sexta-feira, 30 de maio de 2008

Considerações sobre o STF e o julgamento das CTEHs

Li a postagem do Jorge Ferraz sobre o resultado do julgamento de ontem e achei boa e interessante. Quem quiser conferir basta acessar o link abaixo:

http://januacoeli.wordpress.com/2008/05/30/consideracoes-sobre-o-stf-e-o-julgamento-das-ctehs/
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quinta-feira, 29 de maio de 2008

Sermão de Todos os Santos (11 - final)

XI

Temos visto como em todos os estados, em todos os ofícios e em todas as fortunas podemos alcançar a maior fortuna de todas, que é ser santos; temos visto que o instrumento necessário para ser santos é só e unicamente o coração, contanto que seja puro e limpo; só resta para complemento da facilidade com que vos prometi que todos podemos ser santos, declarar quão facilmente podem todos conseguir esta mesma limpeza. A limpeza do coração consiste em estar limpo de pecados, e não há nenhum pecador, por grande que seja, que não possa conseguir esta limpeza de coração tão breve e tão facilmente que, se entrou nesta igreja pecador, não possa sair dela santo. Presentou-se a Cristo um leproso, e pondo-se de joelhos: genu flexo, disse assim: Domine, si vis, potes me mundare (Mt. 8,2 s): Senhor, se quereis, bem me podeis alimpar desta lepra. — Respondeu o Senhor: Vo lo, mundare: Quero, sê limpo — e no mesmo ponto ficou limpo daquele tão feio e tão asqueroso mal: Et confestim mundata est lepra ejus. Pode haver maior brevidade, pode haver maior facilidade de conseguir a limpeza? Parece que não. Pois eu vos digo, e é de fé, que muito mais breve e muito mais facilmente podeis conseguir a limpeza de coração se o mesmo coração quiser. A lepra do coração, mais feia, mais imunda e mais asquerosa que a do corpo é o pecado. E para que vejais quanto mais fácil e mais brevemente se consegue a limpeza desta lepra, ponhamos o mesmo leproso que Cristo curou, à vista de um coração também leproso pelo pecado, e veremos qual consegue a limpeza com maior facilidade.

Estava leproso o coração de Davi, não outro, senão aquele coração de quem ele disse com os mesmos termos do nosso texto: Cor mundum crea in me, Deus (12). E estava tão penetrado da lepra, que havia já um ano que perseverava no pecado, quando o exortou o profeta Natã a que considerasse o estado miserável de sua consciência, e se convertesse de todo coração a Deus, de quem vivia tão esquecido. Fê-lo assim Davi, mas que fez? Somente disse: Peccavi (2 Rs. 12,13): Pequei, — e não tinha bem pronunciado esta palavra quando o profeta lhe disse que já estava perdoado e restituído à graça de Deus: Dominus quoque transtulit peccatum tuum (13). Comparai-me agora a Davi com o leproso, e vede qual conseguiu a limpeza da lepra mais fácil e mais brevemente. O leproso pôs-se de joelhos: genu flexo e Davi não se ajoelhou; o leproso disse cinco palavras: Si vis, potes me mundare, — Davi não disse mais que uma: Peccavi; e com tudo isto o leproso não tinha ainda conseguido a limpeza, antes estava duvidoso dela: Se vis; e Davi já tinha conseguido e estava certificado disso da parte do mesmo Deus: Dominus quoque transtulit peccatum tuum. Logo, muito mais fácil e muito mais brevemente conseguiu o coração de Davi a limpeza da sua lepra, do que o leproso a da sua. Mas quando o conseguiu o leproso? Quando Cristo lhe respondeu: Volo, mundare: Quero, sê limpo. — Agora vos peço eu que me respondais a mim, e eu vos prometo que com a vossa resposta ficarão limpos os vossos corações ainda mais brevemente que o leproso com a resposta de Cristo, porque a resposta de Cristo comunicou a limpeza ao leproso com duas palavras, e a vossa resposta há de comunicar a limpeza aos vossos corações só com uma sílaba. Respondei, pois, cristãos, ao que vos pergunto. Não vos pesa muito de ter ofendido a um Deus de infinita majestade e bondade, por ser ele quem é? Não vos pesa e vos arrependeis entranhavelmente de ter sido ingratos a um Deus que vos criou, e vos deu o ser, e vos remiu com seu sangue? Não detestais de todo coração todos vossos pecados, por serem ofensas suas? Não tendes nesta hora firmes propósitos de nunca mais o ofender? Sim? Pois este sim, dito de todo coração, basta para que o mesmo coração fique e esteja já limpo de todos seus pecados; e esse sim, sendo uma só sílaba, fez nos vossos corações o mesmo efeito, e mais maravilhoso ainda, que as palavras de Cristo no leproso.

