quinta-feira, 10 de julho de 2008

Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho de Hipona (parte 14-final)

Capítulo XXI - Conclusão

§43. Discorremos longanimente e talvez já há tempo conseguimos convencer sobre o que queríamos; falamos tanto às inteligências esclarecidas como às rudes, para as quais mesmo o que é demasiado não é suficiente. Mas perdoem-me, pois esta nova questão obrigou-nos a isso. Como provamos em opúsculos anteriores com testemunhos assaz idôneos que mesmo a fé é dom de Deus, deu-se o caso de encontrar opositores a este ensinamento, os quais afirmam que os testemunhos têm força para provar ser dom de Deus o crescimento na fé. O início da fé, porém, dizem eles, pelo qual se chega a crer em Cristo, depende do ser humano e não é dom de Deus. Deus o exige previamente para que com seu merecimento alcancem as demais coisas que são dons de Deus. Nenhuma delas é concessão gratuita, embora admitam nelas a existência da graça de Deus, que é sempre gratuita. Percebeis o absurdo desta doutrina e por isso insistimos, conforme nos foi possível, em mostrar que o próprio começo da fé é dom de Deus. Se o fizemos com mais extensão que a desejada por aqueles para os quais escrevemos, resignamo-nos a ser repreendidos por eles contanto que confessem que alcançamos nosso objetivo, embora tenhamos sido mais prolixos do que desejávamos, motivando aborrecimento e tédio aos inteligentes. Isto quer dizer que reconheçam que ensinamos ser também dom divino o início da fé, assim como o são a continência, a paciência, a justiça, a piedade e demais virtudes, sobre as quais não há discussão com eles. Dou por terminado este livro, evitando agravar os leitores com um tratado tão difuso sobre um único assunto.

Fonte: Central de Obras do Cristianismo Primitivo

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terça-feira, 8 de julho de 2008

Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho de Hipona (parte 13)

Capítulo XX - Deus é o Senhor das vontades humanas

§40. O Apóstolo adverte que o início da fé é também dom de Deus, pelo que quis dizer na carta aos colossenses: Perseverai na oração, vigilantes, com ação de graças, orando por nós também ao mesmo tempo, para que Deus nos abra uma porta à Palavra, para falarmos do mistério de Cristo, pelo qual estou prisioneiro, a fim de que eu dele fale como devo (Cl 4,2-4). E como se abre a porta à Palavra, se não é abrindo-se o sentido do ouvinte para crer e, dado o início da fé, acolha o que é anunciado e exposto para edificar a doutrina da salvação, e não aconteça que, fechado o coração pela infidelidade, desaprove ou rechace o que se prega. No mesmo sentido são as palavras que dirige aos coríntios: Entrementes permanecerei em Éfeso, pois que se abriu uma porta larga, cheia de perspectivas, e os adversários são muitos (lCor 16,8-9). Que outra interpretação se pode dar, senão que, após ter ele pregado ali primeiramente o evangelho, muitos creram, mas muitos passaram a se opor à mesma fé, conforme as palavras do Senhor: Ninguém pode vir a mim, se isto não lhe for concedido por meu Pai (Jo 6,65), e: A vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não? (Mt 13,11). A porta abriu-se para aqueles aos quais foi concedido, mas são muitos os adversários, aos quais não foi concedido.

