sexta-feira, 23 de maio de 2008

Sermão de Todos os Santos (10)

X

De todo este largo discurso estou vendo que tirastes duas conclusões todos os que me ouvistes: uma muito conforme ao assunto que propus, e outra muito contrária a ele. A primeira conclusão é que verdadeiramente, sem dúvida, é muito grande coisa o ser santos. Porque, se Deus, entre todos seus atributos de infinita perfeição estima e em certo modo reverencia sobre todos o atributo de santo; e se todas as Pessoas da Santíssima Trindade, e cada uma em particular, nos deram tão soberanos exemplos e documentos desta mesma estimação; se a Virgem Mãe de Deus, por antonomásia, Virgem Prudentíssima, entre todos os bens e felicidade da terra e do céu, nenhuma outra levou os olhos, roubou o coração e prendeu os passos, senão a santidade de todos os santos, em que também o mesmo Deus, seu Filho, a sublimou sobre todos; se os anjos e serafins que assistem ao lado do trono divino, o que só exaltam e apregoam, e os louvores que cantam à majestade de seu Senhor, é ser Santo, Santo e mais Santo; e se a excelência em que o mesmo Senhor confirmou aos anjos bons e obedientes, e a de que privou aos maus e rebeldes, foi a de ser santos; e se os santos de todas as hierarquias, patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, confessores, virgens, tanto trabalharam, tanto padeceram, e tais extremos e excessos fizeram por chegar, como chegaram, a ser santos, não há dúvida que o ser santo é grande coisa, e não só grande, senão a maior de todas. E esta é a primeira conclusão que inteiramente concorda com a primeira parte do meu assunto.

A segunda conclusão, e totalmente contrária à segunda parte dele, é que eu prometi de vos provar quão facilmente podemos todos ser santos, e tudo quanto até agora tenho mostrado e discorrido, pelas vidas e ações dos mesmos santos, e por suas grandes batalhas e vitórias, são coisas todas tão dificultosas e repugnantes à natureza, e tão superiores à fraqueza humana, que antes parece nos impossibilitam totalmente, e nos tiram toda a esperança, não só de chegar a ser, mas ainda de aspirar a ser santos. Ora, não vos desanimeis os que isto inferis, antes vos animai e consolai muito, porque a facilidade que vos prometi, ainda é mais fácil do que eu o propus e vós podeis imaginar. Tudo o que fizeram os santos por ser santos, foi muito bem empregado, e ainda pouco, porque muito mais importa, muito mais vale, e muito mais é ser santos; mas, para chegar a o ser, não é necessário tanto, senão muito menos. Não é necessário guardar a perpétua continência das virgens, porque tendes a licença e liberdade do matrimônio, com que foram santos Adão e Eva, Zacarias e Isabel, Joaquim e Ana. Não é necessário ser anacoreta, nem ir viver aos desertos, porque podeis ser santos na vossa casa, como José, Samuel, Davi, que morreram na sua. Não é necessário ser doutor, nem queimar as pestanas sobre os livros, porque basta que saibais os Mistérios da Fé e os Mandamentos, como S. Paulo, por sobrenome o Simples, S. Junípero, Santo Hermano, e aqueles de quem dizia Santo Agostinho: Levantam-se os indoutos, e levam o reino do céu aos letrados. Não é necessário ser mártir, porque não só não padecendo martírio, mas fugindo dele e escondendo-vos, podeis ser santo, como o foi Santo Atanásio, S. Feliz, S. Silvestre, e outros. Nem menos é necessário ser apóstolo, patriarca ou profeta, porque estes ofícios e dignidades passaram com o tempo, e podeis ser santos como o foram todos os que depois deles vieram.