Pois, se na limpeza do coração consiste o ser santos, e esta limpeza de coração se pode conseguir tão facilmente só com um movimento do mesmo coração, que coração haverá tão fraco, ou que homem de tão fraco e de tão pouco coração que não se resolva a ser santo? Se o ser santo fora uma coisa muito dificultosa, bem nos merecia o céu e a bem-aventurança que, pela gozar eternamente, se venceram todas as dificuldades. Mas é tão fácil que, sem vos bulir do lugar onde estais, e sem mover pé nem mão, nem fazer ou padecer coisa alguma, só com um ato do coração, e o ato mais natural, mais fácil e mais suave do mesmo coração, que é amar, e amar o sumo bem, podemos ser santos. Exorta Moisés a amar a Deus de todo coração, que é o mandamento em que se encerram todos, e conclui assim. Mandatum hoc non supra te est, neque procul positum (Dt. 30, 11): Este mandamento não é sobre nós, nem está longe de nós. — Se fora sobre nós e estivera lá no céu: In caelo situm (Ibid. 12), tê-lo-íamos por impossível; se estivera longe de nós, e com muito mar em meio: Trans mare positum (Ibid. 13), tê-lo-íamos por muito dificultoso. Mas é muito fácil e está muito perto, porque está o cumprimento dele dentro do nosso coração: Sed juxta te est sermo valde in corde tuo (14). Moisés, que não prometia o céu, disse que estava perto de nós o cumprimento deste preceito; mas Cristo, que promete o céu, ainda disse mais e melhor, porque diz que o preceito, e o céu, e o merecimento dele não só está perto de nós, senão dentro de nós: Regnum Dei intra vos est (15). Cuidamos que o céu, onde subiram os santos, está muito longe, e enganamo-nos: o céu não está longe, senão muito perto, e mais ainda que perto, porque está dentro de nós, e dentro do que está mais dentro, que é o coração. E que haja almas, e tantas almas, que tendo o céu dentro de si na vida, fiquem fora do céu na morte, e que podendo tão facilmente purificar o coração e ser santas, só porque não querem o não sejam? Se para amar a Deus e ganhar o céu houvéramos de atravessar os mares tormentosos e contrastar com todos os elementos, pouco era que se fizesse pela bem-aventurança certa do céu o que tantos fazem por tão pequenos interesses da terra; mas, tendo-nos Cristo tão facilitada a bem-aventurança, que entre a mesma bem-aventurança e o coração não haja mais que a condição de ser limpo: Beati mundo corde, e, podendo o mesmo coração alcançar essa limpeza em um instante de tempo e com um ato de amor, e de amor ao sumo bem, que não sejamos todos santos, e não queiramos ser bem-aventurados?

Quero acabar esta admiração com um ai de S. Bernardo, pregando neste mesmo dia aos seus religiosos, o qual a eles e a todos pode servir de exemplo e de confusão: Beati mundo corde, quoniam ipsi Deus videbunt: Beati plane, et omnino beati qui videbunt, in quem desiderant Angeli prospicere. Tibi dixit cormeum, exquaesivit te facies mea, faciem tuam, Domine, requiram. Quid enim mihi est in caelo, et a te quid volui super terram? Defecit caro mea et cor meum, Deus cordis mei et pars mea, Deus in aeternum: quando adimplebis me laetitia cum vultu tuo? Vae mihi ab immuditia cordis mei, qua impedien te, nedum mereor ad beatam illam visionem admitti. Quer dizer: Bem-aventurados os limpos de coração, e verdadeiramente bem-aventurados, porque eles verão aquela face divina, a qual os anjos sempre estão vendo e sempre estão desejando ver. A vós, Senhor, diz o meu coração: Nenhuma coisa desejo, senão ver-vos de face a face, porque nenhuma outra há para mim, nem na terra nem no mesmo céu. Desmaia o meu coração nas ânsias deste desejo, porque só o Deus do meu coração é o único e todo o bem que o pode satisfazer. E quando chegará aquela ditosa hora em que, com a vista de vosso rosto, fique satisfeito? Mas, ai de mim — diz Bernardo — que pela pouca limpeza de meu coração — quero-o dizer com as suas próprias palavras — ai de mim, que a impureza e imundícia de meu coração me impede e faz indigno de ser admitido àquela bem-aventurada vista! Vae mihi ab immunditia cordis mei, qua impediente, nedum mereor ad beatam illam visionem admitti. Se isto dizia de si um coração tão puro, um coração tão santo, um coração tão elevado, tão estático, tão seráfico e tão abrasado no amor divino, se isto dizia no coração de Bernardo a humildade, que dirá noutros corações a verdade? Se o corpo estiver no claustro, e o coração no mundo? Se o coração, depois de se dar a Deus, estiver sacrificado ao ídolo? Se o coração, que devera estar cheio de caridade e amor de Deus, estiver ardendo em amor que não é caridade? Se as palavras, que saem do coração, e os pensamentos, que não saem, forem envoltos em impureza? Ai de tal coração e de quem o tem: Vae mihi ab immunditia cordis mei! Este vae e este ai de São Bernardo em dia de Todos os Santos, fique por matéria de meditação a todos os que o querem ser. Advirtam, porém, e tenham por certo, que se este ai de conhecimento e temor se converter em ai de dor, em ai de pesar, em ai de verdadeiro e firma arrependimento, esse mesmo ai, dito de todo coração, com ser uma só silaba — como dizia — bastará para purificar de tal sorte o mesmo coração que, sendo nesta vida santificado por graça, mereça ser na outra beatificado por glória: Beati mundo corde.

Notas:

(12) Cria em mim, ó Deus, um coração puro (Sl. 50,12)

(13) Também o Senhor transferiu o teu pecado (2 Rs. 12,13).

(14)Mas esta palavra está muito perto de ti, no teu coração (Deut. 30,14).

(15) O reino de Deus está dentro de vós (Lc. 17,21).


Fonte: http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/BT2803025.html
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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Sermão de Todos os Santos (10)

X

De todo este largo discurso estou vendo que tirastes duas conclusões todos os que me ouvistes: uma muito conforme ao assunto que propus, e outra muito contrária a ele. A primeira conclusão é que verdadeiramente, sem dúvida, é muito grande coisa o ser santos. Porque, se Deus, entre todos seus atributos de infinita perfeição estima e em certo modo reverencia sobre todos o atributo de santo; e se todas as Pessoas da Santíssima Trindade, e cada uma em particular, nos deram tão soberanos exemplos e documentos desta mesma estimação; se a Virgem Mãe de Deus, por antonomásia, Virgem Prudentíssima, entre todos os bens e felicidade da terra e do céu, nenhuma outra levou os olhos, roubou o coração e prendeu os passos, senão a santidade de todos os santos, em que também o mesmo Deus, seu Filho, a sublimou sobre todos; se os anjos e serafins que assistem ao lado do trono divino, o que só exaltam e apregoam, e os louvores que cantam à majestade de seu Senhor, é ser Santo, Santo e mais Santo; e se a excelência em que o mesmo Senhor confirmou aos anjos bons e obedientes, e a de que privou aos maus e rebeldes, foi a de ser santos; e se os santos de todas as hierarquias, patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, confessores, virgens, tanto trabalharam, tanto padeceram, e tais extremos e excessos fizeram por chegar, como chegaram, a ser santos, não há dúvida que o ser santo é grande coisa, e não só grande, senão a maior de todas. E esta é a primeira conclusão que inteiramente concorda com a primeira parte do meu assunto.

