terça-feira, 30 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 8 de 10)

Parte 1: O MITO E O AMBIENTE
Parte 2: A Astronomia (Sistema Heliocêntrico e Sistema Geocêntrico)
Parte 3: A Astronomia (Sistema Geocêntrico e Sistema Misto)
Parte 4: Os Eclesiásticos e a Astronomia, A Interpretação da Bíblia
Parte 5: A Inquisição e o Index Librorum Prohibitorum
Parte 6: Os Processos (O primeiro processo)
Parte 7: Os Processos (O primeiro processo) - continuação

3.2. O Segundo Processo (1633)

Em novembro de 1618 apareceram três cometas na Europa. Foi o estopim para recomeçarem as discussões, com Galileu violento no falar como antes.

Entre 1624 e 1630, Galileu escreve um novo livro, Diálogo sobre os dois Sistemas Máximos de Mundo, o Ptolomaico e o Copernicano. Galileu comunicara ao Papa Urbano VIII que pretendia escrever esse livro. O Papa o apoiara, aconselhando-o, porém, a não entrar em conflito com o Santo Ofício e a tratar o sistema de Copérnico como hipótese. Uma recomendação perfeitamente correta para os dias atuais, pois agora é ponto pacífico que em ciência nada é definitivo.

Em maio de 1630, Galileu vai a Roma para obter o necessário “Imprimatur”. O encarregado de examinar seu livro, Pe. Riccardi, era amigo pessoal de Galileu. Conclui que eram necessárias algumas correções:

1.º) Mudar o título, que era Diálogo sobre as marés, porque destacava muito o único argumento (e errado) de Galileu para provar o sistema copernicano.

2.º) Alterar algumas passagens.

3.º) Alterar o prefácio, de modo a não apresentar o sistema heliocêntrico como verdade segura, mas sim como hipótese.

Diante disso, Galileu resolveu imprimir o livro em Florença. Riccardi concordou, desde que Galileu lhe trouxesse o primeiro exemplar da obra, com as devidas correções, para receber o “Imprimatur”. Galileu argumenta que a epidemia de Peste dificultava a comunicação entre as duas cidades. Mais uma vez, cede Riccardi, concordando com o exame da obra em Florença, bastando enviar a Roma o título e o Prefácio.

Frontispício da primeira edição do Diálogo, datada de 1632 e dedicada ao Duque Fernando II de Médici.


Em Florença, Galileu consegue que o revisor seja outro amigo seu, Giacinto Stefani, que foi induzido a pensar que a obra já tinha sido aprovada em Roma. Stefani concedeu a autorização. O título e o prefácio foram enviados para aprovação e o livro foi publicado em 1632.

Quando Riccardi recebeu um exemplar da obra completa, viu com surpresa que, antes da aprovação florentina, figurava a sua. E sem nenhuma correção no corpo do livro: o sistema copernicano era apresentado em toda a obra, exceto no Prefácio, como verdade incontroversa.

Urbano VIII, pressionado pelos inimigos de Galileu, e considerando a desobediência formal à proibição de 1616, passou o assunto à Inquisição.

A comissão encarregada de examinar a obra agrupou a censura em oito pontos, esclarecendo nas conclusões que todos eles podiam ser corrigidos (as marés como falsa prova, apresentar o sistema copernicano apenas como hipótese, etc.). Mas, acrescentava, a desobediência era um agravante bastante sério (o grifo é nosso, pois as conclusões da comissão mostram que o problema era, basicamente, disciplinar).

Galileu, chamado a Roma para julgamento, depois de vários adiamentos (doença, velhice, Peste, inundações, foram os motivos alegados), lá chega em 12.02.1633. Hospedou-se inicialmente no palácio do Embaixador de Florença; depois passou a residir no edifício da Inquisição, em aposentos do Fiscal da Inquisição, “cômodos e abertos” (nada de aprisionamento em masmorras, “a pão e água”, como diz uma das lendas).

Galileu diante da Inquisição Romana (1857), de Cristiano Banti. O quadro é evidentemente romanceado: Galileu parece bem mais jovem do que na realidade era quando do processo e mantém-se em atitude desafiadora.


Foi submetido a quatro interrogatórios:

– No primeiro negou que houvesse defendido o sistema heliocêntrico em seu livro.

– No segundo, declarou que, relendo o livro, reparara que em alguns trechos o leitor podia realmente pensar que ele defendia tal sistema.

– No terceiro, desculpou-se por desobedecer à proibição de 1616, afirmando que a advertência tinha sido verbal e que não se recordava de uma ordem para ele em particular.

– No quarto e último interrogatório (em 21.06.1633), quando lhe perguntaram solenemente se defendia o sistema copernicano, respondeu negativamente.

No dia seguinte, em Decreto do Santo Ofício, é publicada a sentença, na qual consta: “... é absolvido da suspeição de heresia, desde que abjure, maldiga e deteste ditos erros e heresias...”. Galileu ouviu de pé e com a cabeça descoberta a leitura de sua condenação (três anos de prisão; recitação semanal dos sete salmos penitenciais, por três anos). Depois, de joelhos e com uma mão sobre os Evangelhos, assinou um ato de abjuração, no qual declarava que era “justamente suspeito de heresia”.

Nesta ocasião, Galileu teria exclamado, batendo com o pé no chão: “e pur si muove” (e todavia se move). Lenda inverossímil, dadas as circunstâncias (estava de joelhos). É uma fantasia que apareceu pela primeira vez em 1757 (mais de um século depois), em obra do jornalista italiano Giuseppe Baretti (1719-1789).


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domingo, 28 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 7 de 10)

Parte 1: O MITO E O AMBIENTE
Parte 2: A Astronomia (Sistema Heliocêntrico e Sistema Geocêntrico)
Parte 3: A Astronomia (Sistema Geocêntrico e Sistema Misto)
Parte 4: Os Eclesiásticos e a Astronomia, A Interpretação da Bíblia
Parte 5: A Inquisição e o Index Librorum Prohibitorum
Parte 6: Os Processos (O primeiro processo)

E assim a disputa, que deveria ser de caráter científico, passou para a exegese e a teologia. Os debates se multiplicaram. O beneditino Castelli defendia a opinião de Galileu. Este escreveu diversas cartas, dirigidas, entre outros, ao próprio Castelli, a Clavius e ao Cardeal Roberto Belarmino (canonizado em 1930), defendendo-se. Da carta a Castelli transcrevemos um trecho, pela posição correta assumida por Galileu, no que diz respeito à interpretação da Bíblia:

A Escritura não se engana, mas sim os seus intérpretes e comentadores, de várias maneiras, entre as quais uma gravíssima e freqüentíssima, quando querem fixar-se sempre no puro sentido literal, pois assim aparecerão não só diversas contradições, mas também graves erros e heresias; seria necessário dar a Deus pés e mãos, e olhos, e também coisas corpóreas e humanas, como cólera, arrependimento, ódio, esquecimento do passado e ignorância do futuro. Donde, assim como na Escritura se encontram muitas proposições falsas quanto ao sentido nu das palavras, mas assim postas para se acomodarem ao numeroso vulgo, assim ... é necessário que os sábios comentadores apresentem o verdadeiro sentido”13.

Essa carta foi difundida por meio de cópias, e o dominicano Niccolò Lorini enviou uma delas à Sagrada Congregação do Index (Inquisição Romana). A carta foi examinada, qualificada favoravelmente e o caso encerrado.

Entretanto, Galileu insistia em debater no terreno exegético-escriturístico, abandonando as razões científicas do sistema astronômico que defendia. Queria forçar uma decisão urgente da Sagrada Congregação para que certas passagens da Escritura fossem interpretadas de modo diferente do usual havia séculos.

Foi advertido para que deixasse o lado teológico da questão e usasse apenas argumentos das ciências naturais para justificar o sistema heliocêntrico.

Paolo Antonio Foscarini, carmelita da Calábria, publica em 1615 a sua Lettera sopra l'opinione dei Pitagorici e del Copernico (“Carta sobre a opinião dos pitagóricos e de Copérnico”) em que defende a opinião de Copérnico.

O Cardeal Belarmino recomenda prudência a Galileu e a Foscarini: que não apresentassem o sistema heliocêntrico como verdade definitiva (o que não existe na ciência; nesta, nada é definitivo) e que não forçassem reinterpretações da Sagrada Escritura, enquanto não houvesse provas demonstrativas do novo sistema. Eis trechos de sua carta:

“Uma coisa é sustentar o movimento da Terra e a estabilidade do Sol como hipótese, e isso está muito bem dito e não tem perigo algum..., e é tudo quanto deveria bastar ao matemático”.

