sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Festa de São João, Evangelista

São João, Evangelista

27 do dezembro

São João teve a imensa sorte de ser o discípulo mais amado pelo Jesus. Nasceu na Galileia e foi filho de Zebedeu e irmão do São Tiago, o maior. São João era pescador, tal como seu irmão e seu pai, e conforme destacaram os antigos relatos, ao que parecer foi São João, que também foi discípulo de João Batista, um dos dois primeiros discípulos de Jesus junto com o André. A primeira vez que João conheceu Jesus estava com seu irmão São Tiago, e com seus amigos Simão e André remendando as redes à borda do lago; o Senhor passou perto e lhes disse: "Venham comigo e os farei pescadores de almas". Ante este sublime chamado, o apóstolo deixou imediatamente suas redes, com seu pai e o seguiu.

João evangelista conformou junto com o Pedro e São Tiago, o pequeno grupo de preferidos que Jesus levava a todas partes e que presenciaram seus maiores milagres. Os três estiveram presentes na Transfiguração, e presenciaram a ressurreição da filha de Jairo. Os três presenciaram a agonia de Cristo no Horto das Oliveiras; e junto a Pedro se encarregou de preparar a Última Ceia.

A João e seu irmão São Tiago lhes pôs Jesus um apelido: "Filhos do trovão", devido ao caráter impetuoso que ambos tinham. Estes dois irmãos vaidosos e de gênio difícil se tornaram humildes, amáveis e bondosos quando receberam o Espírito Santo. João, na Última Ceia, teve a honra de recostar sua cabeça sobre o coração de Cristo. Foi o único dos apóstolos que esteve presente no Calvário. E recebeu dEle em seus últimos momentos o mais precioso dos presentes. Cristo lhe encomendou que se encarregasse de cuidar da Mãe Santíssima Maria, como se fora sua própria mãe, lhe dizendo: "Eis aí a sua mãe". E dizendo a Maria: "Eis aí a seu filho".

No domingo da ressurreição, foi o primeiro dos apóstolos em chegar ao sepulcro vazio de Jesus. Depois da ressurreição de Cristo, na segunda pesca milagrosa, João foi o primeiro em reconhecer Jesus na borda do lago. Em seguida Pedro lhe perguntou ao Senhor apontando a João: "E este o que?". Jesus lhe respondeu: "E se eu quiser que fique até que eu venha, a ti o que?". Com isto alguns acreditaram que o Senhor tinha anunciado que João não morreria. Mas o que anunciou foi que ficaria vivo por bastante tempo, até que o reinado de Cristo se estendeu muito. E em efeito viveu até o ano 100, e foi o único apóstolo ao qual não conseguiram matar os perseguidores. João se encarregou de cuidar da Maria Santíssima como o mais carinhoso dos filhos.

Com Ela foi se evangelizar Éfeso e a acompanhou até a hora de sua gloriosa morte. O imperador Dominiciano quis matar o apóstolo São João e o fez ser atirado em uma panela de azeite fervente, mas ele saiu de lá mais jovem e mais são do que havia entrado, sendo banido da ilha de Patmos, onde foi escrito o Apocalipse. Depois voltou outra vez a Éfeso onde escreveu o Evangelho.

A São João Evangelista é representado com uma águia ao lado, como símbolo da elevada espiritualidade que transmite com seus textos. Nenhum outro livro tem tão elevados pensamentos como seu Evangelho.

Conforme assinala São Jerônimo quando São João era já muito ancião se fazia levar às reuniões dos cristãos e o único que lhes dizia sempre era isto: "irmãos, amai-vos uns aos outros". Uma vez lhe perguntaram por que repetia sempre o mesmo, e respondeu: "é que esse é o mandamento de Jesus, e se o cumprimos, todo o resto virá além disso". São Epifanio assinalou que São João morreu por volta do ano 100 aos 94 anos de idade.


Fonte: ACI Digital


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quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (8)

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Na oitava parte, P António Vieira, fala da santidade das virgens que com tanta vontade e disposição infligiam castigos e sofrimentos a si próprias para assim continuarem, algumas que chegavam a se disfarçar de homens para virgens permanecerem para santas serem... Ele dá exemplos de muitas mulheres dentre elas as filhas de S. Pedro e de S. Bernardo, S. Clara, Sta Catarina... e nos mostra mais uma vez, que 'coisa' é ser santo.
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VIII

Por remate, ou por coroa de todos os santos, põe a Igreja no último lugar o suavíssimo coro das Virgens, cujas vozes, posto que mais delicadas, mas igualmente fortes, nos acabarão de persuadir, como elas se persuadiram, esta mesma verdade. Pesa-me de chegar tão tarde a esta hierarquia, em que é obrigação deter-me mais um pouco; mas como a matéria é de casa, ao menos das grades para dentro será de agrado. Aos de fora seja embora de paciência.

Que extremos não obraram as santas virgens por ser santas? Que façanhas não empreenderam varonilmente? Que rigores e asperezas não executaram em si mesmas? Que galas, que regalos, que delícias e contentamentos da vida, que riquezas, que grandezas, que pompas e fortunas do mundo não desprezaram? Que finezas, que excessos, que máquinas dos que as pretendiam, não resistiram? Que bodas humanas, por altas e soberanas que fossem, não renunciaram, só por conservar e defender a virginal pureza, e manter a fé prometida a Cristo, com quem se tinham desposado? Santa Edita, filha de Elgaro, rei de Inglaterra, morto o pai e um irmão que tinha único, ficou herdeira do reino, e por mais instâncias que lhe fizeram os povos, juntos em cortes, que se casasse, nem o amor da casa real em que nascera, nem a sucessão da família e da coroa, nem a memória do pai e irmão, que nela se extinguia, foram bastantes para a mover um ponto da firmeza de seu propósito, nem para a arrancar do canto de uma religião, onde, coberta de cilício, amortalhou a vida e, depois, sepultou o corpo, que permaneceu incorrupto. Santa Eufrosina, senhora ilustríssima em Alexandria, não podendo de outro modo fugir e escapar de seu pai e do matrimônio nobilíssimo concertado por ele, mudando o trajo de mulher e o nome, e chamando-se Esmaragdo, desconhecida e em terra estranha, tomou o hábito de monge, em que viveu trinta e oito anos enterrada em uma estreita cela, donde nunca saiu. Santa Petronila, filha do Príncipe dos Apóstolos, S. Pedro — antes de ser chamado ao apostolado — tendo feito voto a Cristo, de perpétua virgindade, e não se podendo defender das bodas de Flaco, senhor romano, que com amor a solicitava, e com poder de armas a queria obrigar a ser sua esposa, pediu de prazo três dias para deliberar, e neles, com ferventíssimas orações, impetrou do mesmo Cristo lhe tirasse a vida, e assim o conseguiu valorosa e gloriosamente no fim do terceiro dia. Mais violentamente se defendeu de semelhante perigo Santa Maxelende, ilustríssima por sangue nos Estados de Flandres, mas mais ilustre pela causa de o haver derramado. Celebraram-se com grande pompa as festas das bodas concertadas por seus pais com Harduíno, senhor principal, rico e poderoso, que, entre muitos que pretendiam esta fortuna, a tinha alcançado. Foi levada por força a santa virgem às mesmas festas, mas negou a mão com tal desengano, e persistiu nele com tal firmeza que, afrontado e corrido o esposo de se ver desprezado, trocando o amor em fúria, se arremessou à espada, e a santa se deixou matar intrepidamente.

E posto que em tantos e tão apertados casos fosse admirável o valor e constância com que todas estas santas defenderam a pureza virginal que tinham prometido a Cristo, considerada porém a condição natural de mulheres, ainda tenho por maior façanha a de Santa Brígida Virgem, chamada a de Escócia, e a de Santa Uvilgo Fortis, que alguns, com errado mas bem apropriado nome, chamam Virgo fortis. Eram estas santas o extremo da formosura, e vendo-se por esta causa solicitadas e pretendidas de muitos e poderosos senhores para o matrimônio, pediram a seu divino Esposo as privasse daquela graça, que outras tanto estimam e com tantas artes afetam; e o Senhor, que só se namora da beleza da alma, se agradou tanto desta petição, que de repente ficaram tão feias e disformes, que ninguém as podia ver, e só elas se viam contentes.

Que direi dos rigores, asperezas e piedosas tiranias com que estes anjos em carne a mortificavam, afligiam, e verdadeiramente martirizavam? A austeridade de vida, o rigor e horror das penitências de Santa Clara, primeira cópia do retrato original de Cristo crucificado, seu padre, São Francisco, quem há que a possa declarar? A de Santa Azela, virgem romana, dentro em Roma, e quando Roma era o maior teatro das delícias e vaidades do mundo, declarou S. Jerônimo. Diz que da mais populosa cidade fez ermo; que a terra nua lhe servia de cama e de lugar de oração; que os joelhos, pela muita continuação dela, se lhe tinham endurecido em calos como de camelo; que se sustentava do jejum, e que só o quebrava com pão e água, mas com tal moderação e parcimônia, que nunca, nem com pão matava a fome, nem com água a sede; que jamais viu nem foi vista de homem, ainda quando visitava os sepulcros dos mártires, e que tendo uma irmã também donzela, esta a amava, mas não a via. Santa Margarida, filha dos reis de Hungria, de quatro anos tomou o hábito de monja, e de cinco se vestiu de cilício; de dia, para mortificar os passos, entre os pés e o calçado, metia certos abrolhos de ferro, e de noite, para o pouco sono que tomava sobre uma tábua, se cingia de peles de ouriços com todos seus espinhos. Santa Genoveva, padroeira da real cidade de Paris, a quem o famosíssimo Simeão Estilita desde a Grécia, onde vivia sobre a sua coluna, mandava visitar a França e encomendar-se em suas orações Santa Macrina, irmã de S. Basílio Magno, tanto no sangue como na aspereza e severidade da vida. Santa Lutgardis, legítima filha do gloriosíssimo patriarca S. Bernardo, singular herdeira de seu ardentíssimo espírito, e digníssimo exemplar de todas as que vestem e professam o mesmo hábito. Estas santas virgens, e muitas outras, que extraordinários modos de penitências não inventaram, mais engenhosas para se martirizar a si mesmas, que os tiranos para atormentar os mártires?

É coisa digna de admiração que, padecendo os mártires pela fé e culto de Cristo, os tiranos não dessem em executar neles os mesmos tormentos da Paixão de Cristo; mas isto inventou e executou em Santa Catarina de Sena e em Santa Clara de Monte Falco o amor de seu divino Esposo. Catarina, com as chagas nas mãos, nos pés e no lado, e a coroa de espinhos na cabeça, e Clara, com todos os instrumentos da mesma Paixão do Senhor insculpidos e entalhados no coração. Até as doenças mais penosas provocavam e conseguiam, para que onde não podiam chegar as dores fabricadas da arte, penetrasse as da natureza, e não houvesse em corpos tão delicados parte alguma, dentro nem fora dos ossos, que não penasse com particular tormento. Todas as enfermidades de quantas é capaz o corpo humano, padeceu juntamente e por toda a vida, Santa Lidovina, com excesso da paciência de Jó, e afronta da indústria do demônio. Uma Cristina houve, entre as outras que, não se satisfazendo das penas desta vida, padeceu as do purgatório por muitos anos, como também Santa Teresa experimentou as do inferno. A mesma Santa Teresa dizia: Aut pati, aut mori: ou padecer, ou morrer, porque se não atrevia a viver sem padecer. E Santa Madalena de Pazzi, não sei se com maior energia: Pati, non mori: padecer sim, morrer não, porque na morte acaba-se o exercício de padecer, e na vida dura e persevera. Mas dizei-me, virgens puríssimas — ou dizei-o aos que o não sabem entender — por que fostes tão ambiciosas de penas? A vossa vida não era inculpável e inocente? As vossas almas não eram gratíssimas a Deus? Pois, porque sois tão inimigas ou tão tiranas de vossos corpos? Deixai esses rigores e essas penitências para as Teodoras e Pelágias, que foram grandes pecadoras; deixai-as para uma Maria Egipcíaca, que viveu dezessete anos em torpezas, enlaçada do demônio e sendo laço dos homens; mas vós, que não tendes pecados graves que pagar, e se alguns tivestes leves, os tendes tão abundantemente satisfeito, por que vos mortificais, por que vos afligis, por que vos martirizais com tanto excesso? Porque sabiam quão grande coisa era ser santas, e o queriam ser mais e mais.

