sexta-feira, 27 de junho de 2008

Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho de Hipona (parte 11)

Capítulo XVIII - A eleição é meio para a santidade e não efeito da santidade

§35. O Apóstolo diz: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante dele no amor. Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, conforme a decisão de sua vontade, para louvor e glória de sua graça com a qual ele nos agraciou no Amado. E é pelo sangue deste que temos a redenção, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça que ele derramou profusamente sobre nós, infundindo-nos toda sabedoria e prudência, dando-nos a conhecer o mistério de sua vontade, conforme decisão prévia que lhe aprouve tomar para levar o tempo à sua plenitude: a de em Cristo recapitular todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra. Nele, predestinados pela decisão daquele que tudo opera segundo o conselho de sua vontade, fomos feitos sua herança, a fim de servirmos para o seu louvor e glória (Ef 1,3-12). Quem, pergunto eu, ao ouvir com atenção e compreensão este testemunho, atrever-se-á a duvidar da verdade tão evidente que defendemos? Deus escolheu em Cristo os seus membros antes da criação do mundo; mas como os escolheria, se não existiam, a não ser predestinando-os? Portanto, escolheu-nos o que predestina. Acaso escolheria os ímpios e manchados? Pois, se se pergunta a quem escolheu, se a estes ou os santos e imaculados, aquele que investiga sobre a resposta a dar não se decidirá imediatamente em favor do santos e imaculados?

§36. Os pelagianos argumentam: “Deus sabia de antemão os que se santificariam e permaneceriam sem pecado pelo uso de sua liberdade. Por isso escolheu-os antes da criação do mundo em sua presciência, mediante a qual previu que seriam santos. Portanto, escolheu-os antes que o fossem, predestinando como seus filhos aqueles que sabia em sua presciência que seriam santos e irrepreensíveis. Mas não foi ele que os fez santos e irrepreensíveis, e nem os faria, mas apenas previu que seriam”. Consideremos as palavras do Apóstolo e vejamos se nos escolheu antes da criação do mundo porque haveríamos de ser santos e irrepreensíveis ou para que o fôssemos. Diz ele: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis. Portanto, não porque seríamos, mas para sermos. Assim, pois, isto é certo e evidente: seríamos santos e irrepreensíveis pelo fato de nos escolher, predestinando-nos para o sermos pela sua graça. Por isso, nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor - Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo. Prestai atenção ao que acrescenta em seguida: conforme a decisão de sua vontade, para que em tão sublime dom da graça, não nos gloriássemos como se fosse obra de nossa vontade. E continua: com a qual nos agraciou no Amado, ou seja, agraciou-nos por sua vontade. Assim como disse agraciou pela graça, do mesmo modo se diz: justificou pela justiça. E prossegue: E é pelo sangue deste que temos a redenção, a remissão dos pecados, segundo a riqueza de sua graça, que ele derramou profusamente em nós, infundindo-nos toda sabedoria e prudência, dando-nos a conhecer o mistério de sua vontade, conforme decisão prévia que lhe aprouve tomar. Neste mistério de sua vontade depositou as riquezas de sua graça segundo seu beneplácito e não segundo a nossa vontade, a qual não poderia ser boa, se ele não a socorresse segundo seu beneplácito para ser boa. Pois, depois de ter dito: conforme decisão prévia, acrescentou: que lhe aprouve tomar no Filho amado, para levar o tempo à sua plenitude: a de em Cristo recapitular todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra. Nele, predestinados pela decisão daquele que tudo opera segundo o conselho de sua vontade, fomos feitos sua herança, a fim de servirmos para o seu louvor e glória.

