segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (3)

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Nesta parte, o pe. António Vieira fala sobre a santidade do Filho e do Espírito Santo, além da missão do Cristo no mundo que passa por nos ensinar a ser santos e o Santo Espírito que é a Pessoa que santifica e faz santos.

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III

Por tão altos e tão admiráveis termos como estes nos ensinou Deus em comum quão grande coisa seja o ser santos, e o mesmo documento confirmou cada uma das três Pessoas divinas em particular, por exemplos não menos maravilhosos. — Sobre a Encarnação da Pessoa do Filho mandou o Eterno Padre por embaixador o anjo S. Gabriel, e o que lhe deu por instrução que dissesse de sua parte à Virgem Santíssima, foi que o Filho de Deus e seu, que de suas entranhas havia de nascer, seria santo: Ideoque, et quod nascetur ex te sanctum, vocabitur Filius Dei (4). De sorte que, tendo o Eterno Padre um Filho igual a si mesmo, e querendo que por segunda geração e segundo nascimento, sendo Deus, fosse também homem, o que lhe deu a ele, e o que prometeu à sua Mãe, foi que seria santo: Quod nascetur ex te sanctum. Notai o sanctum e o ex te: santo, e de vós. Não lhe deu riquezas, porque o fez Filho de uma Mãe muito pobre: ex te; não lhe deu honras, porque o fez Filho de uma Mãe muito humilde: ex te; não lhe deu mandos, nem dignidades, nem impérios temporais, porque, ainda que a Virgem era descendente de reis, todos esses cetros e coroas tinham já degenerado aos instrumentos mecânicos de um oficial, com quem era desposada: ex te. E, que lhe deu? Deu-lhe o ser santo: Quo nascetur ex te sanctum. Pois a seu Filho não lhe daria outra coisa um Pai onipotente? Os pais, tudo quanto têm e tudo quanto podem, dão a seus filhos, e mais, se são primogênitos e únicos, como Cristo era. Pois a um Filho primogênito, a um Filho único, um Pai todo-poderoso, um Pai Deus e Senhor de tudo, não lhe dá outra coisa mais que o ser santo? Não, e por isso mesmo. Ao Filho primogênito e único do Eterno Padre competia-lhe a herança de todos os bens de seu pai; e todos os bens que Deus tem, e todos os que pode dar, é fazer a um homem santo e mais santo, porque tudo o mais, ou não é nada, ou, para ser alguma coisa, há de ser também santificado e santo. Enquanto Filho, herdeiro de sua Mãe, pertenciam-lhe ao mesmo Cristo o cetro de Davi e a casa de Jacó, que também Deus lhe mandou prometer: Dabit illi sedem David patris ejus, et regnabit in domo Jacob (5); mas essa mesma casa e esse mesmo cetro deu-lhe Deus a seu Filho por tal modo que, de temporal que era, o converteu em espiritual, para que tudo nele fosse só santidade, e ele, por todos os modos, mais e mais santo.

Vede como dizem o que digo, os que viram o mesmo Unigênito do Padre: Vidimus gloriam ejus, gloriam quasi unigeniti a Patre, plenum gratiae et veritatis (6): Vimos — diz S. João — a sua glória, a sua majestade, a sua grandeza, e bem mostrava que era glória, que era majestade, que era grandeza de Filho Unigênito do Eterno Padre. — E em que consistia essa glória, essa majestade e essa grandeza? Plenum gratiae et veritatis: em ser cheio de graça e de verdade. — A graça é a santidade formal, ou a forma santificante, que faz e denomina santos; e nesta graça, nesta santidade, neste ser santo consistia toda a glória, toda a grandeza e toda a majestade do único herdeiro do Padre. E se perguntardes ao evangelista a razão de serem só estes os bens que contém a herança de um Pai todo-poderoso e Senhor de tudo, o mesmo evangelista tem já dado a razão nas mesmas palavras: Plenum gratiae et veritatis: cheio de graça e de verdade. Porque tudo o que não é graça de Deus e santidade, é mentira. As riquezas mentira, as honras mentira, os mandos mentira: só o estar em graça de Deus é verdade, só o viver em graça de Deus é verdade, só o morrer em graça de Deus, em que consiste o ser santo, é verdade: Plenum gratiae et veritatis. Isto deu o Eterno Padre a seu Filho, para que vós aprendais a saber o que haveis de procurar aos vossos. Procurai-lhes que sejam santos, e esta é a maior riqueza, a maior honra, a maior felicidade que lhes podeis alcançar, e os maiores e só verdadeiros bens de que os podeis deixar por herdeiros.