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Mensagem de Natal

Desejo a todos que visitam este Blog, em especial aos companheiros brasileiros e lusitanos que tanto tem contribuído para a continuidade deste espaço, um Feliz Natal e um Ano Novo repleto de oportunidades, conquistas e Jesus Cristo. Que todos possam perceber nas suas vidas e naquilo que nos cerca a, sempre constante, presença de Deus que é Caridade, Amor e Paz.

Neste espírito natalino segue uma mensagem extraída do site Monfort:

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Presente de Natal

José é o nome dele. Menino como tantos outros. Pés descalços, atônito, nunca vira a cidade tão apinhada. É o empurra-empurra das compras de Natal. Mal consegue caminhar. Nas vitrinas, nas ruas, nas lojas, papai Noel, obeso, roupa e gorro vermelhos, botas e cinto pretos, barbas brancas, às vezes, com um sininho à mão, mas sempre prometendo brinquedos e presentes às crianças, tirando com elas muitas fotos.
Lembra-se, em criança, de papai Noel, chegando de caminhão. Sim, num enorme caminhão, perto de casa, onde dezenas ou centenas de meninos e meninas recebiam brinquedos e os pais uma cesta básica.
É Natal, tempo de alegria. Tempo de generosidade. Tempo de bondade. Tempo de caridade. Caridade, não, a professora Lia detesta essa palavra. Nas aulas, ensina que caridade é sujeição, subordinação, e todos somos sujeitos de direito. Temos direito às coisas e não necessitamos de esmolas. José, no entanto, caminha, sem direito a comprar presentes, um presentinho sequer. Seu coração é tão grande: daria pra dar um presentinho pra cada criança pobre, pra cada idoso. Gostaria de ajudar as pessoas, mas é tão pobre...ajudar seu pai, desempregado, sua irmãzinha... Mas agora, aos doze anos, não iria pedir, como tantas vezes pediu, em vão, tantas coisas a papai Noel. –Pedir a papai Noel, nunca!-- Dizia doutor Alcides, advogado e amigo de seu pai. Será que tudo isso que via é aquilo que doutor Alcides tanto criticava: a terrível sociedade de consumo? --É a sociedade do ter, afirmava em tom condenatório. Todos gastando o salário, o décimo terceiro e talvez comprometendo salários futuros. No olhar, não há generosidade, mas incontrolável ânsia de comprar, para si, para outrem, vontade quase mecânica, uma obrigação social.
José foge daquela multidão. Entra numa rua, fica espremido entre camelôs, oferecendo aos gritos suas mercadorias e transeuntes, pechinchando e aproveitando as ofertas.
Pensa no Natal, nas festas que nunca teve...
Para diante de um bar, moços de gravatas, paletós vestindo cadeiras, gargalhadas, muita cerveja...
Anda alguns metros mais, é a igreja. Aí, muita vez orara com sua mãe. Relutante, entra: vazia...silenciosa...um presépio...um lindo presépio...é o Deus-Menino, ouve sua mãe, como se estivesse a seu lado. Ela o fazia ajoelhar sempre diante daquele menino de braços abertos, acolhedores. Vê a estrela guia, iluminando a gruta. Lembra-se da professora Lia, explicando que natal é nascimento e que seu colega de sala tinha nome redundante, Natal Natalino do Nascimento. Então, natal é o nascimento do menino Jesus, do Menino-Deus. Deseja que sua mãe, tão distante, há tanto tempo, estivesse ao lado daquele que ela tanto amara...é o nosso Salvador, nasceu em Belém, numa gruta...lá, a Virgem Maria, a estrela guia, que nos leva sempre ao Deus-Menino, ensinava ela em tom maternal e carinhoso . É o nascimento, o natal do menino Jesus. É o natal de Cristo. E, de repente, naquele silêncio, uma indizível paz, uma alegria infinda...ajoelha-se...compreende que Ele, o menino Jesus, é o seu verdadeiro presente de Natal!
Fonte:
Cícero Harada - "Presente de Natal"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=cronicas&artigo=presente_natal〈=bra
Online, 21/12/2007 às 11:09h
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um abraço a todos.

Gabriel Leitão
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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (7)

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Neste texto, P. Vieira expõe-nos mais dois "modos" de santos. Os Santos Doutores e os Anacoretas. O doutores que doaram a sua vida sedimentando a Fé através dos estudos, combatendo hereges e erros através dos seus escritos filosóficos e teológicos. E os anacoretas que eram os monges ou eremitas que viviam em contemplação como os beneditinos, as clarissas... São mais duas formas de ser santos, são mais duas provas de que é possível viver o Evangelho, cada uma com as suas renúncias, desafios, eu diriam até mesmo métodos... enquanto uns foram santificados através do combate às heresias através dos estudos envolvidos com a Fé e a Razão, outros foram santificados através da meditação, da vida contemplativa.
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VII

Os santos doutores, esquadrão também laureado, não fizeram ou não se desfizeram menos por ser santos. Foram a luz do mundo e o sal da terra, e assim como a tocha se consome para alumiar, e o sal se derrete para conservar, assim eles, para alumiar as cegueiras do mundo, e conservar a fé e religião em sua pureza, não só se pode dizer com verdade que consumiram a vida, mas que derreteram e estilaram a alma. Todos esses livros, tantos e tão admiráveis de S. Basílio, de S. Crisóstomo, de Santo Atanásio, de Santo Ambrósio, de S. Jerônimo, de Santo Agostinho e dos dois Gregórios, quatro doutores da Igreja grega e quatro da latina, e os dois que depois se acrescentaram a este sagrado número, Santo Tomás e S. Boaventura, os livros igualmente doutíssimos dos santos bispos, Hilário, Cipriano, Fulgêncio, Epifânio, Isidoro, e um e outro Cirilo, e os dos antiquíssimos padres Clemente Romano, Dionísio Areopagita, Erineu, Justino, Gregório Taumaturgo, Clemente Alexandrino, Lactâncio, e infinitos outros, todos estes escritos, digo, cheios de divina e celestial doutrina, que outra coisa são, sem encarecimento nem metáfora, senão as almas dos mesmos santos, e as quinta-essências dos seus entendimentos estiladas pela pena?

Ali se vêem refutadas e convencidas todas as seitas dos antigos filósofos pitagóricos, platônicos, cínicos, peripatéticos, epicureus, estóicos; ali os mistérios profundíssimos da fé facilitados e críveis, e os argumentos contrários desvanecidos; ali as tradições apostólicas sucessivamente continuadas, e as definições dos concílios gerais e particulares estabelecidas; ali as dificuldades da Sagrada Escritura e os lugares escuros dela declarados, e o Velho e Novo Testamento, e os Evangelhos entre si concordes; ali as questões altíssimas da Teologia sutilissimamente disputadas e resolutas, as controvérsias debatidas e examinadas, e o certo como certo, o falso como falso, e o provável como provável, tudo decidido; ali as heresias antigas e modernas expugnadas, e as cavilações dos hereges desfeitas, e os textos sagrados, corruptos e adulterados por eles, conservados em sua original pureza; os Ários, os Apolinares, os Macedônios, os Nestórios, os Donatos, os Pelágios, os Maniqueus, os Eutíquios, os Elvídios, os Jovinianos, os Vigilâncios, e os Luteros e Calvinos, que em nossos tempos os ressuscitaram, sepultados outra vez e convencidos; ali, finalmente, os vícios perseguidos, os abusos emendados, as virtudes sinceras e sólidas louvadas, as falsas e aparentes confundidas, e toda a perfeição evangélica digesta, praticada e posta em seu ponto.

E para tudo isto — que muitos não entendem, nem capacitam — que compreensão e vastidão de todas as ciências divinas e humanas era necessária; que memória de todas as histórias sagradas e profanas; que escrutínio da cronologia de todos os tempos; que notícias de todas as terras e gentes, de suas leis, costumes, cerimônias, ritos; que inteligência e conhecimento exato de todas as línguas, latina, grega, hebréia, caldaica, siríaca, umas originais dos textos sagrados, outras em que foram vertidos! E que estudo, que aplicação, que continuação e trabalho era outrossim necessário para adquirir esta imensa erudição, ajudado o engenho natural e elevado de contínuas orações ao céu, donde vem a verdadeira luz! Estas eram as minas em que cavavam e suavam aqueles diligentíssimos e utilíssimos operários, estas as riquezas inestimáveis que metiam e acumulavam nos tesouros da Igreja, estas as armas finíssimas e escudos impenetráveis de que forneciam a Torre de Davi para as futuras ocasiões e batalhas, como hoje se experimenta, empregando e aplicando a estas — que com razão se chamam obras -todas as forças do espírito, todas as potências da alma, e todos os sentidos do corpo, negando-lhe o descanso de dia, e o repouso e sono de noite, e chegando a não gostar nem sentir o mesmo que comiam, como à mesa de el-rei S. Luís de França lhe aconteceu a Santo Tomás. Mas, como eram tão doutos e sábios, sabiam melhor que todos quão grande coisa é ser santos, e por isso o procuravam eles ser com esta vida, e que os demais o fossem com esta mesma doutrina.

Por outro caminho bem diverso conquistaram o ser santos os anacoretas, deixando o trato e comunicação das gentes, e indo-se viver aos desertos; mas também lá lhes não faltaram batalhas, porque se levavam a si consigo, nem vitórias, porque os levava Deus. Estas eram as plantas do céu, de que estavam cultivados os ermos da Palestina, da Tebaida, do Egito, e aqui viviam como anjos, porque souberam fugir dos homens, os Paulos, os Hilariões, os Arsênios, os Onofres, os Pacômios, os Macários. Em muitos anos, e alguns em toda a vida, não se viam; eram porém muito para ver aquelas veneráveis cás nunca tocadas de ferro, como nazareus da lei da graça, da qual de noventa, qual de cento, qual de cento e vinte anos, estendendo o jejum e a abstinência as vidas, que tanto desbarata e abrevia o regalo. Habitavam as grutas e covas, das quais, quando saíam, mais pareciam cadáveres que homens vivos. Das mãos de S. Pedro de Alcântara escreve Santa Teresa que eram como feitas de raízes, e o mesmo podemos dizer das estátuas ou semelhanças destes santos velhos, secos, pálidos, mirrados, e como feitos ou tecidos das raízes das mesmas ervas de que se sustentavam.

Mas como na carne enfraquecida e debilitada com as penitências se criam e crescem os mais robustos espíritos, invejosos os do inferno de tanta santidade, se armavam fortemente contra eles, e, fazendo daqueles desertos campanha, lhes davam crudelíssimos combates. Umas vezes lhes apareciam os demônios transfigurados em áspides, basiliscos, dragões, e outros monstros horrendos que os queriam tragar, como ao grande Antônio; outras os assombravam com tremores espantosos da terra, relâmpagos, trovões e raios, com que parecia que as mesmas grutas se partiam, e caíam sobre eles os montes; e talvez na maior serenidade e frescura do ar, lhes traziam e punham diante dos olhos as mesmas figuras humanas de que tinham fugido, mais capazes pelo gesto e pelos trajos de provocar amor que medo; e estes eram entre todos os mais apertados e furiosos assaltos. Mas, que faziam aqueles constantíssimos atletas da castidade, quando os cilícios, de que sempre andavam armados, lhes não bastavam? Ou se valiam dos lagos e rios enregelados, como S. Francisco, ou nas silvas e espinhos, como São Bento, ou no fogo, metendo nele a mão e deixando derreter os dedos, como S. Diogo, e desta sorte, com a memória do mesmo inferno que lhes fazia a guerra, o venciam e triunfavam dele. Assim venciam, porque eram assistidos da graça de Deus, e assistia-os Deus tão eficazmente com sua graça, porque eles continuamente assistiam também a Deus, orando e contemplando.