A segunda conclusão, e totalmente contrária à segunda parte dele, é que eu prometi de vos provar quão facilmente podemos todos ser santos, e tudo quanto até agora tenho mostrado e discorrido, pelas vidas e ações dos mesmos santos, e por suas grandes batalhas e vitórias, são coisas todas tão dificultosas e repugnantes à natureza, e tão superiores à fraqueza humana, que antes parece nos impossibilitam totalmente, e nos tiram toda a esperança, não só de chegar a ser, mas ainda de aspirar a ser santos. Ora, não vos desanimeis os que isto inferis, antes vos animai e consolai muito, porque a facilidade que vos prometi, ainda é mais fácil do que eu o propus e vós podeis imaginar. Tudo o que fizeram os santos por ser santos, foi muito bem empregado, e ainda pouco, porque muito mais importa, muito mais vale, e muito mais é ser santos; mas, para chegar a o ser, não é necessário tanto, senão muito menos. Não é necessário guardar a perpétua continência das virgens, porque tendes a licença e liberdade do matrimônio, com que foram santos Adão e Eva, Zacarias e Isabel, Joaquim e Ana. Não é necessário ser anacoreta, nem ir viver aos desertos, porque podeis ser santos na vossa casa, como José, Samuel, Davi, que morreram na sua. Não é necessário ser doutor, nem queimar as pestanas sobre os livros, porque basta que saibais os Mistérios da Fé e os Mandamentos, como S. Paulo, por sobrenome o Simples, S. Junípero, Santo Hermano, e aqueles de quem dizia Santo Agostinho: Levantam-se os indoutos, e levam o reino do céu aos letrados. Não é necessário ser mártir, porque não só não padecendo martírio, mas fugindo dele e escondendo-vos, podeis ser santo, como o foi Santo Atanásio, S. Feliz, S. Silvestre, e outros. Nem menos é necessário ser apóstolo, patriarca ou profeta, porque estes ofícios e dignidades passaram com o tempo, e podeis ser santos como o foram todos os que depois deles vieram.

Pois, que é necessário para ser santo? Uma só coisa, e muito fácil, e que está na mão de todos, que é a boa consciência ou limpeza de coração, como diz o nosso tema: Beati mundo corde. Olhai como Deus quis facilitar o céu e o ser santos, que pôs a bem-aventurança e santidade em uma coisa que ninguém há que não tenha, e a mais livre e mais nossa, que é o coração. Assim como o coração é a fonte da vida, assim é também a fonte da santidade; e assim como basta o coração para viver, ainda que faltem outros membros e sentidos, assim, e muito mais, basta a pureza de coração para ser santo, ainda que tudo o mais falte. Se o ser santo dependera dos olhos, não fora santo Tobias, que era cego; se dependera dos pés, não fora santo Jacó, que era manco; se dependera de algum outro membro do corpo, não fora santo Jó, que estava tolhido de todos, e só lhe ficou a língua: e, ainda que não tivera língua, também fora santo, porque Santa Cristina, sendo-lhe a língua cortada, louvava a Deus com o coração, e com o coração, sem língua, eram tais as suas vozes, que as ouviam não só os anjos no céu, senão também os circunstantes na terra. De sorte que, para um homem ser santo, não é necessário coisa alguma fora do homem, nem ainda é necessário todo o homem: basta-lhe uma só parte, e essa a primeira que vive e a última que morre, para que lhe não possa faltar em toda a vida, que é o coração.

Tendo o coração puro, e ou vos faltem ou sobejem todas as outras coisas, nem a falta vos será impedimento, nem a abundância estorvo para ser santo. Salomão pedia a Deus (Prov. 30,8) que o não fizesse rico nem pobre, mas que lhe desse o necessário para passar a vida, receando que não poderia ser santo em qualquer daqueles extremos; mas eu vos asseguro que, ou sejais rico, ou pobre, ou pobríssimo, de qualquer modo podeis ser santo. Se fordes rico e puderdes dar esmola, dai-a, e sereis santo, como foi S. João Esmoler; se fordes pobre, e tiverdes necessidade de pedir esmola, pedi-a, e sereis santo, como foi Santo Aleixo; e se fordes tão desamparado, que não tenhais quem vos dê esmola, tende paciência, e sereis santo, como foi S. Lázaro.

Tertuliano teve para si que os reis e imperadores não só não podiam ser santos, mas nem ainda cristãos, mas errou neste sentimento, como em outros, Tertuliano, porque escreveu quando ainda no cristianismo não havia mais coroas que as do martírio. Rei foi de França S. Luís, rei de Inglaterra Santo Eduardo, rei de Escócia S. Guilhelmo, rei de Suécia Santo Erico, rei de Dinamarca S. Canuto, rei de Boêmia S. Casimiro, rei da Noruega Santo Olao, rei de Castela S. Fernando, e imperador Santo Henrique, e todos santos, porque, se na grandeza da sua fortuna têm maior matéria para os vícios os príncipes, também têm mais alta esfera para as virtudes.

Das dignidades eclesiásticas se deve fazer o mesmo juízo. Uns santos vereis com mitras de bispos, com capelos de cardeais e tiaras de pontífices na cabeça, e outros com essas mitras, capelos e tiaras aos pés, e por quê? Uns porque deixaram o lustre da dignidade, outros porque sustentaram o peso; uns porque reconheceram o perigo, outros porque continuaram o trabalho; mas, uns e outros, santos. Não foi menos santo São Gregório, sendo papa, do que S. Pedro Celestino, porque renunciou à tiara; nem menos santo Agostinho, sendo bispo, do que Santo Tomás, porque recusou às mitras; nem menos santo São Carlos Borromeu, sendo cardeal, do que S. Francisco de Borja, porque não quis aceitar os capelos.

