segunda-feira, 7 de julho de 2008

Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI (parte 3)

1. AS CARTAS E A VISIBILIDADE DA "UNIVERSAL COMPANHIA"

A Companhia de Jesus nasceu e se estendeu no século XVI a quatro continentes sob o domínio da escrita. No momento em que a primeira dúzia de "companheiros" se colocou a serviço do papa, compreendeu-se que a dispersão poderia ameaçar sua união e para se manterem unidos em Jesus Cristo nasceu o Instituto. Nas Constituições cuidou Santo Inácio de dedicar uma das dez partes, a oitava, a "De lo que ayuda para unir los repartidos com su cabeza entre sí"9. No primeiro número dessa parte colocou que pela dificuldade de união dos membros com a cabeça e por estarem espalhados entre fiéis e infiéis deveriam contar com diversas ajudas,

(...) pues no conservarse puede ni regirse, ni por consiguiente conseguir el fin que pretiende la Compañia a mayor gloria divina sin estar entre si y com su cabeza unidos los miembros della (Loyola, 1963, p. 556, número 655).

O vínculo entre súditos e superiores através da obediência (número 659), o incentivo do "espírito de corpo", a uniformidade de vida e doutrina e o combate às divisões (números 663-665 e 671-672), a chamada "união dos ânimos" e a comunicação permanente através de cartas (números 662 e 673-676), foram prescritos por Loyola como respostas ao desafio da dispersão e da "diversidad que no dañe a la unión" (Loyola, 1963, pp. 561-563). Importava assim, neste momento, estabelecer os canais e formas de comunicação da Companhia, das corriqueiras às mais complexas, como a que passava pela convocação da Congregação Geral. Interessava, em particular, cuidar da circulação de informações pessoalmente ou por "letras" (número 679).

No que diz respeito às "letras missivas", determinaram-se obrigações em dois sentidos: entre súditos e superiores e entre casas e províncias. No primeiro sentido, o padre geral e os provinciais deveriam saber e "entender las nuevas e informaciones que de unas y otras partes vienen" (número 673). Para garantir que as cartas fossem realmente enviadas, os superiores deveriam escrever para os provinciais cada semana e estes responderiam e escreveriam também ao padre geral a cada mês. (número 674). Ainda para

(...) mas información de todos se imbíe cada cuatros meses al provincial, de cada casa y colegio una lista breve duplicada de todos los que hay en la tal casa, y los que faltan por muerte o por otra causa" (número 676).

No segundo sentido, o governo central ou provincial deveria ordenar "como em cada parte se pueda saber de las otras lo que es para consolación y edificación mutua em el Señor" (número 673). Para isto os superiores escreveriam ao provincial a cada "quatro meses uma letra que contenga solamente las cosas de edificación em la lengua vulgar de la província y outra em latín del mismo tenor" (número 675). Ambas deveriam ir duplicadas para que uma fosse mandada ao geral e da outra se fizessem cópias "tantas veces, que baste para dar noticia a los otros de su Provincia" (número 675). Para ganhar tempo e garantir que as notícias circulariam, os superiores poderiam escrever diretamente ao general, mandando cópia ao provincial e ainda avisando "a los demas de su província, imbiándoles copias de las que escriben al provincial" (número 675).

Foi traçado assim, nas Constituições, um conjunto de operações de comunicação que compunha um sistema de informações. Neste sistema se estabeleciam responsabilidades para a geração das informações e destinatários destas. Foram fixados prazos, determinada a produção de cópias, definida a circulação destas, consideradas as línguas e apontados os temas a serem tratados nas cartas. Coerente com o entendimento hierárquico de Loyola, a comunicação deveria existir de forma vertical para o governo e horizontal para a união dos ânimos. Para conseguir este último, nas condições do século XVI, se recorria à duplicação, assim

(...) dara orden el general que de las letras que se imbián de las províncias, se hagan tantas copias, que basten para proveer a todos los otros provinciales" (número 675).

Sendo a diversidade lingüística um obstáculo, se utilizava o latim, mantendo as línguas ditas "vulgares" na articulação jesuítica do universal e do particular. Tudo isto para garantir a função das cartas: consolar e edificar, dando a conhecer as obras feitas em nome de Deus, "Para que lo de uma província se sepa em outra" (675). Escrever para que outros lessem, copiassem, difundissem e guardassem. Assim, na parte terceira das Constituições sobre a formação dos jovens jesuítas, ao tratar das refeições, se manda ler algum livro piedoso ou "cosas semejantes son como leer letras de edificación" (Loyola, 1963, 470).

Acredito que este sistema de informações atuava como suporte para um sistema de decisões nitidamente inaciano: hierárquico e vertical. Informar a partir da base nas cartas periódicas. Reunir registros e intercambiar opiniões à procura de uma decisão. Comunicar por escrito a decisão a partir do governo geral. Acatar e executar a decisão nas instâncias. Embora fosse possível representar, em várias ocasiões, a obediência, particularmente o entendimento desta se deveria impor10. Tal sistema de informações permitiu pelo menos a procura de alguma uniformidade das políticas numa infinidade de ações às vezes discordantes. Este sistema foi central na ordem e se gestou a partir do próprio percurso letrado do fundador e do relevo concedido às letras na Companhia de Jesus como se verá em seguida.

NOTAS

9 As Constituições foram redigidas por santo Inácio num processo que foi de 1541 até 1556. A partir de 49, pontos definidos por seis dos primeiros membros, o santo primeiro só e depois com ajuda de seu secretário P. Polanco, foi avançando via consultas a diversos rascunhos e versões em 1547, 1550, até chegar às dez partes de 1556. A respeito ver a introdução ao texto das Constituições do P. Iparraguirre em San Ignácio de Loyola, Obras Completas. Madrid: BAC, 1963, p. 400. Utilizo esta edição das obras completas do santo pela sua fidelidade, trasladando as citações no original.

10 Para fixar as formas de representação e a obediência, além da chamada carta da obediência aos padres e irmãos de Portugal em março de 1553, Santo Ignácio via padre Polanco, seu secretário, escreveu a "Instrução sobre el modo de tratar negociar com cualquier superior" em maio de 1555, onde o ponto quarto diz " Si a la determinación del superior, o lo que a el tocare, replicare alguna cosa que bien le parezca, tornando el superior a determinar, no haya replica ni razones algunas por entonces" (Loyola, 1963, p. 924). Ainda, o santo abria possibilidades de representar com o tempo "porque la experiencia com el tiempo descubre muchas cosas"; isto sem óbice de obedecer.


[destaques meus]

Sobre os pontos que destaquei: posso dizer que não vi muita diferença do que acontece nos dias de hoje (lembrando que o autor do artigo está citando o passado). Pelo menos no contato que tenho com os jesuítas pude perceber a existência de algumas revistas de notícias das obras e do que acontece por exemplo em cada província...

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