§37. Seria prolixo discorrer sobre cada palavra. Mas percebeis, sem ter nenhuma dúvida, com quanta evidência do testemunho apostólico a graça de Deus é defendida, esta graça contra a qual se levantam os merecimentos humanos, como se o homem desse algo primeiramente para algo receber em retribuição. Portanto, Deus nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, predestinando-nos para sermos seus filhos adotivos, não porque seríamos santos e irrepreensíveis por nossos méritos, mas escolheu-nos e predestinou-nos para o sermos. Assim agiu segundo o seu beneplácito para que ninguém se glorie em sua vontade, mas na de Deus; agiu assim segundo as riquezas de sua graça, conforme o seu beneplácito, que se propôs realizar em seu Filho amado, no qual fomos feitos seus herdeiros, predestinados segundo o beneplácito, e não o nosso, daquele que tudo opera a ponto de operar em nós mesmos o querer (Fl 2,13). Mas opera segundo o conselho de sua vontade, a fim de servir - mas para o seu louvor e glória. Esta é a razão pela qual afirmamos que ninguém procure nos homens motivo de orgulho (lCor 3,21), e, portanto, nem em si mesmo, mas aquele que se gloria, se glorie no Senhor (lCor 1,31), para servirmos para seu louvor e glória. Ele opera conforme a decisão de sua vontade para servirmos para seu louvor e glória, como santos e irrepreensíveis, motivo pelo qual nos chamou, predestinando-nos antes da fundação do mundo. Conforme esta decisão de sua vontade efetua-se a vocação dos eleitos, para os quais tudo coopera para o bem, porque foram chamados segundo o seu desígnio, e os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento.

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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Sermões do Pe. Antônio Vieira, sj

Navegando pela internet, hoje pela manhã, encontrei no site "Domínio Público" um coleção de sermões do P. Antônio Vieira (jesuíta) então achei interessante compartilhar com vocês essa informação!!! =D

Os textos foram publicados em formato pdf para vê-los é necessário ter instalado o acrobat reader ou similar. Clique no link abaixo para ver os sermões:

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.do?select_action=&co_autor=101
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Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho de Hipona (parte 10)

Capítulo XVII - A vocação dos eleitos

§34. Procuremos entender a vocação própria dos eleitos, os quais não são eleitos porque creram, mas são eleitos para que cheguem a crer. O próprio Senhor revela a existência desta classe de vocação ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15,16). Pois, se fossem eleitos porque creram, tê-lo-iam escolhido antes ao crer nele e assim merecerem ser eleitos. Evita, porém, esta interpretação aquele que diz: Não fostes vós que me escolhestes. Não há dúvida que eles também o escolheram, quando nele acreditaram. Daí o ter ele dito: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, não porque não o escolheram para ser escolhidos, mas para que o escolhessem, ele os escolheu. Isso porque a misericórdia se lhes antecipou (Sl 53,11) segundo a graça, não segundo uma dívida. Portanto, retirou-os do mundo quando ele vivia no mundo, mas já eram eleitos em si mesmos antes da criação do mundo. Esta é a imutável verdade da predestinação da graça. Pois, o que quis dizer o Apóstolo: Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo? (Ef 1,4). Com efeito, se de fato está escrito que Deus soube de antemão os que haveriam de crer, e não que os haveria de fazer que cressem, o Filho fala contra esta presciência ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi. Isto daria a entender que Deus sabia de antemão que eles o escolheriam para merecerem ser escolhidos por ele. Conseqüentemente, foram escolhidos antes da criação do mundo mediante a predestinação na qual Deus sabia de antemão todas as suas futuras obras, mas são retirados do mundo com a vocação com que Deus cumpriu o que predestinou. Pois, os que predestinou, também os chamou com a vocação segundo seu desígnio. Chamou os que predestinou e não a outros, justificou os que assim chamou e não a outros; predestinou os que chamou, justificou e glorificou (Rm 8,30) e não a outros com a consecução daquele fim que não tem fim. Portanto, Deus escolheu os crentes, mas para que o sejam e não porque já o eram. Diz o apóstolo Tiago: Não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam? (Tg 2,5). Portanto, ao escolher, fá-los ricos na fé, assim como herdeiros do Reino. Pois, com razão, se diz que Deus escolheu nos que crêem aquilo pelo qual os escolheu para neles realizá-lo. Pergunto: quem ouvir o Senhor, que diz: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, terá atrevimento de dizer que os homens têm fé para ser escolhidos, quando a verdade é que são escolhidos para crer? A não ser que se ponham contra a sentença da Verdade e digam que escolheram antes a Cristo aqueles aos quais ele disse: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.

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terça-feira, 17 de junho de 2008

Como receber a Eucaristia

"Você come o Corpo de Cristo, mas é Ele que te assimila" – Santo Agostinho

O título deste despretensioso artigo causará impacto nos leitores, uma vez que todo fiel sabe muito bem como comungar, entrando em comunhão com Jesus Cristo: Caminho, Verdade e Vida.