E mais adiante, na mesma carta:

“Quando fosse verdadeiramente demonstrado que o Sol está no centro do mundo e a Terra no terceiro céu, e que o Sol não circunda a Terra, mas sim a Terra circunda o Sol, então seria necessário com muitas considerações, pelo contrário, que são coisas que não podemos entender. Por mim, não acreditarei que seja possível tal demonstração, até que me seja apresentada”14.

O fato é que Galileu não dispunha de alguma prova concreta ou convincente. A prova em que insistia, do fluxo e refluxo das marés, estava errada. As marés são causadas pela força gravitacional da Lua e do Sol. Ademais, se fossem causadas pela rotação da Terra, deveria haver só uma maré por dia, e não duas.

Acenou, como prova, para os ventos alísios, mas não pôde quantificar o fenômeno. E aí estava certo, pois o desvio para o Oeste dos ventos que sopram para o Equador em ambos os hemisférios é causado pela rotação da Terra.

Em conclusão: não tinha provas científicas. Como vimos, tentou provar suas idéias por meio da Bíblia. Somente muito mais tarde, em 1851, é que o físico e astrônomo francês Jean Foucault conseguiu provar o movimento de rotação da Terra, com um pêndulo dependurado do teto do Panthéon de Paris, que oscila em um plano fixo enquanto a Terra gira.

Entrementes, o padre dominicano Tommaso Caccini fazia vários ataques aos matemáticos e aos adeptos de Galileu. O primeiro destes ataques aconteceu por ocasião de um sermão sobre o milagre de Josué (em que o Sol teria parado; cf. Js 10, 7-15). Caccini foi chamado a Roma para explicar os ataques a Galileu e aproveitou a ocasião para, junto com outros, pressionar o Santo Ofício, para que Galileu fosse condenado.

Galileu continuou, com seu estilo polêmico, a discutir. Diz a Enciclopédia Mirador Internacional (verbete Galileu) que era “de um estilo de grande vivacidade, freqüentemente irônico e mordaz, pois era um temperamento polêmico”. Eis exemplos (de outras fontes, citadas neste trabalho) de seu estilo de argumentar, nada científico: recorria aos vocábulos “idiotas, bufos, hipócritas, impostores, ignorantes, estúpidos, animais”

Em 24.01.1616, em sessão do Santo Ofício, os consultores apresentam seu parecer sobre a controvérsia. Qualificam duas proposições:

1.º) Sol fixo. É considerada falsa e absurda do ponto de vista filosófico e formalmente herética, por estar em contradição com várias passagens da Sagrada Escritura, de acordo com o sentido literal e a interpretação corrente dos Padres da Igreja.

2.º) Rotação da Terra e translação em torno do Sol. Falsa e absurda, do ponto de vista filosófico, e errônea na fé.

No dia seguinte, há uma reunião dos Cardeais, sob a presidência do Papa Paulo V, para avaliar o parecer dos consultores e pronunciar uma decisão. Foram tomadas duas medidas:

1.º) Cardeal Belarmino é encarregado de, em audiência particular, convencer Galileu a abandonar a teoria copernicana. Galileu nega-se a tal. Recebe, então, de Belarmino, diante de um comissário da Inquisição e de outras pessoas, o preceito formal de não sustentar, ensinar ou defender. Galileu promete obediência. Não houve processo formal, nem sentença, abjuração ou penitência.

2.º) Por decreto da Sagrada Congregação do Index, foram proibidos os livros de Copérnico, de Foscarini e, de forma geral, dos que defendiam o sistema heliocêntrico. Nenhuma referência nem à obra nem ao nome de Galileu.

Observe-se que a obra de Copérnico, já com 80 anos, até então tinha sido deixada pela Igreja Católica à livre discussão, e havia eclesiásticos que a defendiam. E nela baseou-se a reforma do calendário, já referida.

O que provocou, depois de tanto tempo, sua proibição, foi a atitude de Galileu, querendo impor como certa, verdadeira, uma teoria para a qual não tinha provas objetivas. Pelo contrário, insistia em uma prova falsa, a das marés. E jamais ele ou outro contemporâneo conseguiu explicar o paradoxo do vento de 1.440 km/h, na linha do Equador, que “deveria” existir em virtude da rotação da Terra. Galileu, lançado mão de razões exegéticas e insistindo em uma reinterpretação da Bíblia, acabou forçando uma decisão imatura e lamentável da Sagrada Congregação do Index.

É de destacar que, em 11.03.1616, Paulo V recebeu Galileu em audiência particular. Considera-o um verdadeiro filho da Igreja e reconhece a retidão das intenções de Galileu, dizendo-lhe que nada temesse de seus caluniadores.
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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A liturgia como fonte da missão

Palavras de doutrina, sob os cuidados dos padres Nicola Bux e Salvatore Vitiello.

A liturgia como fonte da missão.

Cidade do Vaticano (Agência Fides) – A Igreja é consciente de não ter outra fonte para conseguir força para a própria missão senão no próprio Senhor Jesus Cristo. A justa valorização e autonomia das ciências humanas, da história à filosofia, da psicologia à sociologia, etc., não deverá nunca substituir o critério sobrenatural do discernimento espiritual.

É Cristo, com a sua proposta ao coração do homem, o único e imprescindível referimento para a missão da Igreja. A fonte de tal missão é a adoração do Senhor, que se exprime principalmente na divina liturgia. Muitas celebrações se reduziram a uma “autocontemplação antropocêntrica”, do homem por ele mesmo, quase impedindo o contato com o mistério, através da verbosidade do celebrante, dos ritmos convulsivos das músicas e do frenesi dos movimentos. A liturgia da Igreja é essencialmente adoração do Senhor e, através da celebração dos mistérios divinos, a Igreja realiza a sua primeira obra missionária.

É necessário recuperar a clara consciência sobre o único sujeito protagonista da liturgia: o Senhor. O povo santo de Deus, e com ele o celebrante, entra na liturgia, mas não a cria: estes, povo e celebrante, são hospedados pelo mistério e somente a consciência de tal hospitalidade,
torna-os capazes de se transformar, por seu lado, em hospedeiros do mistério e dos irmãos.

Pedindo ao Senhor e intercedendo por todos os homens, através da sagrada liturgia, a Igreja realiza a sua primeira missão: a celebração dos sacramentos é por si mesma eficaz na ordem da salvação. Em tantas organizações da pastoral contemporânea, parece que o empenho missionário seja às vezes interrompido pelas celebrações, das quais, talvez, não se compreenda mais adequadamente o significado. Batizar, perdoar os pecados, celebrar a Eucaristia, são ações com mais força salvífica e missionária do que qualquer catequese, encontros, lições acadêmicas ou documentos eclesiais. Devemos recuperar essa consciência e, através dela, a indisponibilidade da liturgia ao capricho subjetivo da criatividade litúrgica e ao mito moderno, entendido em sentido democrático, da participação do povo.

Como nos lembra o Catecismo da Igreja Católica: “A liturgia é também participação na oração do Cristo, dirigida ao Pai, no Espírito Santo. Nela, toda oração cristã encontra a sua nascente e o seu término. Por meio da liturgia, o homem interior tem suas raízes e fundamentos (cf. Ef 3,16-17) no “grande amor com o qual o Pai nos amou” (Ef 2,4) em seu filho dileto. O que é vivido e interiorizado em cada oração, em todos os tempos, “no Espírito” (Ef 6,18) é a mesma “maravilha de Deus”. (CCC 1073).

Fonte: (Agência Fides 25/09/2008)

destaques meus
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 6 de 10)

Parte 1: O MITO E O AMBIENTE
Parte 2: A Astronomia (Sistema Heliocêntrico e Sistema Geocêntrico)
Parte 3: A Astronomia (Sistema Geocêntrico e Sistema Misto)
Parte 4: Os Eclesiásticos e a Astronomia, A Interpretação da Bíblia
Parte 5: A Inquisição e o Index Librorum Prohibitorum

3. OS PROCESSOS

3.1. O primeiro Processo (1616)


Galileu soube de um aparelho inventado pelo holandês Hans Lippershey que permitia ver objetos afastados com nitidez (telescópio). A partir dessas informações construiu um telescópio com melhores características e com ele fez muitas descobertas, tais como:

as manchas do Sol (que não é, pois, o corpo perfeito descrito por Aristóteles);

as crateras da Lua (que, portanto, não é a esfera lisa, perfeita, admitida por Aristóteles);

a Via Láctea é constituída por um grande número de estrelas;

Júpiter possui Luas (Galileu descobriu quatro), o que demonstrava que a Terra não era o centro de tudo;

Vênus tem fases como a Lua; pelo que, muito provavelmente, deveria girar em torno do Sol.

