sexta-feira, 4 de julho de 2008

Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI (parte 2)

INTRODUÇÃO

Assim começou o padre Nóbrega, provavelmente a 10 de abril de 1549, na Bahia, sua primeira carta como missionário, ao superior em Portugal, padre Simão Rodrigues. Nóbrega tinha chegado em 29 de março, na armada de Tomé de Sousa, primeiro governador geral do Brasil. Menos de quinze dias se tinham passado e o superior da pequena missão que se iniciava já escrevia para seu superior contando-lhe como tinha sido recebido, onde estavam alojados, o que tinham encontrado na terra, o estado de pecado e abandono moral em que viviam os portugueses, os primeiros contatos com os índios e o interesse que mostravam em adotar a fé, os avanços na comunicação com estes e os planos de catequese e de ir a outras regiões como Pernambuco (Leite, 1954, vol I, pp.109-115). Como ele, os outros padres e irmãos também escreveram para Portugal e hoje contamos com três grossos volumes de cartas dos primeiros jesuítas entre 1549 e 1563.

Até a expulsão da Companhia, no Brasil e no Pará-Maranhão, superiores, padres e irmãos não deixaram de escrever cartas, informes, relatórios e crônicas em que se recolheu a vida e o cotidiano da Companhia nas colônias portuguesas da América1. Suas cartas foram se acumulando em diversas casas de governo e hoje se encontram nos arquivos de Roma, Lisboa, Évora, Rio de Janeiro e Madrid2.

Esse acervo, mesmo espalhado, se constituiu na referência para a recuperação do passado dos jesuítas no Brasil e da construção de sua memória. Esta recuperação passou a ser feita depois da restauração, na segunda metade do XIX. No caso do Brasil, o padre Serafim Leite, consciente da importância destas cartas e do imaginário que elas alimentavam a respeito da Companhia nos primeiros anos da colonização lusa no Brasil, além de utilizá-las para a redação de sua História da Companhia de Jesus no Brasil, continuou o trabalho já iniciado por historiadores leigos do IHGB, como Capistrano de Abreu, que desde 1885 se tinha empenhado em localizar e publicar cartas dos padres Nóbrega e Anchieta3. Trabalhando nos arquivos da Companhia em Roma, Portugal e Espanha e em diversas províncias, padre Leite localizou cartas perdidas, verificou datas, autores e destinatários, transcreveu e posteriormente publicou as cartas dos primeiros anos da presença jesuítica no Brasil4. A publicação destas coletâneas disponibilizou para estudiosos e historiadores um riquíssimo material seriado para a pesquisa, que nos últimos anos tem sido utilizado para a elaboração de IC, mestrados e doutorados sobre diversos aspectos, e em particular sobre o processo de cristianização e as missões5.

Nos anos setenta, José Carlos Sebe Bom Meihy advertiu sobre a presença de cartas edificantes e de informação entre a volumosa correspondência jesuítica6. Assim, desde o começo da missão dos inacianos no Brasil, uma boa parte das cartas teria sido produzida com o propósito claro de edificar, na expressão ascética da época, que apontava para as ações que serviam para manifestar a presença divina, estimular a Fé do próximo e infundir piedade7. As cartas estavam determinadas pela sua função, seus destinatários e objetivos particulares. Em comunicação de 1997 no Congresso de Americanistas em Quito, inseri a questão da utilização das cartas e das crônicas dos jesuítas na América, dentro da referência básica do carisma inaciano e de sua gestação no século XVI. Coincidi assim com o apontado por Leandro Karnal, Paulo Assunção e Julio Quevedo em suas teses e dissertações8.

Pelo seu traço de orientação de tudo a um "princípio e fundamento", a espiritualidade inaciana colocava todas as ações do indivíduo a serviço de Deus. Era na expectativa de Santo Ignácio pela procura da vontade de Deus que se dirigia a vida de cada jesuíta. Para isto, particularmente nas Constituições da ordem e nas suas cartas, o fundador foi desdobrando as instruções para seguir o método apresentado nos Exercícios Espirituais. Quando os padres e irmãos começaram a se comunicar por cartas desde as mais variadas partes do globo, este espírito inundava sua escrita nas expressões, nos assuntos e episódios referidos. Ao escrever sobre sua missão, os jesuítas o faziam utilizando um registro ou tom inspirado na subjetividade de sua vivência do carisma inaciano.

Como historiador, acredito que não consigo ouvir esse registro subjetivo considerando referências e maneiras de escrever só como edificantes. Da mesma forma, as informações presentes nas cartas não se deviam unicamente ao espírito de controle ou ao desejo de matar curiosidades (Assunção, 2000, pp. 81-89). Elas seriam recolhidas e enviadas à Europa constituindo textos diferenciados, produzidos como parte de um projeto missionário que estava sendo construído e para o qual o poder sempre foi uma referência fundamental. E nessa construção da missão, a escrita cumpriu um papel estratégico.

