quarta-feira, 5 de março de 2008

Da Justificação dos Santos - Santo Agostinho de Hipona (parte 2)

Capítulo IV - A revisão de sua doutrina pelas Retratações

§8. Assim tomais conhecimento sobre o que eu pensava então sobre a fé e as obras, embora me esforçasse em prestigiar a graça de Deus. Vejo agora que esses nossos irmãos abraçam esta opinião porque não cuidaram de progredir comigo do mesmo modo que se interessaram em ler os meus livros. Pois, se tivessem tido esta preocupação, teriam encontrado resolvida esta questão de acordo com a verdade das divinas Escrituras no primeiro dos dois livros que, no começo de meu episcopado, escrevi a Simpliciano, de feliz memória, bispo da Igreja de Milão, sucessor do bem-aventurado Ambrósio. A não ser que não os conheceram e, se assim for, fazei com que os conheçam. Deste primeiro dos dois livros falei primeiramente no segundo das Retratações, onde me expresso nos seguintes termos: “Dos livros que elaborei, sendo já bispo, que tratam de diversas questões, os dois primeiros são dedicados a Simpliciano, prelado da Igreja de Milão, que sucedeu ao bem-aventurado Ambrósio. Duas das questões, tomadas da carta de Paulo apóstolo aos romanos, reuni no primeiro livro. A primeira enfoca o que está escrito: Que diremos, então? Que a lei é pecado? De modo algum! até onde diz: Quem me libertará deste corpo de morte? Graças sejam dadas a Deus, por Jesus Cri sto Senhor nosso (Rm 7,7-25). Nesta questão, as palavras do Apóstolo: A lei é espiritual, mas eu sou carnal (Rm 14), e as demais onde se declara a luta da carne contra o espírito, de tal modo expus, como se o ser humano estivesse sob a lei e não libertado pela graça. Pois compreendi muito mais tarde que tais palavras podiam se referir também ao homem espiritual, o que é mais provável. A segunda questão neste primeiro livro abrange a passagem onde diz: E não é só. Também Rebeca, que conceberá de um só, de Isaac, nosso pai, até o trecho onde afirma: Se o Senhor Sabaot não nos tivesse preservado um germe, teríamos ficado como Sodoma, teríamos ficado como Gomorra (Rm 9,10-29). Na solução desta questão trabalhou-se certamente pelo triunfo do livre-arbítrio, mas a graça de Deus venceu. E não se podia chegar a esta conclusão, senão entendendo corretamente o que disse o Apóstolo: Pois quem é que te distingue? Que é que possuis, que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que haverias de te ensoberbecer como se não o tivesses recebido? (1Cor 4,7). O que o mártir Cipriano pretendia demonstrar, define-o cabalmente com este título: “Em nada nos devemos gloriar, porque nada é nosso” (Retratações 1, c.1, n. 1). Eis a razão pela qual disse acima que me havia convencido desta questão principalmente por este testemunho apostólico, quando sobre ela pensava de modo diferente. Deus me inspirou a solução, quando, conforme disse, escrevia ao bispo Simpliciano. Portanto, este testemunho do Apóstolo, onde ele disse para se refrear o orgulho humano: O que possuis que não tenhas recebido, não permite a nenhum fiel dizer: “Tenho a fé que não recebi”. Toda tentativa de soberba fica assim reprimida com as palavras desta resposta. Mas o seguinte se pode dizer: “Ainda que não tenha a fé perfeita, tenho, contudo, seu começo, pela qual primeiramente acreditei em Cristo”. Isso porque então não se pode responder: O que possuis que não recebeste? E, se o recebeste, por que haverias de te ensoberbecer como se não o tivesses recebido? (1Cor 4,7).

