quinta-feira, 3 de julho de 2008

Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho de Hipona (parte 12)

Capítulo XIX - Refuta objeções e reafirma que mesmo a fé inicial é dom de Deus

§38. Mas esses nossos irmãos, dos quais aqui tratamos e em favor dos quais escrevemos, talvez digam que os pelagianos ficam refutados por este testemunho apostólico que afirma nossa eleição em Cristo antes da criação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença no amor. Eles, porém, têm este raciocínio: ‘Tendo aceitado pelo uso da liberdade os preceitos que nos tornam santos e imaculados em sua presença no amor, como Deus sabia de antemão este futuro, escolheu-nos em Cristo antes da criação do mundo”. Mas o Apóstolo não diz que nos escolheu e predestinou porque sabia de antemão que seríamos santos e irrepreensíveis, mas para que o fôssemos pela eleição de sua graça, com a qual ele nos agraciou no Amado. Portanto, ao predestinar-nos, conhecia pela presciência a sua obra, pela qual nos torna santos e irrepreensíveis. Conseqüentemente, com este testemunho fica refutado legitimamente o erro pelagiano. Eles, porém, replicam: “Mas nós afirmamos que Deus teve conhecimento prévio de nossa fé inicial, e por isso escolheu-nos e predestinou-nos antes da fundação do mundo para sermos também santos e irrepreensíveis por sua graça e obra”. Mas escutem o que afirma neste testemunho: Nele, predestinados pela decisão daquele que tudo opera. Aquele que tudo opera também em nós o início da fé. Nem a própria fé precede a vocação da qual está escrito: Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento (Rm 11,29), e da qual se afirmou: Dependendo não das obras, mas daquele que chama (Rm 9,12), visto que poderia dizer: “Mas do que crê”; e nem precede a eleição anunciada pelo Senhor ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi. Não cremos porque nos escolheu, mas escolheu-nos para crermos, para que não digamos que o escolhemos antes e sejam falhas — o que não é lícito dizer — as palavras: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15,16). Somos chamados para crermos e não porque cremos, e com a vocação, que é irrevogável, realiza-se e se aperfeiçoa o que é mister para crermos. Não há necessidade de repetir o muito que dissemos sobre esta questão.

§39. Finalmente, à continuação do referido testemunho, o Apóstolo dá graças a Deus por aqueles que acreditaram, não porque lhes foi anunciado o evangelho, mas porque acreditaram. Diz assim: nele também vós, tendo ouvido a palavra da Verdade — o evangelho da vossa salvação — e nela tendo crido, fostes selados pelo Espírito da promessa, o Espírito Santo, que é o penhor de nossa herança, para a redenção do povo que ele adquiriu para o seu louvor e glória. Por isso também eu, tendo ouvido a respeito de vossa fé no Senhor Jesus e do vosso amor para com todos os santos, não cesso de dar graças a Deus a vosso respeito (Ef 1,13-16). Era nova e recente a fé dos efésios após ter-lhes sido pregado o evangelho, e, tendo ouvido a respeito dessa fé, o Apóstolo dá graças a Deus por eles. Se desse graças a um homem por um favor, julgando que o favor não foi concedido ou reconhecido, dir-se-ia mais uma ironia do que um agradecimento. Não vos iludaís; de Deus não se zomba (Gl 6,7), pois a fé inicial é também dom de Deus, do contrário considerar-se-ia com razão falsa e falaz a ação de graças do Apóstolo. Por que afirmamos isto? Não é claramente um começo de fé nos tessalonicenses o que merece do Apóstolo uma ação de graças, quando diz: Por esta razão e sem cessar agradecemos a Deus por terdes acolhido a sua palavra que vos pregamos não como palavra humana, mas como na verdade é a palavra de Deus que está produzindo efeito em vós, os fiéis? (lTs 2,13). Por que dá graças a Deus? Pois é vão e inútil agradecer a alguém, se não fez nenhum favor. Mas porque neste caso não é vão e inútil, Deus sem dúvida fez a obra, a qual agradece, ou seja, tendo os ouvidos escutado do Apóstolo a palavra de Deus, receberam-na não como palavra humana, mas como na verdade é palavra divina. Portanto, Deus atua nos corações humanos com a vocação conforme o seu desígnio, da qual falamos tanto, a fim de que não ouçam debalde o evangelho, mas, tendo-o escutado, convertam-se e creiam, recebendo-o não como palavra humana, mas como na verdade é: palavra de Deus.

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