Lendo o sexto capítulo do 4º evangelho ficamos impressionados com as palavras de Jesus, afirmando ser Ele mesmo o verdadeiro Maná, descido do céu que se entrega a nós como alimento para nos comunicar a sua Própria Vida, Vida Eterna.

No decorrer dos tempos a Igreja não cessou de celebrar o Mistério Eucarístico e de recomendar aos seus fiéis que busquem na comunhão sacramental aquela força do alto para, na caridade, edificar a comunidade. É direito do batizado, que não sofra algum impedimento, receber a Sagrada Comunhão (CDC 912). É dever de todo fiel, ao menos uma vez por ano, por ocasião do tempo pascal, receber Jesus Sacramentado, após a devida reconciliação com Deus e a Igreja mediante o sacramento da penitência.

Agora vejamos: como comungar? - A maneira como nos acercamos da Eucaristia e a recebemos - lembremo-nos que não estamos a receber uma coisa, um pedacinho de pão - é clara demonstração de nossa fé. Dois profundos sentimentos invadem nosso coração. O primeiro é o de nossa profunda indignidade. Qual criatura, por mais santa que seja, é merecedora de receber o Senhor, nosso Deus? O segundo é o sentimento de alegria e gratidão, uma vez que o próprio Deus quis se entregar a nós, como alimento, para nos comunicar sua Vida, nutrindo-nos como a filhos queridos. Famintos, estendemos nossas mãos ao Senhor - "Como os olhos dos escravos olham para a mão de sua senhora" - e abrimos a boca como pequeno pelicano para receber o bocado do Corpo e da Vida do "Pio Pelicano", Jesus Cristo. Como os cervos sedentos, aproximamo-nos para nos abeberarmos da Fonte da Vida. Discípulos amados, recostamos nossa cabeça no peito de Jesus, como conviva alegre a receber os bocados do verdadeiro Maná descido do céu.

As nossas atitudes externas irão expressar nossa fé uma vez que não pode haver contradição entre a nossa fé e a nossa oração.

Em procissão vamos receber a Eucaristia. Há duas formas de recebê-la, todas duas profundamente significativas, expressam a nossa fé. Em ambas formas, fica bem claro o reconhecimento de que a Eucaristia é um excelso dom que recebemos, é graça que acolhemos e não coisa, bem de que nos apossamos. Não tomamos a Eucaristia, mas a recebemos. Assim se exprime a Instrução Geral sobre o Missal Romano no n.º 160 "(...) Não é permitido aos fiéis receber por si mesmos o pão consagrado e muito menos passar de mão em mão entre si. (...).

O n.º 161 apresenta, com os negritos que chamam mais a nossa atenção, as duas formas dizendo: " Se a comunhão é dada sob a espécie do pão somente, o sacerdote mostra a cada um a hóstia um pouco elevada, dizendo: O Corpo de Cristo. Quem vai comungar responde: Amém, recebe o Sacramento, na boca ou, onde for concedido, na mão, à sua livre escolha. O comungante, assim que recebe a santa hóstia, consome-a inteiramente". Até mesmo o diácono, se por acaso a celebração tiver a sua participação, há de receber das mãos do celebrante a comunhão sob as duas espécies. É o que reza o n.º 182 do mesmo texto. O n.º 244 será mais preciso, afirmando que o diácono recebe a comunhão, numa concelebração, após os celebrantes, das mãos do celebrante principal.

A comunhão na boca tem um belo sentido. É expressão da mesma bondade do Pai que alimenta os seus filhos como crianças. Não é nada indigno sentir-se, é até mesmo um belo sentimento próprio de filho de Deus, conforme nos ensinou Jesus o ser criança diante dos mistérios de Deus. Não nos preparamos para receber a Jesus balbuciando, como uma pequena criança, o nome do Pai: "Abba"? Somos como filhotes de pelicano a receber o Corpo do Senhor. Eu sempre gosto de imaginar Jesus Cristo, partindo os pedaços de pão e colocando-os na boca de seus discípulos, gesto que significa, amor profundo pelos seus.