Estas descobertas foram publicadas em 1610 e trouxeram uma grande popularidade a Galileu. Entre os que o cumprimentaram e admiravam seu trabalho, estavam Kepler e Clavius.

Por outro lado, os aristotélicos reagiram violentamente, inclusive duvidando da competência de Galileu como pesquisador: manchas solares e relevo da Lua dever-se-iam a sujeira nas Lentes do telescópio; outras descobertas não passariam de ilusões de ótica.

Em 1611, Galileu esteve em Roma e foi muito homenageado por cientistas e nobres. Foi recebido como membro da Accademia dei Lincei, a mais antiga academia científica da Itália. Os jesuítas (muitos dos quais eram professores e astrônomos) dedicaram-lhe uma festa acadêmica no Colégio Romano, com a presença de condes, duques, muitos prelados e alguns Cardeais. O próprio Papa Paulo V concedeu-lhe audiência.

Os problemas começaram com a publicação do livro Trattato contro il moto della Terra (“Tratado contra o movimento da Terra”), do físico e teólogo Ludovico delle Colombe, neste mesmo ano (1611). Ludovico elogiava Galileu, mas citava trechos da Bíblia e argumentos dos Santos Padres para demonstrar a tese geocêntrica. Eis algumas das citações: Fundaste a terra em bases sólidas, que são eternamente inabaláveis (Sal 103,5); Uma geração passa, outra vem; mas a Terra sempre subsiste. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar ao seu lugar (Ecl 1, 4-5).


O Papa Paulo V em gravura de
Crispyn de Passe (1564-1637).


O problema é que Galileu, em vez de responder com argumentos físicos, usou argumentos bíblicos, citando outro trecho que parece defender a tese contrária: Diante dele estremece a terra inteira (Sal 95,9).











Ao lado, gravura representando São Roberto Belarmino.



Acima, carta escrita por São Roberto Belarmino (1542-1621) a pedido de Galileu em 26 de maio de 1616, como prova de que o cientista não fora acusado pela Inquisição.

O texto diz:

“Nós, Roberto Cardeal Belarmino, tendo ouvido que é caluniosamente citado que o Senhor Galileu Galilei em nossas mãos abjurou e também foi punido com saudável penitência por isto; e averiguações terem sido feitas no que diz respeito à verdade, dizemos que o dito senhor Galilei não abjurou qualquer opinião ou doutrina dele em nossas mãos nem naquela de qualquer outra pessoa em Roma, muito menos em qualquer outro lugar, no nosso conhecimento; nem ele recebeu penitência de qualquer tipo; mas somente foi dito a ele a decisão feita por Sua Santidade e publicada pela Sagrada Congregação do Índice, na qual é declarado que a doutrina atribuida a Copernicus, de que a Terra se move em torno do Sol e que o Sol está fixo no centro do Universo sem se mover de leste para oeste, é contrária às Santas Escrituras, e por conseguinte não pode ser defendida ou sustentada”.

Essa carta foi utilizada no segundo processo em 1633 (a imagem foi retirada da página do Observatório Nacional).
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terça-feira, 23 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 5 de 10)

Parte 1: O MITO E O AMBIENTE
Parte 2: A Astronomia (Sistema Heliocêntrico e Sistema Geocêntrico)
Parte 3: A Astronomia (Sistema Geocêntrico e Sistema Misto)
Parte 4: Os Eclesiásticos e a Astronomia, A Interpretação da Bíblia

2.5. A Inquisição
Só a leitura desta palavra já costuma causar mal-estar, por ser geralmente associada a terror, tortura, fogueira, morte. Nem tanto assim, embora não se possa dizer que a Inquisição tratava de amenidades.

Houve excessos, e graves, principalmente nos países onde o poder civil passou a comandar. Nem tudo é justificável, mesmo sem a intromissão do poder civil, que transformava a Inquisição em um órgão de interesse político, principalmente na Espanha e Portugal, a partir do século XVI. Destacou-se, por sua excessiva severidade, o inquisidor dominicano Tomás de Torquemada.

Entretanto, procuremos entender os fatos e pensar com a mentalidade época, de acordo com o princípio da consciência possível, que comentamos anteriormente. Na época feudal, profano e sagrado eram muito unidos; por assim dizer, as duas faces de uma mesma moeda. Desvios doutrinários afetavam a vida social.

De certa forma a Inquisição foi a reação de defesa de uma sociedade para a qual a preservação da fé era tão importante como a saúde ou os direitos humanos para a sociedade atual... Embora tenha havido episódios deploráveis, a Inquisição representou um claro progresso com relação aos tribunais e julgamentos da época, como reconhecem muitos juristas atuais: era o tribunal mais justo e brando do seu tempo [o grifo é nosso]. Ela introduziu a justiça regular, evitando que a justiça leiga ou mesmo a revolta popular infligissem os piores castigos aos suspeitos de heresia. Muitas vezes foi a autoridade eclesiástica quem interveio para subtrair à fúria da multidão os que esta considerava heréticos, embora nem sempre conseguisse evitar que condenados à prisão fossem retirados e conduzidos à fogueira pela população furiosa e amotinada, que se queixava da «fraqueza e excessiva brandura» do bispo. Todos esses aspectos ajudamnos a não julgar com tanta severidade instituições de outras épocas e mentalidades, ao mesmo tempo que nos levam a considerar que o nosso tempo também não está isento de coisas piores: guerras, campos de concentração, gulags, racismos, colonialismos, explorações, etc”9.

Outras citações, que confirmam as palavras acima10:

– Revista Crítica Histórica: “Com o passar dos anos e com a multiplicação das pesquisas de arquivo, foram aparecendo cada vez mais elogios à racionalidade dos procedimentos e à brandura dos tribunais da Inquisição, que se revela não mais como uma entidade demoníaca, mas como uma instituição dotada de regras racionais e capaz de moderar o uso da tortura e desencorajar a denúncia e a delação”.

– Luigi Firpo, historiador laicista, com acesso aos tribunais do Santo Ofício: “Compareceram diante daquele tribunal mais delinqüentes comuns, pessoas culpadas de atos que o direito moderno considera crimes, do que acusados de crimes de opinião e paladinos da liberdade de pensamento. As prisões de hoje são verdadeiros infernos se comparadas com as tão difamadas celas da Inquisição. Naturalmente, a Inquisição não era um agradável clube para conversas amenas, mas fornecia garantias jurídicas inexistentes nos tribunais civis daquela época” (O grifo é nosso).

– Gustav Henningsen, historiador dinamarquês: “Ao contrário de todas as instituições da época, a Inquisição não recorria normalmente à tortura”. ... “A Inquisição introduziu um princípio de transparência, de moderação e de direito onde o poder político e o povo queriam proceder à justiça sumária e exemplar”... “A população católica não temia o Santo Ofício, como muitos historiadores quiseram demonstrar. Os inquisidores não era monstros nem torturadores, mas teólogos e juristas respeitados e estimados”.

“Nas igrejas protestantes predominava um zelo intransigente, reforçado pelo fundamentalismo bíblico que as caracterizava”... “Os protestantes criticavam a moderação do Santo Ofício.” Aliás, diga-se de passagem, a Igreja foi responsabilizada por grande parte dos crimes e fogueiras perpetuados pelos protestantes.

– Estêvão Bettencourt: “Mais de uma vez a Santa Sé interveio para moderar o zelo e punir os excessos dos inquisidores. Todo inquisidor que abusasse comprovadamente do seu ministério era deposto do cargo”11.

– Boulanger: “Foi sobretudo na Espanha que a Inquisição deixou as mais profundas e tristes recordações. Instituída no século XIII, segundo as formas canônicas, foi modificada no fim do século XV por Fernando V e Isabel. Sob seu influxo a Inquisição converteu-se, por assim dizer, numa instituição do Estado, onde entrava mais política que religião [...].

O código penal da Idade Média era em geral muito mais rigoroso que o da Inquisição. As atrocidades (torturas e morte pelo fogo) da legislação criminal da época tinham por finalidade impedir a repetição dos crimes, incutindo o terror com exemplos espantosos àqueles povos difíceis de governar e de costumes violentos”12.

Lembremos, outrossim, que modos de agir de épocas passadas parecem, no presente, atrocidades ou vinganças, mas foram, dentro do ambiente então vigente, melhoramentos para a sociedade, abrandamentos de costumes bárbaros. Por exemplo, a conhecida “lei do talião”, que transportou para o domínio da punição uma exigência de justiça, graduando a pena de acordo com o dano produzido (“olho por olho, dente por dente”). Antes dela, a vingança dependia da ira do vingador: a um dente arrancado poderia corresponder uma cabeça arrancada...