Aquele é e será mais santo, em qualquer estado, que usar dele com mais puro coração. E se não, discorrei por todos os estados, ou altos ou baixos do mundo, e achareis neles o vosso, para que vejais que no vosso, se quiserdes, podeis ser santo. Que lugares há mais mal avaliados no mundo do que os palácios dos reis, como oficinas da vaidade, da potência, da inveja e do engano, e onde nunca, ou raramente, entra a verdade; mas nem por isso há neles ofício que não esteja santificado. Mordomo-mor foi S. Leodegário, camareiro-mor S. Jacinto, estribeiro-mor S. Vandrigilo, monteiro-mor S. Mauraneu, porteiro-mor S. Patrício, copeiro-mor S. Patroclo, capitão da guarda S. Sebastião, viador S. Saturo, secretário Santo Anastácio, conselheiro S. João Damasceno, S. Germano, S. Melânio, e em cada um destes ofícios muitos outros santos.

Uma das profissões mais arriscadas a não ser justo é a dos ministros da justiça, ou sejam os que a sentenciam, ou os que a defendem, ou os que a escrevem, ou os que a executam; mas todos, se o fizerem com pureza de coração, podem ser santos. Santo Ereberto e Santo Tomás de Cantuária foram chanceleres; S. Hieroteu e S. Dionísio Areopagita, desembargadores; S. Pudente e Santo Apolônio, senadores; S. Fulgêncio, procurador da fazenda real; Santo Ambrósio, S. Crisóstomo e S. Cipriano, advogados; S. Marciano, S. Genésio e S. Cláudio, escrivães; Santo Anastásio e S. Ferréolo, juízes do crime; Santo Aproniano e S. Basilides, esbirros ou beleguins; e até no vilíssimo exercício de algozes foram santos S. Ciríaco, Santo Estratonico, e outros.

Em nenhum gênero de vida parece que anda mais arriscada a eterna que no daqueles que trazem a soldo a temporal à custa do sangue próprio e alheio, tão duros como o ferro de que se vestem, tão violentos como o fogo de que se armam, e tão vãos e jactanciosos como o vento que nas caixas e trombetas os chama, e nas bandeiras os guia. É porém infinito o número de soldados santos, que dando a vida constantemente por Cristo na Igreja militante, ornados de coroas e palmas entraram na triunfante. Só na perseguição de Trajano padeceram martírio de uma vez seis mil soldados, que foi a famosa Legião dos Tebeus; e na de Diocleciano e Maximiano também em um só dia dez mil, desterrados primeiro para a Armênia, e depois crucificados. Não falo nos generais, como Santo Eustáquio e Constantino, nem nos marechais, como S. Nicostrato e Santo Antíoco, nem nos tribunos eu mestres de campo, como S. Marcelino e S. Floreano, nem nos capitães de cavalos, como S. Querino e S. Vital, nem nos capitães de infantaria, como S. Górdio e S. Marcelo, nem nos alferes, como Santo Exupério e S. Juliano, porque da virtude e valor dos soldados se vê quão santos seriam os que os governavam.

S. Paulo disse que a raiz de todos os pecados é a cobiça; e estando estas raízes tão arraigadas nos que professam a mercancia, e tão estendidas em cada um por todas as partes do mundo, nem por isso deixam de produzir frutos de santidade. Delas nasceu um S. Francisco de Assis, um S. Fulgêncio, um S. Guido, e não só um, senão dois Firumêncios, ambos santos, e outros muitos.

E, se de todos estes exercícios, de sua natureza tão perigosos, e quase encontrados com aqueles em que se lavram os santos tem dado a terra ao céu tantos e tão gloriosos, que será nos ofícios e artes mecânicas, em que o trabalho, companheiro inseparável das virtudes, desterra a ociosidade, que é origem de todos os vícios? Não falando no gloriosíssimo S. José, nos Santos Apóstolos e no mesmo Cristo, que, depois de fabricar o mundo, se não desprezou de trabalhar em uma destas artes, escolhendo entre todas a que mais simpatia tinha com o lenho da cruz. S. Jacó de Boêmia foi carpinteiro, S. Sinforiano escultor, S. Paulo Helático torneiro, S. Floro serrador, Santo Elígio ourives, Santo Andrônico prateiro, S. Duustano ferreiro, S. Marciano armeiro, S. Gildas fundidor, S. Próculo pedreiro, S. Crispim sapateiro, Santo Homobono alfaiate, Santo Onúfrio tecelão, S. Gualfundo celeiro, Santo Aquilas corrieiro, S. João de Deus livreiro, Santo Isidoro lavrador, S. Maurício hortelão, S. Leonardo pastor, Santo Alderico vaqueiro, Santo Arnoldo marinheiro, S. Patênio pescador, S. Ventiro almocreve, S. Ricardo carreiro, Santo Adriano correio, S. Guilhelmo moleiro, S. Gemiano taverneiro, S. Quiríaco cozinheiro, Santo Alexandre carvoeiro, Santo Henrique carniceiro, Santo Erineu varredor das imundícias ou carretão: e não há ofício, estado e exercício tão trabalhoso, tão baixo, e ainda pouco limpo, que, se se faz com limpeza de coração, não possa fazer santos. Beati mundo corde.