§41. Do mesmo modo, dirigindo-se aos mesmos, na segunda carta, diz: Cheguei então a Trôade para lá pregar o evangelho de Cristo, e, embora o Senhor me tivesse aberto uma porta grande, não tive repouso de espírito, pois não encontrei Tito, meu irmão. Por conseguinte, despedi-me deles e parti para a Macedônia. De quem se despediu, senão dos que creram, em cujos corações abrira-se uma porta ao evangelizador? Considerai o que acrescentou: Graças sejam dadas a Deus, que por Cristo nos carrega sempre em seu triunfo e, por nós, expande em toda parte o perfume do seu conhecimento. Em verdade, somos por Deus o bom odor de Cri sto, entre aqueles que se salvam e aqueles que se perdem; para uns, odor que da morte leva à morte; para outros, odor que da vida leva à vida. Eis a razão por que dá graças o acérrimo e invicto defensor da graça; eis por que dá graças: porque os apóstolos são por Deus o bom odor de Cristo tanto para os que se salvam pela graça, como para os que perecem pelo juízo de Deus. Mas, evitando que se indignem com esta afirmação os que pouco entendem deste assunto, ele mesmo os adverte ao prosseguir, dizendo: E quem estaria à altura de tal missão? (2Cor 2,12-16). Mas voltemos à abertura da porta, símbolo do início da fé nos ouvintes. O que significa: Orando também por nós ao mesmo tempo para que Deus nos abra uma porta à Palavra, senão uma demonstração claríssima de que o próprio início da fé é dom de Deus? Pois, não se suplicaria a Deus pela oração, se não se acreditasse vir dele a concessão. Este dom da graça celeste descera sobre a negociante de púrpura, à qual, como diz a Escritura nos Atos dos Apóstolos: O Senhor lhe abriu o coração, de sorte que ela aderiu às palavras de Paulo (At 16,14). Era assim chamada para que tivesse fé, pois Deus atua como quer nos corações humanos ou ajudando ou julgando, com a finalidade de executar por meio deles o que em seu poder e em sua sabedoria havia predestinado realizar (At 4,28).

§42. Afirmaram também, em vão, que não diz respeito ao assunto em pauta o que provamos pelo testemunho da Escritura nos livros dos Reis e das Crônicas, ou seja, que, quando Deus quer realizar o que é mister tenha a colaboração voluntária dos homens, inclina seus corações para que anuam à sua vontade, inclinando-os ele que em nós opera também o querer de um modo admirável e inefável (Supra, na Carta de Hilário, n. 7). O que significa esta afirmação senão nada dizer e, contudo, contradizer?A não ser que, ao emitir este parecer, apresentaram-vos algum motivo que preferistes calar em vossas cartas. Mas ignoro qual possa ser este motivo. Será talvez porque demonstramos que Deus agiu nos corações dos homens e guiou as vontades de quem lhe aprouve para chegarem a constituir rei a Saul ou a Davi? Julgam por isso que estes exemplos nada têm que ver com o assunto porque reinar temporariamente neste mundo não é o mesmo que reinar eternamente com Deus? Pensam nesse caso que Deus inclina os corações no tocante aos remos terrenos, mas não inclina as vontades de quem ele quer quando se trata de alcançar o reino eterno? Mas eu opino que as palavras que seguem foram ditas com referência ao reino dos Céus e não a um reino terreno: Inclina meu coração para os teus preceitos (Sl 118,36); ou: Os passos do homem são formados pelo Senhor e é-lhe grato o seu caminho (Sl 36,23); ou: O Senhor é quem dispõe as vontades (Pr 8 seg. LXX); ou: O Senhor nosso Deus seja conosco, como foi com nossos pais, não nos desamparando, nem nos afastando de si. Mas incline os nossos corações, para andarmos em todos os seus caminhos (lRs 8,57-58); ou: Dar-lhes-ei um (novo) coração e entenderão; ouvidos, e ouvirão (Br 2,31); ou: E eu lhes darei um mesmo coração, e derramarei nas suas entranhas um novo espírito (Ez 11,19). Ouçam também: E porei o meu coração no meio de vós, e farei que andeis nos meus preceitos, e que guardeis as minhas leis, e que as pratiqueis (Ez 36,27). Ouçam ainda: Os passos do homem são dirigidos pelo Senhor; mas que homem pode compreender seu próprio destino? (Pr 20,24). Continuem ouvindo: Todo o caminho do homem lhe parece a ele próprio direito; e o Senhor, porém, pesa os corações (Pr 21,2); e também: E todos aqueles que eram destinados à vida eterna, abraçaram a fé (At 13,48). Ouçam estes testemunhos e outros que não mencionei, os quais demonstram que Deus prepara e converte as vontades dos homens também para o reino dos Céus e a vida eterna. Percebei quão absurdo é acreditar que Deus atua nas vontades humanas para estabelecer remos temporais e que os próprios homens governam suas vontades quando se trata de conquistar o reino dos Céus.

