quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI (parte 5)

3. LETRAS, INFORMAÇÃO E GOVERNO

Sob a influência do padre Ignácio a Companhia, desde os primeiros anos, utilizou a escrita como forma predominante de comunicação, ação e registro. Já foi mencionado que no início os jesuítas estavam dispersos pela Itália, Irlanda, Portugal, Espanha, França e depois Ásia. Assim, o objetivo fundamental de qualquer carta era a união dos ânimos em torno da procura da vontade de Deus. Ignácio de Loyola, como primeiro superior geral, teve muito claro que havia de produzir uma imagem da Companhia através das letras. Qualquer notícia deveria primeiro edificar, e para conseguir a consolação nada melhor que mostrar os avanços da glória divina nas obras e ações apostólicas dos padres e irmãos. Sendo este o objetivo, a missiva não poderia ser deixada ao acaso das impertinências cotidianas dos padres ou à intensidade de seus sentimentos espirituais. Escrevendo para serem lidos por muitos outros, os padres deveriam ter a consciência de que estavam produzindo um texto para ser interpretado e lembrado.

Porém superiores, provinciais e o governo geral, precisavam de informações e notícias para tomar decisões relativas ao envio de padres, à abertura de residências, nomeação de superiores, procura de auxílio de nobres e poderosos, e em muitos casos, correção de desvios e abusos. Sobre isto era urgente escrever mas de forma separada, estabelecendo a diferença entre o produzido para mostrar e edificar e as novidades do complexo cotidiano das casas, eivado de sentimentos que deveriam permanecer reservados aos superiores e interessados. Diferença de texto prescrita por quem fez da identificação de distinção de estados e meios um dos elementos fundamentais do método dos Exercícios Espirituais.

Entre várias manifestações do santo concernentes a esse entendimento da multiplicidade de textos presentes na correspondência, existe uma carta de dezembro de 1542, escrita para o padre Pedro Fabro, que estava por ordem do papa na Alemanha, na corte de Carlos V. O primeiro companheiro de Iñigo desde os tempos de Paris se queixava de ter que escrever com freqüência, deixando o santo impaciente pela falta de compreensão da importância das cartas para a Companhia e de suas diversas formas, conteúdos e sentidos. Santo Inácio escreve ao companheiro de forma direta e repetitiva na ênfase de escrever a Roma a cada quinze dias. O padre geral distingue aqui o que seria a "carta principal" das "hijuelas".

A "carta principal" deveria ser escrita de tal forma que

(...) se pudiese mostrar a cualquier persona; porque a muchos que nos son bien aficionados y desan ver nuestras cartas, no las osamos mostrar por no traer ni guardar orden alguna y halando de cosas impertinentes en ellas (Loyola, 1963, p.649).

Nessa carta principal escrita para provocar edificação em "oidores o lectores", se deveria colocar o que se fazia em sermões, confissões, Exercícios, obras pias. Para que ficasse mais clara a forma de produzir esta carta principal, o santo dizia como ele fazia as suas, narrando as coisas que edificavam:

(...) y despues mirando y corriguiendo, haciendo cuenta que todos la han de ver, torno a escribir o hacer escribir otra vez, porque lo que se escribe es aún mucho mas de mirar que lo que se habla; porque la escritura queda, y da siempre testimonio, y no se puede así bien soldar ni glosar tan facilmente como quando hablamos (Loyola, 1963, p.649).

Desta forma, segundo o santo, escrevendo duas vezes ele se persuadia que as letras fossem "más concertadas y más distintas". Produção do texto com a clareza de seu caráter documental. Ainda para não deixar dúvida, mencionava como refazia a cópia das cartas que recebia de diversas partes antes de enviá-las a outros jesuítas, retirando "lo que es edificación y poner postponer las mismas palabras, cortando e quitando las impertinentes, por daros a todos placer en el senor nuestro y edificación de los que las oyeren de nuevo "(Loyola, 1963, p.650)18.

Aparece aqui a consciência clara de que nas cartas se produzia a imagem da Companhia para provocar edificação e apoio. Responsabilidade de todos os jesuítas, mas primeiro do padre geral, a quem correspondia distribuir a informação e acertá-la de acordo com o modelo de edificação. Esta procura era o que conduzia o critério para a definição do pertinente. Gestação da escrita encarada como uma montagem definida pelos seus fins e destinatários. Ficava assim em evidência tanto o conhecimento do universo letrado de sua época, ávido que era o santo pelo saber, quanto sua consciência da carta como texto que não podia ser diluído para não ter que "mostrar em parte y encubrir em parte" (Loyola, 1963, p.649).

As "hijuelas", por sua vez, não eram meros anexos, embora o santo não as privilegiasse neste texto. Ali seriam colocadas as "otras particularidades impertinentes para la carta principal" como doenças, novas, negócios, podendo "dilatarse em palabras exhortando". Desta forma "en las hijuelas puede cada uno escribir a priesa de la abundancia del corazón concertado o sin concierto; mas en la principal no se sufre, si no va con algun estudio distinto e edificativo para poderse mostrar e edificar" (Loyola, 1963, p.650). Caberia aqui tudo o que pudesse não edificar, o emocional, o primário, o espontâneo ou sem elaboração e por isso não deveria ser mostrado ou dado a público.

Finalmente o santo, invocando a obediência, dizia que seguiria insistindo nesse ponto e assim rogava e pedia para que "os emendeis em vuestro escribir, preciándoos dello y deseando edificar a vuestros hermanos y a los projimos com vuestras letras" (Loyola, 1963, p.650). A edificação ganha assim, neste contexto, um traço de modernidade onde através da escrita se colocava em evidência o real além de uma releitura à luz da experiência de cristianização.