2.6. O Index

O Index Librorum Prohibitorum era uma lista de publicações que continham doutrinas errôneas, contrárias à fé e à moral cristãs. Por essa razão, as publicações contidas no Index não podiam ser lidas pelos católicos. Houve exageros e excessos de rigor, mas o princípio é perfeitamente válido, e aplicado ainda hoje em dia em muitos países civilizados, nos quais há censura de programas de TV, peças de teatro, publicações, filmes, etc., tendo em vista a salvaguarda de princípios éticos e de respeito a convicções religiosas. Não são, por exemplo, os filmes classificados por idade, para evitar deformações no desenvolvimento psíquico e moral das pessoas?

Folha de rosto de uma edição
portuguesa do Index publicada em 1607.



Porventura deixaria uma mãe veneno ao alcance de seus filhos? Poderia então a Igreja, como mãe que é dos católicos, deixar ao alcance de seus filhos publicações que fossem nocivas à sua saúde espiritual? Está a maioria da população brasileira, atualmente, satisfeita com a deseducação promovida pela televisão? Não está desprezando e agredindo as mais caras tradições da família brasileira, os bons costumes, a moralidade, os princípios éticos? Não está minando o caráter de nossa juventude? Não se pedem medidas que proíbam programas que levam à dissolução dos valores morais, éticos e religiosos?

Acrescente-se ainda que pessoas de sólida formação espiritual tinham permissão para ler publicações no Index.

Atualmente não temos o Index, mas temos publicações sérias, como Pergunte e Responderemos, que analisam e recomendam ou desaconselham a leitura de certas publicações, as quais nada de útil apresentam e podem causar confusão e desvios de fé e Moral em pessoas com deficiências em sua formação espiritual.

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(destaques meus)
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 4 de 10)

Parte 1: O MITO E O AMBIENTE
Parte 2: A Astronomia (Sistema Heliocêntrico e Sistema Geocêntrico)
Parte 3: A Astronomia (Sistema Geocêntrico e Sistema Misto)

2.3. Os Eclesiásticos e a Astronomia

Embora a maioria dos eclesiásticos estivesse de acordo com a teoria geocêntrica, havia Cardeais e outros eclesiásticos adeptos do sistema de Copérnico ou defensores de Galileu. Citamos uns poucos4:

– O beneditino Benedetto Castelli diz, referindo-se ao sistema geocêntrico, defendido por Aristóteles: “Aristóteles errou nessa, como em muitas outras coisas”.

– O Cardeal Maffeo Barberini (mais tarde Urbano VIII) opôs-se a que Galileu fosse declarado herético, bem como o Cardeal Luigi Caetani.


– O mesmo Barberini, já eleito papa, declarou ao Cardeal Zoller que a Igreja não tinha condenado, nem estava por condenar, a teoria heliocêntrica como herética, mas apenas como temerária.

Niccolò Riccardi, Mestre do Sacro Palácio*, estava convencido de que o heliocentrismo não era matéria de fé e de que, de forma alguma, convinha comprometer nele as Escrituras.
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(*) Atualmente, diz-se Teólogo da Casa Pontifícia. É o teólogo pessoal do Papa: revisa os documentos pontifícios e é consultor de diversas comissões do Vaticano. São Domingos foi o primeiro a assumir o posto, em 1218; desde então, o cargo é sempre ocupado por um dominicano.
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– Em 1632, na iminência do segundo processo, Castelli professou sua fé copernicana a Vincenzo Maculano, Comissário do Santo Ofício. – Relembramos que o sistema heliocêntrico foi usado para a reforma do calendário litúrgico.

Retrato do Papa Urbano VIII (1632), por Gian Lorenzo
Bernini (Galleria Nazionale d'Arte Antica, Roma)



2.4. A Interpretação da Bíblia

Desde os Santos Padres dos primeiros séculos do Cristianismo, já eram conhecidos outros sentidos, além do estritamente literal, ao ser interpretada a Bíblia. Henri de Lubac5 destaca que na exegese medieval se procedia à leitura da Sagrada Escritura segundo os quatro sentidos: literal, histórico, alegórico e moral.

Entretanto, no tempo de Galileu a interpretação da Bíblia era feita de modo mais rígido e, em geral, atendo-se exageradamente ao sentido literal do texto. Como causa principal desse modo de proceder, estava o protestantismo, que, desde o manifesto de Lutero, em 1517, vinha promulgando a livre interpretação da Bíblia. Para evitar os males que estavam sendo causados à fé cristã por este modo de proceder, a Igreja passou a se fixar mais no sentido literal das palavras, enquanto não houvesse motivos fortes que desaconselhassem tal proceder.

Lembramos aqui o princípio da consciência possível, da sociologia: “Todo pensamento é socialmente condicionado e limitado. Devido aos condicionamentos que limitam a visão da realidade, há um limite máximo que o conhecimento ou a compreensão de um indivíduo, um grupo, uma classe social ou toda uma época pode atingir... Outros fatores condicionantes que integram o conceito de consciência possível são a religião, o pensamento científico, as ideologias, as solidariedades étnicas e nacionais, o gosto artístico, etc., que limitam o campo da consciência para toda uma comunidades humana e até mesmo para uma época. Cada época possui paradigmas que condicionam sua cosmovisão científica e sua práxis concreta”6.

Naquela época, com o exíguo desenvolvimento das ciências naturais, as Escrituras eram usadas também para explicações científicas. Sem o conhecimento dos gêneros literários dos antigos orientais, do sentido correto de certas palavras, os teólogos interpretavam a Bíblia literalmente, o que, aliás, é um princípio da hermenêutica: “Não é lícito abandonar o sentido literal de um texto, sem que haja evidentes indícios de que é metafórico”7. Por exemplo, no caso de existirem argumentos de peso a favor de uma hipótese científica.

Além do mais, a interpretação literal de certos trechos da Bíblia (que apontavam para o geocentrismo) estava de acordo com o bom senso geral da época, que via o movimento do Sol e da Lua, bem como com os filósofos aristotélicos e com a quase totalidade dos astrônomos. Antes de Galileu, Aristarco e Copérnico já haviam lançado a hipótese do heliocentrismo, mas sem qualquer argumento convincente. E sem que alguém tivesse refutado o forte argumento contrário à rotação da Terra: “e o vento, senhores, o vento de 1.440 km/h oriundo da rotação da terra?”

Citamos aqui D. Estêvão Bettencourt:

“Para estabelecer a atual teoria planetária, milhares de sábios e estudiosos contribuíram; assim as hipóteses de Copérnico, as medidas científicas de Tycho, as observações de Galileu, as leis formuladas por Kepler... Ainda durante cerca de cem anos depois de Galileu os argumentos antigos em favor do geocentrismo continuaram a ter peso mais forte na opinião pública do que as razões aduzidas por Copérnico e Galileu em favor do heliocentrismo”.

“A fim de ilustrar quão árduo devia ser a um cristão imbuído da mentalidade dos séculos XVI/XVII admitir o heliocentrismo, seja aqui observada a atitude dos autores protestantes diante do novo sistema:

Lutero (+1546) julgava que as idéias de Copérnico eram idéias de louco, que tornavam confusa a astronomia.

Melancton, companheiro de Lutero, declarava que tal sistema era fantasmagoria e significava a rebordosa das ciências.

Kepler (1571-1630), astrônomo protestante contemporâneo de Galileu, teve que deixar sua terra, o Wurttemberg, por causa de suas idéias copernicanas.

“Em 1659, o Superintendente Geral de Wittemberg, Calovius, proclamava altamente que a razão se deve calar quando a Escritura falou; verificava com prazer que os teólogos protestantes, até o último, rejeitavam a teoria de que a Terra se move.

“Em 1662, a Faculdade de Teologia protestante da Universidade de Estrasburgo afirmou estar o sistema de Copérnico em contradição com a Sagrada Escritura.

“Em 1679, a Faculdade de Teologia protestante de Upsala (Suécia) condenou Nils Celsius por ter defendido o sistema de Copérnico.

“Ainda no século XVIII, a oposição luterana contra o sistema de Copérnico era forte: em 1774 o pastor Kohlreiff, de Ratzeburg, pregava energicamente que «a teoria do heliocentrismo era abominável invenção do diabo»”8.

