quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI (parte 8)

6. AS INSTRUÇÕES E O MÉTODO MISSIONÁRIO.

Buscar todos os meios para que o outro entendesse era o grande desafio que apresentava a missão entre infiéis. Porém na prática missionária dos anos cinqüenta e sessenta do século XVI os resultados e o avanço da Fé estavam muito longe dos relatos edificantes. São Francisco Xavier tinha encontrado inúmeros obstáculos na Ásia, principalmente no que ele sonhou como sua grande missão: a introdução do cristianismo no Japão. Em Satzuma teve que amargurar a preservação do monopólio religioso por parte dos "bonsos shingon". Em Miyako, capital do império, a Kioto moderna, Xavier suportou injúrias e perseguições e a decepção da indiferença e falta de apoio dos grandes senhores, os maiores interlocutores no seu método de reduzir à Fé20. No Brasil, os índios adultos, preservando os costumes de seus pais, "cierran las orejas para no oir la palabra de salud y converterse al verdadero culto de Dios", o que levou então o irmão Anchieta, em junho de 1560, a dizer ao padre geral Diego Laynes que há "tan pocas cosas dignas de se escrivir que no sé que escriva, porque si espera V.P. que hay muchos de los brasilles convertidos engañarse a sua esperanza" (Leite,1954, III, p.249). Também nas Índias espanholas, onde os jesuítas iniciaram em 1566, uma missão entre os índios da Flórida, se começou mal, com o assassinato de um dos dois padres. Insistindo em 1568, os trabalhos não produziram os frutos esperados e em 1571 foram assassinados mais missionários e a missão foi abandonada21.

Assim, embora o teor edificante não tenha desaparecido efetivamente das cartas para "não mostrar", cada vez mais foi prevalecendo na escrita que vinha das missões o envio de consultas dos mais variados temas e a que vinha de Roma, Lisboa ou Espanha a adoção de instruções e determinações do padre geral e dos provinciais sobre as formas da presença jesuítica e o método missionário na Ásia e na América. Durante o mandato do padre Laynes, ele e o secretário Polanco escreveram cartas onde, além de manifestar aos jesuítas do Brasil e da Índia que "tenemos puestos los ojos en vosotros" (Leite, 1954, III, p.9) instruíam sobre várias questões delicadas e urgentes, a maioria delas formuladas a partir de perguntas feitas nas cartas do padre Nóbrega (Leite, 1954, III, p.541). Padre Laynes, em dezembro de 1562, respondia dizendo que pelas cartas recebidas entendeu "la variedad que en el modo de proceder en ciertas cosas, se há tenido en esa província" (Leite, 1954, III, p. 513), e sendo a informação recebida suficiente até o envio de um visitador, resolveu determinar algumas coisas escrevendo "lo que me ocurre a algunos punctos principales de vuestra letra" (Leite, 1954, III, p. 513). Aprovou assim, entre outros, o estabelecimento de casas para meninos e meninas do gentio, a seleção de alguns da terra para serem mandados para Portugal, a seleção dos que estavam sendo admitidos à Companhia e ter escravos para tratar das fazendas, do gado e pescar para manter as casas que "no lo tengo por inconveniente com que sean justamiente posseídos, lo qual digo porque he entendido que algunos se hazen esclavos injustamente" (Leite, 1954, III, p. 514).

Situações como estas de pouco ou nenhum consenso entre os missionários, ou polêmicas como os "resgates de índios", as doações de terra, a administração exclusiva dos sacramentos, o destino das esmolas do rei, traziam para a missão nas colônias uma complexidade que pedia respostas não imaginadas nas Constituições. Perguntas que, como dizia Polanco, "porque aca no se sabe lo particular no se puede responder" (Leite,1954, III, p.542), deixando para o discernimento e a prudência dos missionários as respostas. Embora como diz Leite, citando ao padre Borja em carta de 1567, em questões de missões todos os padres gerais queriam ajudar (Leite, 1954, I, p.56).

