terça-feira, 19 de agosto de 2008

Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI (parte 4)

2. ESCRITA E AÇÃO EM INÁCIO DE LOYOLA

A Companhia de Jesus começou a ser gestada em Paris, a partir de 1531, e seu núcleo inicial foi um grupo de estudantes do Colégio de Santa Bárbara que se reunia em torno de um basco que tinha fama de homem santo. Incluindo o próprio Loyola, os primeiros jesuítas eram todos mestres em letras. Nas gerações seguintes já estariam presentes também os doutores. Os chamados primeiros companheiros valorizaram desde o início os aspectos relacionados com as letras, o que compreendia escrever e ler em vernáculo e em latim, ter conhecimento de outras línguas e de textos existentes em grego e latim. Assim, obrigações comuns aos padres de maior grau, os chamados professos, como o de viver de esmolas, não se aplicava aos jovens que deveriam dedicar-se ao estudo. Para isto, se buscou doações e proteções que foram constituindo um patrimônio destinado a ser investido na formação dos jovens. Uma ordem descentralizada mas ao mesmo tempo hierárquica como a Companhia de Jesus só podia ser letrada no século XVI11.

Porém o fato de se tratar de uma ordem de letrados não explica suficientemente uma força de expansão tão grande. Esta capacidade de crescer rápido teria sim que ver com o entendimento dado pelos primeiros jesuítas ao registro escrito como expressão de uma práxis colocada ao serviço da procura da vontade divina. Aqui como em outras partes realço a figura de Ignácio de Loyola.

A memória jesuítica fixou a imagem de Santo Ignácio de Loyola como o homem da ação. Apresenta-se aqui outro traço que considero essencial: Loyola foi também um homem da escrita. Embora isso reduza sua rica personalidade, é difícil não ser levado em consideração para quem entre 1524-1556 escreveu seis mil oitocentas e quinze cartas12. Desde sua convalescença na cidade de Loyola, pelo ferimento recebido em Pamplona, se sabe pelo próprio santo que a escrita o acompanhou nas suas primeiras experiências espirituais, quando escrevia num caderno palavras de Cristo e Nossa Senhora utilizando tintas de diferentes cores para cada um e com "buena letra porque era muy buen escribano" (Loyola, 1963, p. 93), como lembrou ao padre Gonzalez de Camara sem nenhuma modéstia. Na sua autobiografia ele fala também que em Manresa, onde começou propriamente sua experiência espiritual, colocou seus pecados por escrito, e segundo o padre Iparraguirre, descrevia práticas espirituais num caderno de notas. (Loyola, 1963, 181). Aproximadamente dez anos depois, estes primeiros registros eram já o livro dos Exercícios Espirituais (Loyola, 1963, p.196). Em matéria de ascética e mística, Loyola ainda produziu o Diário Espiritual (Loyola, 1963, p. 318), uma minuciosa descrição dos estados de sua alma durante um processo de oração entre 1544 e 1545, para tomar uma decisão a respeito da pobreza nas casas professas da nascente Companhia. De forma mais aprimorada foram registrados aqui estados espirituais e sensações vivenciadas e lidas por Loyola na procura de sinais da vontade divina. Este vínculo entre escrita e devoção o acompanhou até o fim de sua vida, quando escrevendo as Constituições "cada dia escribia lo que pasaba por su alma" (Loyola, 1963, p. 159).

Até as vésperas da fundação da Companhia de Jesus, Iñigo acrescentou à sua cultura letrada os estudos de artes e teologia em Paris, e principalmente escreveu cartas às mais variadas pessoas definindo assim um traço de sua atividade epistolar. Primeiro como Iñigo e depois como o padre Ignácio, Loyola escreveu a diversas pessoas preeminentes entre elas o papa, o imperador Carlos V, reis, rainhas, nobres, doutores, e também pessoas de condição mais simples como religiosos, clérigos e as chamadas pessoas espirituais13. Este traço é importante porque Loyola transitava entre tratamentos, etiquetas e estilos bem diferentes de forma fluida. A todas essas pessoas Loyola se dirigiu com um intuito, mesmo que fosse tão simplório como informá-las de que rezava por elas14. A consciência das expectativas do interlocutor e dos objetivos do redator, o superior geral quis passar para seus companheiros que não tinham sua mesma experiência e história. Assim, escrevendo ao padre Berze, em 24/2/1554, recomendava que quando se escrevesse para pessoas de muita qualidade e inteligência de fora da Companhia "se detenga menos el que escribe en las cosas que particolarmente tocan a personas de la Compañia, extendiendose mas en las generales". (Loyola, 1963, p.854).

