quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI (parte 7)

5. INÁCIO DE LOYOLA E A REDUÇÃO DO INFIEL

Como na Europa, a principal preocupação do superior geral na correspondência com seus súditos nos outros continentes foi a conservação da Companhia e a qualidade e permanência dos frutos produzidos pelos missionários, o que para o padre Ignácio e seus sucessores dependia do aperfeiçoamento do método para atuar entre infiéis. Na instrução ao padre Nuñes enviado em 1555 como patriarca de uma missão à Etiópia pedida por dom João III de Portugal, aparece da própria pena de santo Ignácio alguns dos principais elementos do entendimento da missão entre infiéis. A Etiópia era governada pelo negus Cláudio, que para os portugueses descendia do lendário Preste João, de quem se acreditava seria soberano de um reino cristão na África. Na instrução santo Ignácio realça o que chama "ganar el ánimo del Preste" e de "algunas personas grandes". Recomenda que o patriarca deverá utilizar todos os meios honestos para se fazer querer bem do Preste, comunicando sobre a salvação na Igreja católica romana, acreditando o santo que "en este general, si se le puede persuadir, se ganan muchos particulares, que dél dependen y poco a poco se pueden deducir" (Loyola, 1963, p.910). Como se tratava de um reino cristão que teria caído em erros, deveriam os missionários fazer tomar ciência destes ao Preste.

(...) y algunos particulares de más autoridad y depués, sin tumulto, siendo estos dipuestos, se mire se podra fazer ayuntamiento de los que más estimados son en dotrina en aquellos reinos; y sin que se les quitase interesse ninguno ni cosa que ellos mucho estimen, hacerles capaces de las verdades católicas y de lo que se debe tener em la Iglesia. (Loyola, 1963, p.911)

Tratava-se pois, de "reducirlos a uniformidad con la Iglesia católica", mas sem violência contra os ânimos habituados a outra forma de viver. Recomendava que olhassem os abusos e desordens que podiam ser reformados suavemente "y em modo que los de la tierra vean claramente que la reformación era necesária, y de aquellos se comience, por que sera gran autoridad para la reformación de otros" (Loyola, 1963, p.913). Para esta reforma

(...) en sus abusos deveria ayudar ademas de los sacramentos la introducción de algunas fiestas sensibles, como serían procesiones del Cuerpo de Cristo Nuestro Señor, o otras usadas en la Iglesia católica en lugar de sus baptismos, etc; porque aun nuestro vulgo, que es menos grosero, se ayuda con esto" (Loyola, 1963, p.911).

Pretendendo ainda a conservação católica da Etiópia, acreditava o santo que

(...) ayudaria mucho para la reducción entre de aquellos reinos, así para los principios como para todo tiempo, que allá en Etiopia hiciesen muchas escuelas de leer y escribir, y otras letras y colegios para instituir la juventud, y tambien los demas que lo habran menester en la leguna latina, y costumbres y doctrina cristiana, que esto seria la salud de aquella nación; porque estos creciendo tendrian afición a lo que al principio hibiesen aprendido, y en lo que le parecería exceder a sus mayores, y en breve caerian y se extinguirián los errores y abusos de los viejos. (Loyola, 1963, p.912)

Todavia, Inácio tratava dos mais variados aspectos, como a formação de intérpretes, os tipos de ornamentos, a presença de livros, a vinda de relíquias de santos, a distribuição de dioceses e o governo do patriarca.

Contando já com os resultados das várias missões fundadas por São Francisco Xavier na Ásia, de posse das informações que chegavam do Brasil, com as Constituições entrando na sua fase final de redação e servindo-se da experiência acumulada no combate dos jesuítas à "heresia" na Alemanha, Santo Ignácio estava em condições de aplicar a um projeto missionário tão peculiar como o da Etiópia, os meios e práticas adotados num percurso espiritual que começava nos Exercícios Espirituais.

Central na espiritualidade inaciana o princípio de que "o bem quanto mais universal mais divino", teve na missão um de seus principais campos de aplicação. Assim, na parte sétima das Constituições, no número 612, com relação ao envio a missões por parte do papa, se deveria escolher os que fossem "convenientes o mas próprios para ello mirando el mayor bien universal" (Loyola, 1963, p.545). No tempo do envio no número 615 também se deveria contemplar " el mayor o menor fructo espiritual que se sintiere hacerse o en otra parte se espera, o segun paresciere mas conveniente par algun bien universal" (Loyola, 1963, p.545). Este entendimento do bem universal como mais divino ganhou nas Constituições formulação clara no número 622, ao considerar para o envio lugares e pessoas que, por sua condição, o bem realizado se estenderia a muitos, tanto no caso daqueles considerados grandes, tais como príncipes, prelados, senhores, magistrados, como da mesma forma para com

(...) a personas señaladas em letras y auctoridad, debe tenerse por más de importância, por la mesma razon del bien ser mas universal, pó lo cual también la ayuda que se hiciese a gentes grandes como a lãs Índias, o a prueblos principales o a Univeridades, donde suelen concurrir mas personas, que ayudadas podran ser operários para ayudar a otros, deben preferirse. (Loyola, 1963, p.548)

Vários critérios de escolha para os lugares da presença da Companhia se desprendiam desta aplicação do universal à missão: onde houvesse mais necessidade, onde a porta estivesse mais aberta, onde houvesse maior devoção e desejo, onde houvesse mais dívida ou maior perigo "que el enemigo de Cristo nuestro Señor há sembrado cizaña" (Loyola, 1963, p.548).

É nos Exercícios Espirituais que se encontra uma das referências básicas para a justificativa da missão entre infiéis: sua redução à Fé católica para assim salvar sua alma. É também lá que encontramos os principais elementos da forma como os jesuítas deveriam tratar com os infiéis, como era recomendado nas instruções ao patriarca de Etiópia. Na primeira anotação dos Exercícios Espirituais, Santo Inácio os definiu comparando-os com os exercícios corporais de caminhar, passear ou correr, de sorte que todo "modo de preparar o disponer el ánima, para quitar de sí todas las afecciones desordenadas y despues de quitadas para buscar y hallar la voluntad divina se llaman ejercicios espirituales" (Loyola, 1963, p.196). A espiritualidade de Ignácio e sua aplicação na salvação das almas estava marcada, pois, pelo reordenamento da vontade, ao entendimento e aos sentidos do ser humano em função da vontade divina. Os Exercícios Espirituais deveriam, pois, dispor a pessoa para ouvir e seguir o chamamento do "rei eternal" (Loyola, 1963, p.218). Tratava-se, em termos ignacianos, de "reconduzir aos fins", isto é, postular ou dirigir os fins almejados pelo homem, de acordo com o que Ignácio de Loyola chamou de princípio ou fundamento ou ainda finalidade primeira de todo ser humano: amar, louvar e servir a Deus e assim salvar sua alma (Loyola, 1963, p.203). Estaria na nota 22 que precedia os Exercícios Espirituais a matriz da redução que se pretendia entre infiéis, quando se recomendava para a relação entre o diretor dos exercícios e o exercitante

(...) presuponer que todo buen Cristiano há de ser mas pronto a salvar la proposición del próximo que a condenarla; y si no la puede salvar, inquira como la entiende, y si mal la entiende, corríjale com amor, y si no basta, busque todos los médios convenientes para que, bien entendiéndola, se salve. (Loyola, 1963, p. 202)

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