Essa ajuda do governo central e das províncias da Europa, na medida em que se diversificavam as missões, significou na prática uma maior intervenção, visando ao estabelecimento de um padrão. Esta intervenção se realizou recorrendo ao uso de instruções escritas, utilizadas por santo Ignácio desde os primeiros envios, estabelecendo critérios, procedimentos, normas e meios para a atuação dos jesuítas, que terminaram sendo definitivas para o método missionário22. Uma amostra deste espírito que se impunha no clima de dificuldades missionárias nos anos sessenta do século XVI é a Carta de Borja, em 1567, ao provincial do Peru, padre Portillo, para o aproveitamento do envio de oito jesuítas ao Peru, como resposta aos vinte solicitados por Felipe II. O padre geral dispunha nas suas instruções ir a poucas partes, atender primeiro aos já feitos cristãos, cuidando em conservá-los e depois converter os outros "y así, no tengan por cosa expediente discurrir de una en otras partes para convertir gente, com las cuales despues no pueden tener cuenta" (Astrain, 1914, vol II, p. 305), aplicando assim o critério bem inaciano de ganhar pouco a pouco, fortificando o que se ganhou. Também advertia para não se colocar em perigo de vida entre gente não conquistada, "pues não seria útil para el bien común, por la mucha falta que hay de obreros para aquella viña y la dificultad que tenía la Compañía de enviar otros en su lugar" (Astrain, 1914, vol II, p. 306). A essa altura já havia sido assassinado o padre Pedro Martinez na Flórida, e ganhava força uma visão mais realista do que se podia esperar nas Índias. Na verdade, nesta ponderada consideração de situações se estavam aplicando as Constituições na Parte Sétima número 22:

Asi mismo entre las obras pías de igual importância y priesa y necesidad, habiendo algunas mas seguras para quien las trata y otras mas peligrosas y algunas que más fácil y brevemente y otras com mas dificultad y com mas largo tiempo se concluirán, las primeras asi mesmo deberán preferirse. (Loyola, 1963, p. 549)

Padre Borja determinava também, que em regiões de índios ainda não conquistadas, os padres fixariam sua residência em lugar seguro como onde residia o governador, proibindo as "salidas peligrosas" mesmo com ordem do superior. Para a entrada nestas regiões se deveria procurar saber que gente

(...) es aquella em que han de aprovechar, que errores y sectas de gentilidad siguen, que inclinaciones y vícios tienen, si hay doctos o personas de crédito entre ellos, para que estos se procuren ganar como cabezas de los otros y qué remedios, conformes a estas cosas se les puedan y deban aplicar y com los de más entendimiento procure antes com suavidad de palabras y ejemplo de vida aficionarlos al verdadero camino, que por otros rigores. (Atrain, 1914, vol II, p. 305)

De novo a presença nas instruções missionárias do terceiro padre geral, os traços da espiritualidade inaciana na consideração real dos fins a alcançar, as condições do lugar, os meios. Também aqui o estabelecimento das diferenças e hierarquias entre as gentes e o discernimento sobre as ações mais próprias a serem dirigidas, buscando sempre o maior bem universal. Ainda a redução entendida como um processo destinado a persuadir, a mover o entendimento para se abrir a Deus. Bases da constituição de um método missionário que esperava por novos intérpretes como José de Acosta e Matteo Ricci.

Notas:
20 Para as missões de São Francisco Xavier no Japão, ver LACOUTURE, Jean. Jesuítas I Los conquistadores. Paidos: Barcelona 1991, pp. 206-211. [ Links ]

21 Para a missão da Florida e o assassinato do padre Pedro Martinez, ver ASTRAIN, Antonio. Op. cit., vol. II, p. 288.

22 Nos levantamentos de Dominique Bertrand, santo Inácio teria escrito 90 cartas sobre assuntos de missões. Ver La politique de Saint Ignace de Loyola, op. cit., p.73. Em 24 de setembro de 1549, santo Inácio redigiu uma serie de instruções para os jesuítas que iriam lecionar teologia na universidade de Ingolstadt na Alemanha . Dessas instruções constavam o que podia ajudar para alcançar o fim primário, a pureza na Fé e a obediência à Igreja, e o fim secundário de promover a Companhia na Alemanha e os meios comuns para alcançar a ambos. Ver, Obras completas de San Ignácio de Loyola, op. cit., p. 740.


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