Quanto à outra forma, recorro às instruções de um grande catequista que viveu no século IV e foi bispo de Jerusalém: "Ao te aproximares (da Eucaristia), não vás com as palmas das mãos estendidas, com os dedos separados; mas faze com a mão esquerda um trono para a direita como quem deve receber um Rei e no côncavo da mão espalmada recebe o Corpo de Cristo, dizendo: "Amém".

Imagino que terei causado mal estar a muitos leitores e serei logo taxado de rubricista. Meu propósito foi somente o de esclarecer como algumas atitudes exteriores, gestuais são formas de expressar a nossa fé no grande Mistério que celebramos e demonstrar amor para com o Corpo do Senhor. Nossa presença na Missa deve ser total: corpo, coração, alma. Aquele que bem recebe a comunhão certamente se empenhará em acolher o Espírito de Cristo que nos congrega na Igreja, Corpo de Cristo.


Escrito por Dom Paulo Francisco Machado às 18h18

Fonte: http://liturgiaemfoco.zip.net/

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segunda-feira, 9 de junho de 2008

Pregador do Papa: «amor evangélico é o grande ausente das seitas»

Comentário do Pe. Cantalamessa sobre a liturgia do próximo domingo

ROMA, sexta-feira, 11 de abril de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia – sobre a Liturgia da Palavra do próximo domingo, IV da Páscoa.

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IV Domingo da Páscoa

Atos 2,14a.36-41; 1 Pedro 2, 20b-25; João 10, 1-10

Eu sou o Bom Pastor

Este é o domingo do Bom pastor, mas pelo menos dessa vez não é nele que vamos concentrar a atenção, e sim no seu antagonista. Quem é o personagem definido como «ladrão» e «estranho»? Jesus pensa, em primeiro lugar, nos falsos profetas e nos pseudomessias do seu tempo, que faziam de conta que eram enviados de Deus e libertadores do povo, enquanto, na verdade, não faziam nada além de mandar as pessoas morrerem por eles.

Hoje, esses «estranhos» que não entram pela porta, mas que se introduzem no redil às escondidas, que «roubam» as ovelhas e as «matam», são visionários fanáticos ou astutos aproveitadores que abusam da boa vontade e da ingenuidade das pessoas. Eu me refiro aos fundadores ou chefes de seitas religiosas que estão por aí.

Quando falamos de seitas, no entanto, devemos prestar atenção para não colocar tudo no mesmo nível. Os evangélicos e os pentecostais protestantes, por exemplo, além de grupos isolados, não são seitas. A Igreja Católica mantém com eles, há muito tempo, um diálogo ecumênico no âmbito oficial, algo que jamais faria com as seitas.

As verdadeiras seitas são reconhecidas por algumas características. Antes de tudo, quanto ao conteúdo do seu credo, não compartilham pontos essenciais da fé cristã, como a divindade de Cristo e a Trindade; ou misturam com doutrinas cristãs elementos alheios incompatíveis com elas, como a reencarnação. Quanto aos métodos, são literalmente «ladrões de ovelhas», no sentido de que tentam por todos os meios arrancar os fiéis da sua Igreja de origem para torná-los adeptos da sua seita.

Geralmente são agressivos e polêmicos. Mais do que propor conteúdos próprios, passam o tempo acusando, polemizando contra a Igreja, Nossa Senhora e em geral tudo o que é católico. Estamos, com isso, nas antípodas do Evangelho de Jesus, que é amor, doçura, respeito pela liberdade dos outros. O amor evangélico é o grande ausente das seitas.

Jesus nos deu um critério seguro de reconhecimento: «Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. Pelos seus frutos os reconhecereis» (Mt 7, 15). E os frutos mais comuns da passagem das seitas são famílias destruídas, fanatismo, expectativas apocalípticas do fim do mundo, regularmente desmentidas pelos fatos.

Existes outros tipos de seitas religiosas, nascidas do mundo cristão, em geral importadas do Oriente. Ao contrário das primeiras, não são agressivas; elas se apresentam com «fantasia de cordeiro», pregando o amor por todos, pela natureza, pela busca do eu profundo. São formações freqüentemente sincretistas, ou seja, que agrupam elementos de diversas procedências religiosas, como no caso da Nova Era.

O imenso prejuízo espiritual para quem se deixa convencer por esses novos messias é que perde Jesus Cristo e, com Ele, essa «vida em abundância» que Ele veio trazer.