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segunda-feira, 7 de julho de 2008

Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI (parte 3)

1. AS CARTAS E A VISIBILIDADE DA "UNIVERSAL COMPANHIA"

A Companhia de Jesus nasceu e se estendeu no século XVI a quatro continentes sob o domínio da escrita. No momento em que a primeira dúzia de "companheiros" se colocou a serviço do papa, compreendeu-se que a dispersão poderia ameaçar sua união e para se manterem unidos em Jesus Cristo nasceu o Instituto. Nas Constituições cuidou Santo Inácio de dedicar uma das dez partes, a oitava, a "De lo que ayuda para unir los repartidos com su cabeza entre sí"9. No primeiro número dessa parte colocou que pela dificuldade de união dos membros com a cabeça e por estarem espalhados entre fiéis e infiéis deveriam contar com diversas ajudas,

(...) pues no conservarse puede ni regirse, ni por consiguiente conseguir el fin que pretiende la Compañia a mayor gloria divina sin estar entre si y com su cabeza unidos los miembros della (Loyola, 1963, p. 556, número 655).

O vínculo entre súditos e superiores através da obediência (número 659), o incentivo do "espírito de corpo", a uniformidade de vida e doutrina e o combate às divisões (números 663-665 e 671-672), a chamada "união dos ânimos" e a comunicação permanente através de cartas (números 662 e 673-676), foram prescritos por Loyola como respostas ao desafio da dispersão e da "diversidad que no dañe a la unión" (Loyola, 1963, pp. 561-563). Importava assim, neste momento, estabelecer os canais e formas de comunicação da Companhia, das corriqueiras às mais complexas, como a que passava pela convocação da Congregação Geral. Interessava, em particular, cuidar da circulação de informações pessoalmente ou por "letras" (número 679).

No que diz respeito às "letras missivas", determinaram-se obrigações em dois sentidos: entre súditos e superiores e entre casas e províncias. No primeiro sentido, o padre geral e os provinciais deveriam saber e "entender las nuevas e informaciones que de unas y otras partes vienen" (número 673). Para garantir que as cartas fossem realmente enviadas, os superiores deveriam escrever para os provinciais cada semana e estes responderiam e escreveriam também ao padre geral a cada mês. (número 674). Ainda para

(...) mas información de todos se imbíe cada cuatros meses al provincial, de cada casa y colegio una lista breve duplicada de todos los que hay en la tal casa, y los que faltan por muerte o por otra causa" (número 676).

No segundo sentido, o governo central ou provincial deveria ordenar "como em cada parte se pueda saber de las otras lo que es para consolación y edificación mutua em el Señor" (número 673). Para isto os superiores escreveriam ao provincial a cada "quatro meses uma letra que contenga solamente las cosas de edificación em la lengua vulgar de la província y outra em latín del mismo tenor" (número 675). Ambas deveriam ir duplicadas para que uma fosse mandada ao geral e da outra se fizessem cópias "tantas veces, que baste para dar noticia a los otros de su Provincia" (número 675). Para ganhar tempo e garantir que as notícias circulariam, os superiores poderiam escrever diretamente ao general, mandando cópia ao provincial e ainda avisando "a los demas de su província, imbiándoles copias de las que escriben al provincial" (número 675).

Foi traçado assim, nas Constituições, um conjunto de operações de comunicação que compunha um sistema de informações. Neste sistema se estabeleciam responsabilidades para a geração das informações e destinatários destas. Foram fixados prazos, determinada a produção de cópias, definida a circulação destas, consideradas as línguas e apontados os temas a serem tratados nas cartas. Coerente com o entendimento hierárquico de Loyola, a comunicação deveria existir de forma vertical para o governo e horizontal para a união dos ânimos. Para conseguir este último, nas condições do século XVI, se recorria à duplicação, assim

(...) dara orden el general que de las letras que se imbián de las províncias, se hagan tantas copias, que basten para proveer a todos los otros provinciales" (número 675).

Sendo a diversidade lingüística um obstáculo, se utilizava o latim, mantendo as línguas ditas "vulgares" na articulação jesuítica do universal e do particular. Tudo isto para garantir a função das cartas: consolar e edificar, dando a conhecer as obras feitas em nome de Deus, "Para que lo de uma província se sepa em outra" (675). Escrever para que outros lessem, copiassem, difundissem e guardassem. Assim, na parte terceira das Constituições sobre a formação dos jovens jesuítas, ao tratar das refeições, se manda ler algum livro piedoso ou "cosas semejantes son como leer letras de edificación" (Loyola, 1963, 470).

