literatura laica, claramente interessada, tem feito crer; mas de uma crise interna do organismo eclesiástico”2. Aliás, essa não é a única distorção histórica; há muitas. Monumental, é por exemplo, aquela que apresenta a Idade Média como uma época de obscurantismo e estagnação, o que não corresponde à realidade. Parece haver uma tendência de cada época a denegrir a que veio imediatamente antes. Pense-se, por exemplo, na Renascença. Ou, atualmente, a atitude de muitos católicos, com suas críticas por vezes contundentes à Igreja de antes do Concílio Vaticano II.

Parece que se baseiam em uma afirmação de Cristo, convenientemente deturpada: “Eu estarei convosco até a consumação dos séculos, porém só a partir do Concílio Vaticano II...”

A seguir, reproduziremos afirmações errôneas sobre o caso Galileu, que conseguimos coletar. Algumas delas serão refutadas logo após serem enunciadas. As demais, no decorrer deste trabalho.

“Galileu foi condenado na Idade Média”. A Idade Média vai até meados do século XV. Ora, Galileu nasceu em 1564, ou seja, cerca de um século após o seu término.

“Galileu foi condenado por dizer que a Terra era redonda”. Ora, já na antiga Grécia isto era admitido por muitos. Por exemplo, Pitágoras (século VI a.C.) e seus discípulos falavam da esfericidade da Terra, da Lua e do Sol, bem como da rotação da Terra. Na Europa, a esfericidade da Terra já tinha defensores quatro séculos antes de Galileu. Uma prova concreta tinha sido dada pela expedição de circunavegação da Terra, comandada por Fernão de Magalhães, em 1521.

“Galileu teve Copérnico como discípulo”. Copérnico faleceu em 1543 e Galileu nasceu 21 anos depois, em 1564.

“Galileu foi o autor da teoria heliocêntrica”. O sistema heliocêntrico deve-se a Aristarco de Samos, no século III a.C., cerca de 1.900 anos antes de Galileu publicar e defender suas concepções astronômicas.

“Galileu foi condenado porque defendia o sistema heliocêntrico”. Não, ele foi condenado pelo modo como o defendia.

Outras afirmações errôneas, que tentaremos esclarecer neste trabalho, são as seguintes: Galileu foi torturado, cegado, aprisionado numa masmorra, queimado vivo, condenado por heresia, etc.

Se quisermos analisar corretamente, e com a máxima isenção de ânimo possível, fatos ocorridos em outra época, é necessário que nos ponhamos a pensar com a mentalidade, os costumes e, importante, com os conhecimentos e o “senso comum” daquela época. Por isto, o capítulo “O Ambiente”.

2. O AMBIENTE

2.1. A Filosofia

Eram dois os filósofos que preponderavam no pensamento da época: (a) Aristóteles e (b) São Tomás de Aquino.

a) Aristóteles partia da observação dos fatos naturais, e a partir daí raciocinava e chegava a um conjunto de princípios gerais que permitissem a compreensão do mundo material. Adota a astronomia geocêntrica, com a Terra, esférica e imóvel, no centro do universo. No mundo celeste, separado da terra pela esfera lunar, reina a perfeição. Na Terra, a imperfeição, com a geração, alteração e corrupção dos corpos, formados por quatro elementos básicos: terra, água, ar e fogo.

Antes de Galileu, na Idade Média, muitos filósofos e teólogos admitiam as idéias físicoastronômicas de Aristóteles, porém sem vinculá-las diretamente à Filosofia. Infelizmente, os aristotélicos da Renascença confundiram Filosofia e ciência.

b) Na Suma Teológica, São Tomás de Aquino deixa bem claro que a realidade física, o fenômeno observado, é uma coisa; e outra são as teorias científicas que tentam explicá-lo: “Uma teoria deve salvar as aparências sensíveis” (isto é, deve estar de acordo com o que aparece aos sentidos, com a realidade física). “Isto, entretanto, não constitui uma prova suficiente e decisiva, porque talvez pudéssemos salvar as aparências sensíveis com uma teoria diferente e mais simples”.

Em outras palavras, uma teoria científica não pretende corresponder à realidade, mas apenas explicá-la. Exemplifiquemos:

– A teoria do contínuo, na engenharia. Admite-se, na engenharia, que a matéria é contínua, sem falhas, fissuras, vazios, poros, espaços entres cristais ou moléculas. É mais do que evidente que isto não corresponde à realidade. Mas as teorias baseadas neste postulado explicam satisfatoriamente o comportamento dos materiais e facilitam enormemente os cálculos, quer se trate de uma ponte, torre, barragem ou outra estrutura qualquer, quer se trate do movimento e de forças existentes nos líquidos e gases, tais como: sustentação de um avião, bolas com “efeito” (futebol, tênis, etc.) e mesmo no movimento do sangue nas veias e artérias, etc.

– Isaac Newton: “Tudo se passa como se a matéria atraísse a matéria na razão direta das massas e na razão inversa dos quadrados das distâncias” (gravitação universal). Note-se a modéstia do verdadeiro cientista. Não afirma, categórico: “a matéria atrai a matéria ...”, mas, modestamente, sugere que “tudo se passa como se ...”

– Owen Gingerich, astrônomo de Harvard: “Os átomos, como os imaginamos, não podem ser comprovados de um modo absoluto. O máximo que podemos dizer, é que o universo age como se fosse feito de átomos”3. Novamente, um modesto “como se”, indicando que se pretende explicar a realidade, sem a pretensão de afirmar que é assim e não pode ser diferente.

- O mesmo vale para o mundo psíquico: uma teoria pode explicar o comportamento humano, mas nada assegura que ela dê a razão real deste comportamento. E aqui penso nas teorias de Freud e de outros, conflitantes entre elas; cada autor rejeita explicações diferentes da sua, a qual, no seu entender, exprime a própria realidade.


(Destaques meus)

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