Escrever era para Loyola um ato comandado por um sentido. Ele escreveu os Exercícios Espirituais para ensinar e acompanhar, as Constituições para regulamentar, as Instruções aos membros da Companhia para manter a união, seus diários para entender sua própria espiritualidade, e as cartas como forma de agir e comunicar sobre os mais variados assuntos e situações. Loyola acreditava na comunicação como forma privilegiada de ação, e se seguirmos a Barthes no seu ensaio sobre os Exercícios Espirituais onde identificou quatro textos, podemos dizer que nas cartas do santo coexistiam vários textos e vários destinatários15. Em tempos de conflito ou de perseguições, como as acontecidas quando estudante, recorreu à escrita para se defender, argüindo, refutando. Quando já havia se tornado influente escrevia para convencer, definir, decidir, reclamar, dissuadir, agradecer. Posteriormente, quando em exercício como primeiro geral da Companhia, escrevia ainda para influir, informar, discordar e pedir16. Como assinalou Barthes, identificando na eleição a função dos Exercícios Espirituais: a escrita em Loyola era uma práxis17.

Notas:

11 Há nas Constituições diversas disposições relacionadas ao conhecimento e estudo de letras. Aqui é importante mencionar os "Impedimentos para entrar dos que pretendem ser coadjutores espirituais", onde se menciona "Falta de letras o aptitud de ingenio o memória para aprendellas o lengua para explicallas", Constituições, Parte I, cap. 3, nº 183, em Obras Completas de Santo Ignácio de Loyola,. Op. cit.,p.454.

12 Sigo aqui o criterioso estudo de DOMINIQUE BERTRAND, S.J., La politique de Saint Ignace de Loyola. Paris: Lês Editions du Cerf, 1985, onde compara numericamente a correspondência do santo com a de outros contemporâneos, Erasmo 1.980, Lutero 3.141, Calvino .1247, Catarina de Médecis 6.381, entre outros, p.39.

13 Pelo levantamento feito por DOMINIQUE BERTRAND, op. cit., Loyola escreveu mil quinhentas e quatorze cartas a não-membros da Companhia, duas cartas ao papa e duas ao imperador, noventa e duas a reis e pessoas da família real, oitenta e duas a grandes nobres europeus, setenta e uma a cardeais, cento e quarenta a altos funcionários e suas famílias, cento e quarenta a bispos e 301 a nobres, etc., p.42.

14 Um bom exemplo é a carta a Felipe, príncipe da Espanha, de fevereiro de 1549, onde o santo manifesta o apreço pelo príncipe herdeiro da Espanha, sem dizer ou pedir nada, mas que tinha sido escrita no contexto de uma visita do contador-mor do príncipe e embaixador extraordinário a Roma, quando se tratou de questões referentes à reforma dos mosteiros em Catalunha, ver, San Ignácio de Loyola, Obras Completas, op. cit., p. 715.

15 BARTHES, Roland. Sade, Fourier, Loyola.. Paris: Éditions Du Seuil, 1971, p. 47. [ Links ]

16 Dominique Bertrand, na La politique de Saint Ignace de Loyola, op. cit., elaborou uma série de tabelas das categorias das cartas p. 73, dos grandes temas p. 91, e dos meios sociais aos quais se dirigiu santo Inácio, p.115.

17 BARTHES, Roland. Op cit., p.54.

Um comentário:

caio22,5x805cm@hotmail.com disse...

parabens eu gostei muito do texto e espero encontrar outros no blogger ok; meu nome é Antonio Leitão sou de Alenquer - para mais atualmente estudo filosofia em Fortaleza - ce abraço
E.mail= antoniobibiano@hotmail.com