Acredito que este sistema de informações atuava como suporte para um sistema de decisões nitidamente inaciano: hierárquico e vertical. Informar a partir da base nas cartas periódicas. Reunir registros e intercambiar opiniões à procura de uma decisão. Comunicar por escrito a decisão a partir do governo geral. Acatar e executar a decisão nas instâncias. Embora fosse possível representar, em várias ocasiões, a obediência, particularmente o entendimento desta se deveria impor10. Tal sistema de informações permitiu pelo menos a procura de alguma uniformidade das políticas numa infinidade de ações às vezes discordantes. Este sistema foi central na ordem e se gestou a partir do próprio percurso letrado do fundador e do relevo concedido às letras na Companhia de Jesus como se verá em seguida.

NOTAS

9 As Constituições foram redigidas por santo Inácio num processo que foi de 1541 até 1556. A partir de 49, pontos definidos por seis dos primeiros membros, o santo primeiro só e depois com ajuda de seu secretário P. Polanco, foi avançando via consultas a diversos rascunhos e versões em 1547, 1550, até chegar às dez partes de 1556. A respeito ver a introdução ao texto das Constituições do P. Iparraguirre em San Ignácio de Loyola, Obras Completas. Madrid: BAC, 1963, p. 400. Utilizo esta edição das obras completas do santo pela sua fidelidade, trasladando as citações no original.

10 Para fixar as formas de representação e a obediência, além da chamada carta da obediência aos padres e irmãos de Portugal em março de 1553, Santo Ignácio via padre Polanco, seu secretário, escreveu a "Instrução sobre el modo de tratar negociar com cualquier superior" em maio de 1555, onde o ponto quarto diz " Si a la determinación del superior, o lo que a el tocare, replicare alguna cosa que bien le parezca, tornando el superior a determinar, no haya replica ni razones algunas por entonces" (Loyola, 1963, p. 924). Ainda, o santo abria possibilidades de representar com o tempo "porque la experiencia com el tiempo descubre muchas cosas"; isto sem óbice de obedecer.


[destaques meus]

Sobre os pontos que destaquei: posso dizer que não vi muita diferença do que acontece nos dias de hoje (lembrando que o autor do artigo está citando o passado). Pelo menos no contato que tenho com os jesuítas pude perceber a existência de algumas revistas de notícias das obras e do que acontece por exemplo em cada província...

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sábado, 5 de julho de 2008

"Porque ele tem o emblema do Papa!"

Poderia ser uma notícia qualquer senão fosse uma demonstração pura de gratidão e afeição àquele que é o sucessor de Pedro e vigário de Cristo na Terra. Confesso que ao ler essa notícia, particularmente as frases dos chineses, fiquei profundamente emocionado e gratificado a Deus . Esse acolhimento (caridade, amor...) que é próprio dos discípulos de Cristo nos impulsiona a fazer o mesmo (seguindo justamente o exemplo Dele) com os outros... Uma visita aquele asilo próximo a sua casa, ou àquele abrigo de sem tetos, orfanato ou mesmo aquela senhora que tenta atravessar a rua.

Bem, abaixo a notícia que citei:

ÁSIA/CHINA - \"Dê-nos somente o saco vazio, sem nenhum grão de arroz, porque ele tem o emblema do Papa!\": o pedido das vítimas do terremoto de Si Chuan comovidas pela proximidade do Pontífice

Shi Jia Zhuang (Agência Fides) – \"Podem nos dar somente o saco? Mesmo que dentro não tenha mais nenhum grão de arroz traz impresso o emblema do Papa\": é o insólito pedido das vítimas do terremoto feito aos responsáveis e voluntários da Jinde Charity que trabalham na área violentamente atingida pelo terremoto de 12 de maio, na província de Si Chuan da China continental. A doação privada do Santo Padre já se transformou em arroz, que foi distribuído às vítimas do terremoto. Quando viram o emblema do Papa impresso nos sacos, todos ficaram maravilhados e emocionados. Graças ao boca a boca, muitos correram aos voluntários da Jinde Charity e fizeram este pedido: \"sabemos que não há arroz para todos, mas podemos até mesmo renunciar ao arroz, queremos somente o símbolo do Papa, vendo-o a nossa fome passará. Ele será emoldurado e ficará para os nossos filhos e netos… para manifestar a nossa gratidão, para nos sentirmos próximos do Papa. Por favor!\".