Algumas dessas seitas são perigosas também no campo da saúde mental e da ordem pública. Os recorrentes casos de sequestros e suicídios coletivos nos advertem até onde pode levar o fanatismo do chefe de uma seita.

Quando se fala de seitas, no entanto, devemos recitar também um «mea culpa». Com freqüência, as pessoas acabam em alguma seita pela necessidade de sentir o calor e o apoio humano de uma comunidade que não encontraram em sua paróquia.

[Tradução: Aline Banchieri]

fonte: http://blog.bibliacatolica.com.br/2008/04/12/pregador-do-papa-%c2%abamor-evangelico-e-o-grande-ausente-das-seitas%c2%bb/

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terça-feira, 3 de junho de 2008

Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho (parte 9)

Capítulo XVI - Entre os judeus, uns foram chamados e eleitos, outros, apenas chamados

§32. Deus chama a muitos filhos seus como predestinados para torná-los membros do seu único Filho predestinado, não mediante a vocação com que foram chamados os que não quiseram vir para o banquete nupcial (Lc 14,16-20), nem com a vocação com que foram chamados os judeus, para os quais Cristo crucificado é escândalo, nem com a vocação dirigida aos pagãos, para os quais o Crucificado é loucura, mas chama os predestinados com a vocação que o Apóstolo distinguiu ao dizer que pregava aos judeus e gregos que Cristo é o poder e a sabedoria de Deus. Diz expressamente: Para aqueles que são chamados (lCor 1,23-24), para distingui-los dos não chamados, tendo em conta que há a vocação segura daqueles que são chamados conforme o seu desígnio, os quais conheceu de antemão e também predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho (Rm 8,28-29). Precisando esta vocação, diz: Dependendo não das obras, mas daquele que chama, foi-lhe dito: “O maior servirá ao menor” (Rm 9,12-13). Por acaso disse: “não das obras, mas do que crê?”. Pelo contrário, negou-o totalmente ao homem, para dá-lo completamente a Deus. Pois disse: mas daquele que chama, não com qualquer vocação, mas com a vocação que leva alguém a crer.