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(destaques meus)

comentário: não é difícil perceber que foram os teólogos protestantes (que interpretavam a Bíblia de forma literal) que condenaram a teoria heliocêntrica. Vide os comentários dos muitos clérigos, cardeais e um papa (Urbano) sobre a teoria científica...
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 3 de 10)

Parte 1: O MITO E O AMBIENTE
Parte 2: A Astronomia (Sistema Heliocêntrico e Sistema Geocêntrico)

Outro argumento contra o sistema heliocêntrico exporemos a seguir: Se uma pedra for atirada verticalmente para cima, enquanto ela sobe e desce, a Terra se desloca e a pedra chocar-se-á com o terreno em um ponto afastado do ponto de lançamento. Se, após seu lançamento, a pedra levar dez segundos para chocar-se com o terreno, no Equador ela estaria a quatro quilômetros a oeste de seu ponto de lançamento! Repito o comentário feito acima: hoje em dia, quantos saberão explicar por que isto não acontece?


Ilustração representando o sistema heliocêntrico (extraída de Harmonia Macrocosmica, de Andreas Cellarius, 1660-1).


Por estas e outras dificuldades, a teoria heliocêntrica foi abandonada, voltando a ser apresentada muitos séculos depois por Nicolau Copérnico, nascido em Torun, Polônia, em 14.02.1473, e falecido em Frauenburg, Polônia, em 24.05.1543.

Copérnico estudou astronomia e matemática na Universidade de Cracóvia e, por três anos, Direito Canônico em Bolonha, Itália. Também freqüentou as Universidades de Roma, Pádua e Ferrara. Em 1501 aceitou o posto de cônego da Catedral de Frauenburg, cidade onde fez suas observações astronômicas.

Reintroduziu o sistema heliocêntrico de Aristarco, com modificações, em dois trabalhos:

– em 1530: “Comentários sobre as Hipóteses da Constituição do Movimento Celeste”;

– em 1543: “Sobre a Revolução dos Corpos Celestes”.




Acima, um retrato de Copérnico pintado na sua cidade natal, Torun, no início do século XVI.


Acima, ilustação do sistema heliocêntrico feita pelo astrônomo polonês no seu livro De revolutionibus orbium coelestium (“Sobre as revoluções das esferas celestes”), publicado em 1543.


Este último trabalho foi dedicado ao Papa Paulo III, que aceitou a dedicatória, sem problemas. E, mais ainda, o sistema proposto por Copérnico foi usado pela Igreja para reformar o calendário litúrgico, permitindo prever a data da Páscoa e, a partir dela, as demais datas do ano litúrgico. O sistema geocêntrico de Ptolomeu havia levado a erros cumulativos importantes. Os cálculos para definir as datas litúrgicas foram enormemente simplificados com o sistema heliocêntrico. Estes cálculos foram feitos pelo jesuíta e matemático Cristóvão Clavius.

Segundo Copérnico, o Sol ocupa o centro do sistema planetário. Em torno dele os planetas giram em órbitas circulares, na seguinte ordem: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno.

c) Sistema misto

Proposto por Tycho Brahe (1571-1630), astrônomo dinamarquês. Tornou-se conhecido e admirado pelas medidas precisas que realizou, com instrumentos adequados, construídos por ele mesmo com muita perfeição. O seu sistema é considerado por alguns autores como um sistema “conciliatório”. No centro do universo, a Terra, imóvel. À sua volta giram a Lua e o Sol. Os demais planetas giram em torno do Sol, acompanhando-o em seu movimento em torno da Terra. À distância, a esfera das estrelas.

Clavius (à esquerda; gravura do século XVI feita a partir de pintura de Francisco Villamena) e Tycho Brahe (à direita; gravura da Biblioteca Nacional da Dinamarca).
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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 2 de 10)

Postagens Anteriores:
Parte 1: O MITO e o AMBIENTE


2.2. A Astronomia


a) Sistema geocêntrico


Ilustração representando o sistema geocêntrico (extraída de Harmonia Macrocosmica,
de Andreas Cellarius, 1660-1).


É o sistema mais antigo, cuja origem é incerta. Na Antigüidade apresentaram-no, entre outros, Hiparco (190 a 120 a.C.). No século II de nossa era, o grego Cláudio Ptolomeu fez melhoramentos na hipótese de Hiparco, mostrando, por suas observações, que as órbitas dos planetas não podem ser circulares, como queriam Hiparco e Aristóteles, entre outros (o círculo era símbolo da perfeição). A Terra, imóvel, ocupa o centro do universo. Em torno dela giram, na seguinte ordem: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Esta concepção perdurou não só na Antigüidade, mas também por toda a Idade Média, em parte pela adesão de Aristóteles ao geocentrismo, em parte pelas objeções postas ao heliocentrismo, como veremos mais adiante.

b) Sistema heliocêntrico

Aristarco de Samos (século III a.C.) foi o primeiro a adotar e ensinar o sistema heliocêntrico. De acordo com Aristarco, o Sol está imóvel no centro do universo, e à sua volta os planetas descrevem órbitas circulares; as estrelas fixas encontram-se numa esfera cristalina. Avaliou que as distâncias entre as estrelas eram extraordinariamente superiores à distância entre Sol e Terra.


Imagem de As distâncias e os tamanhos do Sol e da Lua, de Aristarco (cópia grega do séc. X, Biblioteca Vaticana).

Não havia provas convincentes de que a realidade estivesse de acordo com esta teoria, mas ela justificava plenamente a regularidade do movimento dos planetas. Por outro lado, havia argumentos de peso contra ela, baseados nos conhecimentos e no “bom senso” da época, proveniente da observação de fenômenos naturais. O argumento de maior importância (creio que muitas pessoas, mesmo nos tempos atuais, não sabem como o refutar) é o seguinte:

Se a Terra gira em torno do Sol, é necessário que também gire em torno de si, para produzir o dia e a noite. Se ela gira em torno de si, deve haver um movimento relativo terra-ar e, portanto, para quem está parado na superfície da Terra, um vento com a mesma velocidade. Se estou andando a cavalo, pensavam, quanto mais rápido andar o cavalo, mais veloz o vento que sentirei, devido ao movimento relativo cavalo-ar. Se estou parado, não sobre o cavalo, mas sim na superfície da Terra, e ela está “correndo” em sua rotação, deverei sentir um vento correspondente. E qual a velocidade deste vento? Os gregos já tinham feito o cálculo. Mais precisamente, Eratóstenes, medindo a diferença de latitude entre Siena (atualmente, Assuan) e Alexandria, e medindo a distância entre estas duas cidades, determinou a circunferência da Terra, no Equador. Foi concluído que, se a Terra girasse sobre si mesma, a velocidade no Equador seria de cerca de 400 m/s (1.440 km/h). E esta seria a velocidade do vento causado pela rotação da terra, velocidade essa suficiente para destruir florestas, veículos, construções, etc. (Na realidade, a velocidade é ainda maior: 1.670 km/h.) Este vento não existe. Logo: a Terra não pode ter o movimento de rotação requerido pelo sistema heliocêntrico para formar dias e noites.

(Destaques meus)
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terça-feira, 16 de setembro de 2008

O caso Galileu (parte 1 de 10)


Por Joaquim Blessmann

Afinal, Galileu foi condenado pela Inquisição por defender que a Terra gira em torno do Sol? Copérnico foi discípulo de Galileu? Galileu morreu queimado na Idade Média? Muitas pessoas acham que conhecem a história do processo de Galileu pela Inquisição, mas conhecem apenas mitos. É preciso inserir-se no contexto em que o caso se desenvolveu para formar uma idéia clara do assunto.






Retrato de Galileu Galilei,
de Justus Sustermans(1597-1681), PalazzoPitti, Florença.



1. O MITO

Três séculos e meio de uma publicidade distorcida e laicista fizeram nascer o mito de que Galileu foi um “mártir da ciência e da liberdade de pensamento e a Igreja a costumeira inimiga da liberdade e do progresso humano”, comenta Cintra1. Também transcrevemos o seguinte trecho, retirado de obra de Massara: “Não se tratou de um conflito entre ciência e religião, entre razão e fé, como uma certa literatura laica, claramente interessada, tem feito crer; mas de uma crise interna do organismo eclesiástico”2. Aliás, essa não é a única distorção histórica; há muitas. Monumental, é por exemplo, aquela que apresenta a Idade Média como uma época de obscurantismo e estagnação, o que não corresponde à realidade. Parece haver uma tendência de cada época a denegrir a que veio imediatamente antes. Pense-se, por exemplo, na Renascença. Ou, atualmente, a atitude de muitos católicos, com suas críticas por vezes contundentes à Igreja de antes do Concílio Vaticano II.

Parece que se baseiam em uma afirmação de Cristo, convenientemente deturpada: “Eu estarei convosco até a consumação dos séculos, porém só a partir do Concílio Vaticano II...”

A seguir, reproduziremos afirmações errôneas sobre o caso Galileu, que conseguimos coletar. Algumas delas serão refutadas logo após serem enunciadas. As demais, no decorrer deste trabalho.

