terça-feira, 3 de junho de 2008

Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho (parte 9)

Capítulo XVI - Entre os judeus, uns foram chamados e eleitos, outros, apenas chamados

§32. Deus chama a muitos filhos seus como predestinados para torná-los membros do seu único Filho predestinado, não mediante a vocação com que foram chamados os que não quiseram vir para o banquete nupcial (Lc 14,16-20), nem com a vocação com que foram chamados os judeus, para os quais Cristo crucificado é escândalo, nem com a vocação dirigida aos pagãos, para os quais o Crucificado é loucura, mas chama os predestinados com a vocação que o Apóstolo distinguiu ao dizer que pregava aos judeus e gregos que Cristo é o poder e a sabedoria de Deus. Diz expressamente: Para aqueles que são chamados (lCor 1,23-24), para distingui-los dos não chamados, tendo em conta que há a vocação segura daqueles que são chamados conforme o seu desígnio, os quais conheceu de antemão e também predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho (Rm 8,28-29). Precisando esta vocação, diz: Dependendo não das obras, mas daquele que chama, foi-lhe dito: “O maior servirá ao menor” (Rm 9,12-13). Por acaso disse: “não das obras, mas do que crê?”. Pelo contrário, negou-o totalmente ao homem, para dá-lo completamente a Deus. Pois disse: mas daquele que chama, não com qualquer vocação, mas com a vocação que leva alguém a crer.

§33. O Apóstolo considerava também esta vocação, quando dizia: Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento. Vede por um momento do que se tratava neste texto. Depois de haver dito: Não quero que ignoreis, irmãos, este mistério, para que não “vos tenhais em conta de sábios” - o endurecimento atingiu uma parte de Israel até que chegue a plenitude dos gentios e assim todo Israel será salvo, conforme está escrito: “De Sião virá o libertador e afastará as impiedades de Jacó, e esta será minha aliança com eles, quando eu tirar seus pecados' acrescentou imediatamente estas palavras que necessitam de compreensão atenciosa: Quanto ao evangelho, eles são inimigos por vossa causa; mas quanto à eleição, eles são amados por causa de seus pais (Rm 11,25-29). O que significa: Quanto ao evangelho, eles são inimigos por vossa causa, senão que a sua inimizade, que os levou a matar o Cristo, sem dúvida favoreceu o evangelho, como é do nosso conhecimento? E demonstra que isto acontece por disposição de Deus, que sabe usar dos maus para o bem, não porque lhe sejam vantajosos os vasos de ira, mas porque, usando deles para o bem, favoreçam os vasos de misericórdia. Não quis dizer isto claramente quando afirmou: Quanto ao evangelho, eles são inimigos por vossa causa? Portanto, está no poder dos maus o pecar, mas, ao pecar, que façam isto ou aquilo pela sua maldade não está no seu poder, mas de Deus, que divide as trevas e as dispõe de modo que fazem a sua vontade com o que fazem contra a sua vontade. Lemos nos Atos dos Apóstolos que os apóstolos, após terem sido libertados pelos judeus, juntaram-se aos seus e, tendo-lhes revelado o que lhes disseram os sacerdotes e anciãos, todos clamaram a uma só voz ao Senhor, dizendo: Mestre, tu fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm; tu falaste pelo Espírito Santo através da boca do nosso pai Davi, teu servo: “Por que esta arrogância entre as nações, estes vãos projetos entre os povos? Os reis da terra alinharam-se em campanha e os magistrados se coligaram de comum acordo contra o Senhor e contra o seu Ungido” - Sim, verdadeiramente, “coligaram-se” nesta cidade contra o teu santo servo Jesus, “que ungiste” Herodes e Pôncio Pilatos com “as nações pagãs” e “os povos” de Israel, para executarem tudo o que, em teu poder e em tua sabedoria, havias predeterminado (At 4,24-28). Eis a razão pela qual o Apóstolo afirmou: Quanto ao evangelho, eles são inimigos por vossa causa. Com efeito, o que a mão e o desígnio de Deus predeterminaram que os inimigos judeus realizassem foi proporção do necessário ao evangelho em atenção a nós. E o que significa o que vem em seguida: Quanto à eleição, eles são amados por causa de seus pais? Significa que aqueles inimigos, que pereceram em seu ódio e que, pertencendo ao mesmo povo e sendo adversários de Cristo ainda perecem, são eles eleitos e amados? De forma alguma. Quem é tão demente a ponto de fazer esta afirmação? Mas se ambas as coisas são contrárias, ou seja, ser inimigos e ser amados de Deus, embora não possam coexistir nas mesmas pessoas, contudo podem coexistir no mesmo povo judeu e na mesma raça de Israel, para uns israelitas como perdição, para outros como bênção. Esclareceu este sentido quando disse antes: Aquilo a que tanto aspira, Israel não conseguiu: conseguiram-no, porém, os escolhidos. E os demais ficaram endurecidos (Rm 11,7). Em ambos os casos trata-se do mesmo povo de Israel. Portanto, ao ouvirmos: “Israel não conseguiu”, ou “ficaram endurecidos”, refere-se aos “inimigos por vossa causa”; mas ao ouvirmos: conseguiram-no, porém, os escolhidos”, compreendem-se “os escolhidos por causa de seus pais”. Estes pais foram beneficiados com estas promessas: As promessas foram asseguradas a Abraão e à sua descendência (GI 3,16). Desse modo, nesta oliveira está enxertado o zambujeiro dos pagãos (Rm 11,17). Mas a eleição, a que se refere, verifica-se segundo a graça e não segundo a dívida, porque constituiu-se um resto segundo a eleição da graça (Rm 11,51). Esta eleição foi alcançada, ficando os demais endurecidos. Segundo esta eleição, os israelitas foram amados por causa de seus pais. Não foram chamados mediante a vocação à qual o evangelho se refere: Muitos são os chamados (Mt 20,16), mas mediante àquela pela qual são chamados os eleitos. Por isso também aqui, depois de dizer: Quanto à eleição, eles são amados por causa de seus pais, acrescenta em seguida: Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento, ou seja, são irrevogáveis. Os incluídos nesta vocação são todos ensinados por Deus e nenhum deles pode dizer: “Cri para ser chamado”, pois a misericórdia de Deus se lhe antecipa, sendo chamado para que cresse. Todos os ensinados por Deus vêm ao Filho, o qual disse claramente: Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende vem a mim (Jo 6,45). Nenhum deles perece, porque de tudo o que lhe deu o Pai nenhum se perderá (Jo 6,39). Portanto, quem quer que venha do Pai não perece de forma alguma, de modo que não viria do Pai aquele que perece. Por isso está escrito: Eles saíram de entre nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco (l Jo 2,19).

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