Capítulo V - A gratuidade refere-se também à fé; não somente aos bens da natureza

§9. O que esses irmãos pensam, ou seja: “Quando se trata do começo da fé, não se pode dizer: O que possuis que não recebeste?, porque permaneceu na própria natureza, embora contaminada, o que lhe foi dado quando sã e perfeita” (Carta de Hilário, n. 4), não deve ser entendido para o que pretendem valorizar, se se pensa a razão pela qual o Apóstolo fez esta afirmação: Pois tratava ele de que ninguém se gloriasse no homem, já que haviam surgido dissensões entre os cristãos de Corinto a ponto de dizerem: “Eu sou de Paulo!' ou “Eu sou de Apolo!' ou “Eu sou de Cefas!” e por isso veio a dizer: O que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é, a fim de que nenhuma criatura se possa vangloriar diante de Deus. Nestas palavras percebe-se a intenção muito clara do Apóstolo contra a soberba humana, a fim de que ninguém se glorie no homem e, portanto, nem em si mesmo. Finalmente, depois de dizer: A fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus, para mostrar em que o homem se deve gloriar, acrescentou imediatamente: E por ele que vós sois em Cristo Jesus, que se tornou para nós sabedoria proveniente de Deus, justiça, santificação e redenção, a fim de que, como diz a Escritura, “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1Cor 1,12.27-31). Estas palavras foram o apoio para manifestar sua intenção para dizer em repreensão: Visto que ainda sois carnais. Com efeito, se há entre vós invejas e rixas, não sois carnais e não vos comportais de maneira meramente humana? Quando alguém declara: “Eu sou de Paulo”, e outro diz: “Eu sou de Apolo” não procedeis de maneira meramente humana? Quem é, portanto, Apolo? Quem é Paulo? Servidores, pelos quais fostes levados à fé; cada um deles aqui segundo os dons que o Senhor lhe concedeu. Eu plantei, Apoio regou; mas era Deus quem fazia crescer. Assim, pois, aquele que planta, nada é; aquele que rega, nada é; mas importa somente Deus que dá o crescimento. Percebeis que o Apóstolo não pretende outra coisa, senão que o homem se humilhe e apenas Deus seja exaltado? Pois, ao se referir aos que são plantados ou regados, afirma que nada são o que planta ou que rega, mas o que dá o crescimento, ou seja, Deus. O mesmo diz se aquele planta e este rega; não devem atribuir a si mesmos, mas ao Senhor, ao afirmar: Cada um deles agiu segundo os dons que o Senhor lhe concedeu. Eu plantei, Apoio regou. Persistindo no mesmo propósito, vem a dizer: Por conseguinte, ninguém procure nos homens motivo de orgulho (1Cor 5-6.2 1). Pois dissera antes: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor Depois destas e algumas outras palavras, que com estas se relacionam, sua intenção o leva a dizer: Nisso tudo, irmãos, eu me tomei como exemplo juntamente com Apolo por causa de vós, a fim de que aprendais a nosso respeito a máxima: “Não ir além do que está escrito” e ninguém se ensoberbeça, tomando o partido de um contra o outro. Pois quem é que te distingue? Que é que possuis que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que haverias de te ensoberbecer como se não o tivesses recebido? (1Cor 4,6-7).