De alguns se escreve que de noite mediam as horas da oração com um novo e admirável relógio do sol, porque começavam a orar quando se punha, e acabavam quando nascia. Mais fazia Simeão Estilita, a quem com razão podemos chamar Anacoreta do Ar, e não da terra. Vivia sobre uma coluna de trinta e cinco côvados de alto, onde perseverou oitenta anos ao sol, ao frio, à neve, aos ventos, comendo uma só vez na semana, e orando de dia e de noite, quase sem dormir. Umas vezes orava de joelhos e prostrado, outras em pé e com os braços abertos, e nesta postura estava reverenciando continuamente a Deus com tão profundas inclinações, que dobrava a cabeça até os artelhos. Teodoreto, testemunha de vista, quis saber o número a estas inclinações, e tendo contado mil duzentas e quarenta e quatro, cansado de contar, não foi por diante. Oh! assombro! Oh! prodígio! Oh! exemplo singularíssimo do que pode a fraqueza do nosso barro fortalecida da graça! Um tal gênero de vida, mais foi admirável que imitável. Mas o que mais admira, é que lhe não faltaram imitadores. Estilita quer dizer o habitador da coluna, e houve outro estilita, também Simeão, e outro estilita, Daniel, e outros. Tanto preço tem, nos que o sabem avaliar, o ser santo.
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terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (6)

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Nesta parte, é tratado sobre o que o P. Vieira chama hierarquia dos santos. Inicialmente ele fala sobre os patriarcas (Abraão, Jefté...), e então aborda sobre a santidade dos apóstolos e dos mártires, inclusive narrando o que fizeram com eles.
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VI

Vamos aos homens, e perguntai a todos os que estão no céu que coisa é ser santos? A esta pergunta não quero responder com Escrituras nem com palavras, senão com obras. As coisas estimam-se pelo que valem e pelo que custam. Tudo o que fizeram e padeceram os santos, foi por ser santos. A esperança tão longa e tão constante dos patriarcas, a fé e paciência dos profetas, o zelo e pregação dos apóstolos, os tormentos e mortes dos mártires, as penitências e asperezas dos confessores, a continência e pureza das virgens: tudo santo, e tudo por ser santos. Mas não é esta a matéria que se haja de passar e escurecer com uma tão abreviada generalidade. Discorramos por cada uma das hierarquias dos santos, e vejamos quanto se empenharam por conseguir este nome.

Olhai para os patriarcas nos dois primeiros, e vereis a Isac lançado sobre a lenha, esperando com a garganta nua o rigor, por não dizer a desumanidade do golpe, e a Abraão com a espada em uma mão, para cortar a cabeça ao único filho, e como fogo na outra, para o queimar em holocausto e sepultar em cinzas. Podia haver maior resolução, nem mais heróico e deliberado empenho, assim na sujeição do filho ao pai, como na obediência do pai a Deus? O mesmo Deus confessou que não podia ser maior. Mas, se virdes que um anjo naquele mesmo flagrante tem mão no braço a Abraão, voltai os olhos para o de Jefté, armado doutra espada e do mesmo zelo, e vereis não suspenso, mas, executado o tremendo sacrifício, derramando o pai animoso com suas próprias mãos o sangue da inocente filha, também única, e sem herdeiro. E por que vos parece que se atreveram estes dois homens a uma tão espantosa e medonha ação, de que se estremece o amor e tapa os olhos a natureza? Abraão, por não quebrar um preceito, Jefté, por não faltar a um voto, e ambos por ser santos. Abraão podia duvidar, com grande fundamento, se um preceito tão novo e inaudito, e tão repugnante às promessas que o mesmo Deus lhe tinha feito, era ilusão; Jefté, com maior razão ainda, podia duvidar se o voto naquele caso obrigava, não sendo tal a sua tenção, nem lhe tendo vindo tal coisa ao pensamento; e, contudo, ambos seguiram a parte mais dificultosa e mais segura, por não deixar em escrúpulo a salvação, nem pôr em dúvida o ser santos.

Aos patriarcas seguem-se os profetas, e aos profetas os apóstolos. E se entre os profetas vos assombrais de ver um Isaías serrado pelo meio, e um Daniel na cova dos leões, e um Jonas engolido da baleia, nos apóstolos, que foram menos em número, vereis a Pedro crucificado, a Paulo degolado, a André aspado, a Felipe apedrejado, a Bartolomeu esfolado, a Mateus e Tomé alanceados, a Simão e Tadeu espedaçados, e todos, enfim, dando o sangue e a vida em testemunho da fé que pregaram, não só para ser santos eles em si, mas para fazer santos a outros.

E que direi eu de vós, ó fortíssimo e luzidíssimo exército dos mártires, tão infinito no número como nos esquisitos gêneros de martírios? Se entro no anfiteatro de Roma, vejo-vos lançados às feras, ou lançados aos Neros, aos Décios, aos Dioclecianos, aos Trajanos, mais feros que as mesmas feras. A muitos de vós reverenciaram os leões, os ursos, os tigres, mas a nenhum perdoou a vida a impiedade mais que brutal dos tiranos, sempre mais obstinados e furiosos. As pedras de Estêvão, as setas de Sebastião, as grelhas de Lourenço e Vicente já eram tormentos vulgares. Que máquinas e invenções de atormentar não excogitou a sevícia raivosa de se ver vencida, para combater e tentar vossa fortaleza? A uns mártires penduravam pelos cabelos, ou por um pé, ou por ambos, ou pelos dedos polegares, e assim, no ar e despidos, com azorragues de nervos rematados em pelotas de chumbo ou abrolhos de aço, os batiam e martelavam com tal força e continuação os cruéis e robustos algozes, que ao princípio açoitavam corpos, depois feriam as mesmas chagas ou uma só chaga, até que não tinham já que açoitar nem ferir. A outros, estirados e desconjuntados no ecúleo, ou estendidos na catasta, aravam ou cardavam os membros com pentes e garfos de ferro, a que propriamente chamavam escorpiões, ou metidos debaixo de grandes pedras de moinho, lhes espremiam como em lagar o sangue, e lhes moíam e emprensavam os ossos, até ficarem uma pasta confusa, sem figura nem semelhança do que dantes eram. A outros cobriam todos de pez, resina e enxofre, e, ateando-lhes o fogo, os faziam arder em pé como tochas ou luminárias nas festas dos ídolos, esforçando-se para este suplício com lhes dar a beber chumbo derretido. A outros, nos mais rigorosos frios do inverno, metiam em tanques enregelados, com banhos de água quente à vista, e liberdade de se passarem a eles, para que enfraquecesse o remédio os que não vencia o tormento. A outros coziam em couros, juntamente com serpentes e cães danados, e assim os lançavam ao mar, para que naquela estreita, medonha e asquerosa prisão, primeiro acabassem mordidos e atassalhados dos dentes venenosos, do que afogados das ondas. A outros escalavam vivos pelos peitos, e lhes arrancavam o coração e entranhas palpitantes, ou lhes atavam as mãos e os pés a quatro ramos grossos de árvores, dobrados a força e soltos ao mesmo tempo, com que súbita e violentissimamente os espedaçavam em quartos. A outros assentavam em cadeiras de ferro afogueado, a outros faziam andar descalços sobre lâminas ardentes, a outros metiam em caldeiras de azeite e alcatrão fervendo, a outros em bois de metal abrasado, a outros em fornalhas de chamas vivas. E tudo isto sofriam e suportavam aqueles valorosos cavaleiros de Cristo, não só com paciência e constância, mas com júbilo e alegria. Por quê? Só por ser e segurar o ser santos, como exclama a Igreja: Omnes sancti, quanta passi sunt tormenta, ut securi pervenirent ad palmam martyrii.
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (5)

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P. Vieira fala sobre a santidade dos anjos e a diferença entre os anjos maus e os bons. Aqueles que possuem sabedoria, ciência, beleza... mas não são santos possuem na verdade miséria, ignorância, feiúra pois de nada valem esses dons sem a santidade e a graça que vem de Deus. O mesmo vale para nós humanos não adiante nos aprofundarmos nos conhecimentos da ciência se isso não servirá para a maior glória de Deus, para a nossa maior santificação.
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V

Os anjos, que são a terceira classe dos santos que hoje celebra a Igreja, assim como nos persuadem com suas inspirações, nos ensinam com seu exemplo quão grande coisa é ser santos. O exercício dos anjos no céu é estarem sempre louvando a Deus. Nós não o sabemos louvar, porque o não vemos; eles, que o estão sempre vendo, só o louvam como devem. Mas, quais são os louvores, ou as lisonjas que os anjos cantam a Deus? O profeta Isaías, que uma vez foi admitido a os ouvir, o disse: Seraphim stabant, et clamabant alter ad alterum: Sanctus, Sanctus, Sanctus (Is. 6,2s): Estavam os serafins divididos em dois coros, e o que cantavam alternadamente a grandes vozes, era: Santo, Santo, Santo. — Isto diziam e repetiam sem cessar, como também os ouviu, daí a oitocentos anos, S. João no seu Apocalipse: Et requiem non habebant, dicentia: Sanctus, Sanctus, Sanctus (9). Se isto não estivera tão expresso em um e outro testamento, quem tal cuidara? Deus não é um objeto imenso, as grandezas de Deus não são infinitas, os anjos que o vêem e conhecem intuitivamente não são tão entendidos e tão sábios? Pois, como não variam de vozes nem de pensamento? Por que não discorrem por outras perfeições divinas, por que não louvam e não engrandecem outros atributos? Por isso mesmo. Porque vêem a Deus, porque o conhecem, e porque são entendidos. Quem louva ou lisonjeia discretamente, diz tudo o que pode e tudo o que mais agrada, e a maior grandeza que se pode dizer de Deus, e o louvor que mais lhe agrada é chamar-lhe Santo. Por isso o primeiro coro dos anjos diz Santo, e o segundo responde Santo; o primeiro torna a dizer Santo, e o segundo torna a repetir Santo; e isto dizem, e isto sempre estão dizendo sem cessar, uma e mil vezes,e isto hão de continuar a dizer por toda a eternidade, porque, depois de dizerem que Deus é Santo, Santo e mais Santo, nem os serafins do céu, que são os anjos de mais alto entendimento e de mais profunda ciência, sabem dizer mais, nem lhes fica mais que dizer. É Deus eterno, é imenso, é infinito, é onipotente, mas tudo isso são grandezas, porque estão juntas com o ser Santo. Se Deus, por impossível, não fora Santo, todos os outros seus atributos careceram da sua maior perfeição. Por isso é perfeição em Deus o ser eterno, porque é eternamente Santo; por isso é perfeição o ser imenso, porque é imensamente Santo; por isso é perfeição o ser infinito, porque é infinitamente Santo; por isso é perfeição o ser onipotente, porque é todo-poderosamente Santo: Sanctus, Sanctus, Sanctus.

Isto é o que os anjos dizem de Deus. E de si, que dizem, ou que podem dizer? O que podem e são obrigados a dizer todos os que perseveraram no céu e o não perderam, é que todo o seu bem e toda a sua felicidade consistiu em ser santos. Houve no céu entre os anjos aquela grande batalha que sabemos: Lúcifer, com os maus, rebelou-se contra Deus; S. Miguel, com os bons, seguiu as partes de seu Senhor; estes venceram, aqueles foram vencidos, e que ganharam os que ganharam a vitória, que perderam os que perderam a batalha? Nenhuma outra coisa mais que o ser ou não ser santos. Os que ganharam a vitória ganharam o ser santos, porque ficaram confirmados em graça; os que perderam a batalha perderam o ser santos, porque foram privados da mesma graça, e em tudo o mais que tinham por natureza ficaram como dantes eram.