Na página que traz a lista dos doadores às vítimas do terremoto, feita pelo site da Jinde Charity (www.jinde.org/jinde-donor.asp?page=2) foi destacado o nome do Papa Bento XVI. Segundo o responsável pelo site, \"depois da publicação os nossos telefones não pararam. Recebemos muitos telefonemas, e-mails e faxes dos católicos chineses e também de não-católicos, que manifestaram gratidão ao Papa e uma grande emoção por senti-lo assim tão próximo”.

(NZ) (Agência Fides 04/07/2008)
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sexta-feira, 4 de julho de 2008

Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI (parte 2)

INTRODUÇÃO

Assim começou o padre Nóbrega, provavelmente a 10 de abril de 1549, na Bahia, sua primeira carta como missionário, ao superior em Portugal, padre Simão Rodrigues. Nóbrega tinha chegado em 29 de março, na armada de Tomé de Sousa, primeiro governador geral do Brasil. Menos de quinze dias se tinham passado e o superior da pequena missão que se iniciava já escrevia para seu superior contando-lhe como tinha sido recebido, onde estavam alojados, o que tinham encontrado na terra, o estado de pecado e abandono moral em que viviam os portugueses, os primeiros contatos com os índios e o interesse que mostravam em adotar a fé, os avanços na comunicação com estes e os planos de catequese e de ir a outras regiões como Pernambuco (Leite, 1954, vol I, pp.109-115). Como ele, os outros padres e irmãos também escreveram para Portugal e hoje contamos com três grossos volumes de cartas dos primeiros jesuítas entre 1549 e 1563.

Até a expulsão da Companhia, no Brasil e no Pará-Maranhão, superiores, padres e irmãos não deixaram de escrever cartas, informes, relatórios e crônicas em que se recolheu a vida e o cotidiano da Companhia nas colônias portuguesas da América1. Suas cartas foram se acumulando em diversas casas de governo e hoje se encontram nos arquivos de Roma, Lisboa, Évora, Rio de Janeiro e Madrid2.

Esse acervo, mesmo espalhado, se constituiu na referência para a recuperação do passado dos jesuítas no Brasil e da construção de sua memória. Esta recuperação passou a ser feita depois da restauração, na segunda metade do XIX. No caso do Brasil, o padre Serafim Leite, consciente da importância destas cartas e do imaginário que elas alimentavam a respeito da Companhia nos primeiros anos da colonização lusa no Brasil, além de utilizá-las para a redação de sua História da Companhia de Jesus no Brasil, continuou o trabalho já iniciado por historiadores leigos do IHGB, como Capistrano de Abreu, que desde 1885 se tinha empenhado em localizar e publicar cartas dos padres Nóbrega e Anchieta3. Trabalhando nos arquivos da Companhia em Roma, Portugal e Espanha e em diversas províncias, padre Leite localizou cartas perdidas, verificou datas, autores e destinatários, transcreveu e posteriormente publicou as cartas dos primeiros anos da presença jesuítica no Brasil4. A publicação destas coletâneas disponibilizou para estudiosos e historiadores um riquíssimo material seriado para a pesquisa, que nos últimos anos tem sido utilizado para a elaboração de IC, mestrados e doutorados sobre diversos aspectos, e em particular sobre o processo de cristianização e as missões5.

Nos anos setenta, José Carlos Sebe Bom Meihy advertiu sobre a presença de cartas edificantes e de informação entre a volumosa correspondência jesuítica6. Assim, desde o começo da missão dos inacianos no Brasil, uma boa parte das cartas teria sido produzida com o propósito claro de edificar, na expressão ascética da época, que apontava para as ações que serviam para manifestar a presença divina, estimular a Fé do próximo e infundir piedade7. As cartas estavam determinadas pela sua função, seus destinatários e objetivos particulares. Em comunicação de 1997 no Congresso de Americanistas em Quito, inseri a questão da utilização das cartas e das crônicas dos jesuítas na América, dentro da referência básica do carisma inaciano e de sua gestação no século XVI. Coincidi assim com o apontado por Leandro Karnal, Paulo Assunção e Julio Quevedo em suas teses e dissertações8.