§10. Conforme entendo, seria o maior absurdo supor que, nesta mais que evidente intenção do Apóstolo de falar contra a soberba humana para evitar que ninguém se glorie nos homens, mas em Deus, esteja ele se referindo aos dons naturais, seja os da natureza cabal e perfeita outorgada na primeira condição, seja quaisquer vestígios da natureza decaída. Porventura, mediante tais dons comuns a todos, os homens se distinguem uns dos outros? No referido texto, o Apóstolo disse primeiramente:Quem é que te distingue? e acrescentou à continuação: Que é que possuis que não tenhas recebido? Pois uma pessoa cheia de orgulho poderia dizer a outra: “Distinguem-me minha fé, minha justiça” ou coisa semelhante. Vindo ao encontro de tais pensamentos, o bom Doutor diz: “O que possuis que não recebeste? E de quem recebeste, senão daquele que te distingue do outro, ao qual não concedeu o que te concedeu?”. “E, se o recebeste, diz ele, por que te glorias como se não o tivesses recebido?” Pergunto eu: não insiste o Apóstolo em que alguém que se gloria, glorie-se no Senhor? Mas nada tão oposto a este sentido que o gloriar-se alguém de seus merecimentos, como se ele mesmo praticasse tais obras meritórias e não pela graça de Deus. Refiro-me à graça que distingue os bons dos maus, não à que é comum aos bons e aos maus. Portanto, se a graça representa os atributos da natureza, que nos faz animais racionais e nos distingue dos simples animais; se ela representa os atributos da natureza, que causa diferenças entre os homens normais e os disformes ou entre os inteligentes e os retardados, e assim outros atributos semelhantes, aquela pessoa, repreendida pelo Apóstolo, não se ensoberbecia contra um animal ou contra alguma pessoa no tocante a algum dote natural, ainda que fosse de ínfimo valor. Mas orgulhava-se de algum bem referente à vida de santidade, não atribuindo a Deus mas a si, e por isso mereceu ouvir: Quem é que te distingue? Que é que possuis que não tenhas recebido? Mesmo sendo dom natural o poder ter fé, acaso o é também possuí-la? Pois nem todos têm fé (2Ts 3,2), embora todos possam tê-la. O Apóstolo não diz: “O que podes ter que não recebeste para poder possuí-la?”. Mas diz: Que é que não possuis que não recebeste? Por conseguinte, o ser capaz de ter fé, assim como ser capaz de ter caridade, é próprio da natureza humana. Mas ter fé, assim como ter caridade, é próprio da graça nos que crêem. A natureza, que nos dá a possibilidade de ter fé, não distingue um ser humano do outro, mas a fé distingue um crente do não crente. Por isso, quando se diz: Quem é que te distingue? Que é que possuis que não recebeste? quem ousa afirmar: “Tenho a fé por minha iniciativa; portanto, não a recebi”? Tal pessoa contradiz esta verdade evidente, não porque o crer ou não crer não dependa do livre-arbítrio humano, mas porque a vontade nos eleitos é preparada pelo Senhor (Pr 8, seg. LXX). Portanto, no campo da fé, que depende da vontade, procedem as palavras: Quem é que te distingue? Que é que possuis que não recebeste?

Capítulo VI - Os insondáveis juízos de Deus e a predestinação dos santos

§11. “São muitos os que ouvem a palavra da verdade, mas uns crêem, outros a contradizem. Os primeiros querem crer, ao passo que os segundos não o querem.” Quem ignora este fato? Mas como naqueles a vontade é preparada pelo Senhor, o que não acontece com os segundos, é preciso distinguir o que vem da sua misericórdia e o que vem de sua justiça. Diz o Apóstolo: Aquilo a que tanto aspira, Israel não conseguiu: conseguiram-no, porém, os escolhidos. E os demais ficaram endurecidos. Como está escrito: “Deu-lhes Deus um espírito de torpor, olhos para não verem, ouvidos para não ouvirem, até o dia de hoje”. Diz também Davi: Que sua mesa se transforme em cilada, em motivo de tropeço e justa paga. Que seus olhos fiquem escuros para não verem, e faze que eles tenham sempre seu dorso encurvado. Eis a misericórdia e o juízo; misericórdia para a eleição que alcançou a justiça de Deus; juízo para os demais que ficaram cegos. No entanto, os que quiseram, acreditaram; os que não quiseram, não acreditaram. Portanto, a misericórdia e a justiça verificaram-se nas próprias vontades. Pois esta eleição é obra da graça, não dos méritos. Um pouco antes o Apóstolo dissera: Assim também no tempo atual constituiu-se um resto segundo a eleição da graça. E se é por graça, não é pelas obras; do contrário a graça não é mais graça (Rm 11,5-10). Portanto, gratuitamente foi alcançada porque foi alcançada a eleição. Da parte deles não a precedeu nenhum mérito que pudesse ser apresentado antes e a eleição significasse uma retribuição. Salvou-os à custa de nada. Os outros ficaram cegos e receberam em retribuição, como o texto esclarece. Todas as veredas do Senhor são graça e fidelidade (Sl 24,10). Pois são impenetráveis seus caminhos (Rm 11,33). Por conseguinte, são impenetráveis a misericórdia pela qual liberta gratuitamente e a verdade pela qual julga com justiça.