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85 PERGUNTAS E RESPOSTAS (parte 10 - final)

85. Que qualificações especiais têm a Igreja católica na interpretação das Escrituras?

(1) o NT foi escrito por membros da Igreja católica. Ela existiu antes que uma linha do NT fosse escrito. O protestantismo entrou em cena muitos séculos depois. Os Evangelhos realmente são os documentos familiares da Igreja católica, e ela só, possuindo as tradições familiares, pode interpretar o que esses documentos familiares realmente significam. (2) a Igreja católica preservou a Bíblia cuidadosamente e ciosamente pelas eras, de forma que os protestantes não teriam nenhum Evangelho se não fosse escrito por ela. (3) ela foi muito mais fiel a Escritura que quaisquer das Igrejas protestantes. Ainda muitos líderes protestantes estão preparados para explicar a Bíblia perante a ciência, a Igreja católica sempre disse que tudo o que a Bíblia diz deve ser entendido segundo o sentido original. (4) as Igrejas protestantes são separadas umas das outras porque cada uma interpreta a Bíblia de acordo com si própria. (5) a Igreja católica foi estabelecida por Cristo como regra de fé, e Ele declarou que um homem será pagão se ele não ouvir a Igreja. A Igreja católica é a única intérprete qualificada da Escritura.
86. A Bíblia nos diz que provemos todas as coisas. ITs. 5:21. Os membros da Igreja católica aceitam seus ensinos sem examinar a Bíblia.
Você examinou todas as coisas? Suas próprias interpretações fantásticas mostram que você não examinou. O texto que citou tem um significado muito diferente do que você atribui. Se refere para administrar. O texto completo, "Examinai tudo. Retende o bem. Abstende-vos de toda a aparência do mal." Em outras palavras, "Reflita, teste, examine sua consciência antes de você agir, e faça a coisa certa". Da mesma maneira, são Paulo disse que aquele que deseja receber a santa Eucaristia "Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste päo e beba deste cálice." ICo. 11:28. Sua interpretação dos ensinos católicos é da mesma maneira fantástica. A Igreja católica não exige que seus membros dela não provem nada.

Ela quer que eles examinem as razões para sua fé católica, e provarem os ensinos da Igreja. Nós provamos que ela é historica, bíblica e logicamente, a única Igreja possível. Então quando ela fala no Nome de Cristo nós aceitamos os ensinos dela. Se eu consulto um doutor que eu conheço ser competente, eu aceito suas decisões. Eu não discuto e debato suas decisões. Assim, uma vez eu sei que a Igreja católica é divinamente qualificada para falar a verdade em assuntos religiosos, eu aceito suas decisões. Nada poderia ser mais sábio que isso. De fato, seria loucura fazer o contrário.

O que os não-católicos dizem sobre o protestantismo e a Bíblia:

Sobre a "Bible League," o dr. Booth diz:

"Se as agressões às Escrituras continuarem, virá o tempo quando quem for fiel a Deus terá um refúgio, e será a Igreja católica romana".

Diz o rev. C. Tinsley, um ministro metodista,:

"A Bíblia é um livro muito embaraçoso por causa de suas muitas contradições".

Na "History of Literature", de Hallam, lemos:

"A tradução do VT e NT por Lutero é mais renomada pela pureza da linguagem alemã que por sua aderência para o texto original. Simon foi acusado de ignorância do hebraico e quando vemos o quanto ele chegou no conhecimento do hebraico e grego, e em seu uso, vemos que ele foi muito avançado".

O rev. Dr. Aked, ministro batista, escrevendo em "Appleton?s Magazine," setembro. , 1908, disse:

"Nas páginas da versão protestante da Bíblia será achado erros históricos, enganos aritméticos, inconsistências e contradições múltiplas, e, o que é longe pior, a pessoa acha que os crimes mais horríveis são cometidos por homens que falal: ?Deus disse,' em justificação de seus terríveis atos. Além disso, a Bíblia inglesa é uma versão de uma versão que é uma tradução de uma tradução. Veio do hebraico, grego e latim em inglês. Em todas suas fases antigas foi copiada à mão de um manuscrito a outro por escritores diferentes, um processo que resultou em muitos enganos".

O Bispo anglicano de Londres, Eng. , dr. Ingraham, diz:

"No momento presente, só há uma Igreja na Inglaterra que oficialmente aceita as Escrituras como a Palavra infalível de Deus, e esta Igreja é a Igreja de Roma".

Dr. Decosta disse:

"A Igreja de Roma foi, antes do inglês ser descoberto e os protestantes, a única defensora da Bíblia em sua integridade e totalidade".

A rev. O. J. Nelson, de Bellingham, Wash. , diz: "No sentido exato, ninguém além dos católicos tem uma Bíblia infalível e ninguém além dos católicos podem ser chamados de cristãos ortodoxos. . . só há uma Igreja cristã de realidade e autoridade consistente e é a Igreja católica".

Charles Buder, em sua "Horae Biblicae", " diz:

"Pelas escritas sagradas que contêm a Palavra de Deus, e pelas tradições, nós estamos endividados, sob a Providência, pelo zelo e esforço dos padres e monges da Igreja de Roma".

O crítico bíblico protestante, George Campbell, diz:

"A vulgate pode ser dita, no geral, uma versão boa e fiel".

Um editorial no New York "Sun", diz:

"O tempo está vindo, se, realmente, já não veio, quando estas Igrejas definitivamente e decididamente têm que se perguntar se a Bíblia é de Deus ou do homem. E neste campo, o papa é o único e exclusivo campeão da Bíblia como a Palavra de Deus".

O rev. dr. A. S. Crapsey, escrevendo a "Free Religious Association":

"A maioria das denominações protestantes está retornando, voltando para os católicos. Eles estão perdendo sua liderança intelectual por não manter passo com os estudiosos. O protestantismo seguirá e obedecerá a lei da gravitação, desintegrará, e assim perderá todo o poder ".

O bispo metodista, Dr. Seliew,:

"O espírito do protestantismo está declinando na América com o progresso do catolicismo. Está morrendo, e logo será uma coisa do passado".

Autoria: Fr. Chas. M. Carty Rev. Dr. L. Rumble, M.S.C. Copyright 1976 by TAN Books and Publishers, Inc.

Originalmente publicado por Fathers Rumble and CartyRadio Replies Press, Inc.

St. Paul, Minn., U.S.A.Complete e não abreviado

IMPRIMATUR: Joannes Gregorius Murray, arcebispo de Sancti Pauli


fonte: (de 81 a 85) http://www.veritatis.com.br/article/180

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quarta-feira, 21 de maio de 2008

85 PERGUNTAS E RESPOSTAS (parte 9)

81. São Pedro condena a tradição e diz: "Sabendo que näo foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vä maneira de viver que por tradiçäo recebestes dos vossos pais" IPd. 1:18.