Daqui se entenderá um famoso lugar de Ezequiel no capítulo vinte e oito, onde chama querubim a Lúcifer: Tu Cherub extentus, et protegens, et posui te in monte sancto Dei, in medio lapidum ignitorum ambulasti. Perfectus in viis tuis a die conditionis tuae, donec inventa est inquitas in te (10): Tu, ó querubim, eras o anjo de maior esfera, e que debaixo de tuas asas tinhas todos os outros:Tu Cherub extentus, et protegens. Eu te criei Santo e em graça, e te pus no céu: Posui te in monte sancto. Tu estavas entre os serafins, onde passeavas com liberdade de superior: In medio lapidum ignitorum ambulasti. E desde o dia de tua criação foste perfeito, até que em ti se achou o pecado e maldade, que tu inventaste: Perfectus in viis tuis, donec inventa est inquitas in te. Em suma, que Lúcifer, como diz o texto, e declaram conformemente todos os Padres, era por natureza serafim, e criado entre os serafins, e superior a todos. Pois, se era serafim, como lhe chama o profeta, em nome de Deus, não serafim, senão querubim? E se lhe nega o nome de serafim, porque já não era anjo, senão demônio, por que lhe chama querubim: Tu Cherub? Porque serafim significa amor e amante, e querubim significa ciência e sábio; e ainda que Lúcifer, pela rebelião e pelo pecado, perdeu o amor e a graça de Deus e os outros dons sobrenaturais, não perdeu a sabedoria e as ciências, nem os outros dotes do entendimento e da natureza, com que fora criado. Tão anjo ficou no saber, como dantes era, tão anjo no poder, tão anjo na capacidade da esfera, tão anjo na beleza e formosura natural, e em tudo o mais como dantes, e somente privado da graça e da santidade, em que por sua culpa e maldade se não quis conservar.

De sorte que a principal diferença que então houve e hoje há entre Miguel e Lúcifer, é que Miguel chama-se S. Miguel, e Lúcifer não se chama santo. Direis que também foi privado Lúcifer da glória e da vista de Deus. Não foi, porque essa ainda a não tinha, que se já tivera visto a Deus não o pudera ofender nem perder a graça e santidade. Mas, assim como Deus o privou da graça e da santidade, por que o não privou também de tudo o mais? Quando um vassalo se rebela contra seu rei, confiscam-lhe todos seus bens. Pois, se Lúcifer se rebelou contra Deus, por que lhe confiscam só a graça e a santidade, e lhe deixam tudo o mais? Porque só a graça e a santidade são bens: tudo o mais que têm os anjos maus, uma vez que não têm santidade, antes são males que bens. A ciência, sem santidade, é ignorância; a formosura, sem santidade, é fealdade; o poder, sem santidade, é fraqueza; a grandeza, sem santidade, é miséria; e por isso são os anjos maus os mais miseráveis de todas as criaturas, assim como os anjos bons os mais felizes e bem-aventurados de todas: estes porque são santos, aqueles porque não são santos.

Notas:
(9) E não cessavam de dizer: Santo, Santo, Santo (Apc. 4,8).

(10) Tu eras um querubim que estendia as tuas asas e protegia, e eu te pus sobre o monte santo de Deus, tu andaste no meio das pedras incendidas. Tu eras perfeito nos teus caminhos desde o dia da tua criação, até que a iniqüidade se achou em ti (Ez. 28,14 s).

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Um papa na contracorrente

ENTREVISTA

LUIZ FELIPE PONDÉ

Professor de Ciências da Religião na PUC-SP e de Filosofia na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP)

Segundo Pondé, Bento XVI acha que ultrapassados somos nós, os modernos. E equivocados, os religiosos que misturam fé e política, Jesus Cristo e Che Guevara

"Ao mesmo tempo que faz o primeiro santo no País, o papa sinaliza: 'Vou continuar dizendo que a Teologia da Libertação acabou.' Mas, as melhores cabeças do nosso clero ainda são formadas sob uma visão sócio-análitica do mundo"

Aureliano Biancarelli e Laura Greenhalgh

Quando a fumaça branca contou ao mundo que o cardeal Joseph Ratzinger seria o novo chefe da Igreja católica, sob o nome de Bento XVI e substituindo João Paulo II, as primeiras reações ficaram por conta do impacto natural do anúncio. O teólogo alemão linha dura, que em 1985 impôs o silêncio ao franciscano brasileiro Leonardo Boff, chegava ao topo da hierarquia católica. Meses depois, aqui e ali, registraram-se manifestações de altas patentes eclesiásticas - inclusive no Brasil - sugerindo que o pontificado poderia abrandar o velho Ratzinger. E mais: que a sólida formação teológica do ex-chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, aliada ao "peso do manto", poderia resultar num surpreendente papado de renovação.

Na semana passada, Bento XVI desnorteou quem fez essa aposta. Ao divulgar sua primeira exortação apostólica, um documento de 131 páginas intitulado Sacramentum Caritatis (O Sacramento do Amor), espécie de síntese do Sínodo de 2005, o papa mandou ver na caneta. Pregou o retorno do latim e do canto gregoriano na celebração da missa, desqualificou a confissão comunitária, criticou padres que se coloquem como "protagonistas da ação litúrgica", fincou pé no veto ao aborto, à eutanásia, às uniões entre homossexuais, e comparou a disseminação do segundo casamento entre os católicos a uma "praga social". Armou tal confusão no mundo católico que tradutores se embolaram para dizer que, no contexto, "praga" significaria "chaga", "ferida", "mácula" - mas, ao que parece, o pontífice quis dizer "praga" mesmo.

Retrocesso no catolicismo? Voltaremos a situações anteriores ao Concílio Vaticano II, que deu novos ares à Igreja? É disso que trata a entrevista que se segue do filósofo Luiz Felipe Pondé, professor do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Álvares Penteado. Pondé há anos vem estudando a vereda teológica de onde saíram pelo menos dois papas, João Paulo II e Bento XVI - semelhantes nas concepções doutrinárias, embora com biografias tão distintas. "Não se pode estranhar o conteúdo da exortação. É exatamente a continuidade do papado de João Paulo II", garante o professor, autor de Crítica da Profecia - Filosofia da Religião em Dostoievski (Editora 34) e Do Pensamento no Deserto ( a sair pela Edusp). Com uma diferença nada desprezível: com a bagagem teórica do papa alemão, a modernidade que se cuide. Ganhou um crítico contumaz. Um demolidor da sociedade de consumo que, com suas conexões mediáticas e tecnológicas, joga o ser humano num vazio de pessimismo e desesperança.

Para começar, o que é uma exortação apostólica?

É uma manifestação papal que nasce do sínodo. Deve orientar não só os bispos, mas todo o clero, sobre questões cotidianas. Como se fosse um documento construído a partir da reunião pedagógica de uma escola, feito para que o professor saiba os princípios que vão guiá-lo. Portanto, tende a tocar temas prementes, como de fato aconteceu no sínodo de 2005. Sendo assim, a exortação apostólica de Bento XVI nada tem de novo. É fruto desse processo.

O sínodo já apontava tais diretrizes?

Sim. Tudo o que está sendo dito agora é o que Bento XVI pensa, o que o Ratzinger já pensava e o que o João Paulo II também pensou. Faz parte de um movimento contínuo que a Igreja vem fazendo ao longo dos tempos.

O encaminhamento das questões tratadas no sínodo de 2005 teria sido diferente fosse o papa João Paulo II e não Bento XVI?

Dizem que, nos últimos anos de João Paulo II, já era Bento XVI que reinava. A relação de ambos era estreita, teologicamente falando. Do ponto de vista da personalidade, Bento XVI é um homem de idéias, intelectual capaz de enfrentar um debate com Habermas (Jürgen Habermas, filósofo alemão, ligado à Escola de Frankfurt). João Paulo II, em contrapartida, era um místico. Diferentes na personalidade, assemelhavam-se demais em termos teológicos.

Isso explicaria o retorno às tradições e aos ritos católicos, expresso na exortação? Ou seja, os dois últimos papados se colocam de acordo numa posição mais regressiva?

Regressão, recuo, retrocesso, nenhum destes termos explica o que está acontecendo. João Paulo II e Bento XVI formaram-se na tradição católica que busca a reforma interior do ser. Segundo essa tradição, é preciso investigar a fundo a natureza humana, como fez Santo Agostinho. Ora, Bento XVI é um agostiniano por excelência. Ele considera que a natureza humana é imperfeita e padece com uma desordem que precisa ser contida. Isso soa de forma antipática aos ouvidos dos "modernos", gente como nós. Mas, vejam bem: dentre as idéias que definem a modernidade está a de que o homem é auto-regulado. Que tem condições de tomar consciência de seus limites e aprimorar-se. A noção do "ser perfectível", que pode melhorar com o tempo, surgiu no século 13. Porém, a visão de Agostinho, bem como a posição de um papa como Bento XVI, é a de que natureza humana tem dificuldades estruturais. Se você não a corrige, ela se degenera.

Então Bento XVI é um crítico da modernidade?

Sem dúvida. O que boa parte das pessoas tem dificuldade de entender é que o papa não considera a modernidade como algo que tem valor a priori. O que na nossa formação é estranho. Fomos criados nos cânones da modernidade, crescemos acreditando que a democracia resolveria tudo, e não é bem assim. O regime democrático não resolve os impasses da família, por exemplo. Nem funciona a contento em uma sala de aula. Porque são estruturas hierarquizadas. Por isso estranhamos este teólogo duro, capaz de quebrar protocolos e que está preocupado com a desordem do mundo.

Num belo perfil que escreveu sobre João XXIII, a cientista política alemã Hanna Arendt (1906-1975) lidou com a hipótese de que ele só conseguiu ser o grande reformador da Igreja católica porque acreditava piamente que Deus era o chefe. E que ele próprio, papa, seria mero executor de ordens superiores. Não é estranho que um místico tenha aberto portas e janelas da Igreja, no Concílio Vaticano II, como fez João XXIII, e que um teólogo de sólida base intelectual, como Bento XVI, proponha o retorno à tradição?

O que diriam hoje João Paulo II e Bento XVI sobre o Vaticano II, hein? Diriam que houve excesso, houve enganos na leitura do que era a intenção primordial do Concílio, uma melhor compreensão da modernidade.

Só que o cardeal Ratzinger foi um dos formuladores do Concílio...

Sim, mas em seguida ele diria que houve má interpretação das decisões conciliares e que foi um equívoco supor que a Igreja devesse se submeter às demandas da modernidade. Bento XVI entende que a Igreja é uma instituição que contempla a eternidade, enquanto a gente está mais preocupado com o que vai acontecer no mundo nos próximos dez anos. Sendo uma instituição de olho no eterno, para que ter pressa? Isso introduz a variável temporal, que para nós é estranha. Entre o Vaticano II, que autorizou a missa celebrada em idiomas vernaculares, e Bento XVI, que vai botar a moçadinha para estudar latim de novo, sentimos uma longa respiração, esse vai-e-volta que é o entendimento que a Igreja tem de si mesma. Quando um teólogo fala em retrocesso, ou quando alguém diz que é caretice rezar em latim, Bento XVI apenas dirá: "Você está mesmo contagiado pelo mundo secular". Ele entende que a Igreja é uma instituição com uma temporalidade própria, determinada pela intersecção entre o "mundo transcendente" e o "mundo mundano".

A missa voltará mesmo a ser rezada em latim?

Ou parte dela será rezada em latim, não sei. Seria simplista achar que isso é apenas retrocesso político. Não é, até porque o que guia a Igreja é a busca do homem para entender seu destino final, que é Deus. Agora, todo mundo sabe de cultos em línguas estranhas. Muita gente vai à sinagoga e se compraz ouvindo aquelas cerimônias em hebraico, sem entender palavra. Ou se delicia com os mantras, com a musicalidade do sânscrito num culto budista. Tudo lindo... Então por que não podemos ter uma parte da missa rezada em latim? Por que temos de privar as pessoas do deleite de ouvir o canto gregoriano? Por que achamos compreensível o celibato do Dalai Lama, mas criticamos o celibato dos padres? Essa é a grande tragédia do cristianismo: ele engendrou a modernidade e ela o devora, o tempo todo.

Bento XVI também começa a dizer a que veio no enquadramento de teologias que se afastem da "oficial". É o caso da condenação ao silêncio do bispo Jon Sobrino, de El Salvador, ligado à Teologia da Libertação. Ratzinger, que puniu Leonardo Boff no passado, não mudou de convicções?

Há um casamento entre tradição e mística, que não é lá muito fácil. Imagine o encontro de João XXIII com João Paulo II no céu. O italiano deve ter dito ao polonês: "As pessoas entenderam tudo errado, João Paulo. A Igreja precisava se abrir para escutar os fiéis, para entender suas angústias, e acharam que era preciso transformar Marx em profeta". João Paulo II pode ter-lhe dito: "E eu que tive de consertar as coisas, especialmente lá na América Latina, quando os caras já estavam achando que Jesus e Che Guevara eram a mesma pessoa."