Capítulo VII - A fé é o fundamento da vida espiritual

§12. É possível que alguém diga: “O Apóstolo faz distinção entre a fé e as obras, pois afirma que a graça não procede das obras, mas não diz que não procede da fé”. É verdade, mas Jesus assevera que a fé é obra de Deus e a exige para a prática das boas obras. Pois disseram-lhe os judeus: “Que faremos para trabalhar nas obras de Deus?”. Respondeu-lhes Jesus: “A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou” (Jo 6,28-29). Neste sentido, portanto, o Apóstolo faz distinção entre a fé e as obras, assim como nos dois remos hebreus se diferencia Judá de Israel, apesar de Judá ser Israel. O Apóstolo assegura que o homem se justifica pela fé, e não pelas obras (Gl 2,16), porque a primeira é concedida em primeiro lugar e, a partir dela, alcançamos o restante que é chamado propriamente de obras, mediante as quais se vive a justiça. São também palavras do Apóstolo: Pela graça fostes salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é o dom de Deus, ou seja, e o que disse: “pela fé que não vem de vós, mas é dom de Deus”. Não vem das obras, diz ele, para que ninguém se encha de orgulho (Ef 2,8-9). Costuma-se dizer: “Mereceu crer, porque era homem justo mesmo antes de crer”. Pode dizer isto a respeito de Cornélio, cujas esmolas foram aceitas e as orações ouvidas antes de crer em Cristo (At 10,4), mas ele não distribuía esmolas e orava privado totalmente de fé. Pois como podia invocar aquele no qual não acreditava? (Rm 10,14). E se pudesse obter a salvação sem a fé em Cristo, não lhe seria enviado o apóstolo Pedro como arquiteto para edificá-lo, já que se o Senhor não edificar a casa, é em vão que trabalham os que a edificam (51 126,1). E ainda dizem: “A fé é obra nossa, e do Senhor tudo o mais que diz respeito às obras da justiça”, como se a fé não fizesse parte do edifício, como se, digo eu, o edifício não incluísse o alicerce. Mas se antes de mais nada e principalmente o inclui, em vão trabalha pela pregação edificando a fé, se o Senhor não a edificar interiormente pela misericórdia. Por isso, todo o bem praticado por Cornélio, antes de crer em Cristo, quando acreditou e depois de crer, tudo se há de atribuir a Deus, a fim de que ninguém se encha de orgulho.

Capítulo VIII - Comentário sobre a sentença: “Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende, vem a mim” — Mistério dos desígnios de Deus