Pelo seu traço de orientação de tudo a um "princípio e fundamento", a espiritualidade inaciana colocava todas as ações do indivíduo a serviço de Deus. Era na expectativa de Santo Ignácio pela procura da vontade de Deus que se dirigia a vida de cada jesuíta. Para isto, particularmente nas Constituições da ordem e nas suas cartas, o fundador foi desdobrando as instruções para seguir o método apresentado nos Exercícios Espirituais. Quando os padres e irmãos começaram a se comunicar por cartas desde as mais variadas partes do globo, este espírito inundava sua escrita nas expressões, nos assuntos e episódios referidos. Ao escrever sobre sua missão, os jesuítas o faziam utilizando um registro ou tom inspirado na subjetividade de sua vivência do carisma inaciano.

Como historiador, acredito que não consigo ouvir esse registro subjetivo considerando referências e maneiras de escrever só como edificantes. Da mesma forma, as informações presentes nas cartas não se deviam unicamente ao espírito de controle ou ao desejo de matar curiosidades (Assunção, 2000, pp. 81-89). Elas seriam recolhidas e enviadas à Europa constituindo textos diferenciados, produzidos como parte de um projeto missionário que estava sendo construído e para o qual o poder sempre foi uma referência fundamental. E nessa construção da missão, a escrita cumpriu um papel estratégico.

Formando parte de um projeto em andamento, apresento aqui alguns elementos referentes ao contexto jesuítico e do próprio Ignácio de Loyola, que explicam a importância estratégica da correspondência e o privilégio da escrita entre os jesuítas como meio de comunicação. A partir daí e compulsando documentos da ordem do século XVI, aponto para a importância que esta correspondência teve para construir um imaginário sobre as Missões da Companhia que as fizesse presentes na Europa. Faço isto sabendo que estou trilhando terreno pantanoso para um historiador, como o da espiritualidade, mas acredito que explicitar ponderações de método sobre o tratamento da documentação religiosa pode ser útil para o futuro da pesquisa do catolicismo entre nós.


NOTAS

1 Com respeito às cartas da Companhia e suas coleções, ver para o Brasil, LEITE, Serafim. Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954, vol I, p.61 e seguintes.

2 Para as cartas de Santo Inácio e a Assistência da Espanha, ver a introdução bibliográfica de ASTRAIN, Antonio. Historia de la Compañia de Jesus en la Asistencia de España. Madrid: Razon y Fé, 1912, vol I p. XIII. [ Links ]

3 Sobre este trabalho pioneiro de Capistrano de Abreu, ver as notas de rodapé de José Honório Rodrigues em texto sobre a Historiografia religiosa, que forma parte de sua História da História do Brasil. Historiografia colonial. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979, p.256.

4 O padre Leite fez isto no marco do que seria a Monumenta Brasiliae S.I. se inscrevendo e seguindo os critérios da gigantesca coleção Monumenta Histórica S.I., ver LEITE, Serafim, op. cit., vol I, p.69. Ainda LEITE, Serafim tinha editado Novas Cartas Jesuíticas. São Paulo: Companhia Editora Nacional 1940, publicando depois Cartas do Brasil e mais escritos. Coimbra: O, 1955.

5 Entre outros podemos mencionar GADELHA, Regina Maria F. As missões jesuíticas do Itatim. Estruturas socioeconômicas do Paraguai colonial. Séculos, XVI e XVII. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980; BAETA NEVES, Luis Felipe. O combate do soldados de Cristo na Terra dos Papagaios. Colonialismo e represão cultural. Rio de Janeiro: Forense, 1978; GAMBINI, Roberto. O espelho do Índio, revisado e reeditado. São Paulo: Axis Mundi/Terceiro Nome, 2000; CHAMBOULEYRON, Rafael. "Os lavradores de almas ", dissertação de mestrado, Departamento de História, USP, 1994; MASSIMI, Marina. "Descobrimento, ação, conhecimento e poder no Brasil colonial: estudos históricos psicológicos", tese de Livre Docência, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, USP, Ribeirão Preto 1995; RAMINELLI, Ronald. Imagens da colonização. A representação do Índio de Caminha a Vieira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996; ASSUNÇÃO, Paulo. A terra dos brasis: a natureza da América portuguesa vista pelos primeiros jesuítas (1549-1596). São Paulo: Annablume, 2000. Para o sul do Brasil, QUEBEDO, Julio. Guerreiros e Jesuítas na Utopia do Prata. Bauru: EDUSC, 2000; ainda os doutorados de FLECK, Eliane Cristina D. e MARTINS, Maria Bohn.

