domingo, 31 de agosto de 2008

Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI (parte 9 - final)

CONCLUSÃO

Ao considerar a produção de cartas no âmbito da construção da missão na Companhia de Jesus no século XVI, se trabalhou aqui numa leitura dessa documentação por parte do historiador. No contexto da espiritualidade dos jesuítas no século XVI, de alguma forma aqui tratada, tanto a missão como o que dela se escrevia estava conduzido pela busca da vontade divina. Princípio e fundamento do ser humano e da criação que se realizava na identificação do bem universal como o mais divino. Na proposta de uma ordem gerada em grande parte por ibéricos para servir à Igreja no século XVI, o bem universal foi identificado, entre outros, na convocação para trabalhar no anúncio da boa nova aos infiéis da Ásia e da América.

Resgatou-se pois, mesmo que temerariamente, a evidência do texto inaciano nas cartas dos missionários e se lhe colocou numa abrangência que supera o edificante, apontando para uma multiplicidade de sentidos. Isto dentro da proposta que, esse registro, por específico que seja, tem que ser ouvido e interpretado pela análise histórica.

Fundada por alguém que escreveu quase sete mil cartas e composta por letrados, a Companhia de Jesus fez da correspondência o lugar onde ficava visível a "universal Companhia". Gerador de múltiplos textos quando escrevia, Inácio de Loyola transferiu com paciência a seus súditos a consciência da distinção de diversos interlocutores e a elaboração criteriosa da escrita. Nas cartas, os missionários apareciam como os companheiros de Jesus que queriam, segundo os Exercícios Espirituais, ser colocados ao lado do Cristo pobre e padecer com ele. Mas para esse seguimento, os padres precisavam saber o que fazer para alcançar seus fins. As cartas constituíam assim um espaço de tensão, de negociação, de recuos e principalmente de ação. Acreditando que a edificação deveria vir por si, se preocupou Loyola principalmente por estabelecer a base do que aqui foi chamado de um sistema de informações destinado a ajudar na tomada de decisões e na realização de ações.

No caso das missões, na cópia e envio de cartas com diversos destinos, foi construído e definido o projeto jesuítico missionário numa troca de informações que se realizava no eixo Roma, Lisboa, Índia, Brasil. Tal projeto foi examinado aqui a partir da procura de um método para levar a boa nova entre infiéis. Nessa procura por um método no tempo de Loyola, Laynes e Borja, teria havido um recurso contínuo à matriz inaciana no seu entendimento do bem universal e da redução espiritual e o reordenamento de fins e meios, que se materializou na produção de instruções missionárias que terminaram definindo os rumos da atuação da Companhia fora da Europa.

Fonte: Revista Brasileira de História

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