§13. Nosso único Mestre e Senhor, depois de ter proferido a sentença mencionada acima: A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou, disse depois no mesmo discurso: Eu, porém, afirmo: vós me vedes, mas não acreditais. Todo aquele que o Pai me der vem a mim. Quem é que virá a mim, senão o que há de acreditar em mim? Mas sua efetivação é concessão do Pai. É o que diz um pouco depois: Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos Profetas: “E todos serão ensinados por Deus. Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende vem a mim (Jo 6,29.36.37.43-45). O que significa: Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende vem a mim, senão: “Não há ninguém que escute o ensinamento do Pai e dele aprende que não venha a mim”. Pois, se todo aquele que escuta o Pai e dele aprende, vem, conseqüentemente todo aquele que não vem, não ouviu o Pai, nem dele aprendeu, pois se tivesse ouvido e aprendido, viria. E nenhum que escutou e aprendeu, deixou de vir: mas diz a Verdade: vem quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende. É muito estranha aos sentidos corporais esta escola, em que o Pai é ouvido e ensina para que se venha ao Filho. Ali está também o próprio Filho, porque ele é seu Verbo, por cujo intermédio ele ensina, e não o faz com os ouvidos carnais, mas com os do coração. Também está ali o Espírito do Pai e do Filho, pois ele não deixa de ensinar nem ensina separadamente, já que aprendemos que as obras da Trindade são inseparáveis. E ele é o Espírito Santo, do qual afirma o Apóstolo: Tendo o mesmo Espírito de fé (2Cor 4,13). Contudo, atribui-se principalmente ao Pai, porque o Unigênito é dele gerado e dele procede o Espírito Santo. Mas seria prolixo discorrer a esse respeito e, por outro lado, creio que chegou às vossas mãos o meu trabalho sobre a Trindade, que é Deus, constando de quinze livros. É muito estranha, repito, aos sentidos corporais esta escola em que Deus é ouvido e ensina. Vemos muitos vir ao Filho, porque vemos muitos crer em Cristo, mas não vemos como e onde ouviram isto do Pai e aprenderam. Esta graça é deveras secreta, mas quem duvida que seja uma graça? Com efeito, esta graça, conferida ocultamente aos corações humanos pela divina liberalidade, não é recusada por nenhum coração por mais endurecido que seja. Pois é conferida para, primeiramente, destruir a dureza do coração. Portanto, quando o Pai é ouvido interiormente e ensina para que se venha ao Filho, retira o coração de pedra e dá um coração de carne, como prometeu pela pregação do profeta (Ez 11,19). Assim ele forma os filhos da promessa e os vasos de misericórdia que preparou para a glória.

§14. Portanto, por que não ensina a todos para que venham a Cristo, senão porque todos os que ele ensina, ensina pela misericórdia, e os que não os ensina, não os ensina por sua justiça? Ele faz misericórdia a quem quer e endurece a quem ele quer. Mas se compadece conferindo bens e endurece retribuindo os pecados. Ou se estas palavras, como alguns preferiram entender, referem-se àquele a quem o Apóstolo diz: Dar-me-ás então, para que se entenda que foi ele que disse: Do modo que ele faz misericórdia a quem quer e endurece a quem ele quer, e as palavras que vêm à continuação, ou seja: Por que ele ainda se queixa? Quem, com efeito, pode resistir à sua vontade?, acaso a resposta do Apóstolo foi nestes termos: “O homem! é falso o que disseste?”. Não, mas foi nestes termos: Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? Vai acaso a obra dizer ao artista: “Por que me fizeste assim? O oleiro não pode formar de sua massa..., e o restante que bem conheceis. Contudo, de certo modo o Pai ensina todos a vir a seu Filho. Não é sem razão que está escrito nos Profetas: E todos serão ensinados por Deus. Depois de aludir a este testemunho, então acrescenta: Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende, vem a mim. Assim como, ao nos referir a um único professor de letras da cidade, dizemos corretamente: “Ele ensina a todos a literatura”, não porque todos recebem dele o ensinamento, mas porque não aprende a não ser com ele quem em tal cidade aprende literatura, assim digamos também com exatidão: “Deus ensina todos a vir a Cristo”, não porque todos venham, mas porque ninguém vem de outro modo. A razão pela qual não ensina a todos, o Apóstolo declarou à medida que julgou suficiente, porque, querendo manifestar sua ira e tornar conhecido seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, prontos para a perdição, a fim de que fosse conhecida a riqueza de sua glória para os vasos de misericórdia, preparados para a glória (Rm 9, 18-23). Por isso, a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus (1Cor 1,18). A estes todos Deus ensina a virem a Cristo, pois a todos estes quer que se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (lTm 2,4). Se quisesse ensinar também a vir a Cristo aqueles para os quais a linguagem da cruz é loucura, sem dúvida eles viriam. Pois não engana nem se engana aquele que diz: Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende, vem a mim. Longe de pensar que deixa de vir algum que ouviu o ensinamento e aprendeu.