§33. O Apóstolo considerava também esta vocação, quando dizia: Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento. Vede por um momento do que se tratava neste texto. Depois de haver dito: Não quero que ignoreis, irmãos, este mistério, para que não “vos tenhais em conta de sábios” - o endurecimento atingiu uma parte de Israel até que chegue a plenitude dos gentios e assim todo Israel será salvo, conforme está escrito: “De Sião virá o libertador e afastará as impiedades de Jacó, e esta será minha aliança com eles, quando eu tirar seus pecados' acrescentou imediatamente estas palavras que necessitam de compreensão atenciosa: Quanto ao evangelho, eles são inimigos por vossa causa; mas quanto à eleição, eles são amados por causa de seus pais (Rm 11,25-29). O que significa: Quanto ao evangelho, eles são inimigos por vossa causa, senão que a sua inimizade, que os levou a matar o Cristo, sem dúvida favoreceu o evangelho, como é do nosso conhecimento? E demonstra que isto acontece por disposição de Deus, que sabe usar dos maus para o bem, não porque lhe sejam vantajosos os vasos de ira, mas porque, usando deles para o bem, favoreçam os vasos de misericórdia. Não quis dizer isto claramente quando afirmou: Quanto ao evangelho, eles são inimigos por vossa causa? Portanto, está no poder dos maus o pecar, mas, ao pecar, que façam isto ou aquilo pela sua maldade não está no seu poder, mas de Deus, que divide as trevas e as dispõe de modo que fazem a sua vontade com o que fazem contra a sua vontade. Lemos nos Atos dos Apóstolos que os apóstolos, após terem sido libertados pelos judeus, juntaram-se aos seus e, tendo-lhes revelado o que lhes disseram os sacerdotes e anciãos, todos clamaram a uma só voz ao Senhor, dizendo: Mestre, tu fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm; tu falaste pelo Espírito Santo através da boca do nosso pai Davi, teu servo: “Por que esta arrogância entre as nações, estes vãos projetos entre os povos? Os reis da terra alinharam-se em campanha e os magistrados se coligaram de comum acordo contra o Senhor e contra o seu Ungido” - Sim, verdadeiramente, “coligaram-se” nesta cidade contra o teu santo servo Jesus, “que ungiste” Herodes e Pôncio Pilatos com “as nações pagãs” e “os povos” de Israel, para executarem tudo o que, em teu poder e em tua sabedoria, havias predeterminado (At 4,24-28). Eis a razão pela qual o Apóstolo afirmou: Quanto ao evangelho, eles são inimigos por vossa causa. Com efeito, o que a mão e o desígnio de Deus predeterminaram que os inimigos judeus realizassem foi proporção do necessário ao evangelho em atenção a nós. E o que significa o que vem em seguida: Quanto à eleição, eles são amados por causa de seus pais? Significa que aqueles inimigos, que pereceram em seu ódio e que, pertencendo ao mesmo povo e sendo adversários de Cristo ainda perecem, são eles eleitos e amados? De forma alguma. Quem é tão demente a ponto de fazer esta afirmação? Mas se ambas as coisas são contrárias, ou seja, ser inimigos e ser amados de Deus, embora não possam coexistir nas mesmas pessoas, contudo podem coexistir no mesmo povo judeu e na mesma raça de Israel, para uns israelitas como perdição, para outros como bênção. Esclareceu este sentido quando disse antes: Aquilo a que tanto aspira, Israel não conseguiu: conseguiram-no, porém, os escolhidos. E os demais ficaram endurecidos (Rm 11,7). Em ambos os casos trata-se do mesmo povo de Israel. Portanto, ao ouvirmos: “Israel não conseguiu”, ou “ficaram endurecidos”, refere-se aos “inimigos por vossa causa”; mas ao ouvirmos: conseguiram-no, porém, os escolhidos”, compreendem-se “os escolhidos por causa de seus pais”. Estes pais foram beneficiados com estas promessas: As promessas foram asseguradas a Abraão e à sua descendência (GI 3,16). Desse modo, nesta oliveira está enxertado o zambujeiro dos pagãos (Rm 11,17). Mas a eleição, a que se refere, verifica-se segundo a graça e não segundo a dívida, porque constituiu-se um resto segundo a eleição da graça (Rm 11,51). Esta eleição foi alcançada, ficando os demais endurecidos. Segundo esta eleição, os israelitas foram amados por causa de seus pais. Não foram chamados mediante a vocação à qual o evangelho se refere: Muitos são os chamados (Mt 20,16), mas mediante àquela pela qual são chamados os eleitos. Por isso também aqui, depois de dizer: Quanto à eleição, eles são amados por causa de seus pais, acrescenta em seguida: Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento, ou seja, são irrevogáveis. Os incluídos nesta vocação são todos ensinados por Deus e nenhum deles pode dizer: “Cri para ser chamado”, pois a misericórdia de Deus se lhe antecipa, sendo chamado para que cresse. Todos os ensinados por Deus vêm ao Filho, o qual disse claramente: Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende vem a mim (Jo 6,45). Nenhum deles perece, porque de tudo o que lhe deu o Pai nenhum se perderá (Jo 6,39). Portanto, quem quer que venha do Pai não perece de forma alguma, de modo que não viria do Pai aquele que perece. Por isso está escrito: Eles saíram de entre nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco (l Jo 2,19).

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segunda-feira, 2 de junho de 2008

Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho (parte 8) - Jesus Cristo, exemplar perfeito da predestinação

Capítulo XV - Jesus Cristo, exemplar perfeito da predestinação

§30. O mais preclaro exemplar da predestinação e da graça é o próprio Salvador, o próprio Mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus. Para que o fosse, com que méritos anteriores pela fé ou boas obras sua natureza humana adquiriu tal missão? Peço que me respondam: esta natureza humana, assumida pelo Verbo co-eterno ao Pai na unidade de pessoa, como mereceu ser Filho unigênito de Deus? Algum merecimento precedeu esta união? O que fez antes, em quem creu, o que pediu para chegar a esta inefável superioridade? Não foi pela ação e assunção do Verbo que a mesma humanidade, da qual teve origem sua existência, começou a ser Filho único de Deus? Aquela mulher, cheia de graça, não concebeu o Filho único de Deus? O Filho único de Deus não nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria não pela concupiscência da carne, mas por uma singular graça de Deus? Houve qualquer possibilidade de este homem, pelo uso do livre-arbítrio, chegar a pecar no transcorrer do tempo? Não era livre sua vontade e tanto mais livre quanto mais impossível de que fosse dominado pelo pecado? Assim, pois, a natureza humana, portanto a nossa, recebeu nele estes dotes singularmente admiráveis e outros, se se pode dizer que são seus, sem que houvesse nenhum merecimento precedente. Responda agora o homem a seu Deus, se assim se atrever, e diga: “Por que não eu?”. E se ouvir: Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? (Rm 9,20), não fique coibido, mas aumente sua presunção e diga: “O que ouço: Quem és tu, ó homem? Sendo o que ouço, ou seja, homem, o que é aquele de quem se trata, por que não sou o que ele é?”. Pela graça ele é o que é e tão perfeito; por que é diferente a graça, se a natureza é comum a ele e a mim? Em Deus não há certamente acepção de pessoas (Cl 3,25). Qual é o homem, não digo cristão, mas louco, que poderia proferir palavras tão insensatas?