Formando parte de um projeto em andamento, apresento aqui alguns elementos referentes ao contexto jesuítico e do próprio Ignácio de Loyola, que explicam a importância estratégica da correspondência e o privilégio da escrita entre os jesuítas como meio de comunicação. A partir daí e compulsando documentos da ordem do século XVI, aponto para a importância que esta correspondência teve para construir um imaginário sobre as Missões da Companhia que as fizesse presentes na Europa. Faço isto sabendo que estou trilhando terreno pantanoso para um historiador, como o da espiritualidade, mas acredito que explicitar ponderações de método sobre o tratamento da documentação religiosa pode ser útil para o futuro da pesquisa do catolicismo entre nós.


NOTAS

1 Com respeito às cartas da Companhia e suas coleções, ver para o Brasil, LEITE, Serafim. Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954, vol I, p.61 e seguintes.

2 Para as cartas de Santo Inácio e a Assistência da Espanha, ver a introdução bibliográfica de ASTRAIN, Antonio. Historia de la Compañia de Jesus en la Asistencia de España. Madrid: Razon y Fé, 1912, vol I p. XIII. [ Links ]

3 Sobre este trabalho pioneiro de Capistrano de Abreu, ver as notas de rodapé de José Honório Rodrigues em texto sobre a Historiografia religiosa, que forma parte de sua História da História do Brasil. Historiografia colonial. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979, p.256.

4 O padre Leite fez isto no marco do que seria a Monumenta Brasiliae S.I. se inscrevendo e seguindo os critérios da gigantesca coleção Monumenta Histórica S.I., ver LEITE, Serafim, op. cit., vol I, p.69. Ainda LEITE, Serafim tinha editado Novas Cartas Jesuíticas. São Paulo: Companhia Editora Nacional 1940, publicando depois Cartas do Brasil e mais escritos. Coimbra: O, 1955.

5 Entre outros podemos mencionar GADELHA, Regina Maria F. As missões jesuíticas do Itatim. Estruturas socioeconômicas do Paraguai colonial. Séculos, XVI e XVII. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980; BAETA NEVES, Luis Felipe. O combate do soldados de Cristo na Terra dos Papagaios. Colonialismo e represão cultural. Rio de Janeiro: Forense, 1978; GAMBINI, Roberto. O espelho do Índio, revisado e reeditado. São Paulo: Axis Mundi/Terceiro Nome, 2000; CHAMBOULEYRON, Rafael. "Os lavradores de almas ", dissertação de mestrado, Departamento de História, USP, 1994; MASSIMI, Marina. "Descobrimento, ação, conhecimento e poder no Brasil colonial: estudos históricos psicológicos", tese de Livre Docência, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, USP, Ribeirão Preto 1995; RAMINELLI, Ronald. Imagens da colonização. A representação do Índio de Caminha a Vieira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996; ASSUNÇÃO, Paulo. A terra dos brasis: a natureza da América portuguesa vista pelos primeiros jesuítas (1549-1596). São Paulo: Annablume, 2000. Para o sul do Brasil, QUEBEDO, Julio. Guerreiros e Jesuítas na Utopia do Prata. Bauru: EDUSC, 2000; ainda os doutorados de FLECK, Eliane Cristina D. e MARTINS, Maria Bohn.

6 MEIHY, José Carlos Sebe Bom. "A presença no Brasil da Companhia de Jesus 1549-1649", tese de Doutorado apresentada ao Departamento de História da USP em 1975, [ Links ] apontou para a importância de levar em consideração a diferença entre cartas edificantes e cartas informativas.

7 ASSUNÇÃO, Paulo. Op cit., p.82, diz que com relação às terras americanas era o verbo que melhor definia a ação dos missionários, já que nas colônias nada era digno de ser mantido. Nas cartas de Loyola aquela expressão aparece relacionada a sentimentos de consolação gerados em terceiros por nossas ações em oposição à censura ou rejeição.

8 Os trabalhos destes autores viraram livros. Ver KARNAL, Leandro. Teatro da Fé. São Paulo: Hucitec,1998, pp.48-61; ASSUNÇÃO, Paulo. Op. cit., pp. 57-91; QUEBEDO, Julio. Op. cit., pp. 21-48. Minha contribuição é "La experiencia religiosa jesuítica y la crônica de Pará y Maranhão em el siglo XVII". In Sandra Negro y Manuel Marzal, Un reino en la frontera. Las misiones jesuíticas en la América colonial, Quito/Lima, Abya-Yala-PUC Peru, 1999.


[destaques meus]

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