segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI (parte 6)

4. FRANCISCO XAVIER E O MODELO DA EDIFICAÇÃO NAS MISSÕES

Nesse processo de ida e volta na procura da vontade divina, acredito que se foi construindo e definindo nas suas características a missão jesuítica. A presença da Companhia na Europa e em outros continentes envolveu desde o começo uma teia de relações e interesses tanto fora como dentro da ordem, que foram determinantes e exigiram grande habilidade para seu gerenciamento a partir do governo central: o serviço ao papa na defesa e expansão da Fé, associação com Estados católicos, com os reis de Portugal, com o imperador Carlos V e com os reis da Espanha na cristianização das colônias e territórios de ultramar. Estabeleceu ainda vínculos com nobres e grandes famílias da Itália e da Espanha de onde provinham vocações, auxílios econômicos, doações, proteção. Com relação à expansão da Companhia fora de Espanha, Portugal, Itália e França, era feita fundamentalmente a partir da presença de padres e irmãos, às vezes os mais qualificados membros destas províncias. Deveriam também ser arbitrados ciúmes e queixas numa mediação entre a obediência e o apelo pela disponibilidade que deveria caracterizar o jesuíta. O papado, os Estados, os nobres, os padres da Companhia criaram assim expectativas que eram maiores, na medida em que, com obras como os colégios ou com a presença fora da Europa, os jesuítas ficavam em evidência. Estas expectativas deveriam ser satisfeitas tanto na construção e administração de uma imagem, como na direção e características da expansão. No intuito de alcançar estes objetivos, a correspondência foi fartamente utilizada e a produção de textos privilegiada.

Nessa teia de expectativas com relação às missões fora da Europa, os jesuítas responderam produzindo um imaginário missionário e criando um método de atuação entre infiéis, ambos se configurando na correspondência entre os padres e irmãos.

O envio de jesuítas à Índia em 1541, presididos por Francisco Xavier, constitui o primeiro grande referente na produção desses dois instrumentos. A partir de sua atuação na Índia, em diversas partes da Ásia até chegar ao Japão em 1549 e morrer em 1552, Francisco Xavier passou a encarnar o missionário, o apóstolo jesuíta por excelência. Essa imagem de Francisco que serviria de modelo a todos os outros missionários da ordem, começou a ser construída ainda em Lisboa com a distinção que ele logo alcançou na corte, recolhida na correspondência dos primeiros jesuítas portugueses e nas suas próprias cartas19. Assim, de Goa, Xavier escrevia a santo Ignácio, em outubro de 1542, do sentimento causado entre as crianças que catequizava dizendo que "no me dejaban los muchachos ni rezar mi oficio, ni comer ni dormir, sino que les enseñase algunas oraciones" (Xavier, 1953, p.108). A figura do dedicado e incansável missionário e dos frutos que produzia no anúncio da Fé católica foi se cristalizando no modelo de edificação que se podia extrair das missões entre infiéis, para ser espalhado nas cortes de Europa e entre os jesuítas. Ao mesmo tempo Xavier se constituiu no primeiro referencial para a definição de um método de atuação da companhia entre infiéis. Consciente de ser o primeiro a estar entre infiéis, quando ainda em Lisboa, antes de partir para a Índia, Xavier pedia a santo Inácio que lhe escrevesse "muy largo" sobre o modo de proceder entre eles e a melhor maneira de servir a Deus "que allá os pareciere que debemos hacer" (Xavier, 1953, p. 76).

A edificação que se podia extrair da atuação missionária e que se foi construindo nas cartas de Xavier ficou definida pelo componente da conversão no entendimento inaciano. Para a produção da edificação, os reinos da África e da Ásia onde chegavam os missionários, traziam novos cenários definidos pela presença do fiel na frente do infiel. Uma polaridade com traços próprios que tinha como paradigma mais distante o tempo dos apóstolos Pedro e Paulo entre judeus, gregos e romanos. Polaridade que só podia ser suprimida pela produção da conversão e da incorporação à Igreja dos novos cristãos.

Como nas composições de tempo e lugar das meditações dos Exercícios Espirituais, os cenários das missões presentes nas cartas de Xavier e seus companheiros são definidos pelos personagens que neles se localizam e pelas relações assim geradas. No centro o missionário caracterizado pelo seu zelo na salvação das almas presente nas inúmeras pregações, batismos, confissões e pelos perigos que corre por amor a Jesus Cristo. Junto a ele os europeus, principalmente as autoridades coloniais que patrocinam a cristianização e os colonos entre os que se produzem as primeiras reformas de vida movidas pela pregação consoladora e a reconciliação da confissão. À sua frente os infiéis. Os governantes, os interlocutores por excelência, os primeiros a serem contemplados, que são tratados com consideração e suavidade na esperança que tragam também seus súditos, os homens sábios aos quais se prega para mover suas inteligências em direção à sabedoria divina, as crianças que são facilmente atraídas e para quem se fundam escolas. Finalmente os homens e mulheres adultos, tanto aqueles que se convertem e passam a ser cristãos exemplares, como os que relutam em aceitar o Evangelho por se prender a seus erros antigos, "pues los grandes ni a malas ni a buenas quieren ir al paraíso", como escreve Xavier, de Goa, a Ignácio, em 1544 (Xavier, 1953, p.137). Não falta finalmente neste cenário insinuada mais clara, a presença do demônio, o inimigo do gênero humano na linguagem inaciana.

A cristalização de um modelo de edificação missionário centrado nas narrativas da conversão dos infiéis e sua circulação entre os jesuítas e não-jesuítas foi percebida claramente por santo Inácio nos anos cinqüenta, quando escrevendo para o Brasil e para a Índia por intermédio do padre Polanco, alertava sobre o perigo de só escrever cartas de edificação. Como já o tinha feito com os companheiros que atuavam na Europa, o santo dizia a Nóbrega, em julho de 1553, que a ele interessava saber "no solamente de cosas de edificación" (Leite, 1954, I, p.512). Também padre Berze, missionário da Índia, lhe escreve em fevereiro de 1554 dizendo que "Es verdad que para la edificación de las personas de la Compañia lo que toca a los particulares de ella es muy al propósito; pero podria venir de por si" (Loyola, 1963, p.855). Assim, a edificação tão buscada no início dos anos quarenta, já nos cinqüenta estava presente num modelo cristalizado podendo "Venir de por si".

Notas:

19 Ver, Cartas e escritos de San Francisco Xavier. Madrid: BAC, 1953.

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