Esta não é uma condenação das tradições cristãs, mas de doutrinas de quem são Pedro escreveu, e passou para eles através da tradição humana de seus pais. Estas eram as tradições que nosso Senhor condenou em Mt. 15:3.

82. Eu admito a força das tradições apostólicas pelos cristãos primitivos. Mas eles poderiam estar certos como as que temos hoje?

As tradições apostólicas eram separam da fé cristã? É impossível saber toda a verdade cristã? Cristo quis dizer isto quando Ele disse que Ele estaria com a Igreja todos os dias até o fim do mundo? Ou você diria que Ele quis dizer isto, mas não pôde realizar? Ele enviou a Igreja para ensinar todas as coisas, contudo você diz que é impossível hoje. Esteja certo que a Igreja católica tem todas as tradições necessárias encarnadas em seus ensinos. Dentro de sua história, cada geração teve bispos que ensinaram aos homens fiéis que ensinaram outros. Mas você recusa ser ensinado pela Igreja. Você confia em seu próprio julgamento falível. E se você adotar este método você nunca estará seguro, não só das tradições cristãs, mas até mesmo da verdadeira doutrina cristã ser derivada das Escrituras.

83. Você continua insistindo, não só na tradição, mas também na autoridade pedagógica de sua Igreja. Por que segue as interpretações dela?

Porque nós não podemos seguir a interpretação dada por qualquer outra pessoa. Todos os ministros que criticam a Igreja católica dizem que ela é falível. Só a Igreja católica diz que é infalível e prova isso. Eu prefiro seguir um guia tão seguro. Quem recusa aceitar isso, está preso a doutrinas humanas.

84. Os leigos não tem tanta inteligência quanto os padres?

Aparte do fato que os padres dão, não suas próprias idéias humanas, mas os ensinos da Igreja católica, é certo que o leigo não pode saber assuntos teológicos como os padres, até mesmo como você não é bem familiarizado com jurisprudência e cirurgia como os advogados e doutores. O especialista em um assunto, por anos de estudo, sabe mais de um assunto que o homem na rua. Se um homem comum está tão sujeito ao erro na interpretação da lei humana, como ele pode ter a vaidade de pensar saber a interpretação de legislação divina?

(continua)
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terça-feira, 20 de maio de 2008

Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho de Hipona (parte 7)

Capítulo XIV - Não há julgamento para merecimentos futuros: Comentário do texto da Sabedoria 4,11

§26. São Cipriano escreveu um livro intitulado “A mortalidade”, elogiado por quase todos os que se dedicam às ciências eclesiásticas, no qual afirma que a morte não só não é inútil, mas deveras útil para os fiéis, pois livra o homem do perigo de pecar e lhe dá a segurança de não pecar. Mas de que valeria esta segurança, se lhe fossem punidos os pecados futuros que não cometeu? O Santo, porém, prova com ótima e farta argumentação que neste mundo não faltam os perigos de pecar, mas não subsistirão depois desta vida. E aduz como testemunho as palavras do livro da Sabedoria: Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar (Sb 4,11). Este argumento aduzido também por mim, nossos irmãos não aceitaram, conforme dissestes, por ter sido tomado de um livro não canônico, como se, à parte a autoridade deste livro, a doutrina que quisemos ensinar não fosse bastante clara. Qual o cristão que se atreve a negar que o justo estará em descanso (Sb 4,7), quando for arrebatado pela morte? Que pessoa de fé ortodoxa pensaria o contrário de quem isto afirmasse? Do mesmo modo, se alguém disser que um justo, violando a santidade na qual perseverou por longo tempo e falecendo na impiedade, na qual viveu não digo um ano, mas um dia, não incorreria nas penas devidas aos réprobos, de nada lhe aproveitando os méritos passados (Ez 18,24), qual o fiel que se oporia a esta verdade tão evidente? Além disso, se nos perguntassem se este justo falecesse enquanto praticava a justiça, se incorreria nas penas devidas aos condenados ou encontraria o descanso, não responderíamos sem hesitação que estaria no descanso? Esta é a razão que levou alguém a dizer, seja quem for: Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar. Alguém o disse referindo-se aos perigos desta vida e não de acordo com a presciência de Deus, que previra o que aconteceria e não o que não aconteceria. Quis dizer: que Deus lhe concederia morte prematura para evitar-lhe a insegurança das tentações e não porque haveria de pecar aquele que não permaneceria sujeito à tentação. A respeito desta vida lê-se no livro de Jó: A vida do homem sobre a terra é uma guerra (Jó 7,1). Mas, por que a alguns concede serem libertados dos perigos desta vida, quando estão no caminho da justiça, e outros justos são mantidos nos mesmos perigos com idade mais avançada até caírem do estado de justiça? Quem conheceu o pensamento do Senhor? (Rm 11,34). Contudo, por aí se pode entender o referente àqueles justos que, vivendo com piedade e bons costumes até a maturidade da velhice e até o último dia de vida, devem-se glorificar não em seus méritos, mas no Senhor. Isso porque, aquele que arrebatou o justo na sua mocidade, a fim de que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar, ele mesmo o protege em qualquer fase da vida, para que a maldade não perverta o seu coração. Mas a razão pela qual tenha mantido com vida o justo que haveria de cair e o qual poderia ter arrebatado desta vida antes de cair, obedece aos justíssimos, mas impenetráveis desígnios de Deus.