6 MEIHY, José Carlos Sebe Bom. "A presença no Brasil da Companhia de Jesus 1549-1649", tese de Doutorado apresentada ao Departamento de História da USP em 1975, [ Links ] apontou para a importância de levar em consideração a diferença entre cartas edificantes e cartas informativas.

7 ASSUNÇÃO, Paulo. Op cit., p.82, diz que com relação às terras americanas era o verbo que melhor definia a ação dos missionários, já que nas colônias nada era digno de ser mantido. Nas cartas de Loyola aquela expressão aparece relacionada a sentimentos de consolação gerados em terceiros por nossas ações em oposição à censura ou rejeição.

8 Os trabalhos destes autores viraram livros. Ver KARNAL, Leandro. Teatro da Fé. São Paulo: Hucitec,1998, pp.48-61; ASSUNÇÃO, Paulo. Op. cit., pp. 57-91; QUEBEDO, Julio. Op. cit., pp. 21-48. Minha contribuição é "La experiencia religiosa jesuítica y la crônica de Pará y Maranhão em el siglo XVII". In Sandra Negro y Manuel Marzal, Un reino en la frontera. Las misiones jesuíticas en la América colonial, Quito/Lima, Abya-Yala-PUC Peru, 1999.


[destaques meus]

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quinta-feira, 3 de julho de 2008

Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI (parte 1)

Rev. bras. Hist. v.22 n.43 São Paulo 2002

doi: 10.1590/S0102-01882002000100002

Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI

Fernando Torres Londoño*
PUC-SP

RESUMO

Este artigo examina a produção e troca de correspondência entre os missionários jesuítas do século XVI e seus superiores, resgatando o texto inaciano construído gradualmente nessa circulação de cartas entre Europa, Ásia e América. Nesse texto, recuperado nos Exercícios Espirituais, nas Constituições e nas cartas do santo, estariam as bases da definição de um método missionário para a redução do infiel à Fé católica.

Palavras-chave: jesuítas; missões; cartas.

ABSTRACT

This article deals with the making and exchange of letters between the Jesuit missionaries and their superiors in the sixteenth century. These letters circulating in Europe, Asia and America are based on Saint Ignacyo's writings, mainly the Spiritual Exercices, the Constitutions and his own letters. They are the bases of the missionary method for the convertion of the unfaithful to the Catholic religion.

Keywords: jesuits; mission; letters.

Somente darey conta a V.R. de nossa chegada a esta terra e do que nella fizemos e esperamos fazer em ho Senhor Nosso, deixando os fervores de nossa prospera viagem aos Irmãos que mais em particular a notaram

Serafim Leite




NOTAS

* Este trabalho faz parte de uma pesquisa maior em andamento sobre Índios e Missionários nos séculos XVI e XVII, que tem contado com a participação de bolsistas do CNPQ. Sou grato ao professor Ênio Brito e Lícia Masagão por comentários e correções.


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série artigos acadêmicos

Até o momento tenho postado textos da Santa Sé, dos Pontífices, de santos (como agostinho, ambrósio...) ou pregações inspiradas (ie, os sermões de Antônio Vieira). Nesse mês, iniciarei uma série de artigos científicos (não apenas religiosos) que nos dão luzes ao que acontece ou aconteceu na Igreja.

O primeiro texto será retirado da "Revista Brasileira de História" sobre as cartas dos jesuítas no século XVI (com ênfase na missão brasileira). O trabalho é de autoria de Fernando Torres Londoño (PUC-SP) e faz parte de uma pesquisa sobre as relações entre indígenas e missionários nos séculos XVI e XVII.