Mas João Paulo II chegou a dizer que a Teologia da Libertação era moralmente aceitável na América Latina...

E Bento XVI, também! Ele não condena a inspiração teológica de Gustavo Gutierrez (frade dominicano nascido no Peru, considerado o fundador da Teologia da Libertação). Tanto João Paulo II como Bento XVI entendem que a Teologia da Libertação é corretamente inspirada no carisma profético da Igreja, por sua vez herança do profetismo hebraico. E que, portanto, a Igreja tem a missão de combater a injustiça no mundo, assim como os profetas de Israel combatiam. O erro da Teologia da Libertação foi ter feito do marxismo a hermenêutica para realizar essa transformação. Ratzinger falou isso em 84, repetiu em 86.... E o que se viu? A Teologia da Libertação sucumbindo a um contexto de luta político-institucional na América Latina. Para alguém como Bento XVI, é inconcebível que esta teologia tenha desembocado na fundação de um partido político, o PT, mas não tenha conseguido criar as condições para enfrentar a expansão do neo-pentecostalismo.

A politização do clero vem da "opção preferencial pelos pobres"?

Pois é, Bento XVI não entende assim. Jesus falou que os ricos não entrarão no reino dos céus, mas ele também falou "dai a César o que é de César". A Teologia da Libertação escorrega ao achar que os pobres são uma espécie de classe messiânica, ou que a graça só está nos excluídos, quando na realidade está em todo mundo. Nós, os intelectuais, formamo-nos basicamente no universo marxista, de esquerda, entendendo a democracia como alguma coisa insuperável.Mas, insisto, para Bento XVI e João Paulo II as demandas modernas não necessariamente implicam em sucesso na vida ou melhoria das pessoas. Para eles, a modernidade não é um pilar, nem um ponto de partida obrigatório, mas um momento complexo na história da humanidade. Um momento que vem se desgastando. Achamos que é melhor distribuir camisinha para nossos filhos do que enfrentar a família que está em desequilíbrio, onde as pessoas já não mais cuidam das pessoas. Também continuamos a acreditar que a felicidade é a coisa mais importante da vida, a felicidade imediata, o gozo. Somos os fiéis da modernidade.

Na exortação, o papa condenou o segundo casamento. Não é complicado Bento XVI discriminar milhões de fiéis?

Importante é perceber as nuances disso. Muitas pessoas, especialmente nas classes mais simples, estão se mantendo no casamento de origem, mesmo sofrendo, porque a união é indissolúvel. Digo sofrendo, porque casamento não é uma coisa fácil. Se a Igreja abrisse a porteira para a separação, o que aconteceria? Se eu já entro no casamento achando que posso sair dele em alguns anos, viverei um cotidiano sem solidez. E isso leva a um processo de degeneração. Quando a Igreja diz "não se separa, se não a gente manda embora", ela já acena com a punição, que é, para muitos católicos, o sofrimento de quem não conseguiu manter o que deveria ser mantido. Isso não significa perder espaço na Igreja.

Como, se até a comunhão lhes é negada?

Não significa perder a piedade da Igreja. Como não significa que o padre vá negar cuidados espirituais. A Igreja não odeia o pecador. Odeia o pecado.

Há milhões de "descasados" católicos que estabelecem uma espécie de "linha direta" com Deus, sem passar pelo padre, pelo bispo, pelo papa. E comungam. A condenação de Bento XVI ao segundo casamento não aumenta o fosso entre Igreja e sociedade?

Bento XVI deixa patente que não está tão preocupado com a quantidade, mas com a qualidade dos fiéis que povoam seu rebanho. A lógica dele é a seguinte: ao tornar claro que esse montão de descasados "sofre", passarei para os jovens o exemplo do que não deve ser feito. Baseia-se numa convicção inabalável: o ser humano tem problemas, cabe a mim cuidar deles.

Dentro da pastoral da família, há casais em segunda união que a Igreja acolhe... Tudo isso se desmorona agora?

A Igreja tem uma temporalidade. De repente, existe um padre lá na Zona Leste que trabalha com esses casais, daí o bispo fecha o olho, porque sabe que tem muita gente sofrendo... A Igreja tem essa respiração... Não haverá operação-desmanche. E nem uma caça aos descasados.

Mas as pessoas vão se sentir vivendo em pecado...

Eis uma frase perfeitamente possível em se tratando de um Bento XVI: "É normal que o ser humano se sinta em pecado. Porque ele está."

O Vaticano não se preocupa com a perda de fiéis?

Provavelmente, sim. Ao mesmo tempo, busca-se o cristão no entendimento católico. O que a Igreja de Bento XVI está dizendo? Um discurso assim: "Nós não vamos mais fazer acordo com cristão meia-boca. Você quer ser católico? Você é separado? Tudo bem, você vai continuar a ser católico, mas vai saber que fracassou no estabelecimento da família. Nós não vamos deixar você pensar que descasar é legal porque, afinal, você partiu para outra". O cristão católico terá de alcançar a consciência de que não conseguiu manter a família, que ela é sagrada porque os filhos não são seus, mas são de Deus.

É necessário, como diz o papa, que os descasados cumpram penitências e façam obras de caridade?

É o que ele recomendaria a qualquer pecador.

Quando diz que está interessado em qualidade, não em quantidade de fiéis, isso pressupõe uma seleção no rebanho. Por outro lado, o Brasil está se tornando o grande país pentecostal... E então?

Um católico como Bento XVI leva a sério o fato de que o mal existe no mundo. Ele não é como nós, modernos, que achamos que o mal é uma invenção psicológica, porque você apanhava muito na escola, por exemplo. O mal está posto no mundo, não é uma criação humana. E o papa não é freudiano, nem marxista. Segundo teologias ortodoxas, para as quais ele se volta, o mal é da ordem da decomposição do ser. Claro, há o risco de perder fiéis, mas Bento XVI entende que não deve ter medo do mal e nem fazer acordo com ele. Quando houve aquela confusão do papa com o mundo islâmico, acharam que ele tinha pedido desculpas. No meu entender, não pediu. Foi e continuou sendo mal entendido. Ele queria dizer que, toda vez que se rompe o diálogo entre razão e fé, as vocações religiosas tornam-se sombrias.

Na exortação, trata como questões inegociáveis o aborto, a eutanásia, o divórcio, uniões homossexuais e o ensino da religião católica.

É um pacote clássico. E um ato de enorme coragem.

E diz isso logo no início do papado.

Ratzinger tornou-se papa já com idade. Portanto, ele pode imprimir uma certa velocidade ao pontificado. Mesmo assim, jamais devemos perder de vista que a Igreja tem 2 mil anos e uma tradição girando dentro de si mesma. Trata-se de um campo de experiência muito antigo, ao passo que nossa sensibilidade é voltada para o futuro. Quando (o pensador político francês) Aléxis de Tocqueville vai para os EUA, em 1831, ele já percebe a desconexão entre passado e futuro na jovem sociedade democrática. E tendemos a esquecer que a Igreja católica atravessou guerras, pragas, pestes, cismas, rupturas, atravessou o nazismo, o comunismo... Isso contém uma experiência humana incrível.

Na última quarta-feira, o Vaticano divulgou notificação impondo o silêncio para o padre espanhol Jon Sobrino, ligado à Teologia da Libertação. Como se sabe, Sobrino foi assessor de dom Oscar Romero, arcebispo de San Salvador, assassinado em 1980. Teria Bento XVI escolhido o alvo a dedo?

Não causa estranheza alguma esta notificação. O desafio do Conselho Episcopal Latinoamerino (Celam), no encontro do mês de maio, em Aparecida, será duplo: ao mesmo tempo não subestimar o problema social na América Latina, mas também relembrar aos bispos que a salvação passa por Cristo e pela reforma interior. Nem tudo depende da transformação sócio-política do mundo.

Isso não vai abalar o encontro do Celam e irritar o clero daqui?

Bento XVI vem canonizar em solo brasileiro. Ao mesmo tempo que faz o primeiro santo no País, sinaliza à Igreja: "Vou continuar dizendo que a Teologia da Libertação acabou. Ela não vai formar ninguém, vocês vão ter que abandonar esse negócio". Claro, haverá a indignação dos bispos, como haverá silêncio de outra parte. Depois, tudo se acalma e o mundo segue em frente. Ele age no plano simbólico. Com o gesto em relação ao Sobrino, com a exortação apostólica, com a vinda ao Brasil, enfim, com tudo isso, Bento XVI está dizendo "você, deputado católico, honre o sentido de ser católico". Ou: "Casamento homossexual, não me venha com essa história." "Parada gay? Desencane." Ou então: "Jesus Cristo não é Che Guevara."

Ele investe contra a Teologia da Libertação num momento em que, pelo menos no Brasil, seus melhores defensores saíram de cena: dom Helder Câmara e dom Ivo Lorscheiter, que morreram, dom Pedro Casaldáliga e dom Paulo Evaristo Arns, mais idosos e menos ativos....

De fato, os expoentes saíram de cena. E não se fez uma geração brilhante. O problema atual é de outra ordem: não existe, no Brasil, nenhum canal de interlocução entre Igreja e Bento XVI. Não há no mundo teológico brasileiro um interlocutor para encarar este papa. As melhores cabeças continuam sendo formadas na Teologia da Libertação, ou seja, nosso clero ainda vive sob o impacto de uma visão sócio-analítica do mundo. Logo, o Bento XVI não tem com quem conversar... É preciso conhecer muito da obra de Von Baltazar (teólogo suíço alemão morto em 1988) ou de Henri de Lubac (teólogo francês), decisivos na formação do Bento XVI, mas quase desconhecidos por grande parte da formação teológica brasileira. Logo, falta recurso para entender de onde veio o pensamento deste papa. É raso dizer que ele é um conservador.

O filósofo italiano Gianni Vattimo diz que a pós-modernidade trouxe consigo o pessimismo e que a religião pode ajudar as pessoas a resistirem aos tempos tristes. Nesse sentido, as idéias do Bento XVI ganham ressonância?

Podemos pensar como Pascal, apostar que Deus não existe. Mas, se Ele existir e a gente não tiver feito nada do que Ele queria, vamos encarar uma eternidade de problemas. Contudo, independentemente das nossas apostas, talvez Deus exista. No fundo, é essa a variável que paira o tempo inteiro sobre nossas cabeças. Deus é uma variável sem controle epistemológico. A única teoria que ousa enfrentar isso é o darwinismo, mas não explica como surgiu a matéria que acabou depois evoluindo. Dito isso, chegamos ao seguinte ponto: o ser humano está em constante pânico com relação ao sentido da vida. Não sabe de onde veio, nem para onde vai. A gente está morrendo aos poucos, a gente vai se frustrando, e no final, vamos virar pó. Eis o problema. Você pode ser marxista, capitalista, moderno, antigo, heterossexual, homossexual, corintiano, não faz diferença, é um problema. É claro que, com bons médicos, hospitais e postos de saúde, poderemos viver mais. Mas isso não resolve, porque o ser humano é um animal cuja consciência determina o próprio sofrimento. E aqui entra o Vattimo: a religião parece ser o sistema de sentido mais poderoso que já existiu na face da Terra. E não é à toa que muitas pessoas religiosas encontram maior sentido na vida. A religião é um perigo? A espécie humana, esta sim, é perigosa. Nós, que nos adaptamos a tudo, que resistimos aos piores, aos mais agressivos, aos mais devoradores, nós que hoje integramos a espécie, somos perigosos. Não somos carneirinhos.

O Vaticano reconhece Estados laicos. Quando Bento XVI vem com uma exortação apostólica na qual fala do segundo casamento como uma praga entre os católicos, pode desnortear muita gente. Afinal, no Estado laico, o casamento é um contrato civil e tem suas regras.

Para o papa, o casamento é um objeto de Deus, não do Estado. É um sacramento.

Mas o Estado existe, as leis existem.