Pois, que é necessário para ser santo? Uma só coisa, e muito fácil, e que está na mão de todos, que é a boa consciência ou limpeza de coração, como diz o nosso tema: Beati mundo corde. Olhai como Deus quis facilitar o céu e o ser santos, que pôs a bem-aventurança e santidade em uma coisa que ninguém há que não tenha, e a mais livre e mais nossa, que é o coração. Assim como o coração é a fonte da vida, assim é também a fonte da santidade; e assim como basta o coração para viver, ainda que faltem outros membros e sentidos, assim, e muito mais, basta a pureza de coração para ser santo, ainda que tudo o mais falte. Se o ser santo dependera dos olhos, não fora santo Tobias, que era cego; se dependera dos pés, não fora santo Jacó, que era manco; se dependera de algum outro membro do corpo, não fora santo Jó, que estava tolhido de todos, e só lhe ficou a língua: e, ainda que não tivera língua, também fora santo, porque Santa Cristina, sendo-lhe a língua cortada, louvava a Deus com o coração, e com o coração, sem língua, eram tais as suas vozes, que as ouviam não só os anjos no céu, senão também os circunstantes na terra. De sorte que, para um homem ser santo, não é necessário coisa alguma fora do homem, nem ainda é necessário todo o homem: basta-lhe uma só parte, e essa a primeira que vive e a última que morre, para que lhe não possa faltar em toda a vida, que é o coração.

Tendo o coração puro, e ou vos faltem ou sobejem todas as outras coisas, nem a falta vos será impedimento, nem a abundância estorvo para ser santo. Salomão pedia a Deus (Prov. 30,8) que o não fizesse rico nem pobre, mas que lhe desse o necessário para passar a vida, receando que não poderia ser santo em qualquer daqueles extremos; mas eu vos asseguro que, ou sejais rico, ou pobre, ou pobríssimo, de qualquer modo podeis ser santo. Se fordes rico e puderdes dar esmola, dai-a, e sereis santo, como foi S. João Esmoler; se fordes pobre, e tiverdes necessidade de pedir esmola, pedi-a, e sereis santo, como foi Santo Aleixo; e se fordes tão desamparado, que não tenhais quem vos dê esmola, tende paciência, e sereis santo, como foi S. Lázaro.

Tertuliano teve para si que os reis e imperadores não só não podiam ser santos, mas nem ainda cristãos, mas errou neste sentimento, como em outros, Tertuliano, porque escreveu quando ainda no cristianismo não havia mais coroas que as do martírio. Rei foi de França S. Luís, rei de Inglaterra Santo Eduardo, rei de Escócia S. Guilhelmo, rei de Suécia Santo Erico, rei de Dinamarca S. Canuto, rei de Boêmia S. Casimiro, rei da Noruega Santo Olao, rei de Castela S. Fernando, e imperador Santo Henrique, e todos santos, porque, se na grandeza da sua fortuna têm maior matéria para os vícios os príncipes, também têm mais alta esfera para as virtudes.

Das dignidades eclesiásticas se deve fazer o mesmo juízo. Uns santos vereis com mitras de bispos, com capelos de cardeais e tiaras de pontífices na cabeça, e outros com essas mitras, capelos e tiaras aos pés, e por quê? Uns porque deixaram o lustre da dignidade, outros porque sustentaram o peso; uns porque reconheceram o perigo, outros porque continuaram o trabalho; mas, uns e outros, santos. Não foi menos santo São Gregório, sendo papa, do que S. Pedro Celestino, porque renunciou à tiara; nem menos santo Agostinho, sendo bispo, do que Santo Tomás, porque recusou às mitras; nem menos santo São Carlos Borromeu, sendo cardeal, do que S. Francisco de Borja, porque não quis aceitar os capelos.

Aquele é e será mais santo, em qualquer estado, que usar dele com mais puro coração. E se não, discorrei por todos os estados, ou altos ou baixos do mundo, e achareis neles o vosso, para que vejais que no vosso, se quiserdes, podeis ser santo. Que lugares há mais mal avaliados no mundo do que os palácios dos reis, como oficinas da vaidade, da potência, da inveja e do engano, e onde nunca, ou raramente, entra a verdade; mas nem por isso há neles ofício que não esteja santificado. Mordomo-mor foi S. Leodegário, camareiro-mor S. Jacinto, estribeiro-mor S. Vandrigilo, monteiro-mor S. Mauraneu, porteiro-mor S. Patrício, copeiro-mor S. Patroclo, capitão da guarda S. Sebastião, viador S. Saturo, secretário Santo Anastácio, conselheiro S. João Damasceno, S. Germano, S. Melânio, e em cada um destes ofícios muitos outros santos.

Uma das profissões mais arriscadas a não ser justo é a dos ministros da justiça, ou sejam os que a sentenciam, ou os que a defendem, ou os que a escrevem, ou os que a executam; mas todos, se o fizerem com pureza de coração, podem ser santos. Santo Ereberto e Santo Tomás de Cantuária foram chanceleres; S. Hieroteu e S. Dionísio Areopagita, desembargadores; S. Pudente e Santo Apolônio, senadores; S. Fulgêncio, procurador da fazenda real; Santo Ambrósio, S. Crisóstomo e S. Cipriano, advogados; S. Marciano, S. Genésio e S. Cláudio, escrivães; Santo Anastásio e S. Ferréolo, juízes do crime; Santo Aproniano e S. Basilides, esbirros ou beleguins; e até no vilíssimo exercício de algozes foram santos S. Ciríaco, Santo Estratonico, e outros.

Em nenhum gênero de vida parece que anda mais arriscada a eterna que no daqueles que trazem a soldo a temporal à custa do sangue próprio e alheio, tão duros como o ferro de que se vestem, tão violentos como o fogo de que se armam, e tão vãos e jactanciosos como o vento que nas caixas e trombetas os chama, e nas bandeiras os guia. É porém infinito o número de soldados santos, que dando a vida constantemente por Cristo na Igreja militante, ornados de coroas e palmas entraram na triunfante. Só na perseguição de Trajano padeceram martírio de uma vez seis mil soldados, que foi a famosa Legião dos Tebeus; e na de Diocleciano e Maximiano também em um só dia dez mil, desterrados primeiro para a Armênia, e depois crucificados. Não falo nos generais, como Santo Eustáquio e Constantino, nem nos marechais, como S. Nicostrato e Santo Antíoco, nem nos tribunos eu mestres de campo, como S. Marcelino e S. Floreano, nem nos capitães de cavalos, como S. Querino e S. Vital, nem nos capitães de infantaria, como S. Górdio e S. Marcelo, nem nos alferes, como Santo Exupério e S. Juliano, porque da virtude e valor dos soldados se vê quão santos seriam os que os governavam.

S. Paulo disse que a raiz de todos os pecados é a cobiça; e estando estas raízes tão arraigadas nos que professam a mercancia, e tão estendidas em cada um por todas as partes do mundo, nem por isso deixam de produzir frutos de santidade. Delas nasceu um S. Francisco de Assis, um S. Fulgêncio, um S. Guido, e não só um, senão dois Firumêncios, ambos santos, e outros muitos.

E, se de todos estes exercícios, de sua natureza tão perigosos, e quase encontrados com aqueles em que se lavram os santos tem dado a terra ao céu tantos e tão gloriosos, que será nos ofícios e artes mecânicas, em que o trabalho, companheiro inseparável das virtudes, desterra a ociosidade, que é origem de todos os vícios? Não falando no gloriosíssimo S. José, nos Santos Apóstolos e no mesmo Cristo, que, depois de fabricar o mundo, se não desprezou de trabalhar em uma destas artes, escolhendo entre todas a que mais simpatia tinha com o lenho da cruz. S. Jacó de Boêmia foi carpinteiro, S. Sinforiano escultor, S. Paulo Helático torneiro, S. Floro serrador, Santo Elígio ourives, Santo Andrônico prateiro, S. Duustano ferreiro, S. Marciano armeiro, S. Gildas fundidor, S. Próculo pedreiro, S. Crispim sapateiro, Santo Homobono alfaiate, Santo Onúfrio tecelão, S. Gualfundo celeiro, Santo Aquilas corrieiro, S. João de Deus livreiro, Santo Isidoro lavrador, S. Maurício hortelão, S. Leonardo pastor, Santo Alderico vaqueiro, Santo Arnoldo marinheiro, S. Patênio pescador, S. Ventiro almocreve, S. Ricardo carreiro, Santo Adriano correio, S. Guilhelmo moleiro, S. Gemiano taverneiro, S. Quiríaco cozinheiro, Santo Alexandre carvoeiro, Santo Henrique carniceiro, Santo Erineu varredor das imundícias ou carretão: e não há ofício, estado e exercício tão trabalhoso, tão baixo, e ainda pouco limpo, que, se se faz com limpeza de coração, não possa fazer santos. Beati mundo corde.

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