Gostaria de frisar que não tenho vínculos com o autor nem com a instituição. Fiquem a vontade para comentários críticos ou sugestões. Como costume informarei o link da versão digital do trabalho apenas na última postagem e sempre que achar necessário grifarei alguma parte do texto.
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Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho de Hipona (parte 12)

Capítulo XIX - Refuta objeções e reafirma que mesmo a fé inicial é dom de Deus

§38. Mas esses nossos irmãos, dos quais aqui tratamos e em favor dos quais escrevemos, talvez digam que os pelagianos ficam refutados por este testemunho apostólico que afirma nossa eleição em Cristo antes da criação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença no amor. Eles, porém, têm este raciocínio: ‘Tendo aceitado pelo uso da liberdade os preceitos que nos tornam santos e imaculados em sua presença no amor, como Deus sabia de antemão este futuro, escolheu-nos em Cristo antes da criação do mundo”. Mas o Apóstolo não diz que nos escolheu e predestinou porque sabia de antemão que seríamos santos e irrepreensíveis, mas para que o fôssemos pela eleição de sua graça, com a qual ele nos agraciou no Amado. Portanto, ao predestinar-nos, conhecia pela presciência a sua obra, pela qual nos torna santos e irrepreensíveis. Conseqüentemente, com este testemunho fica refutado legitimamente o erro pelagiano. Eles, porém, replicam: “Mas nós afirmamos que Deus teve conhecimento prévio de nossa fé inicial, e por isso escolheu-nos e predestinou-nos antes da fundação do mundo para sermos também santos e irrepreensíveis por sua graça e obra”. Mas escutem o que afirma neste testemunho: Nele, predestinados pela decisão daquele que tudo opera. Aquele que tudo opera também em nós o início da fé. Nem a própria fé precede a vocação da qual está escrito: Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento (Rm 11,29), e da qual se afirmou: Dependendo não das obras, mas daquele que chama (Rm 9,12), visto que poderia dizer: “Mas do que crê”; e nem precede a eleição anunciada pelo Senhor ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi. Não cremos porque nos escolheu, mas escolheu-nos para crermos, para que não digamos que o escolhemos antes e sejam falhas — o que não é lícito dizer — as palavras: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15,16). Somos chamados para crermos e não porque cremos, e com a vocação, que é irrevogável, realiza-se e se aperfeiçoa o que é mister para crermos. Não há necessidade de repetir o muito que dissemos sobre esta questão.

§39. Finalmente, à continuação do referido testemunho, o Apóstolo dá graças a Deus por aqueles que acreditaram, não porque lhes foi anunciado o evangelho, mas porque acreditaram. Diz assim: nele também vós, tendo ouvido a palavra da Verdade — o evangelho da vossa salvação — e nela tendo crido, fostes selados pelo Espírito da promessa, o Espírito Santo, que é o penhor de nossa herança, para a redenção do povo que ele adquiriu para o seu louvor e glória. Por isso também eu, tendo ouvido a respeito de vossa fé no Senhor Jesus e do vosso amor para com todos os santos, não cesso de dar graças a Deus a vosso respeito (Ef 1,13-16). Era nova e recente a fé dos efésios após ter-lhes sido pregado o evangelho, e, tendo ouvido a respeito dessa fé, o Apóstolo dá graças a Deus por eles. Se desse graças a um homem por um favor, julgando que o favor não foi concedido ou reconhecido, dir-se-ia mais uma ironia do que um agradecimento. Não vos iludaís; de Deus não se zomba (Gl 6,7), pois a fé inicial é também dom de Deus, do contrário considerar-se-ia com razão falsa e falaz a ação de graças do Apóstolo. Por que afirmamos isto? Não é claramente um começo de fé nos tessalonicenses o que merece do Apóstolo uma ação de graças, quando diz: Por esta razão e sem cessar agradecemos a Deus por terdes acolhido a sua palavra que vos pregamos não como palavra humana, mas como na verdade é a palavra de Deus que está produzindo efeito em vós, os fiéis? (lTs 2,13). Por que dá graças a Deus? Pois é vão e inútil agradecer a alguém, se não fez nenhum favor. Mas porque neste caso não é vão e inútil, Deus sem dúvida fez a obra, a qual agradece, ou seja, tendo os ouvidos escutado do Apóstolo a palavra de Deus, receberam-na não como palavra humana, mas como na verdade é palavra divina. Portanto, Deus atua nos corações humanos com a vocação conforme o seu desígnio, da qual falamos tanto, a fim de que não ouçam debalde o evangelho, mas, tendo-o escutado, convertam-se e creiam, recebendo-o não como palavra humana, mas como na verdade é: palavra de Deus.

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