O próprio Bento XVI repisou em um dos seus livros que "o reino de Deus não é desse mundo", como diz Jesus no Evangelho. O Estado rege o tempo, a conduta dos cidadãos, os contratos, controla a violência, organiza o trânsito, mas, do ponto de vista da doutrina católica, o Estado não tem o direito de legislar sobre os valores da família. Não tem o direito de estabelecer que o seu filho pegue camisinhas no banheiro da escola para transar com segurança.

Quando um governo distribui camisinhas para evitar a aids e quando se dispõe a incentivar o planejamento familiar...

...do ponto de vista da Igreja Católica, está agindo fora do seu território. Essa é a resposta que o Bento XVI provavelmente daria. A solução não é usar o preservativo, mas evitar a promiscuidade.

Promiscuidade, segundo a Igreja, seria qualquer forma de sexo que não tenha a finalidade da procriação. É isso?

Não. A doutrina fala que o sexo deve ser feito num horizonte onde a procriação não é a priori excluída. Outra coisa é dizer que o sexo só pode ser feito quando a procriação é possível. Então, os jovens transam o tempo inteiro com camisinha, fazem sexo com o sentido de não procriar. Isso é errado do ponto de vista da igreja... Por isso aborto é crime e não há negociação possível.

O fim das utopias pode promover o retorno às religiões?

Sim. Bento XVI entende que a experiência religiosa deve dialogar com a razão. A razão, sozinha, se degenera em ceticismo e niilismo. Talvez isso seja o grande beco sem saída das utopias: a crença de que a razão, apenas ela, não consegue administrar a vida. Talvez uma das grandes coisas que a gente terá de enfrentar nos próximos anos seja a percepção de que o Estado moderno, em si, é uma utopia. Bento XVI acha que a razão, sem a angústia religiosa, acaba se transformando em algo risível, banal, niilista. E que o ser humano sempre foi um bicho que caminha pelo chão e pelo céu.

Fonte: http://www.estado.com.br/suplementos/ali/2007/03/18/ali-1.93.19.20070318.8.1.xml
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

FAMÍLIA HUMANA, COMUNIDADE DE PAZ

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
BENTO XVI
PARA A CELEBRAÇÃO DO
DIA MUNDIAL DA PAZ

1o DE JANEIRO DE 2008

FAMÍLIA HUMANA, COMUNIDADE DE PAZ

1. NO INÍCIO DE UM ANO NOVO, desejo fazer chegar meus ardentes votos de paz, acompanhados duma calorosa mensagem de esperança, aos homens e mulheres do mundo inteiro; faço-o, propondo à reflexão comum o tema com que abri esta mensagem e que me está particularmente a peito: Família humana, comunidade de paz. Com efeito, a primeira forma de comunhão entre pessoas é a que o amor suscita entre um homem e uma mulher decididos a unir-se estavelmente para construírem juntos uma nova família. Entretanto, os povos da terra também são chamados a instaurar entre si relações de solidariedade e colaboração, como convém em membros da única família humana: « Os homens – sentenciou o Concílio Vaticano II – constituem todos uma só comunidade; todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro género humano (Act 17, 26); têm também todos um só fim último, Deus ».( 1)

Família, sociedade e paz

2. A família natural, enquanto comunhão íntima de vida e de amor fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher,(2) constitui « o lugar primário da ''humanização'' da pessoa e da sociedade »,( 3) o « berço da vida e do amor ».(4) Por isso, a família é justamente designada como a primeira sociedade natural, « uma instituição divina colocada como fundamento da vida das pessoas, como protótipo de todo o ordenamento social ».(5)

3. Com efeito, numa vida familiar « sã » experimentam-se algumas componentes fundamentais da paz: a justiça e o amor entre irmãos e irmãs, a função da autoridade manifestada pelos pais, o serviço carinhoso aos membros mais débeis porque pequenos, doentes ou idosos, a mútua ajuda nas necessidades da vida, a disponibilidade para acolher o outro e, se necessário, perdoar-lhe. Por isso, a família é a primeira e insubstituível educadora para a paz. Não admira, pois, que a violência, quando perpetrada em família, seja sentida como particularmente intolerável. Deste modo, quando se diz que a família é « a primeira célula vital da sociedade »,(6) afirma-se algo de essencial. A família é fundamento da sociedade inclusivamente porque permite fazer decisivas experiências de paz. Devido a isso, a comunidade humana não pode prescindir do serviço que a família realiza. Onde poderá o ser humano em formação aprender melhor a apreciar o « sabor » genuíno da paz do que no « ninho » primordial que a natureza lhe prepara? A linguagem familiar usa um léxico de paz; aqui é necessário recorrer sempre para não perder o uso do vocabulário da paz. Na inflação das linguagens, a sociedade não pode perder a referência àquela « gramática » que cada criança aprende dos gestos e olhares da mãe e do pai, antes mesmo das suas palavras.

4. Uma vez que a família tem o dever de educar os seus membros, a mesma é titular de direitos específicos. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, que constitui uma aquisição de civilização jurídica de valor verdadeiramente universal, afirma que « a família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito a ser protegida pela sociedade e pelo Estado ».(7) Por seu lado, a Santa Sé quis reconhecer uma especial dignidade jurídica à família, publicando a Carta dos Direitos da Família. Lê-se no Preâmbulo: « Os direitos da pessoa, ainda que expressos como direitos do indivíduo, têm uma dimensão social fundamental, que encontra na família a sua expressão originária e vital ».(8) Os direitos enunciados na Carta são expressão e explicitação da lei natural, inscrita no coração do ser humano e que lhe é manifestada pela razão. A negação ou mesmo a restrição dos direitos da família, obscurecendo a verdade sobre o homem, ameaça os próprios alicerces da paz.

5. Deste modo quem, mesmo inconscientemente, combate o instituto familiar, debilita a paz na comunidade inteira, nacional e internacional, porque enfraquece aquela que é efectivamente a principal « agência » de paz. Este é um ponto que merece especial reflexão: tudo o que contribui para debilitar a família fundada sobre o matrimónio de um homem e uma mulher, aquilo que directa ou indirectamente refreia a sua abertura ao acolhimento responsável de uma nova vida, o que dificulta o seu direito de ser a primeira responsável pela educação dos filhos, constitui um impedimento objectivo no caminho da paz. A família tem necessidade da casa, do emprego ou do justo reconhecimento da actividade doméstica dos pais, da escola para os filhos, de assistência sanitária básica para todos. Quando a sociedade e a política não se empenham a ajudar a família nestes campos, privam-se de um recurso essencial ao serviço da paz. De forma particular os meios de comunicação social, pelas potencialidades educativas de que dispõem, têm uma responsabilidade especial de promover o respeito pela família, de ilustrar as suas expectativas e os seus direitos, de pôr em evidência a sua beleza.

A humanidade é uma grande família

6. A própria comunidade social, para viver em paz, é chamada a inspirar-se nos valores por que se rege a comunidade familiar. Isto vale tanto para as comunidades locais como nacionais; mais, vale para a própria comunidade dos povos, para a família humana que vive nesta casa comum que é a terra. Numa tal perspectiva, porém, não se pode esquecer que a família nasce do « sim » responsável e definitivo de um homem e de uma mulher e vive do « sim » consciente dos filhos que pouco a pouco entram a fazer parte dela. Para prosperar, a comunidade familiar tem necessidade do consenso generoso de todos os seus membros. É preciso que esta consciência se torne convicção partilhada também por quantos são chamados a formar a família humana comum. É necessário saber dizer o « sim » pessoal a esta vocação que Deus inscreveu na nossa própria natureza. Não vivemos uns ao lado dos outros por acaso; estamos percorrendo todos um mesmo caminho como homens e por isso como irmãos e irmãs. Desta forma, é essencial que cada um se empenhe por viver a própria vida em atitude de responsabilidade diante de Deus, reconhecendo n'Ele a fonte originária da existência própria e alheia. É subindo até este Princípio supremo que se pode perceber o valor incondicional de todo o ser humano, colocando as premissas para a edificação duma humanidade pacificada. Sem este Fundamento transcendente, a sociedade é apenas uma agregação de vizinhos, e não uma comunidade de irmãs e irmãos chamados a formar uma grande família.

Família, comunidade humana e ambiente

7. A família precisa duma casa, dum ambiente à sua medida onde tecer as próprias relações. No caso da família humana, esta casa é a terra, o ambiente que Deus criador nos deu para que o habitássemos com criatividade e responsabilidade. Devemos cuidar do ambiente: este foi confiado ao homem, para que o guarde e cultive com liberdade responsável, tendo sempre como critério orientador o bem de todos. Obviamente, o ser humano tem um primado de valor sobre toda a criação. Respeitar o ambiente não significa considerar a natureza material ou animal mais importante do que o homem; quer dizer antes não a considerar egoisticamente à completa disposição dos próprios interesses, porque as gerações futuras também têm o direito de beneficiar da criação, exprimindo nela a mesma liberdade responsável que reivindicamos para nós. Nem se hão-de esquecer os pobres, em muitos casos excluídos do destino universal dos bens da criação. Actualmente a humanidade teme pelo futuro equilíbrio ecológico. Será bom que as avaliações a este respeito se façam com prudência, no diálogo entre peritos e cientistas, sem acelerações ideológicas para conclusões apressadas e sobretudo pondo-se conjuntamente de acordo sobre um modelo de progresso sustentável, que garanta o bem-estar de todos no respeito dos equilíbrios ecológicos. Se a tutela do ambiente comporta os seus custos, estes devem ser distribuídos com justiça tendo em conta a disparidade de desenvolvimento dos vários países e a solidariedade com as futuras gerações. Prudência não significa deixar de assumir as próprias responsabilidades e adiar as decisões; significa antes assumir o empenho de decidir juntos depois de ter ponderado responsavelmente qual a estrada a percorrer, com o objectivo de reforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho.

8. A tal propósito, é fundamental « sentir » a terra como « nossa casa comum » e escolher, para uma gestão da mesma ao serviço de todos, a estrada do diálogo em vez de decisões unilaterais. Podem-se aumentar, se for necessário, os lugares institucionais a nível internacional, para se enfrentar conjuntamente o governo desta nossa « casa »; mas, o que mais conta é fazer maturar nas consciências a convicção da necessidade de colaborar responsavelmente. Os problemas que se desenham no horizonte são complexos e o tempo escasseia. Para fazer frente de maneira eficaz à situação, é preciso agir de comum acordo. Um âmbito onde seria particularmente necessário intensificar o diálogo entre as nações é o da gestão dos recursos energéticos do planeta. A tal respeito, uma dupla urgência preme sobre os países tecnologicamente avançados: é preciso, por um lado, rever os elevados níveis de consumo devido ao modelo actual de progresso e, por outro, providenciar adequados investimentos para a diferenciação das fontes de energia e o melhoramento da sua utilização. Os países emergentes sentem carência de energia, mas às vezes esta carência é remediada prejudicando os países pobres, que, pela insuficiência das suas infra-estruturas nomeadamente tecnológicas, se vêem obrigados a vender ao desbarato os recursos energéticos em seu poder. Às vezes a sua própria liberdade política é posta em discussão por formas de protectorado ou, em todo o caso, de condicionamento que resultam claramente humilhantes.

Família, comunidade humana e economia

9. Condição essencial para a paz nas famílias é que estas assentem sobre o alicerce firme de valores espirituais e éticos compartilhados. No entanto, é preciso acrescentar que a família experimenta autenticamente a paz quando a ninguém falta o necessário, e o património familiar – fruto do trabalho de alguns, da poupança de outros e da colaboração activa de todos – é bem gerido na solidariedade, sem excessos nem desperdício. Para a paz familiar, portanto, é necessária a abertura a um património transcendente de valores, mas, simultaneamente, há que não menosprezar a sapiente gestão quer dos bens materiais quer das relações entre as pessoas. O falimento desta componente tem como consequência a quebra da confiança recíproca devido às perspectivas incertas que passam a gravar sobre o futuro do núcleo familiar.