§27. Sendo verdade tudo isto, não se deveria rechaçar a sentença do livro da Sabedoria, cujas palavras têm merecido ser proclamadas na Igreja de Cristo há tantos anos com aprovação dos que, na mesma Igreja, o têm lido, e serem ouvidos com a veneração devida à autoridade divina tanto por bispos como pelos fiéis leigos considerados inferiores, como são os penitentes e os catecúmenos. Baseando-me nos tratadistas das divinas Escrituras que nos precederam, se eu empreendesse a defesa desta sentença que com extraordinária diligência e extensão somos obrigados a defender contra o novo erro dos pelagianos, ou seja, que a graça de Deus nos é concedida não de acordo com nossos merecimentos, mas é concedida gratuitamente a quem é concedida — pois não depende de quem quer ou corre, mas de Deus, que tem misericórdia, e não é concedida a quem não é concedida por um justo juízo divino, pois não há injustiça por parte de Deus - se eu empreendesse, repito, a defesa desta doutrina, sem dúvida esses irmãos, em consideração aos quais estamos escrevendo, teriam ficado satisfeitos, conforme o indicastes em vossas cartas. Mas por que consultar os escritos daqueles que, antes do aparecimento desta heresia, não tiveram necessidade de se enfronhar nesta difícil questão na procura de solução? Tê-lo-iam feito, se fossem obrigados a responder a tais dificuldades. Daí o terem tocado brevemente, de passagem, e em algumas partes de seus escritos o que pensavam sobre a graça de Deus. Estenderam-se mais nos assuntos que discutiam contra os inimigos da Igreja e em exortações à prática de algumas virtudes, mediante as quais se presta serviço a Deus vivo e verdadeiro em ordem a alcançar a vida eterna e a verdadeira felicidade. Pela abundância de orações depreende-se o valor que davam à graça de Deus, pois não pediriam a Deus o cumprimento do que ele manda, se por ele não lhes fosse concedido o poder cumprir.

§28. Mas o que desejam instruir-se com as afirmações dos tratadistas, convém que anteponham a todos os autores este mesmo livro, onde se lê: Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar. Isso porque deram-lhe preferência egrégios escritores próximos aos tempos dos apóstolos, os quais, apresentando-o como testemunho, acreditaram estar aduzindo um testemunho divino. Consta com certeza que o mui bem-aventurado Cipriano, exaltando a vantagem da morte prematura, sustenta que ficam livres do perigo de pecar aqueles que terminaram esta vida na qual se pode pecar. No livro antes citado, diz entre outras coisas: ‘Por que não te apraz estar com Cristo, seguro das promessas do Senhor ao seres chamado para Cristo? Por que não regozijas em te ver livre do demônio?”. E diz em outro lugar: “As crianças livram-se dos perigos da idade lasciva”. E em outro: “Por que não nos apressamos e corremos para contemplar nossa pátria e saudar nossos familiares? Um grande número de pais, irmãos, filhos queridos lá nos esperam; uma multidão numerosa nos deseja, já tranqüila acerca de sua imortalidade e ainda solícita de nossa salvação”. Com estas e outras semelhantes sentenças, ditadas pela esplendorosa luz da fé católica, aquele doutor atesta com clareza que se deve temer até o momento de abandonar este corpo os perigos de pecado e as tentações; depois, ninguém passará por estas dificuldades. E mesmo que ele não atestasse, algum cristão teria alguma dúvida sobre esta verdade? Portanto, por que razão a um homem caído que termina miseravelmente esta vida ainda pecador e destinado ao castigo devido aos pecados, por que razão, pergunto eu, não lhe seria deveras vantajoso, se deste lugar de tentações fosse arrebatado pela morte antes de sucumbir ao pecado?

§29. Se não se trata de um temerário empenho, pode-se dar por terminada a questão a respeito do que foi arrebatado, para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar. E mais. O livro da Sabedoria, que mereceu ser lido na Igreja de Cristo há tantos anos e no qual se encontra esta sentença, não deve ser desprezado porque contraria aqueles que se enganam no tocante aos méritos humanos e se colocam contra a manifesta graça de Deus. Percebe-se esta graça principalmente nas crianças, as quais, como umas chegam ao fim da vida já batizadas e outras, não, revelam claramente a misericórdia e o juízo, a misericórdia certamente gratuita e o juízo, sem dúvida, justo. Pois, se os homens fossem julgados de acordo com os merecimentos de sua vida, que não tiveram por terem sido surpreendidos pela morte, mas teriam, se vivessem, de nada aproveitaria ao que foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o coração e nenhuma vantagem teriam os que morrem após terem caído, se tivessem morrido antes. Mas nenhum cristão pode alimentar esta opinião. Por conseguinte, nossos irmãos, que conosco combatem o pernicioso erro pelagiano em favor da fé católica, não devem favorecer esta opinião dos hereges, que os leva a opinar que a graça de Deus nos é outorgada de acordo com nossos méritos, a tal ponto que intentam — o que não lhes é lícito — demolir a sentença dotada de plena veracidade e há muito tempo é cristã: Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o modo de pensar. Não devem, por outro lado, construir o que julgaríamos não digo ser merecedor de ser crido, mas nem sequer imaginado por alguém, ou seja, que todo aquele que morre é julgado de acordo com o que faria, se tivesse mais tempo de vida. Assim fica evidente ser irretorquível o que dizemos: que a graça de Deus não nos é concedida de acordo com nossos merecimentos, para que os homens talentosos, que contradigam esta verdade, sejam obrigados a dizer que aqueles erros devem ser repudiados por todos os ouvidos e inteligências.

(continua)

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segunda-feira, 19 de maio de 2008

4º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DO PADRE ANTÔNIO VIEIRA

O jesuíta Antônio Vieira é considerado um mestre inigualável da língua portuguesa e um dos maiores oradores de todos os tempos. Padre Vieira nasceu em Lisboa no dia 6 de fevereiro de 1608 e morreu em Salvador da Bahia com quase 90 anos, no dia 18 de julho de 1697. Sua vasta obra inclui mais de mil homilias, que chegam a 15 volumes de "Sermões". Das 3 mil cartas que escreveu foram publicadas 500 em cinco volumes. Seus livros mais discutidos certamente são: "Clavis Prophetarum" e "História do Futuro". Nesta obra erudita projeta um grande provir para o reino cristão de Portugal.

Em comemoração ao quarto centenário do nascimento de Padre Vieira se realizou, em Roma, na Universidade "La Sapienza", de 07 a 09 de fevereiro de 2008, um congresso internacional, organizado pela Cátedra Padre Antônio Vieira e o Departamento de Estudos Europeus e Interculturais da mesma universidade, junto com outras universidades de Portugal e do Brasil. Uma das conferências abordou o tema "Ética, política e sociedade em Antônio Vieira" [Prof. Pedro Calafate].