“Galileu foi condenado na Idade Média”. A Idade Média vai até meados do século XV. Ora, Galileu nasceu em 1564, ou seja, cerca de um século após o seu término.

“Galileu foi condenado por dizer que a Terra era redonda”. Ora, já na antiga Grécia isto era admitido por muitos. Por exemplo, Pitágoras (século VI a.C.) e seus discípulos falavam da esfericidade da Terra, da Lua e do Sol, bem como da rotação da Terra. Na Europa, a esfericidade da Terra já tinha defensores quatro séculos antes de Galileu. Uma prova concreta tinha sido dada pela expedição de circunavegação da Terra, comandada por Fernão de Magalhães, em 1521.

“Galileu teve Copérnico como discípulo”. Copérnico faleceu em 1543 e Galileu nasceu 21 anos depois, em 1564.

“Galileu foi o autor da teoria heliocêntrica”. O sistema heliocêntrico deve-se a Aristarco de Samos, no século III a.C., cerca de 1.900 anos antes de Galileu publicar e defender suas concepções astronômicas.

“Galileu foi condenado porque defendia o sistema heliocêntrico”. Não, ele foi condenado pelo modo como o defendia.

Outras afirmações errôneas, que tentaremos esclarecer neste trabalho, são as seguintes: Galileu foi torturado, cegado, aprisionado numa masmorra, queimado vivo, condenado por heresia, etc.

Se quisermos analisar corretamente, e com a máxima isenção de ânimo possível, fatos ocorridos em outra época, é necessário que nos ponhamos a pensar com a mentalidade, os costumes e, importante, com os conhecimentos e o “senso comum” daquela época. Por isto, o capítulo “O Ambiente”.

2. O AMBIENTE

2.1. A Filosofia

Eram dois os filósofos que preponderavam no pensamento da época: (a) Aristóteles e (b) São Tomás de Aquino.

a) Aristóteles partia da observação dos fatos naturais, e a partir daí raciocinava e chegava a um conjunto de princípios gerais que permitissem a compreensão do mundo material. Adota a astronomia geocêntrica, com a Terra, esférica e imóvel, no centro do universo. No mundo celeste, separado da terra pela esfera lunar, reina a perfeição. Na Terra, a imperfeição, com a geração, alteração e corrupção dos corpos, formados por quatro elementos básicos: terra, água, ar e fogo.

Antes de Galileu, na Idade Média, muitos filósofos e teólogos admitiam as idéias físicoastronômicas de Aristóteles, porém sem vinculá-las diretamente à Filosofia. Infelizmente, os aristotélicos da Renascença confundiram Filosofia e ciência.

b) Na Suma Teológica, São Tomás de Aquino deixa bem claro que a realidade física, o fenômeno observado, é uma coisa; e outra são as teorias científicas que tentam explicá-lo: “Uma teoria deve salvar as aparências sensíveis” (isto é, deve estar de acordo com o que aparece aos sentidos, com a realidade física). “Isto, entretanto, não constitui uma prova suficiente e decisiva, porque talvez pudéssemos salvar as aparências sensíveis com uma teoria diferente e mais simples”.

Em outras palavras, uma teoria científica não pretende corresponder à realidade, mas apenas explicá-la. Exemplifiquemos:

– A teoria do contínuo, na engenharia. Admite-se, na engenharia, que a matéria é contínua, sem falhas, fissuras, vazios, poros, espaços entres cristais ou moléculas. É mais do que evidente que isto não corresponde à realidade. Mas as teorias baseadas neste postulado explicam satisfatoriamente o comportamento dos materiais e facilitam enormemente os cálculos, quer se trate de uma ponte, torre, barragem ou outra estrutura qualquer, quer se trate do movimento e de forças existentes nos líquidos e gases, tais como: sustentação de um avião, bolas com “efeito” (futebol, tênis, etc.) e mesmo no movimento do sangue nas veias e artérias, etc.

– Isaac Newton: “Tudo se passa como se a matéria atraísse a matéria na razão direta das massas e na razão inversa dos quadrados das distâncias” (gravitação universal). Note-se a modéstia do verdadeiro cientista. Não afirma, categórico: “a matéria atrai a matéria ...”, mas, modestamente, sugere que “tudo se passa como se ...”

– Owen Gingerich, astrônomo de Harvard: “Os átomos, como os imaginamos, não podem ser comprovados de um modo absoluto. O máximo que podemos dizer, é que o universo age como se fosse feito de átomos”3. Novamente, um modesto “como se”, indicando que se pretende explicar a realidade, sem a pretensão de afirmar que é assim e não pode ser diferente.

- O mesmo vale para o mundo psíquico: uma teoria pode explicar o comportamento humano, mas nada assegura que ela dê a razão real deste comportamento. E aqui penso nas teorias de Freud e de outros, conflitantes entre elas; cada autor rejeita explicações diferentes da sua, a qual, no seu entender, exprime a própria realidade.


(Destaques meus)
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Carta Encíclica Fides et Ratio do Sumo Pontífice João Paulo II aos bispos da Igreja Católica sobre as relações entre fé e razão

LEITURA DE TEXTO LITERÁRIO

1 - Dados sumários sobre o autor e a obra:
1.1 Autor: João Paulo II, sumo pontífice
1.2 Título: Carta Encíclica Fides et Ratio do Sumo Pontífice João Paulo II aos bispos da Igreja Católica sobre as relações entre fé e razão.
1.3 Editora: Paulinas
1.4 Edição:
1.5 Lugar de Publicação: São Paulo
1.6 Dados sobre o autor: ele é o primeiro papa polonês e o único não italiano desde o século XVIII. Foi proclamado papa em 1978 aos 58 anos de idade e, seu nome de batismo (registro) é Karol Wojtyla.
1.7 O livro elucida, em forma simples e inteligível a leigos, o que devemos saber sobre a fé e a razão, qual a relação existente entre elas, quando caminharam juntas e qual a sua influência no debate sobre as verdades existenciais e últimas no mundo contemporâneo.

O seu objetivo primeiro é alertar o valor da fé e da razão. O autor propõe que a única forma de conseguirmos alcançar as respostas para as verdades últimas, sobre nós e sobre Deus, é se obtivermos uma óbvia parceria entre essas duas formas distintas de compreensão do mundo, ou melhor, sua proposta é de que elas não podem coexistir separadas, elas têm necessariamente que atuar juntas, porque só assim podemos manter o caminho correto em busca da Verdade (que é Jesus Cristo).

2 - Pensamento
2.1 Qual tipo de pensamento você identifica no texto?
Filosófico, religioso e científico. Porque nos propõe a utilização da razão filosófica para que à luz da fé possamos melhor compreender a Verdade sobre nossa existência.

3 - Conclusões.
3.1 Qual a importância de Ter lido esta obra? Por quê?
Esta obra me elucidou temas que há muito me interrogo, principalmente, quanto à relação existente entre a fé e a razão e de como a sua interação promove a compreensão da Verdade Suprema.

3.2 Segundo o autor: "A FÉ E A RAZÃO (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer a Ele, para que, conhecendo-o e amando-o, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio. (cf. Ex 33,8; Sl 27/26, 8-9. 63/62, 2-3; Jo 14,8; Jo 3,2)"[1].

De fato, se é Deus quem nos permite utilizar a razão de maneira coerente afim de "descobrirmos" a Sua Verdade, logo, deve existir uma perfeita harmonia entre fé e razão, pois, Deus não iria negar a si próprio. Como alusão a isso temos o perfeito exemplo do pensamento dos Padre Antigos: "Crer, nada mais é senão pensar consentindo(...) Todo que crê, pensa; crendo pensa, e pensando crê(...). A fé se não for pensada não é".[2]

A razão é um dispositivo de busca que se realmente procura a Verdade, deve caminhar de forma coerente e lógica e se após algum tempo for confrontada a sua verdade com a Revelação Divina pouco temos a acrescentar. Portanto, devemos entender que a fé não necessita de um sistema ou escola filosófica específica, basta que a filosofia siga o caminho da verdade. Os antigos chamavam de orthòs logos, ou recta ratio, quando a razão buscava por veredas transparentes e corretas a Verdade Divina.

Em santo Tomás de Aquino a ligação entre fé e razão conheceu o seu ápice. Infelizmente, a partir da baixa Idade Média essa ligação começou a deteriorar-se, devido ao extremo pensamento racionalista de alguns filósofos e, tudo o que foi concebido, na Idade Média, através de uma profunda e lógica parceria entre essas ordens distintas de conhecimento foi esquecido pelos "novos sistemas filosóficos", que agora eram totalmente racionais e alheios a fé.