Não precisou Santo Ignácio de todos aqueles rogos, no que dizia respeito a escrever, para com outro companheiro e grande amigo Francisco Xavier. Sintonizados em muitos aspectos, os dois santos se identificaram também na sua utilização da escrita na Companhia. Francisco Xavier fez também das letras o seu principal meio de comunicação em relação aos companheiros que ficaram na Europa e com os outros missionários que estavam se espalhando pela Ásia. Assim, quando saiu de Goa, em 14 de abril de 1552, deixou instruções ao padre Barzeo, de escrever todos os anos ao padre Ignácio, sobre as novas dos irmãos (Xavier, 1953 , p. 489) "y esto de escribir y recibir cartas hareis com mucha diligência como esto se cumpla" (Xavier, 1953, p. 492). Recomendava, ainda, que se fizessem várias cópias das cartas. Também insistia para que lhe escrevessem a Malaca "todos los años no faltareis" (Xavier, 1953, p.492), acrescentando que

(...) y sea la carta que vos me escribireis muy cumplida, en que me hagais saber muchas cosas así de las nuevas del estado de la Índia, como del fruto que los otros religiosos hacen a gloria de Dios y el fruto de las almas (Xavier, 1953, p. 492).

Partindo para tão longe, Francisco Xavier queria se manter a par do que acontecia em Goa tanto no plano do temporal como no avanço da glória de Deus. Queria saber "as novas" e em que condições andava a missão. Queria saber, que não era só curiosidade ou fervor missionário, mas também interesse em estar informado para poder participar e intervir com recomendações e comentários. Francisco Xavier se fazia assim presente desde a Ásia com suas cartas e não demorou para que muitos desejassem lê-las e conhecê-las na Europa.

Porém o que a Companhia queria, ou melhor, precisava saber? A esta pergunta feita pelo reitor da casa de formação de Coimbra, padre Urbano Fernandes, respondeu o padre Polanco mandado por padre Inácio, em primeiro de junho de 1551. O secretário do superior geral, diz inicialmente, que isto de escrever aos superiores uma vez por mês não só compreende as novas de edificação e o fruto espiritual em confissões e pregações porque, para isto, basta escrever cada quatro meses, mas o que "nuestro padre desea saber es todo aquello (en cuanto se podrá) que conviene sepa para mas ayudar y mejor satisfazer el cargo que Dios Nuestro Señor le ha dado". "Como existen inúmeras coisas das que podem cuidar os superiores locais", continua padre Polanco, "holgaria nuestro padre se le diese información de las cosas que mas importan y de las que tienen mas dificultad" (Loyola, 1963, p.766). Como se trata de uma casa de formação, o santo está interessado no modo de proceder dos estudantes, nos seus estudos e na vida espiritual, quem aproveita mais que outros na doutrina e na graça de pregar, "quiénes estan en disposición de ser imbiados por unas partes e outras ya acabado el curso ordinário de sus estúdios" (Loyola, 1963, p.766).

Nas cartas mensais ao superior, o padre geral deseja saber informações concretas, tais como o número dos que estão na casa ou "quienes entran y se salen o se despiden", como é o cotidiano da formação, quem mostra já sinais de poder ser aproveitado em algum apostolado. Ficando o texto edificante, com os números de confissões e pregações e atos notáveis por conta das cartas principais de cada quatro meses, interessa aqui o importante, o que incidia na vida dos jesuítas e na sua missão, aquilo no qual havia dúvidas ou dificuldades. O que supunha selecionar as informações que deveriam ser apresentadas às diversas instâncias da obediência, ponderando sempre às hierarquias superiores. O que não foi fácil, a julgar pelas histórias das províncias e pelas vezes em que este tema, presente também nas Constituições, voltou a aparecer nas cartas do fundador, como na célebre "Instrução sobre el modo de tratar o negociar com cualquier superior" de maio de 1555, já comentada aqui (Loyola, 1963, p.923)

Com a importância conferida a estas cartas de mês nas Constituições, como já foi visto, e com o empenho do general em recebê-las e contestá-las através de seu secretário e copistas, se foi constituindo a partir do governo geral, a base de um sistema de informações. O que não é de estranhar numa ordem inserida num tempo em que a correspondência, a crônica, o informe secreto, o mapa, os visitadores, faziam parte dos instrumentos de controle e das formas de presença de Estados colonialistas como os da península ibérica, aliás Estados que compunham a base regional da Companhia no século XVI. Ainda que com a precariedade das comunicações da época e com a resistência de não poucos superiores, esse sistema envolvia toda uma estrutura de registros, copistas, envios, arquivos, em função de assegurar a comunicação e fornecer ao superior geral e outros superiores os elementos para suas decisões naquele delicado equilíbrio entre o centralismo e a autonomia, o alto e o baixo que constituiu a Companhia de Jesus. Em cartas ou relatórios o jesuíta se comunicava com os superiores distantes informando, consultando, opinando, discordando, assinalando sua disposição a obedecer. Era também por cartas que o governo geral, os provinciais e os reitores de colégio transmitiam suas decisões, envios e destinos aos súditos que se encontravam longe.

Notas:

18 Este refazer a carta e mexer no seu texto praticado por santo Inácio, foi aprendido e seguido por seu secretário padre Polanco, para desespero dos historiadores, como menciona LEITE, Serafim. Op. cit., vol. I, p.58.

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