P. Vieira é um dos grandes missionários das terras brasileiras. Veio ao Brasil com apenas 6 anos, acompanhado de sua mãe [o pai já vivia no Brasil e trabalhava como notário da Capitania na Bahia]. Estudou no Colégio Jesuíta de Salvador, onde aprendeu as línguas nativas e ali mesmo entrou na Companhia de Jesus em 1623. Ordenado sacerdote em 1635, se converteu em um dos personagens mais influentes do século XVII no império português, diplomata e negociador, conselheiro dos reis e pregador real [às vezes incomodo]. Além de grande orador sacro e crítico dos costumes, foi missionário infatigável e ardoroso defensor dos direitos dos povos indígenas, combatendo sua exploração e escravidão pela cobiça dos colonizadores. Era chamado pelos índios do Brasil de "Paiaçu" [Grande Pai, em tupi]. Criticou igualmente a escravidão dos negros [sua avó paterna era negra]. Foi perseguido pela Inquisição [esteve dois anos na prisão], entre outros motivos por haver defendido os judeus em distintas ocasiões e lutado para que se abolisse a distinção entre cristãos novos [judeus convertidos] e cristãos velhos. É considerado um clássico da língua portuguesa e um missionário de grande envergadura.
Fonte: http://www.jesuitasamazonia.org/ver_noticia.asp?IDNews=271
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quinta-feira, 8 de maio de 2008

AVE MARIA de mons. Luciano Alimandi, Somente quem se esquece de si mesmo ama realmente!

Cidade do Vaticano (Agência Fides) - “Preparem o caminho ao Senhor que vem!”. O apelo de João Batista ressoa em todas as épocas da história e é válido para todos os que quiserem abrir o coração a Deus. Se acreditamos realmente n’Ele, precisamos, todos os dias, preparar o caminho, abrindo, aliás, escancarando, as portas da própria existência, a Jesus.

A vida do Precursor dos Apóstolos nos mostra que o homem se abre a Cristo quando começa a amar realmente Deus e o próximo, quando sai de si mesmo, abandonando a gaiola psicológica do próprio “eu”. No coração, o homem livre, porque liberto por Cristo, terá apenas um desejo: doar-se, sem reservas, a Deus e aos irmãos.

São João nos adverte, em suas cartas, que “se uma pessoa diz ‘Eu amo Deus’ e odeia seu irmão, é um mentiroso. De fato, quem não ama o próprio irmão que vê, não pode amar a Deus, que não vê. Este é o mandamento que recebemos d’Ele: quem ama Deus, ama também seu irmão” (1Jo 4, 20-21). Assim, da mesma forma, podemos dizer que se quisermos amar mais a Deus, dvemos amra mais ao próximo, e vice-versa.

Os Santos, com seu testemunho, nos mostram claramente que estas duas direções de amor são inseparáveis e que a intensidade do amor por Deus é diretamente proporcional à do amor ao próximo. Jesus diz claramente no Evangelho que o mandamento do amor a Deus e o do amor ao próximo são inseparáveis.

São Bernardo, e outros Santos, falaram da extrema importância de “amar Deus para Deus”. Santa Teresa do Menino Jesus o diz de modo explícito, falando do amor como serviço: “muitos servem Jesus quando os consola, mas poucos são abertos a fazer companhia a Jesus que sofre na horta da agonia. Quem, assim, quer servir Jesus somente para Jesus?” São Paulo nos fala deste amor puro no insuperável Hino à Caridade: “...A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses…” (1 Cor 13, 4-5).

Podemos dizer que existe caridade somente quando se ama desinteressadamente, ou seja, se ama perdendo a si mesmos, o prório lucro. Quem quer praticar a caridade não se deve perguntar: o que ganho amando aquela pessoa? Que lucro terei com este ou aquele serviço? O amor puro
difunde a si mesmo sem fazer cálculos. É como a mulher pecadora, que, na casa de Simão o fariseu, se ajoelha aos pés de Jesus e os unge com tanto perfume precioso. E o Senhor dá a todos uma lição formidável sobre o amor desinteressado: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés; mas esta, com as suas lágrimas, regou-me os pés e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste o ósculo; mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo; mas esta, com perfume, ungiu-me os pés. Por isso te digo: seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas ao que pouco se perdoa, pouco ama” (Lc 7, 44-47). Em outras palavras: Simão pensava em si mesmo, mesmo tendo convidado Jesus, enquanto aquela mulher pensava somente em Jesus, porque se esquecia de si mesma e assim, tornou-se realmente capaz de caridade!

A caridade é o verdadeiro amor, e eis porque tudo o que é autentico roda ao redor dela. Também a fé é autentica somente se se ama desinteressadamente; caso contrário, é uma fé enfraquecida pelo amor próprio. Uma das descobertas decisivas do caminho da conversão pessoal é exatamente a que é ligada à caridade. Somente decidindo esquecer-se de si mesmos, podemos ter acesso ao real amor de Deus e dos irmãos, caso contrário, permanecemos prisioneiros de nosso egoísmo do cálculo e dos interesses pessoais.

O Senhor quer que tratemos com Ele e com o próximo sem uma lógica do lucro, sem interesses pessoais. Somente quem esquece de si mesmo, amando, ama realmente. Este amor resplandece em toda a existência de Nossa Senhora. O Santo Padre Bento XVI usa uma expressão forte quando, falando de Maria, diz que: “Ela é, por assim dizer, totalmente despojada de si mesma, se doou inteiramente a Cristo e com Ele é dada em dom a todos nós”. (Bento XVI, homilia de 8 de dezembro de 2005). Sim, Maria esqueceu-se de si mesma, sempre e totalmente, por isso pôde dar todo lugar a Jesus, e “com ele - nos diz o Papa - é dada em dom a todos nós”!

Fonte: (Agência Fides 23/1/2008)
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