10. O mesmo se diga daquela grande família que é a humanidade no seu todo. De facto a família humana, que hoje aparece ainda mais interligada pelo fenómeno da globalização, além de um alicerce de valores compartilhados tem necessidade também de uma economia que corresponda verdadeiramente às exigências de um bem comum com dimensões planetárias. A referência à família natural revela-se, sob este ponto de vista também, singularmente sugestiva. Entre os indivíduos humanos e entre os povos, é preciso promover relações correctas e sinceras, que permitam a todos colaborarem num plano de paridade e justiça. Ao mesmo tempo, tem-se de trabalhar por uma sábia utilização dos recursos e uma equitativa distribuição da riqueza. De forma particular, as ajudas concedidas aos países pobres devem obedecer a critérios duma lógica económica sã, evitando desperdícios que no fim de contas resultam sobretudo do funcionamento de custosos aparelhos burocráticos. É preciso ter em devida conta também a exigência moral de fazer com que a organização económica não obedeça somente às duras leis do lucro imediato, que se podem revelar desumanas.

Família, comunidade humana e lei moral

11. Uma família vive em paz, se todos os seus componentes se sujeitam a uma norma comum: é esta que impede o individualismo egoísta e que mantém unidos os indivíduos, favorecendo a sua coexistência harmoniosa e laboriosidade para o fim comum. Tal critério, em si óbvio, vale também para as comunidades mais amplas: desde as locais passando pelas nacionais, até à própria comunidade internacional. Para se gozar de paz, há necessidade duma lei comum que ajude a liberdade a ser verdadeiramente tal, e não um arbítrio cego, e que proteja o fraco da prepotência do mais forte. Na família dos povos, verificam-se muitos comportamentos arbitrários, seja dentro dos diversos Estados seja nas relações destes entre si. Além disso, não faltam situações em que o fraco tem de inclinar a cabeça não frente às exigências da justiça mas à força nua e crua de quem possui mais meios do que ele. É preciso repeti-lo: a força há-de ser sempre disciplinada pela lei, e isto mesmo deve acontecer também nas relações entre Estados soberanos.

12. Sobre a natureza e a função da lei, já muitas vezes se pronunciou a Igreja: a norma jurídica que regula as relações das pessoas entre si, disciplinando os comportamentos externos e prevendo também sanções para os transgressores, tem como critério a norma moral assente na natureza das coisas. A razão humana, por sua vez, é capaz de discerni-la, pelo menos nas suas exigências fundamentais, subindo assim até à Razão criadora de Deus que está na origem de todas as coisas. Esta norma moral deve regular as opções das consciências e guiar todos os comportamentos dos seres humanos. Existirão normas jurídicas para as relações entre as nações que formam a família humana? E, se existem, serão operativas? Eis a resposta: sim, as normas existem, mas para fazer com que sejam verdadeiramente operativas é preciso subir até à norma moral natural como base da norma jurídica; de contrário, esta fica à mercê de frágeis e provisórios consensos.

13. O conhecimento da norma moral natural não está vedado ao homem que entre em si mesmo e, tendo diante dos olhos o próprio destino, se interrogue sobre a lógica interna das mais profundas inclinações presentes no seu ser. Embora com perplexidades e incertezas, ele pode chegar a descobrir, pelo menos nas suas linhas essenciais, esta lei moral comum que, independentemente das diferenças culturais, permite aos seres humanos entenderem-se entre si quanto aos aspectos mais importantes do bem e do mal, do justo e do injusto. É imprescindível subir até esta lei fundamental, empenhando nesta pesquisa as nossas melhores energias intelectuais sem deixar-se desanimar por equívocos nem confusões. Com efeito, valores radicados na lei natural estão presentes, ainda que de forma fragmentária e nem sempre coerente, nos acordos internacionais, nas formas de autoridade universalmente reconhecidas, nos princípios do direito humanitário recebido nas legislações dos diversos Estados ou nos estatutos dos organismos internacionais. A humanidade não está « sem lei ». É urgente, porém, prosseguir o diálogo sobre estes temas, favorecendo a convergência das próprias legislações dos diversos Estados sobre o reconhecimento dos direitos humanos fundamentais. O crescimento da cultura jurídica no mundo depende, para além do mais, do esforço de tornar as normas internacionais sempre substanciosas de conteúdo profundamente humano, para evitar a sua redução a procedimentos facilmente contornáveis por motivos egoístas ou ideológicos.

Superação dos conflitos e desarmamento

14. A humanidade vive hoje, infelizmente, grandes divisões e fortes conflitos que lançam densas sombras sobre o seu futuro. Temos vastas áreas do planeta envolvidas em tensões crescentes, enquanto o perigo de se multiplicarem os países detentores de armas nucleares cria motivadas apreensões em toda a pessoa responsável. Há ainda muitas guerras civis no continente africano, embora também se tenham registado em vários dos seus países progressos na liberdade e na democracia. O Médio Oriente continua a ser teatro de conflitos e atentados, que não deixam de influenciar nações e regiões limítrofes com o risco de arrastá-las na espiral da violência. A nível mais geral, há que registar, com tristeza, um número maior de Estados envolvidos na corrida aos armamentos: temos até nações em vias de desenvolvimento que destinam uma quota importante do seu magro produto interno para a compra de armas. Neste funesto comércio, são muitas as responsabilidades: há os países do mundo industrialmente desenvolvido que arrecadam avultados lucros da venda de armas e temos as oligarquias reinantes em muitos países pobres que pretendem reforçar a sua posição com a aquisição de armas cada vez mais sofisticadas. Em tempos tão difíceis, é verdadeiramente necessária a mobilização de todas as pessoas de boa vontade para se encontrar acordos concretos que visem uma eficaz desmilitarização, sobretudo no campo das armas nucleares. Nesta fase em que o processo de não proliferação nuclear marca passo, sinto-me no dever de exortar as Autoridades a retomarem, com mais firme determinação, as conversações em ordem ao desmantelamento progressivo e concordado das armas nucleares existentes. Ao renovar este apelo, sei que dou voz a um desejo compartilhado por quantos têm a peito o futuro da humanidade.

15. Há sessenta anos, a Organização das Nações Unidas tornava pública, de maneira solene, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948-2008). Com tal documento, a família humana reagia aos horrores da II Guerra Mundial, reconhecendo a sua própria unidade assente na igual dignidade de todos os homens e pondo, no centro da convivência humana, o respeito pelos direitos fundamentais dos indivíduos e dos povos: tratou-se de um passo decisivo no árduo e empenhativo caminho da concórdia e da paz. Merece também menção especial a passagem do 25º aniversário da adopção pela Santa Sé da Carta dos Direitos da Família (1983-2008), bem como o 40º aniversário da celebração do primeiro Dia Mundial da Paz (1968-2008). Fruto duma providencial intuição do Papa Paulo VI, retomada com grande convicção pelo meu amado e venerado predecessor, Papa João Paulo II, a celebração deste Dia proporcionou ao longo dos anos a possibilidade de a Igreja desenvolver, através das Mensagens publicadas para tal circunstância, uma doutrina elucidativa em defesa deste bem humano fundamental. É precisamente à luz de tais significativas comemorações que convido todo o homem e toda a mulher a tomarem consciência mais lúcida da sua pertença comum à única família humana e a empenharem-se por que a convivência sobre a terra espelhe cada vez mais esta convicção da qual depende a instauração de uma paz verdadeira e duradoura. Em seguida, convido os crentes a implorarem de Deus, sem se cansar, o grande dom da paz. Os cristãos, por seu lado, sabem que podem confiar-se à intercessão d'Aquela que, sendo Mãe do Filho de Deus encarnado para a salvação da humanidade inteira, é Mãe comum.

A todos desejo um Ano Novo feliz!

Vaticano, 8 de Dezembro de 2007.

BENEDICTUS PP. XVI


(1) Decl. sobre a Igreja e as religiões não-cristãs Nostra ætate, 1.

(2) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 48.

(3) João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Christifideles laici, 40: AAS 81 (1989), 469.

(4) Ibid., 40: o.c., 469.

(5) Pont. Cons. «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 211.

(6) Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, 11.

(7) Art. 16/3.

(8) Pont. Cons. para a Família, Carta dos Direitos da Família (24 de Novembro de 1983), Preâmbulo/A.

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html

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terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (4)

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Nesta quarta parte é abordada a santidade de Nossa Senhora, totalmente pura e santa, e a sua persistência em ser cada vez mais santa. O autor faz ainda uma comparação com as outras mulheres do Antigo Testamento e nos sujere que a tenhamos como um modelo para que assim rejeitemos as vaidades e ambições mundanas para estarmos mais próximos de Deus.
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IV

Depois do Padre, Filho e Espírito Santo, segue-se a Filha do Padre, a Mãe do Filho, a Esposa do Espírito Santo, a Virgem Santíssima, a qual como a mais santa entre todas as mais puras criaturas nos dirá melhor que todas quão grande bem é sermos santos. No capítulo vinte e quatro do Eclesiástico nos refere a mesma Senhora como Deus, que a escolheu por morada, lhe deu a herança de tudo quanto tinha vinculado ao povo de Israel, que era o morgado do mesmo Deus: Tunc praecepit et dixit mihi creator omnium; et qui creavit me requievit in tabernaculo meo, ei dixit mihi: In Israel haereditare (7). E que vos parece que escolheria e tomaria para si a Virgem Maria de toda a universidade de bens naturais e sobrenaturais deste imenso morgado? Só tomou o que era santo, e nenhuma outra coisa. Do que não era santo, posto que fosse precioso e estimado, não quis nada, porque tudo é nada; do que era santo, tomou tudo, porque só o ser santo é tudo. Ouçamos a mesma Senhora, e ponderemos o que diz com a atenção que suas palavras merecem. Primeiramente, do que pertence ao lugar, diz que escolhe uma cidade santa e uma casa santa, para nela servir a Deus em sua presença, sem nenhum outro cuidado: In habitatione sancta coram ipso ministravi, et in civitate sanctificata similiter requievi (8). E quanto ao que pertencia à pessoa, sendo tantos e tão excelentes os dotes naturais que Deus desde seu princípio tinha repartido com as mulheres famosas daquela nação, de tudo isto nenhum caso fez a Senhora, tudo deixou, tudo desprezou, e só tomou e quis para si a santidade de todos os santos: In plenitudine sanctorum detentio mea (Eclo. 24, 16): Detive-me — diz — na enchente de todos os santos — porque tudo o que não é ser santo pode inchar, mas não pode encher — aqui me detive, aqui parei, aqui insisti e não passei, nem tive para onde passar daqui.

Oh! quem me dera ter neste auditório todas as senhoras do mundo, tão prendadas e tão presas, tão tidas e tão retidas das vaidades do mesmo mundo, para que vissem o de que só se haviam de deixar prender e deter, à imitação da maior Senhora e Rainha de todas! Tudo quanto a apreensão e fantasia feminil estima e preza, viu a benditíssima Virgem no grande teatro de Israel, de que Deus a fizera herdeira: In Israel haereditare. Viu a nobreza do sangue, antiga e ilustre em Sara, soberana e real em Micol, mas não a deteve o esplendor da nobreza, nem lhe moveu ou alterou os espíritos. Viu a formosura servida e adorada em Raquel, buscada e preferida em Abisai, mas não a deteve a formosura, nem julgou por digna de ser vista a que leva após si os olhos. Viu a fecundidade grande e invejada em Lia, maior e mais desvanecida em Fenena, mas não a deteve o apetite natural de ser mãe, nem desejou perpetuar-se em mais vidas. Viu a riqueza doméstica em Rebeca, e os tesouros reais em Sulamites, mas não a deteve cobiça ou ambição de riquezas, porque tinha o coração em outros tesouros. Viu as galas e afeitas de Jesabel, e todo o valor do Oriente engastado nas jóias de Ester, mas não a deteve a aparência vã dos aparatos do corpo, como a que só cuidava em ornar o espírito. Viu a que o mundo chama ventura nas bodas não esperadas de Rute, e nas muito mais venturosas de Séfora, mas não a deteve o especioso laço das bodas, antes lhe fizeram horror as delícias do tálamo. Viu as vitórias e triunfos de Débora, e os despojos e troféus da famosa Judite, mas não a deteve a fama com o ruído de seus aplausos, nem afetou vitórias e triunfos. Viu, finalmente, coroada Abigail, e assentada Bersabée em igual trono com Salomão, mas não a deteve a soberania daquelas alturas, porque era mais alto o seu ânimo que os tronos, e de maior esfera que as coroas.

