terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (1)

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Um amigo meu que agora é noviço jesuíta me indicou alguns textos pra leitura. Textos estes de um jesuíta muito conhecido: pe. António Vieira (Lisboa,1608 - Bahia,1697). Iniciei a leitura pelo "Sermão de Todos os Santos", então, conforme a minha leitura eu o postarei aqui. De antemão, posso ressaltar que esta obra é dividida em 11 partes.

A primeira parte, que é uma introdução a todo o texto, alude à celebração da festa do dia (de Todos os Santos) e nos convida a meditar sobre que é ser santo e nos convida a sê-lo em nossas vidas.

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Sermão de Todos os Santos,
de Padre António Vieira


Beati mundo corde (1).

I

A festa mais universal e a festa mais particular, a festa mais de todos e a festa mais de cada um, é a que hoje celebra e nos manda celebrar a Igreja. É a festa mais universal e mais de todos, porque, começando pela fonte de toda a santidade, que é Cristo, e pela Rainha de todos os santos, que é a Virgem Santíssima, fazemos festa hoje a todas as hierarquias dos anjos, fazemos festa aos patriarcas e aos profetas, aos apóstolos e aos mártires, aos confessores e às virgens. E não há bem-aventurado na Igreja triunfante, ou canonizado ou não canonizado, ou conhecido ou não conhecido na militante, que não tenha a sua parte ou o seu todo neste grande dia. E este mesmo dia tão universal e tão de todos, é também o mais particular e mais próprio de cada um, porque hoje se celebram os santos de cada nação, os santos de cada reino, os santos de cada religião, os santos de cada cidade, os santos de cada família. Vede quão nosso e quão particular é este dia. Não só celebramos os santos desta nossa cidade, senão cada um de nós os santos da nossa família e do nosso sangue. Nenhuma família de cristãos haverá tão desgraciada que não tenha muitos ascendentes na glória. Fazemos pois hoje festa a nossos pais, a nossos avós, a nossos irmãos, e os que tendes filhos no céu, ou inocentes ou adultos, fazeis também festa hoje a vossos filhos. Ainda é mais nossa esta festa, porque, se Deus nos fizer mercê de que nos salvemos, também virá tempo, e não será muito tarde, em que nós entremos no número de todos os santos, e também será nosso este dia. Agora celebramos, e depois seremos celebrados: agora nós celebramos a eles, e depois outros nos celebrarão a nós. Esta última consideração, que é tão verdadeira, foi a que fez alguma devoção à minha tibieza neste dia tão santo, e quisera tratar nele alguma matéria que nos ajude a conseguir tão grande felicidade. Dividirei tudo o que disser em dois discursos, fundados nas duas palavras que tomei por tema, e nas duas do título da festa. Pois a festa é de todos os santos, no primeiro discurso veremos quão grande coisa é ser santos, e no segundo, quão facilmente o podemos ser todos. O primeiro nos dá a primeira palavra do tema: beati; o segundo nos dará a segunda: mundo corde. Digamos à Virgem Santíssima: Regina Sanctorum omnium ora pro nobis, e ofereçamos-lhe a costumada Ave Maria.

(1) Bem-aventurados os limpos de coração (Mt. 5,8).

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