Vamos à Pessoa do Filho. A Pessoa do Filho é a Sabedoria de Deus. Fez-se homem a Sabedoria Divina, veio ao mundo para ensinar aos homens, e que lhes ensinou? Nenhuma outra coisa, senão a ser santos. Naquela escada de Jacó, como todos sabeis, representou-se em visão e profecia a Encarnação do Verbo Encarnado. No alto da escada estava Deus inclinado sobre ela, porque uma das Pessoas divinas havia de descer ao mundo; ao pé da escada estava Jacó, que era o homem, ou o gênero humano, porque o modo com que Deus havia de descer era encarnando e fazendo-se homem; e a escada chegava da terra ao céu, porque o fim do mistério da Encarnação, e o fim por que Deus desceu do céu à terra, foi para ensinar e mostrar ao homem como havia de subir da terra ao céu. E para esta subida tão notável e tão nova, que até então estava ignorada, que é o que ensinou o Deus que desceu e encarnou, que é o que ensinou o Verbo e a Sabedoria divina a Jacó, ou ao homem, que nele se representava? O mesmo Verbo o diz no capítulo décimo da mesma Sabedoria, falando do mesmo Jacó: Ostendit illi regnum Dei, et dedit illi scientiam sanctorum (Sab. 10,10): Mostrou-lhe o céu e o reino de Deus, e ensinou-lhe a ciência de ser santo. — De sorte que, vindo a Sabedoria divina em pessoa, e descendo do céu à terra a ser Mestre dos homens, a nova cadeira que instituiu nesta grande universidade do mundo, a ciência que professou, foi só ensinar a ser santos, e nenhuma outra. A Retórica deixou-a aos Túlios e aos Demóstenes: a Filosofia aos Platões e aos Aristóteles; as Matemáticas aos Tolomeus e aos Euclides; a Medicina aos Apolos e aos Esculápios; a Jurisprudência aos Solões e aos Licurgos: e para si tomou só a ciência de ensinar a salvar e fazer santos: Regnum Dei, et scientiam sanctorum.

Em todas as ciências, é certo que há muitos erros, dos quais nasce a diferença das opiniões; em todas as ciências há muitas ignorâncias, as quais confessam todos os maiores letrados que não compreendem nem alcançam. Pois, se vinha a Sabedoria de Deus ao mundo, por que não alumiou estes erros, por que não tirou estas ignorâncias? Porque errar ou acertar em todas estas matérias, sabê-las ou não as saber, nenhuma coisa importa: o que só importa é saber salvar, o que só importa é acertar a ser santos, e isto é o que só nos veio ensinar o Filho de Deus. Nem ensinou aos filósofos a composição do contínuo, nem aos geômetras a quadratura do círculo, nem aos mercantes a altura de Leste a Oeste, nem aos químicos o descobrimento da pedra filosofal, nem aos médicos as virtudes das ervas, das plantas, das pedras e dos mesmos elementos, nem aos astrólogos e astrônomos o curso, a grandeza, o número, as influências dos astros: só nos ensinou a ser humildes, só nos ensinou a ser castos, só nos ensinou a desprezar as riquezas, só nos ensinou a perdoar as injúrias, só nos ensinou a sofrer as perseguições, só nos ensinou a chorar e aborrecer os pecados, e a amar e exercitar as virtudes, porque estas são as regras e as conclusões, estes os preceitos e os teoremas por onde se aprende a ser santos, que é a ciência que professou e veio ensinar a Pessoa do Filho de Deus: Scientiam sanctorum.

A Pessoa do Espírito Santo com o seu próprio nome nos prova e confirma o mesmo. O Padre também é espírito, e também é santo. Pois, por que se chama só a terceira Pessoa Espírito Santo? A razão é — dizem todos os teólogos — porque ao Espírito Santo compete o ofício de santificar e de fazer santos. Todas as obras de Deus, que chamam ad extra, isto é, que saem de Deus e se terminam às criaturas, são indivisamente de toda a Santíssima Trindade, na qual o poder e o obrar não só é igual, senão um só e o mesmo. Mas por certa propriedade, fundada na natureza ou origem das mesmas pessoas, umas obras se atribuem a umas pessoas, e outras a outras. E porque à terceira Pessoa se atribui particularmente o santificar e fazer santos, por isso se chama Santo.

E para que vejais quão grande significação é na mesma Pessoa do Espírito o nome de Santo e o atributo ou atribuição de santificar, notai o muito que com ela se supre, e a grande carência ou vazio que com ela se enche. O nome ou antonomásia de Santo, e o ofício de santificar e fazer santos não lhe pudera competir ao Pai, que é a fonte original e irascível da santidade? Não lhe pudera competir ao Filho, que foi o que, encarnando, nos mereceu essa mesma santidade? Sim. Pois por que se deu ao Espírito Santo? Disse com alto pensamento Ruperto, que para suprir a infecundidade da terceira Pessoa. A divindade no Padre é fecunda, no Filho é fecunda, no Espírito Santo não é fecunda. No Padre é fecunda, porque gera o Filho; no Filho é fecunda, porque, juntamente com o Padre, produz o Espírito Santo; no Espírito Santo só não é fecunda, porque não produz outra Pessoa divina. Pois, que meio podia haver para suprir na terceira Pessoa esta infecundidade? O meio foi cederem nela as outras Pessoas divinas a virtude ou atribuição de santificar e fazer santos e o título e antonomásia de se chamar Santo. A terceira Pessoa não pode gerar nem produzir pessoa que seja Deus? Pois faça santos. A terceira Pessoa não se pode chamar Pai nem se pode chamar Filho? Pois chame-se Santo. Tão grande, tão alta, tão sublime, tão divina coisa é ser Santo, e com tão maravilhosos documentos nos ensinaram esta verdade em si mesmas as três Pessoas divinas.

Notas:
(4) Por isso mesmo o santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus (Lc. 1,35).

(5) Dar-lhe-á o trono de seu pai Davi, e reinará eternamente na casa de seu pai Jacó (Lc. 1,32).

(6) Nós vimos a sua glória, glória como de Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo. 1, 14).

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