Pois, Senhora, se todos estes bens da natureza e da fortuna, se todas estas grandezas e felicidades da vida, que os homens tanto estimam, tanto prezam e tanto invejam, nem divididas, nem juntas vos encheram os olhos, se por todas passastes pisando-as, e nenhuma vos pareceu digna, nem de vos deter um momento, nem de vos fazer parar um passo, que é o que vistes, que só vos agradou, que é o que vistes, que só vos deteve ou teve mão, para que ali parassem os passos do vosso desejo, para que dali não passassem os vossos afetos? Vi a humildade, diz a Senhora, vi o desprezo de si e do mundo, vi o recolhimento, vi o silêncio, vi a modéstia, vi a temperança, vi a paciência, vi a fortaleza, vi a mortificação das paixões e a resignação da própria vontade, vi o amor de Deus e a caridade do próximo, vi, enfim, toda a santidade, virtudes e graça de que estiveram cheios os santos, e nesta enchente de santidade é que só tomei pé, nesta parei, nesta me detive e nesta me desenho: Et in plenitudine sanctorum detentio mea. Isto é o que diz de si a Mãe de Deus. E porque este foi o seu juízo e a sua eleição, por isso foi Mãe de Deus, não só porque estimou o ser santa mais que todas as coisas, mas porque deixou e desprezou todas as coisas para ser mais santa.


Notas:
(7) Então o Criador de tudo deu-me os seus preceitos, e falou-me, e aquele que me criou descansou no meu tabernáculo, e disse-me: Possui a tua herança em Israel (Eclo. 24,12 s).

(8) Exerci diante dele o meu ministério na morada santa, e repousei na Cidade Santa (Eclo. 24, 14 s).

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (3)

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Nesta parte, o pe. António Vieira fala sobre a santidade do Filho e do Espírito Santo, além da missão do Cristo no mundo que passa por nos ensinar a ser santos e o Santo Espírito que é a Pessoa que santifica e faz santos.

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III

Por tão altos e tão admiráveis termos como estes nos ensinou Deus em comum quão grande coisa seja o ser santos, e o mesmo documento confirmou cada uma das três Pessoas divinas em particular, por exemplos não menos maravilhosos. — Sobre a Encarnação da Pessoa do Filho mandou o Eterno Padre por embaixador o anjo S. Gabriel, e o que lhe deu por instrução que dissesse de sua parte à Virgem Santíssima, foi que o Filho de Deus e seu, que de suas entranhas havia de nascer, seria santo: Ideoque, et quod nascetur ex te sanctum, vocabitur Filius Dei (4). De sorte que, tendo o Eterno Padre um Filho igual a si mesmo, e querendo que por segunda geração e segundo nascimento, sendo Deus, fosse também homem, o que lhe deu a ele, e o que prometeu à sua Mãe, foi que seria santo: Quod nascetur ex te sanctum. Notai o sanctum e o ex te: santo, e de vós. Não lhe deu riquezas, porque o fez Filho de uma Mãe muito pobre: ex te; não lhe deu honras, porque o fez Filho de uma Mãe muito humilde: ex te; não lhe deu mandos, nem dignidades, nem impérios temporais, porque, ainda que a Virgem era descendente de reis, todos esses cetros e coroas tinham já degenerado aos instrumentos mecânicos de um oficial, com quem era desposada: ex te. E, que lhe deu? Deu-lhe o ser santo: Quo nascetur ex te sanctum. Pois a seu Filho não lhe daria outra coisa um Pai onipotente? Os pais, tudo quanto têm e tudo quanto podem, dão a seus filhos, e mais, se são primogênitos e únicos, como Cristo era. Pois a um Filho primogênito, a um Filho único, um Pai todo-poderoso, um Pai Deus e Senhor de tudo, não lhe dá outra coisa mais que o ser santo? Não, e por isso mesmo. Ao Filho primogênito e único do Eterno Padre competia-lhe a herança de todos os bens de seu pai; e todos os bens que Deus tem, e todos os que pode dar, é fazer a um homem santo e mais santo, porque tudo o mais, ou não é nada, ou, para ser alguma coisa, há de ser também santificado e santo. Enquanto Filho, herdeiro de sua Mãe, pertenciam-lhe ao mesmo Cristo o cetro de Davi e a casa de Jacó, que também Deus lhe mandou prometer: Dabit illi sedem David patris ejus, et regnabit in domo Jacob (5); mas essa mesma casa e esse mesmo cetro deu-lhe Deus a seu Filho por tal modo que, de temporal que era, o converteu em espiritual, para que tudo nele fosse só santidade, e ele, por todos os modos, mais e mais santo.

Vede como dizem o que digo, os que viram o mesmo Unigênito do Padre: Vidimus gloriam ejus, gloriam quasi unigeniti a Patre, plenum gratiae et veritatis (6): Vimos — diz S. João — a sua glória, a sua majestade, a sua grandeza, e bem mostrava que era glória, que era majestade, que era grandeza de Filho Unigênito do Eterno Padre. — E em que consistia essa glória, essa majestade e essa grandeza? Plenum gratiae et veritatis: em ser cheio de graça e de verdade. — A graça é a santidade formal, ou a forma santificante, que faz e denomina santos; e nesta graça, nesta santidade, neste ser santo consistia toda a glória, toda a grandeza e toda a majestade do único herdeiro do Padre. E se perguntardes ao evangelista a razão de serem só estes os bens que contém a herança de um Pai todo-poderoso e Senhor de tudo, o mesmo evangelista tem já dado a razão nas mesmas palavras: Plenum gratiae et veritatis: cheio de graça e de verdade. Porque tudo o que não é graça de Deus e santidade, é mentira. As riquezas mentira, as honras mentira, os mandos mentira: só o estar em graça de Deus é verdade, só o viver em graça de Deus é verdade, só o morrer em graça de Deus, em que consiste o ser santo, é verdade: Plenum gratiae et veritatis. Isto deu o Eterno Padre a seu Filho, para que vós aprendais a saber o que haveis de procurar aos vossos. Procurai-lhes que sejam santos, e esta é a maior riqueza, a maior honra, a maior felicidade que lhes podeis alcançar, e os maiores e só verdadeiros bens de que os podeis deixar por herdeiros.

Vamos à Pessoa do Filho. A Pessoa do Filho é a Sabedoria de Deus. Fez-se homem a Sabedoria Divina, veio ao mundo para ensinar aos homens, e que lhes ensinou? Nenhuma outra coisa, senão a ser santos. Naquela escada de Jacó, como todos sabeis, representou-se em visão e profecia a Encarnação do Verbo Encarnado. No alto da escada estava Deus inclinado sobre ela, porque uma das Pessoas divinas havia de descer ao mundo; ao pé da escada estava Jacó, que era o homem, ou o gênero humano, porque o modo com que Deus havia de descer era encarnando e fazendo-se homem; e a escada chegava da terra ao céu, porque o fim do mistério da Encarnação, e o fim por que Deus desceu do céu à terra, foi para ensinar e mostrar ao homem como havia de subir da terra ao céu. E para esta subida tão notável e tão nova, que até então estava ignorada, que é o que ensinou o Deus que desceu e encarnou, que é o que ensinou o Verbo e a Sabedoria divina a Jacó, ou ao homem, que nele se representava? O mesmo Verbo o diz no capítulo décimo da mesma Sabedoria, falando do mesmo Jacó: Ostendit illi regnum Dei, et dedit illi scientiam sanctorum (Sab. 10,10): Mostrou-lhe o céu e o reino de Deus, e ensinou-lhe a ciência de ser santo. — De sorte que, vindo a Sabedoria divina em pessoa, e descendo do céu à terra a ser Mestre dos homens, a nova cadeira que instituiu nesta grande universidade do mundo, a ciência que professou, foi só ensinar a ser santos, e nenhuma outra. A Retórica deixou-a aos Túlios e aos Demóstenes: a Filosofia aos Platões e aos Aristóteles; as Matemáticas aos Tolomeus e aos Euclides; a Medicina aos Apolos e aos Esculápios; a Jurisprudência aos Solões e aos Licurgos: e para si tomou só a ciência de ensinar a salvar e fazer santos: Regnum Dei, et scientiam sanctorum.

Em todas as ciências, é certo que há muitos erros, dos quais nasce a diferença das opiniões; em todas as ciências há muitas ignorâncias, as quais confessam todos os maiores letrados que não compreendem nem alcançam. Pois, se vinha a Sabedoria de Deus ao mundo, por que não alumiou estes erros, por que não tirou estas ignorâncias? Porque errar ou acertar em todas estas matérias, sabê-las ou não as saber, nenhuma coisa importa: o que só importa é saber salvar, o que só importa é acertar a ser santos, e isto é o que só nos veio ensinar o Filho de Deus. Nem ensinou aos filósofos a composição do contínuo, nem aos geômetras a quadratura do círculo, nem aos mercantes a altura de Leste a Oeste, nem aos químicos o descobrimento da pedra filosofal, nem aos médicos as virtudes das ervas, das plantas, das pedras e dos mesmos elementos, nem aos astrólogos e astrônomos o curso, a grandeza, o número, as influências dos astros: só nos ensinou a ser humildes, só nos ensinou a ser castos, só nos ensinou a desprezar as riquezas, só nos ensinou a perdoar as injúrias, só nos ensinou a sofrer as perseguições, só nos ensinou a chorar e aborrecer os pecados, e a amar e exercitar as virtudes, porque estas são as regras e as conclusões, estes os preceitos e os teoremas por onde se aprende a ser santos, que é a ciência que professou e veio ensinar a Pessoa do Filho de Deus: Scientiam sanctorum.

A Pessoa do Espírito Santo com o seu próprio nome nos prova e confirma o mesmo. O Padre também é espírito, e também é santo. Pois, por que se chama só a terceira Pessoa Espírito Santo? A razão é — dizem todos os teólogos — porque ao Espírito Santo compete o ofício de santificar e de fazer santos. Todas as obras de Deus, que chamam ad extra, isto é, que saem de Deus e se terminam às criaturas, são indivisamente de toda a Santíssima Trindade, na qual o poder e o obrar não só é igual, senão um só e o mesmo. Mas por certa propriedade, fundada na natureza ou origem das mesmas pessoas, umas obras se atribuem a umas pessoas, e outras a outras. E porque à terceira Pessoa se atribui particularmente o santificar e fazer santos, por isso se chama Santo.

E para que vejais quão grande significação é na mesma Pessoa do Espírito o nome de Santo e o atributo ou atribuição de santificar, notai o muito que com ela se supre, e a grande carência ou vazio que com ela se enche. O nome ou antonomásia de Santo, e o ofício de santificar e fazer santos não lhe pudera competir ao Pai, que é a fonte original e irascível da santidade? Não lhe pudera competir ao Filho, que foi o que, encarnando, nos mereceu essa mesma santidade? Sim. Pois por que se deu ao Espírito Santo? Disse com alto pensamento Ruperto, que para suprir a infecundidade da terceira Pessoa. A divindade no Padre é fecunda, no Filho é fecunda, no Espírito Santo não é fecunda. No Padre é fecunda, porque gera o Filho; no Filho é fecunda, porque, juntamente com o Padre, produz o Espírito Santo; no Espírito Santo só não é fecunda, porque não produz outra Pessoa divina. Pois, que meio podia haver para suprir na terceira Pessoa esta infecundidade? O meio foi cederem nela as outras Pessoas divinas a virtude ou atribuição de santificar e fazer santos e o título e antonomásia de se chamar Santo. A terceira Pessoa não pode gerar nem produzir pessoa que seja Deus? Pois faça santos. A terceira Pessoa não se pode chamar Pai nem se pode chamar Filho? Pois chame-se Santo. Tão grande, tão alta, tão sublime, tão divina coisa é ser Santo, e com tão maravilhosos documentos nos ensinaram esta verdade em si mesmas as três Pessoas divinas.

Notas:
(4) Por isso mesmo o santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus (Lc. 1,35).

(5) Dar-lhe-á o trono de seu pai Davi, e reinará eternamente na casa de seu pai Jacó (Lc. 1,32).

(6) Nós vimos a sua glória, glória como de Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo. 1, 14).

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