Como era de se esperar a História provou que essa separação é incoerente. A Filosofia, de sabedoria e saber universal reduziu-se a uma das muitas áreas do conhecimento humano, ao invés de buscar a Verdade e o real sentido da vida. Ela racionalmente tornou-se uma "razão instrumental" que visa somente o prazer e(ou) o poder.

A razão deve urgentemente retornar às suas origens, para o seu próprio bem, pois se a razão não atua juntamente com a Revelação (em Jesus Cristo) jamais enxergará novamente a sua meta final. Assim também, se a fé é privada do auxílio da razão ela corre o sério risco de tornar-se extremamente sentimental, passando também a ser fundamentada somente na experiência e, além de deixar de ser uma proposta universal, poderia ainda ser reduzida a um mero mito ou superstição.

Enfim, devemos ter consciência de que a Revelação Divina (em Jesus Cristo) não carece de uma cultura específica, pois, ela é uma Verdade Universal, sendo assim, todo caminho logicamente correto pode adaptar-se a ela.

Notas:
[1] - Doc. 160 - João Paulo II - Pág. 05
[2] - S. Agostinho, De praedestinatione Sanctorum 2, 5: PL 44, 963.
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Carta Encíclica Fides et Ratio do Sumo Pontífice João Paulo II aos bispos da Igreja Católica sobre as relações entre fé e razão

Há tempos atrás (meados de 1999... 2000...) tive uma crise de fé que me fez oscilar entre o cristianismo e o ateísmo (incrível...). Naquela época conheci um padre salesiano (falecido em 2006) chamado Lourenço Bertolusso que me indicou um livro lançado havia pouco tempo (1998) pelo então papa João Paulo II. O livro falava sobre a busca pela Verdade utilizando a razão e me ajudou a fundamentar as bases para o caminho que trilho nos dias de hoje.

É certo que estive durante alguns anos (meios de 2002 a 2007) após esse episódio de certa forma disperso e fugindo daquilo que Deus traçou para a minha vida. Entretanto, percebo que não estaria aqui hoje se não fosse esse estimado sacerdote (em que a única oportunidade que o encontrei e que conversei foi justamente a que me indicou esta encíclica) e esse "pequeno-grande" livro do filósofo polonês.

Imensa surpresa tive esta semana quando encontrei um resumo feito por mim em 2002 (devido a um trabalho de filosofia no Ensino Médio) da Encíclica do Papa. Mais ainda impressionante é que daqui a dois dias fazem 10 anos que esta carta foi publicada (parece até coincidência - juro que não foi de propósito). Creio que esses fatos me apontam a nova leitura deste texto (que cheguei a ter novo contato no ano passado mas não fui muito longe), pois bem, enquanto não a faço postarei aqui na íntegra o meu resumo escrito em 2002.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O CIBERESPAÇO E O FUTURO DAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS (parte 3 - final)

CONCLUSÃO

O que temos até agora é o advento do ciberespaço da forma como Joel de Rosnay apud Lemos(1996) o denomina: Cybionte, que seria uma “entidade quase biológica”, uma mistura entre o orgânico (possivelmente a capacidade humana de aprender, ou melhor, de acumular conhecimento) e as máquinas cibernéticas.

De acordo com essa ótica, podemos analisar o ciberespaço como uma extensão da nossa mente, um lugar onde o modelo de enciclopédia proposto pelos filósofos iluministas pode de fato ser alcançado devido a enorme capacidade de processamento e armazenamento dos novos computadores.

Elaborar um diagnóstico perspicaz do futuro do homem com relação às maquinas é um tanto audacioso e incerto, visto que, os processos que possibilitarão um aumento das formas de interação humano-máquina não estão ainda em fase final de desenvolvimento.

REFERÊNCIAS:

[LEMO02] LEMOS, André. As Estruturas antropológicas do ciberespaço. IN Cirbercultura, tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre, Sulina, 2002 (p. 136 - 165).

[GIBS91] GIBSON, Willian. Neuromancer. São Paulo. Ed Aleph, 1991.

[LEVY96] LEVY, Pierre. O que é virtual? São Paulo, Ed. 34 Literatura. 1996.

[DANI00] http://www.ulbra.tche.br/~danielnm/ia/defbas/de.html
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O CIBERESPAÇO E O FUTURO DAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS (parte 2)

II. CIBERESPAÇO, MUNDO MATERIAL e INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O Ciberespaço por ser uma representação mental da nossa realidade física possui características semelhantes ao espaço geográfico cultural existente, porém é mais dinâmico podendo ser modificado de acordo com o interesse individual ou coletivo sem causar grande ônus ao quem dele participa. Podemos afirmar que a realidade virtual é criada de acordo com a necessidade corrente sendo sujeita apenas aos indivíduos que dela fazem parte.

No principal mundo virtual, a Internet, existem diversas comunidades humanas divididas em grupos de interesses onde os usuários interagem exatamente como se estivessem no mundo real.

A idéia de um mundo virtual em paralelo com um mundo material é interessante devido ao fato de acontecimentos inerentes ao mundo real serem transferidos ao virtual. Podemos equivaler o processo de nascimento, crescimento e aprendizagem de um indivíduo aos primeiros contatos de um ser humano com o mundo cibernético. E vista disso, existe um turbilhão de realidades diferentes no ciberespaço e isso o torna ainda mais semelhante ao mundo material, porque é para ele que o homem transfere as suas angústias e alegrias existenciais. É nele que o homem se torna mais humano e mais consciente da sua condição terrena, fazendo com que reflexões que nunca seriam feitas numa conversa de esquina alcancem patamares intercontinentais e, portanto importância ainda maior.

Através do ciberespaço haverá uma nova formação política onde a tecnologia da eletrônica tornará viável o desenvolvimento de comunidades inteligentes capazes de se autogerir. A autogestão estará ligada aos grupos que se formariam através das preferências individuais, dando origem a territórios imaterializados. O grande perigo é que, atualmente, existe um pequeno grupo de pessoas privilegiadas que detém a “senha de acesso” à tecnologia de informação. Logo, o ciberespaço faz surgir sociedades marginalizadas, os info-excluídos. A era tecnológica cria ou recria uma nova divisão social, uma redistribuição de saberes, poderes, dois mundos que se separam de acordo com a participação ou não na telemática[LEVY96].

Podemos conceber o ser humano como um ser ativo do meio virtual e, em menor escala do meio material, tornando-se capaz de impor as condições existenciais do ciberespaço. O problema ocorrerá quando o mundo cibernético for tão complexo e abrangente quanto o mundo real, pois, o homem poderá de agente construtor da realidade se tornar um mero paciente submisso às regras estabelecidas durante o processo de evolução do mundo virtual. Este prognóstico sombrio se dará com o aumento exponencial da importância do ciberespaço através de novas teorias computacionais, incluindo principalmente a AI (Artificial Inteligence[1]).

Não é novidade ao falarmos de AI, quando afirmamos que o futuro da humanidade em relação às máquinas será efêmero, ou melhor, que ao aprimorarmos a capacidade dos computadores de processamento e conexão seremos necessariamente subjugados pela nossa própria criação. Entretanto, para algumas pessoas isso apenas reflete o medo humano da escravidão e da inversão de valores (onde a criatura supera o criador) não possuindo qualquer valor real.

Temos que levar em consideração que as tecnologias que possibilitarão a inteligência artificial da forma que vislumbramos ainda demorarão alguns anos para acontecer, visto que, somente a partir dos anos 90 a teoria das redes neurais artificiais[2] teve um aumento considerável de aplicações e desenvolvimento de modelos [DANI00].

Notas:
[1] - do inglês, Inteligência Artificial
[2] - sistema computacional baseado no funcionamento dos neurônios humanos.