§15.Por que, perguntam eles, não ensina a todos? Se dissermos assim: aqueles que ele não ensina, não querem aprender, responder-nos-ão: E como entender o que está escrito: Porventura não nos tornarás a dar a vida? (Sl 84,7). Ou se Deus não faz querer os que não querem, por que a Igreja reza pelos perseguidores conforme o preceito do Senhor? (Mt 5,44). Pois neste sentido entendeu Cipriano as palavras que pronunciamos: Seja realizada a tua vontade na terra, como é realizada nos Céus (Mt 6,10), ou seja, como é realizada naqueles que já creram e são como o céu, assim também se realiza naqueles que não crêem, pelo qual são ainda terra. Portanto, por que pedimos em favor dos que não querem crer, a não ser para que Deus opere neles o querer? (Fl 2,13). O Apóstolo diz claramente a respeito dos judeus: Irmãos, o desejo do meu coração e a prece que faço a Deus em favor deles é que sejam salvos (Rm 10,1). O que pede pelos que não crêem, senão que creiam? De outro modo, não alcançariam a salvação. Pois, se a fé dos que crêem antecede a graça de Deus, acaso a fé daqueles pelos quais se pede que creiam antecede a graça de Deus? Responde-se: quando se pede por eles que não crêem, isto é, não têm fé, é para que lhes seja concedida a fé. Disse Cristo: Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair. Estas palavras ficam mais claras pelo que disse mais adiante. Pois, ao falar um pouco depois de sua carne a ser comida e de seu sangue a ser bebido”, e terem dito alguns discípulos: “Esta palavra é dura! Quem pode escutá-la?' Compreendendo que seus discípulos murmuravam por causa disso, Jesus lhes disse: “Isto vos escandaliza?' E disse um pouco depois: “As palavras que vos disse são espírito e vida. Alguns de vós, porém, não crêem' E acrescenta o evangelista: Jesus sabia, com efeito, desde o princípio, quais os que não acreditavam e quem era o que o entregaria. E dizia: “Por isto vos afirmei que ninguém pode vir a mim, se isto não lhe for concedido pelo Pai” (Cf. Jo 6,44-65). Portanto, ser atraído pelo Pai a Cristo e ouvir o Pai e dele aprender para vir a Cristo, é o mesmo que receber do Pai o dom para crer em Cristo. Pois não distinguiu os que ouvem o evangelho dos que não o ouvem, mas os que crêem dos que não crêem aquele que dizia: Ninguém pode vir a mim, se isto não lhe for concedido pelo Pai.

§16. Assim, pois, tanto a fé inicial como a perfeita, são dons de Deus. E quem não quiser contradizer aos evidentes testemunhos das Letras Sagradas, não duvide que este dom seja concedido a uns e não concedidos a outros. O motivo pelo qual não é concedido a todos, não deve inquietar aquele que crê que todos incorremos na condenação por um só homem, uma condenação muito justa, de sorte que nenhuma reprovação contra Deus seria justa, mesmo que ninguém alcançasse a libertação. Assim, fica evidente que é uma grande graça o fato de muitos se libertarem; eles percebem nos que não são libertados o que lhes era devido. Conseqüentemente, aquele que se gloria, glorie-se no Senhor, e não em seus merecimentos, que bem sabe serem iguais aos dos condenados. A razão pela qual este é libertado de preferência àquele, tenha-se em conta que insondáveis são seus juízos e impenetráveis seus caminhos (Rm 11,33). Melhor será ouvir e dizer a este respeito: Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? (Rm 9,20), do que ousar dizer, como se soubéssemos, por que quis que ficasse oculto aquele que não pode querer nenhuma injustiça.

(continua)

Nenhum comentário: