terça-feira, 20 de maio de 2008

Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho de Hipona (parte 7)

Capítulo XIV - Não há julgamento para merecimentos futuros: Comentário do texto da Sabedoria 4,11

§26. São Cipriano escreveu um livro intitulado “A mortalidade”, elogiado por quase todos os que se dedicam às ciências eclesiásticas, no qual afirma que a morte não só não é inútil, mas deveras útil para os fiéis, pois livra o homem do perigo de pecar e lhe dá a segurança de não pecar. Mas de que valeria esta segurança, se lhe fossem punidos os pecados futuros que não cometeu? O Santo, porém, prova com ótima e farta argumentação que neste mundo não faltam os perigos de pecar, mas não subsistirão depois desta vida. E aduz como testemunho as palavras do livro da Sabedoria: Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar (Sb 4,11). Este argumento aduzido também por mim, nossos irmãos não aceitaram, conforme dissestes, por ter sido tomado de um livro não canônico, como se, à parte a autoridade deste livro, a doutrina que quisemos ensinar não fosse bastante clara. Qual o cristão que se atreve a negar que o justo estará em descanso (Sb 4,7), quando for arrebatado pela morte? Que pessoa de fé ortodoxa pensaria o contrário de quem isto afirmasse? Do mesmo modo, se alguém disser que um justo, violando a santidade na qual perseverou por longo tempo e falecendo na impiedade, na qual viveu não digo um ano, mas um dia, não incorreria nas penas devidas aos réprobos, de nada lhe aproveitando os méritos passados (Ez 18,24), qual o fiel que se oporia a esta verdade tão evidente? Além disso, se nos perguntassem se este justo falecesse enquanto praticava a justiça, se incorreria nas penas devidas aos condenados ou encontraria o descanso, não responderíamos sem hesitação que estaria no descanso? Esta é a razão que levou alguém a dizer, seja quem for: Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar. Alguém o disse referindo-se aos perigos desta vida e não de acordo com a presciência de Deus, que previra o que aconteceria e não o que não aconteceria. Quis dizer: que Deus lhe concederia morte prematura para evitar-lhe a insegurança das tentações e não porque haveria de pecar aquele que não permaneceria sujeito à tentação. A respeito desta vida lê-se no livro de Jó: A vida do homem sobre a terra é uma guerra (Jó 7,1). Mas, por que a alguns concede serem libertados dos perigos desta vida, quando estão no caminho da justiça, e outros justos são mantidos nos mesmos perigos com idade mais avançada até caírem do estado de justiça? Quem conheceu o pensamento do Senhor? (Rm 11,34). Contudo, por aí se pode entender o referente àqueles justos que, vivendo com piedade e bons costumes até a maturidade da velhice e até o último dia de vida, devem-se glorificar não em seus méritos, mas no Senhor. Isso porque, aquele que arrebatou o justo na sua mocidade, a fim de que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar, ele mesmo o protege em qualquer fase da vida, para que a maldade não perverta o seu coração. Mas a razão pela qual tenha mantido com vida o justo que haveria de cair e o qual poderia ter arrebatado desta vida antes de cair, obedece aos justíssimos, mas impenetráveis desígnios de Deus.

§27. Sendo verdade tudo isto, não se deveria rechaçar a sentença do livro da Sabedoria, cujas palavras têm merecido ser proclamadas na Igreja de Cristo há tantos anos com aprovação dos que, na mesma Igreja, o têm lido, e serem ouvidos com a veneração devida à autoridade divina tanto por bispos como pelos fiéis leigos considerados inferiores, como são os penitentes e os catecúmenos. Baseando-me nos tratadistas das divinas Escrituras que nos precederam, se eu empreendesse a defesa desta sentença que com extraordinária diligência e extensão somos obrigados a defender contra o novo erro dos pelagianos, ou seja, que a graça de Deus nos é concedida não de acordo com nossos merecimentos, mas é concedida gratuitamente a quem é concedida — pois não depende de quem quer ou corre, mas de Deus, que tem misericórdia, e não é concedida a quem não é concedida por um justo juízo divino, pois não há injustiça por parte de Deus - se eu empreendesse, repito, a defesa desta doutrina, sem dúvida esses irmãos, em consideração aos quais estamos escrevendo, teriam ficado satisfeitos, conforme o indicastes em vossas cartas. Mas por que consultar os escritos daqueles que, antes do aparecimento desta heresia, não tiveram necessidade de se enfronhar nesta difícil questão na procura de solução? Tê-lo-iam feito, se fossem obrigados a responder a tais dificuldades. Daí o terem tocado brevemente, de passagem, e em algumas partes de seus escritos o que pensavam sobre a graça de Deus. Estenderam-se mais nos assuntos que discutiam contra os inimigos da Igreja e em exortações à prática de algumas virtudes, mediante as quais se presta serviço a Deus vivo e verdadeiro em ordem a alcançar a vida eterna e a verdadeira felicidade. Pela abundância de orações depreende-se o valor que davam à graça de Deus, pois não pediriam a Deus o cumprimento do que ele manda, se por ele não lhes fosse concedido o poder cumprir.

§28. Mas o que desejam instruir-se com as afirmações dos tratadistas, convém que anteponham a todos os autores este mesmo livro, onde se lê: Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar. Isso porque deram-lhe preferência egrégios escritores próximos aos tempos dos apóstolos, os quais, apresentando-o como testemunho, acreditaram estar aduzindo um testemunho divino. Consta com certeza que o mui bem-aventurado Cipriano, exaltando a vantagem da morte prematura, sustenta que ficam livres do perigo de pecar aqueles que terminaram esta vida na qual se pode pecar. No livro antes citado, diz entre outras coisas: ‘Por que não te apraz estar com Cristo, seguro das promessas do Senhor ao seres chamado para Cristo? Por que não regozijas em te ver livre do demônio?”. E diz em outro lugar: “As crianças livram-se dos perigos da idade lasciva”. E em outro: “Por que não nos apressamos e corremos para contemplar nossa pátria e saudar nossos familiares? Um grande número de pais, irmãos, filhos queridos lá nos esperam; uma multidão numerosa nos deseja, já tranqüila acerca de sua imortalidade e ainda solícita de nossa salvação”. Com estas e outras semelhantes sentenças, ditadas pela esplendorosa luz da fé católica, aquele doutor atesta com clareza que se deve temer até o momento de abandonar este corpo os perigos de pecado e as tentações; depois, ninguém passará por estas dificuldades. E mesmo que ele não atestasse, algum cristão teria alguma dúvida sobre esta verdade? Portanto, por que razão a um homem caído que termina miseravelmente esta vida ainda pecador e destinado ao castigo devido aos pecados, por que razão, pergunto eu, não lhe seria deveras vantajoso, se deste lugar de tentações fosse arrebatado pela morte antes de sucumbir ao pecado?

§29. Se não se trata de um temerário empenho, pode-se dar por terminada a questão a respeito do que foi arrebatado, para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar. E mais. O livro da Sabedoria, que mereceu ser lido na Igreja de Cristo há tantos anos e no qual se encontra esta sentença, não deve ser desprezado porque contraria aqueles que se enganam no tocante aos méritos humanos e se colocam contra a manifesta graça de Deus. Percebe-se esta graça principalmente nas crianças, as quais, como umas chegam ao fim da vida já batizadas e outras, não, revelam claramente a misericórdia e o juízo, a misericórdia certamente gratuita e o juízo, sem dúvida, justo. Pois, se os homens fossem julgados de acordo com os merecimentos de sua vida, que não tiveram por terem sido surpreendidos pela morte, mas teriam, se vivessem, de nada aproveitaria ao que foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o coração e nenhuma vantagem teriam os que morrem após terem caído, se tivessem morrido antes. Mas nenhum cristão pode alimentar esta opinião. Por conseguinte, nossos irmãos, que conosco combatem o pernicioso erro pelagiano em favor da fé católica, não devem favorecer esta opinião dos hereges, que os leva a opinar que a graça de Deus nos é outorgada de acordo com nossos méritos, a tal ponto que intentam — o que não lhes é lícito — demolir a sentença dotada de plena veracidade e há muito tempo é cristã: Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar. Não devem, por outro lado, construir o que julgaríamos não digo ser merecedor de ser crido, mas nem sequer imaginado por alguém, ou seja, que todo aquele que morre é julgado de acordo com o que faria, se tivesse mais tempo de vida. Assim fica evidente ser irretorquível o que dizemos: que a graça de Deus não nos é concedida de acordo com nossos merecimentos, para que os homens talentosos, que contradigam esta verdade, sejam obrigados a dizer que aqueles erros devem ser repudiados por todos os ouvidos e inteligências.

(continua)

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