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terça-feira, 9 de setembro de 2008

Cerco à família

É preciso consciência sobre a ameaça da implosão da família

Com a pretensão de legalizar “novos arranjos e composições familiares que se materializaram sem que a lei tivesse tempo de prever e proteger seus direitos”, o “Estatuto das Famílias” é um tiro de morte na família tradicional.
Preparado pelo Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), o projeto de lei nº 2.285/2007, em silenciosa tramitação no Congresso Nacional, é uma agressão à Constituição e uma bofetada nas raízes culturais do Brasil. Impressionoume negativamente a leitura atenta do projeto. Por isso, é importante que a sociedade tome consciência do estrago que se avizinha: a implosão da família.
Sobre a importância social da família há volumes alentados, análises e estudos muito ponderáveis. Eu desejaria hoje, concretamente, frisar apenas uma das razões que, a meu ver, evidenciam o nexo de causalidade existente entre família sadia e sociedade civilizada e democrática.
Refiro-me ao fato de que, na sociedade, não há nenhum âmbito de crescimento humano e ético, nenhum ambiente educativo, nenhum “coletivo” tão propício e eficaz para o cultivo das virtudes como a família bem estruturada. E isso é de suma importância, levando em consideração que, no mundo atual, cada vez parece mais evidente que a sociedade precisa do oxigênio vital das virtudes. Decadência social e ignorância ou desprezo pelas virtudes são a mesma coisa.
A não ser que hoje ainda se considerem vigentes as afirmações feitas pelo poeta Paul Valéry, num famoso discurso à Academia Francesa: “Virtude, senhores, a palavra ‘virtude’, já morreu ou, pelo menos, está em vias de extinção (...). Receio que não exista jornal algum que a imprima ou se atreva a imprimila com outro sentido que não seja o do ridículo.
Chegou-se a tal extremo, que as palavras ‘virtude’ e ‘virtuoso’ só podem ser encontradas no catecismo, na farsa, na Academia e na opereta.” Seria de desejar que atitudes desse tipo tivessem ficado enterradas no passado. Quando Valéry falava, virtude sugeria limite, enquadramento, barreira obsoleta, num ambiente ébrio do vinho novo da liberdade. A centralidade da virtude na formação do ser humano havia cedido espaço à liberdade sem limites, numa eufórica erupção de individualismo egocêntrico (que, paradoxalmente, na primeira metade do século XX descambou nas duas maiores tiranias da História). A sociedade atual, com suas mazelas, com os preocupantes desvios de comportamento (basta pensar na escalada da violência, na epidemia da corrupção e no inferno das drogas) é de molde a reacender uma autêntica “saudade das virtudes”.
Pode ser bom mergulhar um pouco na sabedoria dos antigos. Remontemos a 2.500 anos atrás e ouçamos Confúcio dizer: “Para governar deliberadamente um reino é necessário dedicar-se primeiramente a estabelecer a família e o ordenamento que lhe convém. Uma família que responda às exigências humanas e pratique o amor bastará para infundir no reino essas mesmas virtudes.” Muito nos pode dizer também a sabedoria dos gregos. Qualquer estudioso da antigüidade clássica sabe que, entre os poetas e filósofos gregos — e, posteriormente, entre seus discípulos latinos — a grandeza do ser humano estava indissociavelmente vinculada à “aretê”, conceito de rico conteúdo cuja tradução mais aproximada, na linguagem moderna, é precisamente a de “virtude”.
O homem vulgar — recorda Werner Jaeger na sua famosa “Paideia” — não tem “aretê”. E, nas pegadas de Sócrates, Platão reiterará que a virtude, a “aretê”, é a que torna a alma bela, nobre e bem formada, a que abrange e eleva o “humano” em sua totalidade e irradia depois como glória na vida da comunidade.
A família, sim, a família já foi e deveria ser agora o caldo de cultura mais propício para a prática das virtudes. Estamos numa encruzilhada. Não duvidemos. A futura sociedade brasileira encaminhase para uma dessas duas possibilidades, apontadas pelo jurista Pedro J. Viladrich: ou ser uma “constelação de famílias”, dessas células primárias, vitais, naturais, sadias, que constituem o bom tecido social; ou ser um “aglomerado de indivíduos”, preso cada um deles ao interesse particular e ligado aos demais pelo que Gustave Thibon chamava um “egoísmo compartilhado”.

CARLOS ALBERTO DI FRANCO é diretor do Master em Jornalismo.
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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

TEÓLOGO JESUÍTA ORDENADO BISPO É O NOVO SECRETÁRIO DA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

NOTÍCIAS - terça-feira, 19 de agosto de 2008 16:11 por Redação


ROMA - Foi ordenado bispo nos últimos dias na Basílica de São João de Latrão o jesuíta professor de teologia dogmática na Pontifícia Universidade Gregoriana, Luis Ladaria Ferrer [foto] que o Papa chamou para o delicado serviço de Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé.
O celebrante principal foi o Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado. Na sua homilia o Cardeal Bertone sublinhou que o bispo deve ser um mestre com as qualidades de um testemunho que não perde o ímpeto da esperança, pronto a testemunhá-la a todos num mundo que de si mesmo é imperfeito.

Dom Ladaria, que entrou na Companhia de Jesus em 1966, foi professor de teologia dogmática na Universidade Pontifícia de Comillas, em Madri, e depois na Gregoriana, onde foi vice-reitor de 1986 a 1994.

Agora deverá exercer seu serviço como secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, disse o cardeal Bertone, «com essa competência que todos reconhecem e com essa fidelidade a Cristo, à Igreja e ao sucessor de Pedro que é típica do fundador do instituto religioso ao qual pertence», a Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola.

fonte: http://www.jesuitasamazonia.org/ver_noticia.asp?IDNews=288
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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Piada satânica

Olavo de Carvalho
Jornal do Brasil, 12 de junho de 2008

Outro dia um amigo meu me perguntou se eu não havia reparado que, no intervalo de uma geração, condutas descritas pela psiquiatria como neuróticas e até psicóticas passaram a ser aceitas como normais. Não apenas como normais – respondi –, mas como normativas, louváveis e obrigatórias. Os passos seguintes são: (a) marginalizar e criminalizar toda reação de repulsa; (b) tornar a repulsa psicologicamente impossível, expelindo-a do repertório das condutas admitidas na sociedade.

Só a paranóia indisfarçável permite, por exemplo, que, num país onde ocorrem 50 mil homicídios por ano, os assassinatos de 120 homossexuais, espalhados ao longo de um ano num território de oito milhões e meio de quilômetros quadrados, sejam descritos como uma onda genocida homofóbica. No entanto, basta alguém apelar à comparação estatística e instantaneamente ele mesmo, entre gritos de revolta e lágrimas de indignação da platéia, é acusado de homofóbico e apóstolo do genocídio. A hipótese de confrontar o número de gays assassinados com o de gays assassinos, indispensável cientificamente para distinguir entre um grupo ameaçado, um grupo ameaçador e um grupo que não é nem uma coisa nem a outra, acabou por se tornar tão ofensiva que a mera tentação de sugeri-la já basta para você ser processado por homofobia, antes mesmo de haver lei que a proíba.

Mutatis mutandis, o sr. Luiz Mott alega como prova do ódio generalizado anti-gay uns noventa e poucos casos de agressões a homossexuais ocorridos num prazo de quatro meses em São Paulo, mas quem ousará cotejar esse número com a quantidade de agressões cometidas pelos próprios militantes gayzistas num só dia da Parada Gay na mesma cidade? Raciocinando pelo critério estatístico do sr. Mott, diríamos que os gays são um perigo público. A conclusão é absurda, mas decerto menos absurda do que proclamar que eles estão em perigo.

Proibido o senso das proporções, o fingimento histérico e o hiperbolismo paranóico em favor de grupos de interesse tornam-se deveres cívicos indeclináveis. A loucura tornou-se obrigatória, e quem quer que recuse ser contaminado por ela é um criminoso, um réprobo, um doente mental incapacitado para a vida em sociedade.

O sr. presidente da República acaba de dar foros de exigência estatal a essa estupidez psicótica, ao declarar que toda e qualquer oposição ao homossexualismo é “a doença mais perversa que já entrou numa cabeça humana”.

S. Excia reforça suas palavras insistindo em aparecer em cerimônias oficiais ao lado do sr. Luiz Mott, aquele mesmo que discursa sobre arte pornô abraçado à estátua de um bebê pelado do sexo masculino, transmitindo de maneira nada sutil a idéia de que bebês são ou devem tornar-se objetos de desejo sexual como quaisquer outros (se não acreditam, confiram em http://www.youtube.com/watch?v=FlmfZdyk2YA). A propaganda da pedofilia é aí mais do que evidente, mas, ao condecorar o sr. Mott por “mérito cultural” (como se ele próprio tivesse mérito ou cultura), o sr. Lula joga todo o peso da sua autoridade presidencial no blefe cínico que nos força a negar o que vemos e a crer, em vez disso, na encenação oficial de altas intenções humanitárias e culturais. Não há prepotência maior do que exigir que um ser humano sacrifique sua consciência, sua inteligência a até sua capacidade de percepção sensível no altar do absurdo. “Afinal, você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”, perguntava Groucho Marx. Quando a piada se transfigura em realidade, o humorismo se transmuta em palhaçada satânica.

Totalmente insensível ao grotesco da sua performance, o louco sobe à cátedra e dá lições de psiquiatria, catalogando como doentes os que achem que há algo de errado em erotizar a imagem de um bebê, e ainda propondo, como terapêutica, a prisão de todos eles.

E há quem acredite que é possível discutir racionalmente, polidamente, com pessoas como os srs. Lula e Mott...

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