segunda-feira, 2 de junho de 2008

Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho (parte 8) - Jesus Cristo, exemplar perfeito da predestinação

Capítulo XV - Jesus Cristo, exemplar perfeito da predestinação

§30. O mais preclaro exemplar da predestinação e da graça é o próprio Salvador, o próprio Mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus. Para que o fosse, com que méritos anteriores pela fé ou boas obras sua natureza humana adquiriu tal missão? Peço que me respondam: esta natureza humana, assumida pelo Verbo co-eterno ao Pai na unidade de pessoa, como mereceu ser Filho unigênito de Deus? Algum merecimento precedeu esta união? O que fez antes, em quem creu, o que pediu para chegar a esta inefável superioridade? Não foi pela ação e assunção do Verbo que a mesma humanidade, da qual teve origem sua existência, começou a ser Filho único de Deus? Aquela mulher, cheia de graça, não concebeu o Filho único de Deus? O Filho único de Deus não nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria não pela concupiscência da carne, mas por uma singular graça de Deus? Houve qualquer possibilidade de este homem, pelo uso do livre-arbítrio, chegar a pecar no transcorrer do tempo? Não era livre sua vontade e tanto mais livre quanto mais impossível de que fosse dominado pelo pecado? Assim, pois, a natureza humana, portanto a nossa, recebeu nele estes dotes singularmente admiráveis e outros, se se pode dizer que são seus, sem que houvesse nenhum merecimento precedente. Responda agora o homem a seu Deus, se assim se atrever, e diga: “Por que não eu?”. E se ouvir: Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? (Rm 9,20), não fique coibido, mas aumente sua presunção e diga: “O que ouço: Quem és tu, ó homem? Sendo o que ouço, ou seja, homem, o que é aquele de quem se trata, por que não sou o que ele é?”. Pela graça ele é o que é e tão perfeito; por que é diferente a graça, se a natureza é comum a ele e a mim? Em Deus não há certamente acepção de pessoas (Cl 3,25). Qual é o homem, não digo cristão, mas louco, que poderia proferir palavras tão insensatas?

§31. Manifeste-se, pois, a nós naquele que é nossa Cabeça a própria fonte da graça, da qual se difunde por todos os membros de acordo com a medida de cada um. Com esta graça qualquer homem se torna cristão a partir do momento de sua fé; com ela aquele homem tornou-se Cristo desde o seu princípio. O homem renasce do mesmo Espírito do qual ele nasceu; recebemos a remissão dos pecados pelo mesmo Espírito pelo qual ele foi isento de todo pecado. Não há dúvida que Deus previu na sua presciência a existência destas maravilhosas obras. Nisto consiste, portanto, a predestinação dos santos, que resplandeceu com intenso fulgor no santo dos santos. E quem a pode negar entre os que deveras compreendem as palavras da Verdade? Pois, aprendemos que o próprio Senhor da glória, ao se fazer homem o Filho de Deus, foi predestinado. O Doutor dos Gentios proclama no começo de suas cartas: Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, escolhido para o evangelho de Deus, que ele já tinha escolhido por meio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras, e que diz respeito a seu Filho, nascido da estirpe de Davi segundo a carne, estabelecido Filho de Deus por sua ressurreição dos mortos, segundo o Espírito de santidade (Rm 1,1-4). Portanto, Jesus foi predestinado, a fim de que ele, que seria filho de Davi pela carne, fosse contudo Filho de Deus em poder pelo Espírito de santificação, pois nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria. Esta é a singular assunção da natureza humana realizada de modo inefável pelo Verbo de Deus, para que Jesus Cristo fosse chamado em verdade e com propriedade Filho de Deus e filho do homem ao mesmo tempo; filho do homem pela natureza humana assumida e Filho de Deus devido ao Deus unigênito que a assumiu. Assim o objeto de nossa fé repousa na trindade e não na quartenidade divina. Foi predestinada esta tão excelsa e mais elevada assunção da natureza humana de modo que não fosse possível existir outra que a elevasse tão alto, assim como a divindade não encontrou outro modo mais humilde de se despojar que este de assumir a natureza humana com todas as conseqüências da fraqueza da carne e até da morte de cruz. Portanto, assim como ele, o único, foi predestinado para ser nossa cabeça, muitos somos predestinados para ser membros de seu corpo. Perante isso, emudeçam os merecimentos humanos que deixaram de existir em Adão e reine a graça de Deus que reina por Jesus Cristo, nosso Senhor, Filho único de Deus, o único Senhor. Quem encontrar em nossa cabeça merecimentos prévios à sua singular geração, investigue em nós, seus membros, os merecimentos precedentes para a regeneração tantas vezes iterada. Pois a geração na natureza humana não lhe foi retribuída, mas concedida, a fim de que, isento de toda sujeição ao pecado, nascesse do Espírito e da Virgem. O nosso renascimento da água e do Espírito não é também retribuição por algum mérito, mas concedido gratuitamente. E se foi a fé que nos levou ao banho da regeneração, nem por isso devemos pensar que demos algo a Deus e recebemos a regeneração salutar como retribuição. Pois fez-nos crer em Cristo aquele que fez para nós o Cristo no qual acreditamos, e é autor do princípio e da perfeição da fé em Cristo na mente dos homens aquele que constituiu o homem-Cristo príncipe e realizador da fé. Assim, ele é chamado, como sabeis, na carta aos Hebreus (Hb 12,2).

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