§31. Manifeste-se, pois, a nós naquele que é nossa Cabeça a própria fonte da graça, da qual se difunde por todos os membros de acordo com a medida de cada um. Com esta graça qualquer homem se torna cristão a partir do momento de sua fé; com ela aquele homem tornou-se Cristo desde o seu princípio. O homem renasce do mesmo Espírito do qual ele nasceu; recebemos a remissão dos pecados pelo mesmo Espírito pelo qual ele foi isento de todo pecado. Não há dúvida que Deus previu na sua presciência a existência destas maravilhosas obras. Nisto consiste, portanto, a predestinação dos santos, que resplandeceu com intenso fulgor no santo dos santos. E quem a pode negar entre os que deveras compreendem as palavras da Verdade? Pois, aprendemos que o próprio Senhor da glória, ao se fazer homem o Filho de Deus, foi predestinado. O Doutor dos Gentios proclama no começo de suas cartas: Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, escolhido para o evangelho de Deus, que ele já tinha escolhido por meio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras, e que diz respeito a seu Filho, nascido da estirpe de Davi segundo a carne, estabelecido Filho de Deus por sua ressurreição dos mortos, segundo o Espírito de santidade (Rm 1,1-4). Portanto, Jesus foi predestinado, a fim de que ele, que seria filho de Davi pela carne, fosse contudo Filho de Deus em poder pelo Espírito de santificação, pois nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria. Esta é a singular assunção da natureza humana realizada de modo inefável pelo Verbo de Deus, para que Jesus Cristo fosse chamado em verdade e com propriedade Filho de Deus e filho do homem ao mesmo tempo; filho do homem pela natureza humana assumida e Filho de Deus devido ao Deus unigênito que a assumiu. Assim o objeto de nossa fé repousa na trindade e não na quartenidade divina. Foi predestinada esta tão excelsa e mais elevada assunção da natureza humana de modo que não fosse possível existir outra que a elevasse tão alto, assim como a divindade não encontrou outro modo mais humilde de se despojar que este de assumir a natureza humana com todas as conseqüências da fraqueza da carne e até da morte de cruz. Portanto, assim como ele, o único, foi predestinado para ser nossa cabeça, muitos somos predestinados para ser membros de seu corpo. Perante isso, emudeçam os merecimentos humanos que deixaram de existir em Adão e reine a graça de Deus que reina por Jesus Cristo, nosso Senhor, Filho único de Deus, o único Senhor. Quem encontrar em nossa cabeça merecimentos prévios à sua singular geração, investigue em nós, seus membros, os merecimentos precedentes para a regeneração tantas vezes iterada. Pois a geração na natureza humana não lhe foi retribuída, mas concedida, a fim de que, isento de toda sujeição ao pecado, nascesse do Espírito e da Virgem. O nosso renascimento da água e do Espírito não é também retribuição por algum mérito, mas concedido gratuitamente. E se foi a fé que nos levou ao banho da regeneração, nem por isso devemos pensar que demos algo a Deus e recebemos a regeneração salutar como retribuição. Pois fez-nos crer em Cristo aquele que fez para nós o Cristo no qual acreditamos, e é autor do princípio e da perfeição da fé em Cristo na mente dos homens aquele que constituiu o homem-Cristo príncipe e realizador da fé. Assim, ele é chamado, como sabeis, na carta aos Hebreus (Hb 12,2).

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